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O acesso ao mercado de trabalho pode abrir caminhos para a autonomia financeira e a mobilidade social.
Mas, para jovens de baixa renda e em situação de vulnerabilidade, chegar a essas oportunidades significa enfrentar barreiras que vão muito além da questão de experiência.
Leonardo Medeiros transformou uma jornada de dez anos atuando no terceiro setor em uma solução com foco nesse desafio. O Instituto Realiza.vc, do qual é fundador e presidente, conecta jovens atendidos por ONGs e projetos sociais a empresas que valorizam a diversidade e o impacto, por meio de políticas públicas de empregabilidade, como o programa Jovem Aprendiz.
Em quase três anos de operação, a iniciativa já inseriu no mercado de trabalho mais de 2 mil jovens e chegou a 100 mil reais de receita anual em 2025.
Nascido em Santíssimo, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, entre Bangu e Campo Grande, Leonardo conta que foi bolsista no ensino médio em uma escola técnica, onde entrou em contato com o terceiro setor por meio de uma parceria do colégio com a ONG Junior Achievement (JA Brasil).
“No segundo ano do colégio, participei de um projeto deles de três meses chamado Miniempresa, em que aprendi na prática noções de produção, marketing, empreendedorismo. Fui premiado e, por meio desse projeto, fiz minha primeira viagem de avião para receber o prêmio em Brasília”
Essa experiência mudou a sua relação com a educação e com o trabalho social. A partir daí, Leonardo se envolveu cada vez mais com a organização, chegando a trabalhar nela de 2016 a 2021, período em que participou da consolidação da ONG, que estava se profissionalizando.
De lá, ele saiu para trabalhar em outras iniciativas como a Rede Asta, FazGame e a Labora (todas já retratadas no Draft) até chegar ao Atados (também pautado aqui), onde atuou por dois anos como gerente de produtos, cuidando da plataforma de voluntariado.
Foi nesse ambiente que amadureceu a ideia de criar um modelo semelhante ao do Atados, mas voltado à empregabilidade de jovens que, assim como ele, vinham de trajetórias periféricas e de programas socioeducativos.
Com o apoio do Atados e de outras iniciativas e pessoas que acompanharam sua história desde os 15 anos de idade e entraram como conselheiros, Leonardo estruturou o plano da ONG e seu estatuto, formalizando o Instituto Realiza.vc em novembro de 2023.
“A ONG nasceu com foco em um novo modelo de aprendizagem profissional para oportunizar jovens como eu, que vieram de ONGs”
Para facilitar esse processo, o empreendedor social desenvolveu a Jornada da Autonomia, metodologia baseada em três passos – reconhecer, encaminhar e capacitar – para fazer com que empresas e políticas públicas trabalhem juntas a favor desses jovens.
O primeiro consiste em dar visibilidade a esses jovens por meio de uma plataforma gratuita que funciona como um banco de talentos, em que as ONGs parceiras, como Instituto Coca-Cola Brasil, PROA e o próprio JA Brasil, cadastram alunos e ex-alunos de seus programas extracurriculares e depois podem acompanhar sua evolução.
Na etapa seguinte, o Realiza faz a ponte desses jovens com políticas públicas, como o programa Jovem Aprendiz, modalidade que combina formação teórica e prática profissional e permite que empresas contratem jovens de acordo com a Lei da Aprendizagem – e achem esses talentos na plataforma ou mesmo anunciem vagas lá.
Como entidade formadora habilitada pelo Ministério do Trabalho, com sede em Pinheiros, na cidade de São Paulo, o Realiza.vc organiza a formação dos aprendizes em Administração e Desenvolvimento de Sistemas, que é presencial com duração de 16 meses. É justamente essa formação que financia, junto às empresas, a estrutura do instituto, garantindo que a plataforma seja gratuita para jovens, ONGs e companhias.
Mas o Realiza atua em rede e, portanto, também estabelece parcerias com ONGs que já atuam em territórios populares e formam jovens. Por meio dessa parceria, podem se tornar pólos de aprendizagem vinculados ao Realiza.vc, o que garante a elas uma fonte de financiamento. Ainda nesta parte educacional, a iniciativa conecta os jovens à lei da filantropia, em que universidades precisam destinar bolsas para pessoas com renda familiar de até 1,5 salário mínimo per capita.
Após essa fase, para evitar que inclusão profissional desses jovens não termine na primeira oportunidade, o instituto promove outras ações, como mentorias, estágios e programas de primeiro emprego.
Leonardo descreve os jovens que estão na plataforma do Realiza com “pontos fora da curva”:
“Eles têm um perfil mais idealista, de ajudar a família, são mais conscientes socialmente, politizados e fazem muito além do que ir para a escola. O problema é que eles chegam mais tarde nas empresas”
Outra questão é a baixa autoestima, que muitas vezes acaba fazendo com que os jovens desistam de um programa ou formação no meio do caminho. “É difícil mesmo essa jornada e o Realiza se propõe a fazer um trabalho de entender as escolhas que esses jovens tiveram que fazer para não sair desse caminho.”
Uma das formas do Realiza de valorizar e traduzir a jornada desse público é incentivar que eles adicionem, como parte do seu cadastro na plataforma, vídeos, vivências, poesia e outros insumos que traduzam a grandeza de suas trajetórias.
No entanto, há ainda outra barreira: fazer o RH das empresas enxergar essas contratações de forma estratégica. Ou seja, não apenas como uma ação de responsabilidade social, mas de negócio.
“A gente busca mostrar que para quem tem um negócio, oportunizar esse perfil é um investimento. Esse jovem, que começa como aprendiz, vai se tornar um funcionário, um colaborador, um parceiro.”
Dentro dessa transformação de visão dos RHs, Leonardo critica a escolha de jovens universitários para ocuparem vagas do Jovem Aprendiz.
“Não é errado, mas incoerente”, afirma. A crítica leva em conta o risco de as empresas deixarem de cumprir o papel de inclusão social da política de aprendizagem ao priorizar candidatos que já tiveram mais oportunidades.
Leonardo compartilha casos do Realiza que comprovam a eficiência da iniciativa, como o de Mohammad Amin, um jovem refugiado afegão que chegou a viver acampado durante um tempo no aeroporto de Guarulhos, na Grande São Paulo, enquanto aguardava assistência.
“O Amin entrou na plataforma, fez um programa de acompanhamento pedagógico apoiado pela VLI Logística, uma das empresas parceiras. Hoje, ele está fazendo o curso de engenharia de software e foi efetivado como assistente administrativo”
Outro exemplo é o da Lucimara Soares, ex-aluna do CAMP Mangueira, no Rio, que conseguiu uma bolsa para o curso de Banco de Dados no Centro Universitário Celso Lisboa e, depois, conquistou uma vaga na Vale.
Ao longo desses anos trabalhando com impacto, Leonardo se deu conta de que atuar no terceiro setor é um grande desafio, mas também motivo de orgulho:
“Montar uma empresa no Brasil é difícil para caramba, independente se você é classe alta ou baixa. Mas fundar uma ONG é muito mais difícil, um trabalho de vocação. Aprendi a honrar os ritos e processos do terceiro setor, ter mais paciência — porque trabalho social leva tempo — e celebrar as pequenas conquistas”
Entre as conquistas recentes, ele diz que o Realiza ganhou um edital via Lei Rouanet, ainda em fase de captação, que servirá para financiar um festival de economia criativa para jovens de ONGs em 2027. “Nesse evento, eles vão desenvolver projetos e terão acesso a conteúdos sobre esse tema.” Outro plano para o ano que vem é a abertura de um pólo de formação do Realiza no Rio de Janeiro.
Mais do que metas, Leonardo compartilha seu sonho: “Ver a integração entre as áreas de RH e a de responsabilidade social das empresas nesse tema do jovem aprendiz. Quando o sistema valorizar essa pauta, teremos feito nosso trabalho”.
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