A Faber-Castell Brasil encara o desafio de pensar “fora da caixa” dentro de uma empresa bicentenária

Luisa Migueres - 16 jan 2020
Fábio Carvalho, gerente de Inovação da Faber-Castell Brasil, palestrando no FIRE Festival, em setembro de 2019, em Belo Horizonte.
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Abaixo dos dois cavaleiros medievais, no logotipo da Faber-Castell, o peso da história e da tradição está na data de sua origem: “Desde 1761”.

A empresa alemã é a maior produtora de lápis de cor do mundo, e a operação no Brasil responde por mais de um terço do faturamento global (que foi de 667 milhões de euros no ano fiscal de 2016 e 2017, o último período divulgado pela empresa). Porém, enquanto novos produtos são lançados a cada ano, um pequeno grupo de pessoas está pensando em formas de levar o nome da Faber a outros territórios.

Fábio Carvalho tem 21 anos “de casa”. Os nomes, aliás, quase se confundem: Fábio e Faber. Depois de uma trajetória trabalhando no desenvolvimento de produtos físicos, ele ocupa, há cinco anos, o cargo de gerente de Novos Negócios.

Baseada na sede da empresa (no bairro de Vila Olímpia, em São Paulo), sua equipe tem apenas seis integrantes, entre engenheiros de produto e designers. Um time enxuto, mas que preza pela agilidade e por uma mentalidade de experimentação – termos que poderiam gerar resistência numa companhia fundada no século 18.

EM CINCO ANOS, TRÊS CONCEITOS DE NEGÓCIO SAÍRAM DO PAPEL

Nesses cinco anos, uma dúzia de conceitos de negócios foi testada pelo time de Fábio. Três viraram realidade: uma plataforma de cursos de desenho online; um clube de assinatura para crianças entre 7 e 10 anos (batizado de Fora da Caixola); e o Espaço de Criatividade.

Cada negócio tem a sua forma de gerar receita, mas todos partem da mesma intenção: potencializar a criatividade de crianças e adultos. Segundo Fábio:

“A gente encontrou um território onde você tem a criatividade decaindo de um lado, porque as crianças crescem e chegam ao mercado de trabalho, mas por outro lado o mercado demanda profissionais criativos”

Os cursos de desenho online são vendidos individualmente ou por pacotes temáticos em uma plataforma própria, a partir de 35 reais. Já no Fora da Caixola, o assinante recebe em casa, todo mês, uma caixa com um kit de materiais lúdicos e um livro com um desafio. A assinatura mensal sai por R$ 69,90.

O lance mais “fora da curva” para a Faber é o Espaço de Criatividade, um laboratório maker de 800 metros quadrados instalado no Shopping Market Place, na Zona Sul de São Paulo.

Equipado com impressora 3D, cortadora a laser e uma fatura de lápis (avulsos, escolares, além da linha artística e semi-profissional da Faber), o local alia atividades lúdicas e metodologias de inovação. “Trabalhamos com storytelling, ferramentas digitais, Design Thinking“, diz Fábio.

COMO IMPACTAR ESCOLAS, EMPRESAS E FAMÍLIAS – TUDO AO MESMO TEMPO

Espaço de Criatividade no Shopping Market Place, em São Paulo: 800 m², impressora 3D, cortadora a laser – e muitos lápis.

As experiências transcorridas no Espaço de Criatividade, diz Fábio, não são determinadas pela idade dos participantes. E passam, sempre, pelas mesmas etapas: eleger por um problema, encontrar uma oportunidade, usar instrumentos de soluções e concretizar tudo numa prototipação física.

As oficinas — para famílias, escolas e empresas — custam entre 60 reais e 159 reais, e são agendadas pelo site. As infantis têm foco na criação de bonecos, robôs e projetos criativos com cunho educacional. O workshop para adultos propõe a exploração de problemas de consumidores reais, misturando ferramentas como Jobs To Be Done e Value Proposition Canvas.

“A premissa do Espaço de Criatividade era trabalhar com crianças, mas tive uma grata surpresa de entender que posso trabalhar com [o público] corporativo de forma muito eficaz. No fundo, essas metodologias só encapsularam um tipo de conhecimento que as crianças já praticam e que a gente esquece ao longo da vida”

Considerado um MVP, o Espaço de Criatividade já atendeu 26 empresas no formato de programa taylor-made, totalizando quase 2 mil pessoas capacitadas em workshops.

PARA LEVAR O PROJETO À FRENTE, FÁBIO PRECISOU CONVENCER A MATRIZ

Para emplacar três projetos em cinco anos, a equipe de Novos Negócios teve de gastar saliva no convencimento dos executivos mais desconfiados.

Afinal, por que uma gigante de quase 260 anos precisaria de uma startup interna para explorar conceitos que talvez nunca fossem para frente? Não foi por necessidade financeira, garante Fábio:

“A Faber do Brasil, ano após ano, bateu recordes de lucro líquido. Foi pela visão do nosso presidente, um cara brilhante que entendeu que a marca Faber é muito maior do que os negócios atuais”

Esse “cara brilhante” é Marcelo Tabacchi, diretor-presidente da Faber-Castell Brasil, e responsável por dar o sinal verde para Fábio se munir de tudo o que fosse preciso para formatar uma proposta e levar um pitch arrasador para alta liderança da companhia — leia-se, a própria Condessa Mary von Faber-Castell, viúva do Conde Anton-Wolfgang (que dirigiu a empresa por quase 40 anos até falecer em 2016).

“O Brasil é um país que tem muita reputação e musculatura financeira na Faber, mas precisávamos da matriz olhando e dando apoio, para depois multiplicar isso”, diz Fábio.

SENSIBILIZAR O DIRETOR DA ÁREA DE FINANÇAS FOI FUNDAMENTAL

Convencer a condessa foi menos difícil do que superar os entraves internos de uma estrutura de quase 300 anos.

“As áreas corporativas estão cuidando do dia a dia, da folha de pagamento, dos negócios que são a vaca leiteira da empresa — e está certa essa visão. Tivemos muito apoio. Mas é claro que, quando entra no dia a dia, a gente começa a trombar…”

Para o Fora da Caixola, explica Fábio, foi preciso contratar uma plataforma de venda, ter fornecedores, uma equipe de produção de conteúdo, um gateway de pagamento… Nesse contexto, um obstáculo eram os fluxos demorados. Um processo interno de compra, por exemplo, normalmente levaria 60 dias — uma eternidade.

“Às vezes preciso testar amanhã algum conceito, então não temos esse tempo. Por isso exploramos as flexibilizações, dentro dos processos de compliance. Criamos regras para ter mais agilidade e flexibilidade.”

Com novos caminhos abertos, o próximo passo era conseguir a verba para fazer a “mágica” acontecer. Sensibilizar o diretor da área de finanças foi fundamental.

“A premissa da área de Novos Negócios é grana, não é branding. A expectativa é que a gente se consolide como um dos pilares do faturamento da empresa nos próximos anos. Então tem que ser escalável, e ele [o diretor financeiro] entendeu que a gente precisava de um play money para apostar”.

UM PESQUISADOR DO MIT MEDIA LAB AJUDOU A ESTRUTURAR O PROJETO

Contornar a burocracia interna e as restrições orçamentárias foram um desafio para o time, que ainda precisava empacotar as metodologias de inovação em novos negócios e preparar a infraestrutura da empresa para que tudo saísse bem. O segredo para agilizar as engrenagens, diz Fábio, foi firmar parcerias.

Para definir a metodologia usada no Espaço de Criatividade, a Faber acionou Leo Burd, pesquisador brasileiro do MIT Media Lab (laboratório do Massachusetts Institute of Technology focado em computação, artes e aprendizagem criativa).

Leo ajudou a equipe no desenvolvimento de experiências que pudessem ser oferecidas no Espaço. Fundador da Rede de Aprendizagem Criativa, o pesquisador do MIT trouxe sua expertise em abordagens educacionais colaborativas, com uma pegada de exploração “mão na massa”. Nas palavras de Fábio:

“Assim a gente consegue fazer coisas com estrutura menor e depois escalar. Para esse tipo de negócio dar certo, não dá para fazer sozinho”

Outra aliança foi com as escolas paulistanas Dante Alighieri e Mackenzie, que desde 2018 realizam um piloto do Espaço de Criatividade em sala de aula, com instrumentos fornecidos pela Faber.

Até março, a área de Novos Negócios deve avaliar a expansão do projeto para outras cidades, analisando aspectos como o faturamento, ticket médio e NPS (Net Promotion Score) para entender como o modelo pode ser melhorado.

O TIME ENXUTO QUER CRESCER E SE TORNAR UM PILAR DA COMPANHIA

No escopo de inovação de produto, a empresa lançou recentemente a linha de lápis, canetinha, giz, guache e massinha Caras&Cores, que traz seis cores diferentes, visando a representatividade de diferentes tons de pele.

“A partir dos lápis de cor, nos questionamos como poderíamos representar as pessoas, ampliando nosso portfólio de forma a contribuir para mais atividades pedagógicas”, diz o CEO Marcelo Tabacchi.

Há também um programa de reciclagem de instrumentos de escrita usados, que proporciona o descarte correto destes resíduos e a oportunidade de arrecadar dinheiro aos participantes. A iniciativa é resultado de uma parceria com a TerraCycle, empresa de soluções para resíduos de difícil reciclabilidade.

No entanto, a proposta da área de Novos Negócios é romper com a noção de que a Faber-Castell só se concentra em produtos físicos. Segundo Fábio:

“Em outras empresas, essa área seria sufocada pela grande estrutura corporativa. O nosso presidente diz que aqui a gente só permite o erro inédito, de tentar o novo, de ser inovador. Não o erro por negligência, por falta de cuidado ou de gestão. Por isso temos essa abertura para testar coisas novas”

Com esse objetivo no horizonte, o gerente de Novos Negócios afirma contar com o apoio e o orçamento necessários para traçar, com muitas cores, os próximos capítulos da Faber-Castell no Brasil.

 

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