O que a Raízen aprendeu em três anos no “Vale do Silício da agricultura”

Bruno Leuzinger - 20 ago 2020
Pedro Noce, gerente de inovação digital da Raízen.
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Se o agronegócio desfruta há tempos do título de motor da economia do país, a cidade de Piracicaba, no interior paulista, festeja a fama de “Vale do Silício” da agricultura brasileira.

Ali, em torno da Esalq, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (que tem sua própria incubadora, a Esalqtec), criou-se um ecossistema pujante de empresas conhecido como AgTech Valley.

É lá, em Piracicaba, a 160 quilômetros da capital paulista, que a Raízen — fabricante de açúcar e etanol e distribuidora de combustíveis (para clientes B2B e, no varejo, pela rede de postos Shell) — plantou há três anos o seu hub de inovação, o Pulse.

“O agro está na base da pirâmide da empresa, então foi natural começarmos com esse foco em soluções tech para o campo”, diz Pedro Noce, gerente de inovação digital da Raízen, que nasceu como joint-venture da Shell e da Cosan. 

Em três anos, o Pulse contabiliza 38 startups associadas, 54 projetos-piloto, 15 contratos de fornecimento firmados e dois hackathons (o terceiro tem inscrições abertas) que engajaram o desenvolvimento de soluções digitais para a Shell.

OTIMIZANDO A QUEIMA DA CANA COM USO DE INTERNET DAS COISAS

Em vez de se concentrar na busca por soluções disruptivas, diz Pedro, um fator de sucesso do Pulse tem sido favorecer a inovação incremental de olho em startups que resolvem algumas das principais dores da companhia.

Uma dessas startups é a Aimirim, que aplica internet das coisas e inteligência artificial para otimizar processos industriais em tempo real. A solução é usada hoje em seis usinas no controle da queima da cana-de-açúcar.

“A eficiência da solução reduz os custos operacionais e impacta os ganhos financeiros da Raízen, já que há um melhor uso da biomassa para geração de vapor em caldeira e melhor cogeração de energia, o que está atrelado a compromissos da empresa com as distribuidoras de energia elétrica”

Segundo a Raízen, a economia operacional supera 1 milhão de reais por safra. A solução agora deve ser expandida para outras usinas, abarcando todo o processo industrial.

Outro exemplo é a Perfect Flight, plataforma para análise de pulverizações aéreas.

A empresa começou a operar com a Raízen em 2018, aplicando insumos em 22 mil hectares de cana; hoje, são 417 mil hectares (e quase 89% de média de acerto).

“Ao otimizar a aplicação em uma área tão grande, você promove uma economia em escala: redução de insumo, tempo de voo, combustível…”

A INOVAÇÃO E A NATUREZA PODEM TER CICLOS DE TEMPO DISTINTOS

Quanto tempo dura uma jornada de inovação? Obviamente não dá para levar 100% “ao pé da letra”, mas Pedro diz que, no caso do Pulse, o “número mágico” é: 40 dias. 

Esse prazo é mais uma uma referência para que o projeto não seja nem corrido demais, nem se prolongue em excesso. 

“A gente tenta levar o mindset ágil, de MVP, teste rápido, para fugir daquele ‘grande projeto” em que só lá final vamos saber se estamos no caminho certo”, diz Pedro. “Tem que ser o mais curto possível dentro do ciclo em que aquela prova de conceito está inserida”. 

A natureza, porém, tem seus próprios ciclos e não liga para o tempo ideal das metodologias ágeis

“O grande objetivo do Pulse é testar soluções dessas startups em campo — literalmente. Numa jornada de inovação com o agro, você vai depender de safra, do momento da plantação… Não adianta testar, agora, uma solução de plantio se nós estivermos bem no meio da safra…”

Esse foco no agro, aliás, impacta não apenas o “quando”, mas também o “onde”. Daí, enfatiza Pedro, a relevância do hub estar em Piracicaba, inserido não apenas no AgTech Valley mas também próximo às fazendas de teste da Raízen.

“Além disso, os empreendedores também têm acesso ao centro administrativo, incluindo o time agronômico da empresa, viabilizando reuniões.”

NADA DE SOLUÇÃO PRONTA: DAR UM PASSO ATRÁS E ENTENDER AS DORES

A equipe do Pulse em si é “extremamente enxuta”, umas seis pessoas. “O sentido do Pulse não é ser o ‘dono da inovação’ na Raízen. Somos o gatilho para esses projetos acontecerem e levarmos essa cultura a todas as áreas da empresa.”

O modelo inclui a figura do “innovation partner”, executivos da companhia que atuam como parceiros da inovação.

“Quando uma indústria vai implantar uma solução levada por nós, o Pulse mostra a metodologia, os processos de teste… Mas quem executa, valida e acompanha são os especialistas das áreas de negócios. Eu não vou montar uma ‘mini Raízen’ dentro do Pulse com especialistas de cada área…” 

O trabalho conjunto se dá não apenas no desenvolvimento das soluções, mas no entendimento do problema. Áreas de negócio, diz Pedro, às vezes batem na porta de hubs e consultorias já com uma ideia “pronta” na cabeça (“eu quero isso, assim, dessa forma…”), que pode não corresponder de fato à sua dor.

“A gente sempre dá um passo atrás e faz um exercício de cocriação, que pode ser um design thinking, design sprint…, para ter um mapeamento exato do problema — e do tamanho da oportunidade”, diz. 

Só depois, já com esse mapeamento, o Pulse põe em marcha uma metodologia de screening, matchmaking, agendamento de pitchday, demoday, para filtrar as soluções e executar um piloto (pago) com a startup.

FACILITANDO A APLICAÇÃO DE BIOLARVICIDA COM DRONE NACIONAL

Pedro conta o caso de duas startups do hub, a Agribela, que produz agentes biológicos contra larvas, e a Arpac, cujo core business são drones com tecnologia embarcada de inteligência artificial e monitoramento por câmera (para mapear produtividade na plantação, por exemplo).

As biocápsulas da Agribela eram aplicadas nos canaviais com uso de drones importados, adquiridos pela startup. Isso até o Pulse conectar as duas pontas:

“Eram drones supertecnológicos, com custo de manutenção alto. Imagine aquilo na caçamba da caminhonete, pegando poeira na estrada…? A aplicação então passou a ser feita com esse drone nacional, com peças de manutenção mais simples. Bem mais robusto e adaptado ao mercado agrícola”

Em vez de fibra de vidro, o drone da Arpac é feito de alumínio. “Você perde um pouco em autonomia no voo, porque é um drone mais pesado… Mas ganha na manutenção, monta e desmonta o drone inteiro com uma única chave”, diz Pedro. 

Para a Raízen, portanto, era mais eficiente mesclar essas duas soluções, usando os drones da Arpac para aplicar as biocápsulas da Agribela. “E essa interação com as startups só surgiu por causa do hub”.

INCORPORAR STARTUPS DE FORA DO AGRO AJUDOU NA VIRADA-DE-CHAVE

Nem toda empresa do Pulse faz questão de um “teto” em Piracicaba. Isso é verdade sobretudo para aquelas startups que não são do agro — e que o hub também começou a incorporar em seu ecossistema.

“A Raízen não se limita ao agro”, diz Pedro. “Como a gente gosta de dizer, somos uma empresa ‘do campo ao posto’, passando por toda a cadeia, logística, pessoas, jurídico…”

Mesmo antes da pandemia, empresas como a Jobecam, de recrutamento às cegas (contamos a história dela aqui no Draft, em junho), já não viam muito sentido em usar o espaço físico do Pulse. A entrega de valor, no caso, é baseada nos eventos e oportunidades de negócios e conexões geradas pelo relacionamento com a Raízen.

Pedro explica que abrir-se para além do universo agro ajudou, de certa forma, o Pulse a se preparar para o desafio da Covid-19: 

Já vínhamos nesse movimento de convidar startups de outros setores para fazer pilotos com a Raízen. E naquele momento, fizemos um ajuste de rota no hub: tudo que a gente oferecia no presencial, passamos a oferecer no virtual também. Isso facilitou muito a nossa virada-de-chave na pandemia”

A agenda — hoje 100% online — de meet-ups e eventos ajuda a entregar valor e sentido para as startups, sejam elas do agro ou não.

“Há cerca de um mês, reunimos [virtualmente] o head de vendas de cada startup e trouxemos o presidente do Google Cloud para discutir como converter sua força de vendas para o online”, diz Pedro. “Como empresa grande, a gente consegue promover esses encontros com uma facilidade muito maior.”

AS INICIATIVAS JÁ DERAM RETORNO “CINCO VEZES O VALOR INVESTIDO”

Referindo-se à versão original, californiana, Pedro pergunta: por que o Vale do Silício é aquela potência? Ele mesmo responde. “Porque tem um ‘conglomerado’ de empresas e instituições de tamanhos distintos e com um espírito de colaboração muito amplo.” 

O Pulse trabalha para fomentar esse espírito; entre iniciativas com parceiros, ele cita o Agro IoT Lab, que acelera soluções de Internet das Coisas no campo:

“Se formos falar das principais oportunidades no agro, a comunicação está em dez entre dez relatórios. Quando você junta empresas como Vivo, Ericsson, CNH Industrial e Raízen, você tem diferentes insumos para atacar o problema.”

Com cifras superlativas — 30 mil colaboradores, 2 bilhões de litros de etanol produzidos por ano… –, a empresa não divulga o montante injetado no Pulse (mas afirma que “as iniciativas já geraram resultados próximos a cinco vezes o valor investido”). 

“Temos soluções ainda em maturação para logística e distribuição, oportunidades na aplicação de inteligência artificial no jurídico… No agro, muito potencial a expandir em satélite, processamento de imagens, digitalização de processos agrícolas. São áreas que ainda têm muito a ser impactado pelo uso mais intenso de tecnologia.”

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