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“A maioria das plataformas de bem-estar corporativo hoje opera com um modelo de vigilância travestida de cuidado”

Bruno Leuzinger - 18 fev 2026 Natasha Ruel e Rafael Cavalcante, o casal à frente do Ecoa.me.
Natasha Ruel e Rafael Cavalcante, o casal à frente da Ecoa-me.
Bruno Leuzinger - 18 fev 2026
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Ele é autista nível 1 com um interesse por design de impacto social. Ela é pedagoga, mãe atípica, com um filho autista e um relacionamento abusivo em seu passado.

Juntos há cerca de um ano, o casal Rafael Cavalcante e Natasha Ruel hoje combina as suas experiências de vida e habilidades profissionais em prol de um bem maior: o Ecoa.me, que se posiciona como uma plataforma de segurança emocional B2B com foco em violência estrutural. 

Segundo Rafael, a maioria das ferramentas B2B de bem-estar permite às empresas “identificar – mesmo que indiretamente – quem está mal, quem está em crise, quem aguenta o tranco e quem não”. A consequência: funcionários enfrentando crises emocionais acabam em situação ainda mais vulnerável quando a companhia precisa decidir quem mandar embora…

“O Ecoa.me foi desenhado para tornar a vigilância tecnicamente impossível. Porque além de a gente não utilizar logins padrões — o telefone, ou sua conta Google, ou sua conta empresarial, ou um usuário e senha –, não, a gente faz tudo através de tokens, para que o anonimato venha da primeira tela até o encaminhamento”

O negócio por enquanto ainda está em fase pré-operacional e vem costurando parcerias para aprimorar o produto e rodar os primeiros pilotos. 

“Hoje, fazemos parte do programa AWS Activate, que nos deu créditos para utilizar dentro da plataforma com serviços de cloud e inteligência artificial. Eles decidiram apostar na gente e contrataram dois times da DreamSquad para desenvolver a infraestrutura e a parte de treinamento da IA”, diz Rafael. “Também estamos no programa da Atlassian, eles fazem mentorias comigo, sempre tiram dúvidas me ajudando a organizar melhor as tarefas e o dia a dia do projeto.”

Além do aplicativo, o Ecoa.me pretende oferecer ao mercado acolhimento humano por meio de uma rede de terapeutas e letramento antiviolência. Leia a seguir a entrevista de Rafael e Natasha com o Draft:

 

O que é o Ecoa.me? Que problema ele quer resolver, e como?
RAFAEL: O Ecoa.me é uma plataforma de segurança emocional para empresas e a gente resolve o problema que parece óbvio, mas que quase ninguém nomeia, que é a situação mais grave de sofrimento no trabalho das pessoas mais vulneráveis, que são as violências doméstica, de gênero, racismo, LGBTfobia, assédio, e isso tudo acaba impactando diretamente o dia a dia das empresas. 

Hoje, os canais — de compliance, ouvidoria — acabam sendo mais canais de denúncia, não acolhem as pessoas, e a maioria não quer denunciar, até porque quando o canal é interno a pessoa acaba se sentindo intimidada, com medo de retaliação

O Ecoa.me tem três frentes. A primeira é o aplicativo anônimo, então tudo acontece com tokenização: nós criamos tokens criptografados, enviamos para a empresa, o RH, e ela faz a distribuição, o vínculo desse token com o colaborador ou colaboradora, e essa pessoa, através desse token ela acessa o aplicativo. 

Dali pra frente é anonimato puro: nós não conseguimos identificar nenhum tipo de dado dela, inclusive no aplicativo a gente não pede nome, nenhum dado significativo, a gente tenta tratar da maneira mais neutra e acolhedora possível. 

E aí a pessoa faz check-ins emocionais, ela pode pedir acolhimento por chat, tem um botão de pânico que ela pode acionar e enviar alertas para três pessoas do seu círculo de cuidado; e em caso de ter uma medida protetiva [em vigor], esse alerta vai também ser encaminhado para a polícia, para que sejam tomadas as devidas providências 

A segunda é a frente de acolhimento humano. Porque a IA que a gente criou faz a triagem, identifica padrões, gera insights, mas não faz o acolhimento, ela apenas gera insumo para que na hora do acolhimento os nossos conselheiros possam acolher da melhor maneira possível. 

E esses insights da IA vão ser direcionados para o dashboard ético da empresa: ela recebe indicadores agregados de clima emocional, tendências, padrões de risco. Consegue monitorar o clima emocional da empresa em tempo real – e acompanhar também as ações que a gente oferece: letramento antiviolência, educação financeira, aconselhamento jurídico…

Como surgiu a ideia do negócio?
RAFAEL: O Ecoa.me nasceu de um cruzamento de ideias. A primeira é o meu interesse por design de impacto social, que sempre carreguei em mim

Trabalho com produto há mais de dez anos, passei por Danone, Natura, Santander, Einstein, e ao longo dessa trajetória fui me aproximando do Society Centered Design, uma abordagem onde o produto não é desenhado só para o usuário ou a empresa – ele gera um retorno positivo também para a sociedade e as comunidades no entorno. E não como efeito colateral – gera retorno como intenção de projeto 

E a segunda [inspiração para o negócio] foi a história da Natasha. A experiência que ela teve com a violência e abuso psicológico me fez mergulhar mais mergulhar ainda no tema, pesquisar, entender a escala do problema, e perceber que não existia uma solução que conectasse tudo isso. 

NATASHA: Eu tive um relacionamento de 20 anos no total, em que 15 foram de casamento. E não era um relacionamento saudável. Só que eu não via isso, eu só via que eu não estava bem e queria sair dali. Depois que eu saí, vi que aquilo não era um ambiente saudável. Porque a violência não começa no físico. 

Eu tinha a informação que pra mim a violência era física – ponto. Teve alguns quadros de violência física, sim. Mas a violência psicológica era maior, a patrimonial era maior. E eu não via aquilo como violência. Na minha cabeça, era cuidado. Mas eu não estava mais confortável

Hoje, eu vejo: é uma violência. Você se isolar, você se afastar. Você ter medo de fazer alguma coisa pra não gerar briga e gatilho. Coisas simples, tá? Por exemplo, se eu pintasse a unha, ele já falava pra mim: “Por que você está pintando a unha? O que você vai fazer amanhã?”. Era desse jeito. Se eu secasse o cabelo, era a mesma coisa.

Foi aí que a gente [do Ecoa.me] começou a criar, além do aplicativo, o letramento antiviolência. Para mostrar para outras pessoas, e outras mulheres, que a violência não é só física.

Quantos profissionais de acolhimento fazem parte da rede do Ecoa.me? Qual o perfil deles e como vocês chegam a esses profissionais?
NATASHA: Atualmente a gente está com vinte profissionais de acolhimento. Quem faz o recrutamento é a Sabrina Carapiá, nossa “care officer”. Ela é psicóloga de longa data, faz a triagem, alguns treinamentos – porque tem um protocolo de atendimento –, e alguns casos eu e Rafa participamos das entrevistas para ajudá-la. 

Ainda estamos em processo de recrutamento. Em breve, vamos ter um canal de cadastro direto, “Seja um conselheiro”, onde a pessoa que tiver interesse em participar poderá se cadastrar diretamente no site. 

Os psicólogos têm que ter entre cinco e vinte anos de carreira, CRP ativo, disponibilidade de dez horas por semana para as demandas do acolhimento, alinhamento com a abordagem antiviolência. E de preferência [deve ser] alguém que já tenha trabalhado com atendimento de crise.

Qual foi a maior dificuldade enfrentada por vocês até aqui?
RAFAEL: A maior dificuldade é vender uma categoria que não existe ainda. O Ecoa.me não é wellness, não é app, não é canal de denúncia, não é terapia online, é uma coisa nova. É uma infraestrutura de segurança emocional com foco em violência estrutural. 

Quando você vende algo que o mercado não sabe ainda nem nomear, o ciclo de venda passa a ser educacional. Cada reunião começa com um “me explica aqui o que vocês fazem” e termina com um “faz sentido, preciso convencer meu diretor”

Outra dificuldade é a financeira: nós somos bootstrapped, somos em cinco, mas eu sou [o único] full time, dedicado a estratégia, design, vendas, um pouco de mídia social, que a Natasha me ajuda. Ela atua meio período na preparação de workshops, ajuda nos protocolos, está prospectando parceiros, conversando com ONGs e o setor público.

A Sabrina está na prospecção dos psicólogos e terapeutas para o acolhimento. Temos também dois engenheiros. O André Durazzo cuida mais da parte de produto, o front-end; e o Rodrigo Fasioli cuida do back-end, infraestrutura, criptografia.

E quais as principais ambições daqui pra frente?
RAFAEL: As ambições imediatas são ter de cinco a oito pilotos [rodando] até o segundo semestre de 2026, e a partir disso já ter dados e métricas de engajamento, cases documentados…

A NR-1 cria uma janela que não existia antes, então pela primeira vez o risco psicossocial é obrigação legal, não é opcional, de ESG… Isso puxa muito a demanda, apesar de a maioria das empresas ou dos RHs não saberem ainda como lidar com NR-1, é por isso que tem um boom de cursos sobre NR-1.

A médio prazo, queremos que o Ecoa.me seja referência em segurança emocional e infraestrutura de cuidado no Brasil. Não é um bem-estar corporativo, a gente não quer abraçar essa categoria genérica… É segurança emocional para o contexto de violência estrutural

NATASHA: A ambição também é abranger, para além de vulneráveis de violência, pais e mães — solos ou atípicos –, checando a sobrecarga emocional e amparando no que for necessário para que [essa sobrecarga] não prejudique sua vida, tanto no emocional quanto no profissional.

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