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Ele é autista nível 1 com um interesse por design de impacto social. Ela é pedagoga, mãe atípica, com um filho autista e um relacionamento abusivo em seu passado.
Juntos há cerca de um ano, o casal Rafael Cavalcante e Natasha Ruel hoje combina as suas experiências de vida e habilidades profissionais em prol de um bem maior: o Ecoa.me, que se posiciona como uma plataforma de segurança emocional B2B com foco em violência estrutural.
Segundo Rafael, a maioria das ferramentas B2B de bem-estar permite às empresas “identificar – mesmo que indiretamente – quem está mal, quem está em crise, quem aguenta o tranco e quem não”. A consequência: funcionários enfrentando crises emocionais acabam em situação ainda mais vulnerável quando a companhia precisa decidir quem mandar embora…
“O Ecoa.me foi desenhado para tornar a vigilância tecnicamente impossível. Porque além de a gente não utilizar logins padrões — o telefone, ou sua conta Google, ou sua conta empresarial, ou um usuário e senha –, não, a gente faz tudo através de tokens, para que o anonimato venha da primeira tela até o encaminhamento”
O negócio por enquanto ainda está em fase pré-operacional e vem costurando parcerias para aprimorar o produto e rodar os primeiros pilotos.
“Hoje, fazemos parte do programa AWS Activate, que nos deu créditos para utilizar dentro da plataforma com serviços de cloud e inteligência artificial. Eles decidiram apostar na gente e contrataram dois times da DreamSquad para desenvolver a infraestrutura e a parte de treinamento da IA”, diz Rafael. “Também estamos no programa da Atlassian, eles fazem mentorias comigo, sempre tiram dúvidas me ajudando a organizar melhor as tarefas e o dia a dia do projeto.”
Além do aplicativo, o Ecoa.me pretende oferecer ao mercado acolhimento humano por meio de uma rede de terapeutas e letramento antiviolência. Leia a seguir a entrevista de Rafael e Natasha com o Draft:
O que é o Ecoa.me? Que problema ele quer resolver, e como?
RAFAEL: O Ecoa.me é uma plataforma de segurança emocional para empresas e a gente resolve o problema que parece óbvio, mas que quase ninguém nomeia, que é a situação mais grave de sofrimento no trabalho das pessoas mais vulneráveis, que são as violências doméstica, de gênero, racismo, LGBTfobia, assédio, e isso tudo acaba impactando diretamente o dia a dia das empresas.
Hoje, os canais — de compliance, ouvidoria — acabam sendo mais canais de denúncia, não acolhem as pessoas, e a maioria não quer denunciar, até porque quando o canal é interno a pessoa acaba se sentindo intimidada, com medo de retaliação
O Ecoa.me tem três frentes. A primeira é o aplicativo anônimo, então tudo acontece com tokenização: nós criamos tokens criptografados, enviamos para a empresa, o RH, e ela faz a distribuição, o vínculo desse token com o colaborador ou colaboradora, e essa pessoa, através desse token ela acessa o aplicativo.
Dali pra frente é anonimato puro: nós não conseguimos identificar nenhum tipo de dado dela, inclusive no aplicativo a gente não pede nome, nenhum dado significativo, a gente tenta tratar da maneira mais neutra e acolhedora possível.
E aí a pessoa faz check-ins emocionais, ela pode pedir acolhimento por chat, tem um botão de pânico que ela pode acionar e enviar alertas para três pessoas do seu círculo de cuidado; e em caso de ter uma medida protetiva [em vigor], esse alerta vai também ser encaminhado para a polícia, para que sejam tomadas as devidas providências
A segunda é a frente de acolhimento humano. Porque a IA que a gente criou faz a triagem, identifica padrões, gera insights, mas não faz o acolhimento, ela apenas gera insumo para que na hora do acolhimento os nossos conselheiros possam acolher da melhor maneira possível.
E esses insights da IA vão ser direcionados para o dashboard ético da empresa: ela recebe indicadores agregados de clima emocional, tendências, padrões de risco. Consegue monitorar o clima emocional da empresa em tempo real – e acompanhar também as ações que a gente oferece: letramento antiviolência, educação financeira, aconselhamento jurídico…
Como surgiu a ideia do negócio?
RAFAEL: O Ecoa.me nasceu de um cruzamento de ideias. A primeira é o meu interesse por design de impacto social, que sempre carreguei em mim
Trabalho com produto há mais de dez anos, passei por Danone, Natura, Santander, Einstein, e ao longo dessa trajetória fui me aproximando do Society Centered Design, uma abordagem onde o produto não é desenhado só para o usuário ou a empresa – ele gera um retorno positivo também para a sociedade e as comunidades no entorno. E não como efeito colateral – gera retorno como intenção de projeto
E a segunda [inspiração para o negócio] foi a história da Natasha. A experiência que ela teve com a violência e abuso psicológico me fez mergulhar mais mergulhar ainda no tema, pesquisar, entender a escala do problema, e perceber que não existia uma solução que conectasse tudo isso.
NATASHA: Eu tive um relacionamento de 20 anos no total, em que 15 foram de casamento. E não era um relacionamento saudável. Só que eu não via isso, eu só via que eu não estava bem e queria sair dali. Depois que eu saí, vi que aquilo não era um ambiente saudável. Porque a violência não começa no físico.
Eu tinha a informação que pra mim a violência era física – ponto. Teve alguns quadros de violência física, sim. Mas a violência psicológica era maior, a patrimonial era maior. E eu não via aquilo como violência. Na minha cabeça, era cuidado. Mas eu não estava mais confortável
Hoje, eu vejo: é uma violência. Você se isolar, você se afastar. Você ter medo de fazer alguma coisa pra não gerar briga e gatilho. Coisas simples, tá? Por exemplo, se eu pintasse a unha, ele já falava pra mim: “Por que você está pintando a unha? O que você vai fazer amanhã?”. Era desse jeito. Se eu secasse o cabelo, era a mesma coisa.
Foi aí que a gente [do Ecoa.me] começou a criar, além do aplicativo, o letramento antiviolência. Para mostrar para outras pessoas, e outras mulheres, que a violência não é só física.
Quantos profissionais de acolhimento fazem parte da rede do Ecoa.me? Qual o perfil deles e como vocês chegam a esses profissionais?
NATASHA: Atualmente a gente está com vinte profissionais de acolhimento. Quem faz o recrutamento é a Sabrina Carapiá, nossa “care officer”. Ela é psicóloga de longa data, faz a triagem, alguns treinamentos – porque tem um protocolo de atendimento –, e alguns casos eu e Rafa participamos das entrevistas para ajudá-la.
Ainda estamos em processo de recrutamento. Em breve, vamos ter um canal de cadastro direto, “Seja um conselheiro”, onde a pessoa que tiver interesse em participar poderá se cadastrar diretamente no site.
Os psicólogos têm que ter entre cinco e vinte anos de carreira, CRP ativo, disponibilidade de dez horas por semana para as demandas do acolhimento, alinhamento com a abordagem antiviolência. E de preferência [deve ser] alguém que já tenha trabalhado com atendimento de crise.
Qual foi a maior dificuldade enfrentada por vocês até aqui?
RAFAEL: A maior dificuldade é vender uma categoria que não existe ainda. O Ecoa.me não é wellness, não é app, não é canal de denúncia, não é terapia online, é uma coisa nova. É uma infraestrutura de segurança emocional com foco em violência estrutural.
Quando você vende algo que o mercado não sabe ainda nem nomear, o ciclo de venda passa a ser educacional. Cada reunião começa com um “me explica aqui o que vocês fazem” e termina com um “faz sentido, preciso convencer meu diretor”
Outra dificuldade é a financeira: nós somos bootstrapped, somos em cinco, mas eu sou [o único] full time, dedicado a estratégia, design, vendas, um pouco de mídia social, que a Natasha me ajuda. Ela atua meio período na preparação de workshops, ajuda nos protocolos, está prospectando parceiros, conversando com ONGs e o setor público.
A Sabrina está na prospecção dos psicólogos e terapeutas para o acolhimento. Temos também dois engenheiros. O André Durazzo cuida mais da parte de produto, o front-end; e o Rodrigo Fasioli cuida do back-end, infraestrutura, criptografia.
E quais as principais ambições daqui pra frente?
RAFAEL: As ambições imediatas são ter de cinco a oito pilotos [rodando] até o segundo semestre de 2026, e a partir disso já ter dados e métricas de engajamento, cases documentados…
A NR-1 cria uma janela que não existia antes, então pela primeira vez o risco psicossocial é obrigação legal, não é opcional, de ESG… Isso puxa muito a demanda, apesar de a maioria das empresas ou dos RHs não saberem ainda como lidar com NR-1, é por isso que tem um boom de cursos sobre NR-1.
A médio prazo, queremos que o Ecoa.me seja referência em segurança emocional e infraestrutura de cuidado no Brasil. Não é um bem-estar corporativo, a gente não quer abraçar essa categoria genérica… É segurança emocional para o contexto de violência estrutural
NATASHA: A ambição também é abranger, para além de vulneráveis de violência, pais e mães — solos ou atípicos –, checando a sobrecarga emocional e amparando no que for necessário para que [essa sobrecarga] não prejudique sua vida, tanto no emocional quanto no profissional.
Jéssica Cardoso sofreu preconceito ao oferecer seu trabalho de intérprete de Libras como autônoma. Ela então decidiu criar uma rede de profissionais negras para tornar eventos e empresas mais acessíveis e lutar contra o racismo estrutural.
Cammila Yochabell criou a Jobecam para alavancar a diversidade nas empresas. Com avatares animados (selecionados aleatoriamente) que reproduzem os gestos dos entrevistados em tempo real, ela agora planeja expandir pela América Latina.
