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Sempre que volto para Salvador, gosto de observar as pessoas, as ruas e os lugares onde cresci. É impossível fazer esse caminho sem pensar no quanto a vida pode surpreender.
Às vezes me pego imaginando o que aquele menino, que nasceu em Paripe, na periferia de Salvador, diria se me visse hoje. Talvez ele nem acreditasse. Não porque faltasse vontade de vencer. Mas porque alguns sonhos só existem quando a gente sabe que eles podem existir.
Na minha infância, ninguém falava sobre alta-costura, direção criativa ou semanas de moda. Esse universo simplesmente não fazia parte da minha realidade. Eu não conhecia nenhum estilista. Não fazia ideia de que existiam pessoas por trás das roupas que eu via na televisão ou nas revistas
Eu cresci com meus pais e meus irmãos. Éramos cinco irmãos, meu pai trabalhava em um hotel e minha mãe era dona de casa. Tínhamos uma vida simples, morávamos numa casa de dois quartos, no Subúrbio Ferroviário de Salvador.
A vida, no entanto, tem um jeito curioso de apresentar caminhos que a gente nunca planejou. A moda entrou na minha vida quase por acaso. Eu tinha 16 anos quando, numa ida a um shopping para trocar um presente, fui abordado. Foi assim que comecei a modelar e entrei pela primeira vez naquele universo.
Minha primeira viagem internacional também aconteceu nessa época, para Nova York. Meu pai, que sempre acreditou em mim, chegou a deixar o emprego para me acompanhar. Ao mesmo tempo, eu enxergava a carreira de modelo como uma fase. Sabia que precisava trabalhar, ganhar meu dinheiro e pensar no que faria depois.
Foi ali que descobri que não era apenas a roupa que me encantava. Eram histórias. Porque nenhuma criação nasce sozinha. Ela nasce do encontro entre técnica, sensibilidade e pessoas
Nos bastidores, comecei a me interessar pelas oficinas e pelos ateliês. Eu pedia para participar das provas de roupa porque queria entender o que acontecia por trás daquela peça que chegava até mim.
Como modelo, muitas vezes eu usava roupas que não tinham relação com a minha identidade, meu estilo ou até mesmo com meu biotipo. Comecei a pensar que, se a roupa tivesse mais a ver com quem a veste, talvez ela pudesse ser ainda mais potente.
Nesse processo, comecei a entender a moda de outra maneira. Uma roupa sob medida não pode ter apenas a identidade de quem cria. Ela precisa conversar com a pessoa que vai usá-la.
Eu sempre senti que precisava estudar mais, aprender mais e trabalhar mais. Até hoje acredito que aprender é uma escolha diária.
Foi por isso que, em 2018, fui para Paris para me aperfeiçoar. Lá, fiz um curso relacionado à alta-costura, no qual pude aprofundar conhecimentos sobre estrutura, caimento, acabamento, tecnologia de tecidos, máquinas e processos de produção.
Eu estava em um momento em que precisava entender onde poderia evoluir profissionalmente. Foi uma experiência que ampliou meu olhar sobre a construção de uma peça e trouxe conhecimentos que depois levei para o meu trabalho.
Nesse contexto, conheci Elie Saab, um profissional que sempre admirei. Não foi um encontro que mudou minha carreira da noite para o dia. Mas mudou a forma como eu enxergava o meu trabalho.
Observar alguém que construiu uma trajetória tão sólida me fez entender que a excelência não está nos grandes momentos. Ela está na repetição dos pequenos gestos. No cuidado com um acabamento que quase ninguém vai notar. Na disciplina de fazer bem feito todos os dias
Também encontrei referências em outros profissionais ao longo desse caminho. Como Zuhair Murad, que me inspira pela forma como trabalha a silhueta e cria vestidos que se impõem na cena.
Voltei para o Brasil com ainda mais vontade de aprender. No ano seguinte, em 2019, iniciei uma nova etapa da minha trajetória com a Victoria Alta Costura.
Essa história, porém, começou antes. Eu tocava meu próprio ateliê, que levava meu nome, enquanto minha futura sócia, Salma George, já tinha o ateliê Victória. Os dois espaços ficavam próximos e existia uma troca de conhecimento entre nós. Depois que voltei de Paris, passamos a conversar sobre a união dos nossos trabalhos.
Até então, eu fazia praticamente tudo sozinho: criação, compras, administração, equipe e atendimento. A partir da nossa união, passei a me concentrar cada vez mais na criação, no atendimento e na relação com as clientes, enquanto Salma ficou mais ligada à parte administrativa e às compras.
Foi assim que a Victoria Alta Costura nasceu e começou a ganhar uma estrutura maior.
Eu acreditava que podíamos construir algo maior, fortalecer a identidade da Victoria e mostrar que a alta-costura brasileira tinha espaço para ocupar novos lugares. Mas, quando começamos a desenhar esse futuro, o mundo parou.
A pandemia chegou sem pedir licença e levou embora todas as certezas que tínhamos. Os eventos foram cancelados. Os casamentos deixaram de acontecer. As clientes desapareceram. O ateliê, que estava criando movimento, ficou em silêncio.
A verdade é que eu tive medo. Medo de perder o que havia construído. Medo de não conseguir manter a equipe. Medo de precisar desistir. Mas a vida não pergunta se você está pronto para mudar. Ela simplesmente muda
Naquele momento, eu tinha duas escolhas. Esperar que tudo voltasse a ser como era antes ou aceitar que precisávamos construir um novo caminho. Até então, a Victoria trabalhava exclusivamente com peças sob medida. A cliente precisava viver toda a experiência do ateliê, das provas, dos ajustes. Era assim que sempre havíamos feito.
Entendemos então que precisávamos evoluir sem perder nossa essência. Criamos coleções inéditas. Passamos a oferecer peças prontas, mantendo o mesmo cuidado artesanal e a mesma exclusividade que sempre fizeram parte da marca.
De fora, essa mudança pode parecer apenas fruto de uma decisão estratégica. Para mim, ela representou muito mais. Precisei aceitar que mudar não significava abandonar quem eu era, mas permitir que o meu trabalho continuasse existindo.
Entendi que não bastava reinventar a marca: era preciso construir uma equipe preparada para viver esse novo momento.
Tivemos que ensinar processos, compartilhar a forma como acredito que a alta-costura deve ser feita e criar uma cultura baseada no cuidado com cada detalhe.
Não foi simples, mas foi esse trabalho coletivo que nos permitiu atravessar aquele período e sair dele ainda mais fortes. Hoje, tenho ao meu lado uma equipe que conhece meu jeito, entende meu olhar e compartilha da mesma obsessão pelos detalhes.
Entre profissionais fixos, externos e freelancers, o time chega a cerca de 40 pessoas no dia a dia. Costumamos brincar que somos todos um pouco “chatos”, porque acreditamos que cada etapa importa.
Um vestido passa por muitas mãos antes de chegar à cliente. Existe quem atende. Quem modela. Quem costura. Quem borda. Quem finaliza. Quem prepara cada entrega
Ao longo dessa caminhada, encontrei pessoas que confiaram em mim e no meu trabalho. Pessoas que me incentivaram quando eu ainda estava construindo meu espaço.
Sou profundamente grato por cada encontro, porque acredito que uma trajetória nunca é feita apenas de talento ou esforço individual. Ela também é construída pelas pessoas que escolhem caminhar ao nosso lado.
Depois que atravessamos aquele período, muita coisa começou a acontecer. Comecei a viver coisas que, durante muito tempo, pareciam muito distantes da minha realidade.
Uma dessas surpresas aconteceu neste ano, quando recebi o prêmio “Fashion Designer Stylist of The Year” (Estilista do Ano), em Cannes. Quando soube que tinha ganhado, fiquei muito feliz. Eu não entrei nessa disputa pensando que seria o vencedor. Só estar ali, entre aquelas pessoas, já tinha muito significado.
Outra experiência que a moda me proporcionou aconteceu em Angola. Eu estava lá atendendo uma cliente muito especial, quando ela me avisou que iria a um jantar naquela noite e perguntou se eu tinha levado um terno. De repente, me vi em um jantar da ONU cercado por pessoas que jamais achei que iria conhecer.
Foi uma situação que mostrou como o meu trabalho pode me levar a lugares e encontros muito além do que imaginei. E, mesmo vivendo tudo isso, eu continuo lembrando de onde tudo começou.
Sempre que embarco para um novo país, sinto que levo comigo muito mais do que vestidos. Levo minha história, levo Salvador, levo o Brasil.
Carrego comigo uma criatividade que aprendi observando pessoas, cores, culturas e histórias que fizeram parte da minha vida muito antes da moda existir para mim.
Talvez por isso eu nunca tenha acreditado que alta-costura fosse apenas sobre luxo. Ela é sobre identidade. Quando uma cliente me procura, ela não está comprando apenas um vestido. Ela quer se sentir representada. Quer olhar para aquela criação e pensar: “Isso sou eu”. É exatamente isso que tento entregar
Ao longo dessa caminhada, vivi situações que ainda despertam sentimentos misturados. Grande parte do reconhecimento pelo meu trabalho veio primeiro de fora do Brasil. É impossível não sentir orgulho quando alguém valoriza aquilo que você construiu com tanto esforço. Mas confesso que, às vezes, dói perceber como demoramos para reconhecer os talentos que existem dentro do nosso próprio país…
Não digo isso por vaidade, muito menos como reclamação. Digo porque acredito profundamente na criatividade brasileira. Acredito no nosso artesanato. Nas nossas costureiras. Nos nossos bordados. Nos profissionais que dedicam horas para transformar um tecido em algo único.
Quando vejo esse trabalho sendo reconhecido fora, sinto orgulho. Mas também penso em quantas pessoas incríveis ainda esperam por uma oportunidade de serem vistas aqui.
Se alguém acreditou em mim em diferentes momentos da minha vida, também quero ser alguém que abre caminhos, que acredita nos outros.
Há cerca de três anos, esse sentimento deu forma ao meu trabalho voluntário com o CEU José Saramago, em Osasco, num projeto que busca socializar e reconectar mulheres que estão fora do mercado de trabalho, usando o corte e a costura e a prática de bordado como ferramentas de formação profissional e inclusão.
Também estou estruturando, junto à ONG Osãi, uma iniciativa que segue essa linha, mas para a Angola.
Esses projetos têm um significado especial porque a moda deixa de ser apenas aquilo que eu crio e passa a ser uma ferramenta para criar possibilidades para outras pessoas.
A maior transformação da minha vida não foi trabalhar com moda, mas descobrir que o menino que nem sabia que existia a profissão de estilista conseguiu construir uma história sem deixar para trás aquilo que sempre foi
Continuo sendo curioso. Continuo estudando, acreditando que sempre há algo novo para aprender. Talvez seja esse o segredo: não chegar a algum lugar, e sim jamais deixar de caminhar.
No fim das contas, a moda me deu muito mais do que uma profissão. Ela me deu a oportunidade de contar histórias. E a primeira delas foi a minha.
Charles Hermann é estilista, diretor criativo e sócio da Victoria Alta Costura.
A vida de Beia Carvalho tem sido tudo, menos monótona e estável. Publicitária e palestrante futurista, ela conta como a decisão de cruzar o Atlântico e morar em Lisboa se transformou em uma investigação sobre longevidade e liberdade.
Cleber Santos não tinha casa nem emprego, mas tinha a companhia de Grafit, um cachorro de rua. Ele conta como a relação com o animal virou o ponto de partida para uma guinada que o levou a criar sua própria empresa do setor pet.
