Como combinar impacto ambiental e social? A PlantVerd refloresta áreas degradadas com mão de obra formada por ex-presidiários

Maisa Infante - 31 ago 2021
Antônio Borges, cofundador da PlantVerd.
Maisa Infante - 31 ago 2021
COMPARTILHE

Advogado de formação, Antônio Borges, 34, encontrou um novo nicho e pivotou sua carreira quando percebeu o grande volume de multas ambientais acumulado por grandes companhias.

Hoje, ao lado de seus sócios — o engenheiro ambiental José Reinaldo Bandeira e o engenheiro agrônomo Danilo Seiji Taba –, Antônio está à frente da PlantVerd, empresa de serviços florestais com sede em Indaiatuba, no interior de São Paulo.

Em oito anos de operação, a PlantVerd já implementou 2 mil hectares de florestas e plantou 3,2 milhões de mudas pelo Brasil afora. 

A maioria dos projetos é desenvolvida para clientes como DERSA, CPTM, DER e Grupo Alphaville, que precisam realizar compensações ambientais por conta de grandes obras de infraestrutura. 

A PlantVerd é incumbida da missão, realizando a restauração florestal com mudas de espécies nativas — e, cada vez mais, com mão de obra formada por ex-presidiários, entrelaçando impacto social e ambiental.

CADA PROJETO EXIGE UMA ABORDAGEM PRÓPRIA, MECANIZADA OU NÃO

Para atender a demanda em larga escala e baixar o preço do reflorestamento, a PlantVerd adota o plantio mecanizado quando possível; assim, com maquinário, dá para plantar até 8 mil mudas por dia. 

Nem sempre o terreno comporta o uso da tecnologia. Cada projeto exige uma abordagem diferente.

“Tudo depende da vegetação e do que a área suporta. Às vezes é uma área com remanescentes e podemos aproveitá-los; mas pode uma ser antiga área de pastagem, que precisa de outro tipo de ação… Essa é uma atividade que ainda precisa muito do olhar e do cuidado humano”

O compromisso da PlantVerd com a área reflorestada se encerra quando a floresta atinge a capacidade de se manter sozinha, sem intervenção. É o que eles chamam de “abandono da área”. 

“Eu acredito que mais de 90% delas se perpetua e em equilíbrio, a não ser que tenha tido algum processo de fogo etc. Mas todas as nossas áreas foram abandonadas já em estado avançado [de vegetação].”

Assim como a abordagem, mecanizada ou manual, a precificação do serviço também varia. “Não temos uma média de preço, pois cada contrato tem a sua complexidade e particularidades.”

ANTES DA PLANTVERD, ELE EMPREENDEU UMA CONSULTORIA AMBIENTAL

Antônio diz que sempre teve contato com a terra por ter crescido na roça, na região rural de Cássia, em Minas Gerais.

Durante a faculdade de direito, ele foi estagiar em um escritório que atendia a Votorantim. Lidar com multas ambientais era parte do trabalho. Foi assim que Antônio teve a ideia de empreender uma consultoria para ajudar a regularizar a situação de grandes empresas cuja atividade impactava o meio ambiente.

A Viva Verde, sua consultoria, nasceu em 2008. O negócio, porém, não estava caminhando tão bem. Circulando nesse meio, Antônio identificou uma demanda por serviços de reflorestamento; na época, afirma, não havia nenhuma solução que atendesse a esse mercado.

“Quem fazia reflorestamento ou era a grande empresa — como por exemplo a Odebrecht, que pegava uma obra e já fazia o reflorestamento — ou aquele jardineiro que nem tinha documentação. Então, havia uma margem grande de trabalho”

Uma razão dessa disparidade seria o alto custo do serviço. A PlantVerd surgiu com a proposta de tornar o reflorestamento mais acessível e barato. Enquanto colocava o novo negócio de pé, Antônio foi buscar um MBA em Meio Ambiente na Fundação Getulio Vargas. “Fui para conhecer os gestores das empresas que precisariam do nosso trabalho.”

UM PROJETO DESAFIADOR AJUDOU A ALAVANCAR O NOVO NEGÓCIO

Os engenheiros Danilo e José Reinaldo embarcaram na empreitada. E a grana que começou a entrar com os primeiros projetos serviu de investimento inicial. 

Em 2014, a PlantVerd faturou 1,4 milhões de reais. No ano seguinte, o valor subiu um pouquinho, para 1,6 milhões de reais. E em 2016 veio um projeto que alavancou o negócio — mas que correu risco de virar um fracasso. 

A PlantVerd foi contratada pela DERSA para fazer a restauração referente à obra da Nova Tamoios, rodovia que liga o Vale do Paraíba ao Litoral Norte de São Paulo. 

“O projeto todo dava 17 milhões de reais. Era 10 vezes o que eu tinha faturado no ano anterior inteiro. Conseguimos a licitação e eu, todo feliz, sentei na frente do gerente com o contrato e ele me disse: você vai quebrar com esse projeto”

Para viabilizar a conclusão, a PlantVerd teve se desdobrar atrás de parceiros e prazos mais longos. “A única coisa certa era a folha de pagamento”, diz Antônio. “Todo o restante a gente precisou negociar muito.”

No fim, deu certo. O projeto de reflorestamento, iniciado em 2017, foi entregue no primeiro semestre de 2021. Ao todo, a empresa plantou cerca de 430 hectares de vegetação nativa da Mata Atlântica ao longo da rodovia.

COMO AUMENTAR A ESCALA E REDUZIR O CUSTO DO IMPACTO AMBIENTAL

O projeto da Nova Tamoios permitiu à PlantVerd estreitar o contato com o governo paulista. Em 2019, a empresa se ofereceu para reflorestar 50 hectares do Programa Nascentes, criado (em 2014) para facilitar a recuperação de matas ciliares e terrenos degradados. 

Antônio explica que uma restauração pequena (de cerca de 80 árvores) perde em biodiversidade porque costuma ser feita com apenas duas ou três espécies — o que barateia o processo mas torna aquela área mais vulnerável a novas degradações.

A saída, então, é criar condições para a formação de florestas mais robustas.

“Quando restauro uma área maior, além de baixar o custo e permitir que o pequeno empresário tenha a chance de fazer uma restauração por um preço menor, eu melhoro a qualidade da restauração porque favoreço a manutenção da biodiversidade e os corredores ecológicos” 

A parceria com o governo paulista acabou dando origem ao Ativo Verde, uma nova modalidade de crédito ambiental no escopo do Programa Nascentes. 

Hoje, empresas (como a própria PlantVerd) e ONGs ambientais não precisam mais ficar esperando até que alguma companhia bata na porta com a demanda de compensação ambiental. Em vez disso, elas se cadastram em uma “prateleira de projetos”, começam a restaurar e comercializam o reflorestamento durante ou após o término do trabalho.

O mecanismo vem tornando a compensação mais acessível — e ampliando o leque de atuação da PlantVerd. A empresa já implementou florestas para a Exchange do Bem, que organiza viagens de voluntários, e o projeto CoVida, que apoia negócios de impacto dedicados a gerar emprego e renda no contexto da Covid-19.

“Por baixar o custo, o Ativo Verde já está trazendo pessoas que querem compensar o carbono de um evento ou de um trabalho”, diz Antônio. 

HOJE, EX-PRESIDIÁRIOS COMPÕEM CERCA DE 20% DA MÃO DE OBRA

A PlantVerd se impôs a missão social de incorporar ex-presidiários à sua equipe. A ideia veio de uma conversa com um funcionário egresso do sistema prisional, que deu um testemunho sobre as dificuldades de conseguir emprego depois de passar pela cadeia. 

“Com a ajuda dele, passamos a selecionar essas pessoas e a priorizar isso nas nossas frentes de trabalho”, diz Antônio. “Começamos [em projetos] no litoral norte de São Paulo e aos poucos fomos levando para outros projetos.”

Hoje, a PlantVerd tem 30 funcionários que são ex-presidiários (de um time total de 160),  e a ideia é aumentar esse número gradativamente. Encontrar esses colaboradores demanda uma busca ativa.

“Não adianta achar que você vai ‘chegar em um local’ e os egressos vão aparecer. Você tem que mostrar o que já faz, contar a história [da empresa]… Até que chega um e começam a vir outros. Mas é difícil selecioná-los. E o currículo não será, claro, compatível com o de alguém que teve oportunidades” 

Para incluir de verdade, a PlantVerd se dedica a formar esses novos colaboradores. Após a contratação, todos passam por treinamentos de revegetação, reflorestamento e primeiros socorros.

“Quando termina esse trabalho [de treinamento], eles estão capacitados como profissionais para entrar em outras empresas.”

UM CONTRATO COM A VALE DEVE IMPULSIONAR O FATURAMENTO

Em 2020, o faturamento (de 6,9 milhões de reais) ficou aquém dos 7,6 milhões de reais do ano anterior — e bem abaixo da meta, que era de chegar a 10 milhões de reais. 

Pelo visto, a pandemia impactou negativamente o resultado. Mas a PlantVerd já sacudiu a poeira e espera fechar 2021 com faturamento recorde de 20 milhões de reais, alavancado por um novo contrato com a Vale. 

A mineradora contratou a PlantVerd para realizar a descaracterização de barragens já desativadas em Minas Gerais, recuperando a vegetação local e reintegrando essas estruturas ao seu entorno. 

Para o futuro próximo, a empresa prevê ampliar o time para 250 pessoas, investir 6 milhões de reais na recuperação de 300 hectares por meio do Ativo Verde — e, quem sabe, ajudar a levar o modelo paulista para outros estados do país.

“Ao fazer uma floresta, você já deixa um legado, mas que é frágil: se alguém coloca fogo, acaba com ele”, diz Antônio. “Agora, a partir do momento em que você ajuda os estados a mudar a legislação e criar sistemas de compensação mais efetivos, aí sim há um grande legado a ser deixado.”

293 Total Views 2 Views Today

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: PlantVerd
  • O que faz: Implantação de projetos de reflorestamento
  • Sócio(s): Antônio Borges, José Reinaldo Bandeira e Danilo Seiji Taba
  • Funcionários: 150
  • Sede: Indaiatuba (SP)
  • Início das atividades: 2013
  • Faturamento: R$ 6,9 milhões
  • Contato: [email protected]
COMPARTILHE

Confira Também: