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A Sacola Tropical engaja costureiras da periferia de São Paulo na produção de bolsas de feira ‘repaginadas’

Verônica Fraidenraich - 9 jul 2019
A empreendedora Gisela Heizenreder Cury, da Sacola Tropical (foto: Cesar Cury)
Verônica Fraidenraich - 9 jul 2019
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“Eu tinha uma sacola de feira grande e colorida, comprada em um camelô no Rio de Janeiro, que as pessoas sempre elogiavam, todo mundo adorava”, conta Gisela Heizenreder Cury, 58, nascida em Buenos Aires e criada em São Paulo. Aquele acessório acabou inspirando a Sacola Tropical, projeto que engaja costureiras da periferia paulistana na fabricação de bolsas de feira em versão repaginada.

A iniciativa surgiu em outubro de 2016. Gisela já tinha uma experiência trabalhando em Paraisópolis que lhe abriu as portas para o contato com as costureiras da comunidade. “Fui saber se elas topavam participar do projeto e elas disseram que sim. Lancei as sacolas nas redes sociais no verão e foi um sucesso, não dava conta de tanta procura.”

“Prendada” desde a infância, quando tricotava seus próprios agasalhos, Gisela treinou as primeiras costureiras e, com elas, concebeu os modelos das bolsas. As profissionais recebem todo o material para a confecção e trabalham em casa, de seis a dez horas por dia, dependendo da disponibilidade. O pagamento é feito por produção.

“Chegamos a um denominador comum juntas, com base no que elas achavam ser justo receber pelo seu trabalho. Não queremos que elas trabalhem exaustivamente. Muitas têm filhos pequenos, precisam se dedicar a eles”

Quando novas profissionais embarcam no projeto, as primeiras se tornam replicadoras, treinando as novatas no corte das telas de polietileno – um material escorregadio e difícil de ser trabalhado. Hoje, o projeto engaja 17 profissionais, moradoras de periferias da capital paulista (Paraisópolis, Campo Limpo, Capão Redondo e Taboão da Serra) e do Jardim Calux, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo.

A DOENÇA DA FILHA FEZ ELA VIRAR VOLUNTÁRIA EM HOSPITAIS

Formada em Letras, Gisela teve uma passagem em 1986 pelo estúdio do fotógrafo Bob Wolfenson, como coordenadora geral e produtora executiva. Nos anos 1990, foi gerente administrativa e de eventos da Microsoft e fundou sua agência, a GH Fotoprodutora. A empresa segue ativa, com outro nome e novo foco: hoje atende por Terra à Vista Produções e organiza eventos e presta consultoria para elaboração de projetos de responsabilidade social.

Em 1997, Gisela teve de dar uma pausa na carreira após uma gravidez de risco e o nascimento prematuro da filha, que ficou internada em uma UTI neonatal por três meses. Até os 10 anos, a menina enfrentaria outros períodos de internação e de cuidados em casa. Gisela passou esse tempo dedicada à filha (hoje com 21 anos e saudável). Sentia falta de trabalhar, mas não queria voltar a fazer o mesmo – seu desejo era atuar no terceiro setor.

Entre 2000 e 2001, ela fez cursos no Senac, como os de elaboração de projetos, planejamento estratégico e captação de recursos. Nessa época, se encantou com o trabalho da Doutores da Alegria, que faz intervenções junto a crianças hospitalizadas. Por sugestão de Wellington Nogueira, fundador da ONG, Gisela buscou a Associação Viva e Deixe Viver, que promove contação de histórias em hospitais de forma voluntária. “Me inscrevi, passei por uma capacitação e me tornei contadora de histórias.”

Gisela sentia necessidade de ajudar de forma mais direta pessoas com filhos em internações prolongadas. Assim, junto com outros pais (que conhecera durante o tempo de internação de sua própria filha), ela criou em 2001 o Instituto Rampa, que desenvolveu um projeto chamado “Conversa entre pais”.

“A gente pesquisava o diagnóstico da criança, levantava dados, trazia fotos de casos semelhantes e buscava associações relacionadas ao problema. Era uma forma de dar esperança. Porque os médicos falam aquele ‘hospitalês’ que deixa qualquer um perdido”

O nome do instituto era uma resposta simbólica à ausência de rampa de acesso no espaço onde se encontravam, o que era uma dificuldade já que um dos pais do grupo tinha um filho cadeirante. As ações eram conduzidas pelos próprios pais, voluntariamente, sem apoio financeiro e ocorriam no Hospital Nossa Senhora de Lourdes (hoje chamado Hospital São Luiz unidade Jabaquara) e no Hospital Universitário da USP.

O TRABALHO COM PROJETOS SOCIAIS A LEVOU A PARAISÓPOLIS

Por volta de 2005, a “Conversa entre pais” foi descontinuada. O Rampa ainda teve uma sobrevida até 2009, realizando um projeto de arte e geração de trabalho e renda para famílias com crianças em tratamento em casas de apoio a pacientes com câncer. Esse projeto se dava em parceria com a Associação Cidade Escola Aprendiz, onde Gisela estava trabalhando como coordenadora de comunicação institucional.

Ela ficou na ONG por quatro anos, sendo responsável pela gestão de parcerias e captação de recursos. Em 2009, se desligou e passou a colaborar com a União de Moradores e do Comércio de Paraisópolis, na coordenação de projetos sociais e organização de eventos e iniciativas como a Mostra Cultural da comunidade. A cooperação durou até 2015.

Nessa época, Gisela decidiu que era hora de reativar o Instituto Rampa, agora com atuação expandida para áreas como cultura e educação, visando aprimorar competências e o senso de protagonismo e cidadania das pessoas. Foi nesse contexto, e com a bagagem de relações formadas durante o trabalho em Paraisópolis, que o Sacola Tropical começou a ganhar corpo. O investimento inicial foi de apenas R$ 1.000, o bastante para comprar a tela de polietileno por metro, zíper, linha, etiquetas e cartão de visita.

OS EVENTOS AJUDAM A DIVULGAR A CAUSA DA SACOLA TROPICAL

As bolsas da Sacola Tropical, diz Gisela, têm um design mais moderno do que as sacolas de feira tradicionais, além de melhor acabamento, fecho com zíper, bolsos frontais e alças reguláveis. Os modelos podem ser carregados na transversal, nas costas ou na mão.

A princípio, eram três tamanhos de sacola, de um modelo só. Hoje, há carteirinhas, nécessaires, esteira de praia, caixas organizadoras, bolsas térmicas (para marmita), malas de mão, jogos americanos e cestos multiuso. Os preços variam de R$ 20 a unidade do jogo americano a R$ 160 a bolsa térmica.

A linha de produtos inclui bolsas, carteiras, nécessaires e jogos americanos, todos fabricados com telas de polietileno, como as sacolas de feira tradicionais (foto: Cesar Cury)

Gisela aceita encomendas por meio de mensagens por Facebook e Instagram (@sacolatropical), com pagamento feito por depósito ou boleto bancário. A entrega é realizada pelo correio ou por portador, depende da quantidade e do destino.

Desde o início de julho, as bolsas podem ser encontradas no espaço colaborativo Casa 867, em Pinheiros. Outra fonte de renda são as feiras e bazares, como os realizados pelo Mercado das Madalenas, evento itinerante que ocorre quatro vezes ao ano — a próxima edição, em setembro, será no Museu da Casa Brasileira.

Para dar conta da participação simultânea em vários bazares, Gisela contratou quatro vendedoras, que também têm a função de explicar o impacto gerado pelo projeto. “A gente consegue vender até 200 produtos variados em um evento de fim de semana, se o movimento for bom”, diz. Ao todo, desde outubro de 2016, a Sacola Tropical já vendeu 8 mil itens.

O DESAFIO É REDUZIR CUSTOS E CONSEGUIR INVESTIMENTO

Marcas como Frooty, Docol e Pinho Sol já adquiriram bolsas em tamanhos variados como brindes corporativos. “Para a gente é ótimo, porque é um volume maior de pedidos e, apesar do valor mais baixo por unidade, nos dá um bom retorno financeiro.” Junto ao produto, Gisela inclui uma etiqueta em que fala sobre o instituto e o projeto social. Hoje ela também conta com uma colaboradora para cuidar das mídias sociais e fortalecer a sua mensagem.

“Apesar da sacola ser bonita e chamativa, a gente quer que todos saibam a história do projeto, porque isso dá outra ‘cara’ ao produto”

Em 2018, o negócio faturou 80 mil reais. A renda é destinada a custos como os insumos, remuneração das costureiras e da própria Gisela como coordenadora, contabilidade, gastos com papelaria e correio para envio de inscrições em editais, além de despesas com gasolina — uma vez por semana, a empreendedora faz uma ronda pelas casas das costureiras parceiras do projeto. “Elas estão espalhadas, então tenho que fazer um roteiro para sair distribuindo o material e depois recolhendo os produtos.”

O tempo entre a compra dos materiais e a colocação do produto para venda leva uns 15 dias. O gasto com combustível inclui idas a Suzano, a 35 quilômetros de São Paulo, para cortar as telas de polietileno numa máquina a laser. Esse é um dos processos que mais encarece a produção.

Gisela cogita comprar uma máquina própria e alugar um galpão para concentrar o corte das telas e a fabricação dos brindes corporativos, que têm prazo de entrega apertado (as demais sacolas continuariam sendo produzidas nas casas das costureiras). Ela, porém, teme dar um passo grande demais:

“É complicado fazer um investimento grande diante da instabilidade econômica do país. É muita responsabilidade ter um lugar fixo e funcionárias contratadas, mas isso baratearia muito o nosso custo”

A empreendedora prepara um plano de negócio para buscar investidores. Em paralelo, se mantém ligada à sua empresa, a Terra à Vista. Hoje, porém, dedica 80% do seu tempo à Sacola Tropical.

“É muito prazeroso trabalhar no terceiro setor, em que você se dedica a um projeto e vê o resultado de imediato do seu trabalho. Isso não tem preço.”

 

DRAFT CARD

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  • Projeto: Sacola Tropical
  • O que faz: Engaja costureiras da periferia na produção de bolsas, nécessaires e outros produtos
  • Sócio(s): Gisela Heizenreder Cury
  • Funcionários: 5 (além de 17 costureiras)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2016
  • Investimento inicial: R$ 1 mil
  • Faturamento: R$ 80 mil
  • Contato: [email protected]
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