A Transformação Digital já está no retrovisor. Conheça a próxima transformação que definirá a vida ou a morte da sua empresa

César Costa - 24 nov 2020
César Costa, sócio e Head de Inovação Corporativa da Semente Negócios (crédito: divulgação).
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Durante esse ano pandêmico, as mesmas reflexões surgiram frequentemente.

Por exemplo: Será que, se as empresas estivessem exercitando visões de longo prazo (+10 anos) a partir de macrotendências e tendências emergentes em seus mercados, elas não teriam começado a investir no digital mais cedo? Será que, abstraindo-se por um momento do cenário de pandemia, essas empresas já estariam investindo no digital? Ou será que continuariam fazendo aquilo que sempre fizeram?

Obviamente, adivinhar que aconteceria uma crise sanitária mundial em 2020 e começar a investir no digital seria um argumento ousado (ou de muita sorte) — é mais fácil explicar as coisas olhando no retrovisor. Entretanto, a transformação digital já era uma tendência mesmo antes do atual cenário caótico.

Durante o desenvolvimento de estratégias de inovação, as empresas têm o desafio de desapegar das suas vitórias do passado para estarem aptas a exercitarem cenários futuros. A abdicação desse exercício pode levar empresas de grande sucesso à mesma trajetória de conhecidos casos de disrupção — como Blockbuster, Kodak e Nokia, entre outras companhias que tiveram seus mercados desestabilizados pela concorrência.

A capacidade de aprender constantemente e adaptar-se às frequentes e constantes mudanças em um mundo cada vez mais VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo, na sigla em inglês) torna-se ainda mais fundamental para organizações que buscam prosperar no longo prazo.

Hoje estamos vivendo um contexto em que startups e grandes corporações que investem no digital despontaram no mercado — veja o caso da Magazine Luiza, um dos maiores cases brasileiros de transformação digital. 

Enquanto isso, aquelas que tardaram entrar nesse mundo estão batalhando arduamente para reduzir o passivo através da transformação digital, fortemente acelerada pela Covid-19. 

E depois da transformação digital, qual é a próxima grande transformação pela qual as organizações deverão passar?

Adivinhar o futuro ainda não é possível – ainda mais quando o futuro é “tão VUCA”. Porém. podemos criar hipóteses baseando-nos novamente nesse olhar para tendências e para algumas evidências que emergem pelo mundo. 

A minha hipótese é de que passaremos por mais uma grande transformação — e, dessa vez, é a de uma inovação voltada para a valorização da vida.

Trago a seguir duas evidências que corroboram essa hipótese.

A primeira é relativa à emergência dos chamados nativos ecológicos. Essa é uma categoria de jovens dentro do grupo de nativos digitais que, pela disponibilidade e acessibilidade de informações hoje existentes, passam a entender e a se preocupar com os impactos negativos que o ser humano e as organizações têm gerado ao planeta. 

Os nativos ecológicos são pessoas que provocam constantemente organizações a serem mais transparentes, autênticas e responsáveis. Diversos estudos apontam que os consumidores do futuro estarão alinhados a esse perfil

Uma dessas pesquisas é a da Accenture, realizada com 6 mil consumidores em 11 países da América do Norte, Europa e Ásia, que concluiu que mais da metade dos consumidores pagariam mais por produtos sustentáveis projetados para serem reutilizados ou reciclados. 

Outra pesquisa global, dirigida pela Nielsen, atestou que consumidores estão buscando empresas que se importam com o meio ambiente, colocando a geração Millennials (21-34 anos) como a mais preocupada, seguida da geração Z (15-20 anos).

A segunda evidência é relacionada ao capital financeiro. Alguns dos maiores investidores do mundo estão começando a olhar para sustentabilidade como critério de alocação de capital. 

A BlackRock, maior gestora de portfólio de investimentos do mundo, já usa critérios de sustentabilidade como um guia para suas decisões de investimento. Além disso, não está apenas integrando os critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança – Environmental, Social and Governance, em inglês) na análise de ativos, mas também retirando de seu portfólio empresas que não atendam a padrões mínimos de adequação socioambiental ou estejam envolvidas em controvérsias. Por exemplo, estão reduzindo suas posições em empresas nas indústrias de carvão e petróleo

A carta de Larry Fink é um marco fundamental para o universo corporativo. O CEO da BlackRock, que administra um montante de ativos equivalente a 7,4 trilhões de dólares, publicou no início de 2020 uma carta aberta reforçando o compromisso de suas contribuições com os valores sociais e ambientais. Se fosse um país, o dinheiro administrado pela BlackRock estaria no terceiro lugar do maior PIB mundial, atrás apenas de EUA e China.

No Brasil, essa movimentação já tem sido observada através de grandes bancos como o próprio BNDES prevendo um investimento de 8,5 bilhões de reais para projetos ESG ou o Banco Central engajando-se com a agenda da sustentabilidade, além de iniciativas de outras organizações que defendem o tema. Há exemplos entre startups, como a Warren, que lançou ainda em 2019 o Warren Green, fundo de investimento focado em empresas nacionais e internacionais sustentáveis e socialmente responsáveis. 

O futuro aponta que de um lado seus consumidores e colaboradores se preocuparão com o impacto social e ambiental que você está gerando no planeta. E do outro lado seus investidores estarão cobrando não só o resultado financeiro da sua empresa, mas o “tripple bottom line” — financeiro, social e ambiental. 

Em outras palavras, se sua empresa não estiver preparada para esse novo contexto, ela terá dificuldade de prosperar — ou pela falta de clientes e colaboradores, ou pela falta de investimento

Enxergo uma aproximação importante dos núcleos de inovação das grandes empresas com seus núcleos de sustentabilidade para desenvolver novas competências organizacionais na busca por soluções para esses desafios socioambientais. 

Essas novas competências serão fundamentais para a transformação não só da própria empresa, mas de toda a sua cadeia de valor. É o caso, por exemplo, da Natura, empresa apoiada pela Semente Negócios para o desenvolvimento do seu laboratório de inovação social.

O projeto foi vinculado ao Movimento Natura, iniciativa idealizada pelos fundadores em que a rede é mobilizada para causas sociais. Ao criar o Laboratório de Inovação Social, a empresa busca implementar metodologias inovadoras para que mais iniciativas sejam desenvolvidas na área da saúde, educação e direitos da mulher, visando uma melhora na qualidade de vida das consultoras e de suas famílias.

No projeto, a Semente apoiou o Movimento Natura na implantação de metodologias ágeis, formação de squads, conexão com startups e acompanhamento de todas as iniciativas de inovação iniciadas no laboratório. Isso garantiu que as metodologias apresentadas fossem bem implementadas, resultando em uma série de frentes de inovação voltadas à educação, saúde e violência doméstica.

Outro exemplo pode ser ilustrado pelos esforços da L’oreal, que tem iniciativas no seu setor de sustentabilidade para tornar sua cadeia de valor mais sustentável. Recentemente, a marca anunciou o lançamento da primeira embalagem sustentável do mundo feita a partir de gás carbônico. Trata-se de um processo inovador desenvolvido em parceria com as empresas LanzaTech e Total, em que o gás carbônico é reciclado e convertido em plástico.

As organizações efetivamente inovadoras serão aquelas que compreenderão esses sinais de tendências voltadas à sustentabilidade e conseguirão criar soluções que valorizem a vida — a dos seres humanos e a dos demais seres que coabitam nosso planeta.

 

César Costa é sócio e head de inovação corporativa da Semente Negócios. Administrador pela UFRGS, Mestre em Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade pelo PPGA/UFRGS, estudou management na Lund University, na Suécia e Strategic Management & International Business na University of La Verne, nos EUA. É Coach Profissional e Analista Comportamental formado pelo Instituto Brasileiro de Coaching e mentor no InovAtiva Brasil. Já desenvolveu projetos de inovação em empresas, como Natura, NSC, Cianet e Mercur, entre outras.

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