“O problema é que fomos programados no Brasil para sermos legais, amáveis, lindos. Se alguém diz que você é racista… que absurdo!”

Marina Audi - 7 jul 2022
Ana Minuto, fundadora da Minuto Consultoria e do evento Potências Negras.
Marina Audi - 7 jul 2022
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Eloquente e pragmática, Ana Minuto adora desenvolver pessoas, mais particularmente, profissionais negras e negros.

Ela é fundadora da Minuto Consultoria, que trabalha temas de diversidade e inclusão em corporações, além de aplicar mentorias e o método de coaching multipotencial, modelado por ela especificamente para as necessidades de grupos subrepresentados.

Nascida em um dos maiores bairros do Brasil – Guaianases, na zona leste de São Paulo –, ela se define como “ongueira-raiz”, pois viu a mãe criar a Fala Negão/Fala Mulher na década de 1990 para apoiar mulheres vítimas de violência doméstica.

Ana salienta que, mesmo sem privilégios, teve facilidades para perseguir o sonho de ser milionária. Sua família era estruturada, tinha casa própria e, assim, ela pode cursar faculdade de sistema da informação na Fiap, aos 24 anos, enquanto trabalhava.

Como (infelizmente) era de se esperar, enfrentou preconceitos nas corporações por onde passou. Por outro lado, contou com a ajuda de aliados – pessoas brancas que já haviam despertado a própria empatia. 

Desde 2021, Ana vem escalando seu impacto e realiza o Potências Negras. O evento de formação, conexão e networking “feito por pessoas pretas para pessoas pretas” terá sua quarta edição em agosto, com foco em tecnologia.

Ela coordenou ainda a edição do livro A potência: Empreendedorismo da mulher negra, lançado em maio, em que 14 coautoras dividem conhecimentos de empreendedorismo, suas conquistas e trajetórias pessoais. Entre elas, Andreia Lima, Isabela Brito, Marcia Deraoui, Samanta Lopes e Taís Araújo.

Leia a seguir o papo inspirador (e às vezes incômodo, mas sempre necessário) entre Ana Minuto e o Draft.

 

Sua mãe, Maria da Penha Nascimento de Campos, foi fundadora da escola de samba Leandro de Itaquera, em 1982, e, dez anos depois, da ONG Fala Negão/Fala Mulher, após se libertar de uma situação de violência doméstica…
Minha mãe foi uma mulher inovadora. Acho importante trazer isso pro papo, porque a inovação é criada e vivenciada no dia a dia. 

Quem passa por organizações sociais têm tendência a ser mais inovador porque o ambiente de escassez faz com que você crie, busque alternativas e faça parcerias 

Então, minha mãe foi fundadora da Leandro de Itaquera, do Fala Negão/Fala Mulher, e foi a primeira diretora de harmonia do Carnaval de São Paulo – uma mulher negra. Foi uma das fundadoras da rede de apoio a mulheres vítimas de violência doméstica na zona leste; foi assessora parlamentar… e ela só finalizou o segundo grau no EJA [Educação de Jovens e Adultos, o antigo Supletivo]. 

Minha mãe se casou com meu pai porque ficou grávida de mim. Nem a família do meu pai e nem a da minha mãe queriam o casamento, mas ela resolveu se casar mesmo assim. 

Meu pai tinha um problema sério com bebida e ela passou por violência doméstica durante muito tempo. Ela virou a chave quando meu pai abusou de mim… foi quando ela falou: “Já é muito pra mim!” 

Ela conseguiu se desvencilhar dessa violência, colocou meu pai na cadeia e criou consciência do que era ser uma mulher negra. Foi quando começou o ativismo dela. A partir de uma dor, ela começou a criar alternativas para que outras mulheres não passassem por aquilo

Um ponto importante é que ela tinha pra onde voltar. Porque quando a gente fala de violência doméstica, muitas mulheres se mantêm nesses ambientes porque não têm família, não têm pra onde voltar. Quando a minha mãe casou, foi morar de aluguel, mas já tinha casa própria com a minha avó, meu avô e meu tio – e nós voltamos pra casa da minha avó. 

As pessoas não passam por violência doméstica porque acham “bonitinho”. Às vezes, elas não têm força emocional pra dar conta disso. No Brasil, que vem do processo escravocrata e da cultura do estupro, a gente não consegue entender essa violência ainda. 

Além do desafio de se libertar emocionalmente de uma situação pesada, complicada, quão difícil foi para ela, em 1992, criar uma organização para falar sobre essa violência doméstica?
Acredito que são os mesmos desafios que temos hoje. Avançamos em algumas coisas, mas ainda não se criou consciência da urgência disso. Em 1992, a gente estava num processo de não ter muito “escurecido” [evidente] o que é ser negro. 

Acredito que uma das inteligências do sistema foi fazer com que a gente acreditasse que ao se misturar no casamento interracial, você ia deixar de ser negra. A partir daí, você vai clareando e perde a sua identidade racial. 

Um dos maiores desafios do Brasil é o negro não saber quem é. Se eu não sei quem sou, vou me associar ou querer estar próximo do que vai me trazer mais vantagem, do que vai ser menos dolorido, pra eu ter que lidar menos com o racismo

Esse é um ponto que esses grupos sofreram. Hoje, temos um pouco mais de consciência. O segundo ponto é o não-reconhecimento do trabalho realizado por todas as instituições – não só as relacionadas às questões raciais, mas todas as ONGs – que estão aí em prol da sociedade. Lembrando que as ONGs só existem porque o estado não dá conta de 211 milhões de pessoas, suas dificuldades e desafios. 

O terceiro ponto passa pela falta de rede de apoio e de networking. O mundo é desenhado para homens e mulheres brancos, é organizado para atender pré-requisitos que, muitas vezes, a população negra desconhece, porque é um mundo totalmente diferente. 

A captação de recursos também foi um desafio. Existem milhões de reais disponíveis para as ONGs – e as ONGs pretas não conseguem captar esse valor, porque não têm networking ou não têm conhecimento técnico para desenvolver um projeto

O machismo e o racismo naquela época também eram muito fortes, o que dificultou o processo de abertura dessa ONG, mas o grupo que criou teve a coragem de enxergar que podia ser feito algo mais. E aí minha mãe passou a vida em prol de outras mulheres.

Não sei se ela conseguiu se livrar da violência… ela morreu com 58 anos, muito nova, com um câncer arrasador. A gente percebe, sim, que naquele momento ela conseguiu dar uma virada de chave, mas é diferente de mim… 

Eu sou terapeuta, consigo ir numa psicoterapia, por exemplo. Em 1992, quem buscava psicoterapia era quem tinha “problemas mentais”. Se você era forte, não precisava de terapia!

Os processos e o racismo mudaram? Não. A única diferença é que, hoje, eu tenho celular, gravo [casos de agressões racistas] e a partir daí a opinião pública, a população vai fazendo um movimento de mudança.

Em paralelo a acompanhar as atividades da ONG, aos 16 você começou a trabalhar na mesma confecção que sua mãe como enfestadeira. Depois, fez concurso público e passou três anos nos Correios e, na sequência, iniciou carreira na área de tecnologia pelo telemarketing do IG, em 2000, quando a internet estava começando a explodir…
Sim, foi lá que eu comecei a olhar tecnologia como uma possibilidade. Fui pra telemarketing para fazer cadastro de usuário. 

Naquela época – e hoje não é diferente –, a gente ia mudando de empresa de telemarketing, vai para a que paga 50, 100 reais a mais. 

Até que cheguei na STI, o primeiro provedor pago do Brasil, onde fui analista de suporte. Então, comecei a ganhar mais – estava com 24 anos – e foi quando consegui pagar a faculdade de sistema de informação. 

Naquele momento talvez não fosse evidente que a tecnologia seria um caminho para uma carreira bacana. Como você enxergou essa abertura?
Na real, ninguém sabia, nem eu! A tecnologia era muito nova naquela época, era um mundo muito restrito… como hoje também, né? A gente acha que mudou, mas continua restrito. 

Pessoas pretas, normalmente, não pensam em carreira. Elas não sabem o que é isso, simplesmente precisam trabalhar. E o que eu tinha muito escurecido [evidente] pra mim é que eu queria ser milionária 

Quando fui pra essa empresa e percebi que eu ganhava muito mais do que já tinha ganho trabalhando nos Correios… Eu olhei o salário e falei: “Com isso vai dar pra pagar a faculdade, então, vou pra cima!”

Uma coisa que gosto de trazer é que existem facilidades. Naquele momento, eu tinha uma facilidade – uma casa própria. Logo, não tinha que pagar aluguel. Eu tinha uma família que podia, minimamente, pagar água, luz e alimentação. Então, o dinheiro que eu ganhava –  1 200 reais – quase tudo ia pra pagar a faculdade… 800 reais.

As pessoas dizem pra mim: “Você é exemplo de representatividade…”. Se for a representatividade da forma difícil como foi a minha vida até chegar aqui, eu prefiro que não seja! 

Eu saía de Guaianases, onde morava, para ir pra Alphaville [em Barueri, a cerca de 67 km de distância] – eu trabalhava meio período – e demorava mais de duas horas. Depois, levava duas horas indo pra faculdade, na Vila Mariana, e mais duas horas pra voltar pra casa. Passava mais tempo na condução do que estudando. Não tinha como ser uma excelente aluna com essa realidade. 

E apesar dos desafios, eu tive facilidades. Minha família é de pessoas inteligentes, que liam e estudaram muito. Meu tio já tinha faculdade de jornalismo; eu olhava pra ele e pensava que eu também poderia ter. 

Minha mãe levava a gente pra romper barreiras… uma vez por mês, nos levava no melhor restaurante que ela podia pagar, pra gente comer e vivenciar aquele ambiente. Ela nos colocava [em contato] com pessoas e realidades diferentes pra que a gente entendesse que podia estar em qualquer lugar 

Isso foi determinante pra chegar aqui… esse incentivo emocional de que eu posso entrar, de que é pra mim, de que esse é o caminho. Ela dizia: “Você pode ir pro samba, pra balada – mas tem que estudar e trabalhar”. 

Entre 2003 e 2014, você passou para o mundo corporativo Teleperformance, CORPORIS e CSU (com um hiato entre 2008 e 2011 quando assumiu a ONG Fala Negão/Fala Mulher). Atuava em tecnologia, mas já tinha alguma derivação para desenvolvimento humano e políticas de diversidade e inclusão?
Na realidade, sempre fiz isso, porque vim de uma organização social que olhava pra isso. Então, sempre tive uma visão muito aberta, já enxergava que era a única negra, quais eram os racismos e desafios pelos quais eu passava. 

Uma coisa que acontece com a população negra e que aconteceu comigo é: eu era muito reativa, porque era um ambiente que só tinha eu de mulher, só tinha eu de mulher negra… era porrada, pancada e bomba! 

Se eu disser pra você que tive tempo de pensar… não tive. Eu só fui. Eu sabia o meu lugar de fala, sabia que era uma mulher preta e tinha que me posicionar. Eu sabia que eu sou muito foda em tudo o que faço – e fui pra cima. Trabalhei, e as coisas foram acontecendo 

E tive alguns aliados imprescindíveis. Um deles é o Paulo Wagner Pontes Ribeiro, um homem branco que já era CIO nas empresas por onde passei – Teleperformance e CSU… Ele foi, muitas vezes, quem me manteve empregada, porque as pessoas queriam me tirar, por machismo e racismo. Por isso é tão importante uma pessoa branca consciente no lugar de decisão. 

Essa experiência no mundo corporativo me fez entender a importância da inteligência emocional, de fortalecer e reconhecer quem você é, as suas histórias. A importância de ter networking e entender que não adianta ter a ilusão de que o mercado vai mudar de um dia pro outro. Quando se fala que vai demorar 200 anos para se ter minimamente equidade racial, não é à toa! 

Estamos falando de uma reprogramação mental. Nós, mulheres de 40 e 50 anos, tivemos uma programação machista, homofóbica, racista… e, de alguma forma, a gente reproduz isso nos nossos ambientes. É importante analisar e entender o que está acontecendo e não repetir, não dar risadinha…

E essa história de culpar as mulheres porque uma não ajuda a outra… esse é o processo: somos criadas assim e estamos passando por uma reprogramação mental. Isso também exige da gente amor e cuidado por nós mesmas. 

Essa cobrança não ajuda, porque é estrutural. Seja a mulher branca ou preta, ela não está no topo. Não foi ela que desenhou o mundo. Logo, ela vai viver as violências e as microviolências que acontecem todos os dias.

2013 foi o seu ano da virada, de descobrir ferramentas para não pirar diante dessa estrutura? Foi quando você iniciou a formação de coaching pela SBC Coaching, a formação em terapia floral, iniciou o MBA em Gerenciamento de Projetos pela FGV e a formação em PNL pela SBPNL…
Não foi nada planejado. O que aconteceu foi que minha mãe morreu em 2008 de um câncer arrasador. Eu e minhas irmãs cuidamos dela e esse processo foi muito difícil. Fiquei deprimida pelo menos dois anos… trabalhava, fazia o que tinha de ser feito, mas muito deprimida.

Quando ela faleceu, fui auxiliar a ONG. Fiquei até 2011 e abri um salão de cabeleireiro, com uma amiga. Durou um ano e meio. Lá, aprendi uma coisa que pessoas com valores e necessidades diferentes não conseguem manter um negócio juntas. 

Minha sócia precisava pagar contas, cuidar dos filhos, levar comida pra casa. Eu só queria ser milionária, não tinha filho nem responsabilidades, morava na casa da minha família. Então, não rolou, mas me trouxe grande aprendizado 

Tentei voltar pro mercado, na CSU, mas já não fazia sentido. Uma coisa que aprendi em casa é: você tem que estar onde faz sentido pra você, onde você tem um objetivo, um propósito, uma motivação. Se não, não vai funcionar.

Então, decidi que precisava entender: por que estou me sentindo insatisfeita? O que preciso fazer diferente?

Fui fazer um curso de coaching. Eu não queria ajudar ninguém, na verdade: eu queria que as pessoas se danassem, porque eu estava passando por uma dor com a qual não conseguia lidar – a dor do falecimento de minha mãe e da minha separação

O curso me respondeu algumas perguntas. Uma delas: por que os grupos subrepresentados – na época eu pensava em mulheres e pretos – não se sentem merecedores, não conseguem enxergar suas potencialidades?

Fui criada pra viver minhas potencialidades. Minha mãe permitia que a gente fosse o que quisesse. Eu fui madrinha de bateria, porta-bandeira e milhões de outras coisas… sempre utilizando meu potencial. 

Depois, entendi que o mundo está programado a olhar só o que a pessoa não tem. Ninguém te fala: “Você é boa comunicadora, invista nisso, porque é isso que vai te levar pro próximo nível” 

Quando comecei no desenvolvimento humano de forma estruturada – sem contar o tempo de ONG –, entendi por que recebia feedbacks repetidos em relação à minha personalidade. Eu não estava conseguindo mudar e então fui atrás pra entender por que eu fazia o que eu fazia. Comecei um processo de cursos sem fim, porque é necessário que o ser humano mude todos os dias. 

Fui fazendo os cursos e decidi que não queria mais ficar na empresa. Saí da CSU e com esse dinheiro abri a Minuto Depil Center, que era um centro de depilação no extremo da zona leste também. 

Comecei do zero. A tecnologia me ajudou, através dela que consegui fazer a divulgação, os panfletos, estar no Facebook, no Google. Meu conhecimento de tecnologia me trouxe um negócio próspero. Consegui vender pra uma pessoa da equipe dar continuidade.

Foi lá que aprendi a empreender. Foi difícil… eu só queria ser rica e achei que bastava fazer um lugar maravilhoso que as pessoas viriam e a depiladora estaria lá. Mas tive que aprender a depilar, eu tive que aprender tudo

Se cheguei aonde cheguei com a Minuto Consultoria é porque na Minuto Depil Center eu aprendi a ter resiliência, ser paciente, negociar, lidar com pessoas… Ali, me tornei uma empresária. 

Em paralelo, aplicava um coaching aqui, outro ali. Vi que as pessoas tinham resultado. Eu utilizava terapia floral, PNL, Barra de Access Consciousness. Fui ampliando conhecimentos e comecei a fazer essa junção. Por isso, hoje, falo em coaching multipotencial, que vê a pessoa como um todo. 

Eu olho a pessoa pelas questões mais pragmáticas, porém a população negra e as mulheres têm uma necessidade anterior – a questão emocional. 

Muitas de nós somos ótimas profissionais, mas vamos morrer batendo carimbo. Porque muitas não têm essa energia de olhar e dizer: “Hum, eu posso me inscrever para aquela vaga”. O homem, com 30% de fit já se inscreve, se acha bom o suficiente. A mulher pode ter 70% de fit e não se inscreve!

Que mundo é esse em que tudo é tão positivo para eles? Não que os homens não tenham os seus desafios, não estejam adoecidos… A questão é não ter tantos limites mentais. Enxergar o próximo nível faz toda a diferença. Foi nesse momento que surgiu o processo focado só pra negros.

Porque o problema do ser humano não é técnico – você aprende a fazer uma entrevista, aprende a digitar –, mas é preciso treinar como lidar com os desafios emocionais do dia a dia. Como olhar para aquilo e reconhecer que é importante.

Só você aplica o método Coaching multipotencial ou já formou outros coaches?
Ainda não formei outras pessoas. Estou organizando isso de forma processual, internamente, pra começar a formar outras pessoas. 

Tenho bastante demanda para trazer o processo de coaching focado para população negra, porque por mais que as pessoas brancas sejam boas no que fazem, existe uma questão subjetiva que é a dor emocional que o racismo gera – a falta de pertencimento, lugar, espaço, reconhecimento, de ver as potências

Durante a minha vida toda ouvi que eu não era bonita, que não tinha que ter esse cabelo, esse nariz. A diferença é que eu vim do Carnaval, das ONGs, do samba-rock, onde as pessoas me reconheciam como uma potência daqueles espaços. Isso fez diferença na minha vida. 

Quando olho pros meus sobrinhos hoje, vejo que eles se sentem os mais lindos, inteligentes e ricos do mundo, porque alguém falou pra eles que era possível e treinou o fortalecimento dessa identidade. Tudo isso faz diferença na formação do pilar emocional – principalmente de uma criança preta. 

Parece que até a fundação da Minuto Consultoria, seu ativismo social não tinha chegado completamente ao campo profissional. Concorda? Para que tipo de trabalho a consultoria é mais acionada atualmente?
A Minuto Consultoria surgiu em 2013, quando entendi que só estar na Minuto Depil Center não fazia mais sentido pra mim, estava ficando chato. 

E o que move o mundo? O objetivo. E meu objetivo era ficar milionária. Eu demorava meia hora, uma hora pra fazer uma depilação e ganhar 50 reais. Falei: “Não é mais aqui. O meu tempo já deu”. 

Comecei a ir pro mercado e ser acionada pra fazer consultoria. A primeira a me chamar foi a Comunidade Empodera e gosto de honrá-la porque foi a partir dela que passei a estar dentro de grandes corporações. 

Um dos primeiros trabalhos foi fazer recrutamento e seleção dos estagiários negros do Google, a primeira ação afirmativa deles no Brasil de forma declarada [o programa Next Step, lançado em 2019]. 

É interessante porque eu não tinha nenhuma pretensão de falar sobre diversidade e inclusão. Nem queria saber disso, eu queria saber de desenvolvimento humano, que é o que eu amo fazer

Mas as pessoas entenderam que eu tinha uma boa comunicação – a eloquência e a segurança são coisas que eu desenvolvo a vida toda – e isso começou a acontecer de forma natural, porque eu já tinha o conhecimento emocional de como fazer esses acionamentos com as pessoas. 

Aí a gente chegou onde está hoje. A Minuto é uma consultoria que trabalha com diversidade e inclusão e nosso objetivo é auxiliar as empresas a fazerem mais a inclusão racial, porque diversa toda empresa é. 

São 211 milhões de pessoas com impressões digitais diferentes. Mesmo que as pessoas brancas achem que não são diversas, sinto muito, são sim, porque não tem cópia!

Hoje, a gente trabalha com foco na liderança inclusiva, trazendo informação sobre quais soft skills precisam ser desenvolvidos. Trabalhamos com coaching multipotencial e mentoria para liderados e líderes. 

Esses processos passam muito por aceleração de carreira de grupos subrepresentados – mulheres, negros e PcDs, mas nossa maior atuação é pra negros. 

Pensando em comprometimento com o ESG: ainda há muita resistência das grandes corporações em contratar, desenvolver e promover profissionais negros? Dá pra distinguir eventuais esforços legítimos e o que é apenas bablablá corporativo?
Eu sou bem pragmática. Enquanto não doer no bolso de alguém, não vai acontecer. 

Em 2020, quando aconteceram várias mudanças no mundo, a gente estava com uma média de 21% de empresas olhando para diversidade e inclusão com foco. Em 2021, mesmo com tudo que aconteceu, aumentou para 31%. Hoje, estamos com [apenas] 17%!

Por que subiu? Porque estávamos em pandemia, porque teve a morte de George Floyd, porque começamos a falar mais sobre o assunto e todo mundo achava que era importante. Agora, já não é mais mote. Agora, as pessoas estão preocupadas com saúde mental

Eu entendo que as pessoas estão voltando pro trabalho presencial e tem todo esse estresse. Mas esses números demonstram o quanto a gente está à mercê da boa vontade [em termos de inclusão]. E boa vontade não paga contas!

A BlackRock uma das maiores empresas de gestão de ativos do mundo e que também olha para startups – diz que empresas que não fizerem diversidade e inclusão de fato, principalmente racial, vão começar a não receber aportes e terão dificuldades de estar na bolsa de valores.

A maioria das empresas do país são pequenas e médias, e não estão pela diversidade e inclusão. São pessoas brancas que tomam conta e acreditam que está tudo bem assim. As empresas que estão fazendo inclusão são as multinacionais que, muitas vezes, já olham isso desde a década de 1960. 

No Brasil, a gente tem o desafio de se reconhecer como negro ou não. Depois, o desafio de que “negro não é bom”, então a pessoa passa a não querer se associar com a negritude. 

Se a pessoa não se reconhece como negra, ou não se reconhece como racista, machista, homofóbica, xenofóbica, coloca a venda nos olhos e faz inclusão [apenas] porque a empresa falou que tinha que fazer 

Estamos avançando? Sim, a passos muito curtos. As pessoas entram, mas não conseguem se manter nessas empresas, porque não são ambientes inclusivos! 

As empresas têm, hoje, problemas mais complexos – e só pessoas diferentes vão conseguir resolver esses problemas. Se não for assim, elas não vão avançar. E é aí que vai começar esse processo de perder dinheiro!

É por isso que amo a tecnologia… No primeiro momento, ela trouxe voz aos grupos subrepresentados. Hoje, só consigo saber que a população negra movimenta 2 trilhões de reais por ano – 40% do PIB – porque existe uma tecnologia que faz pesquisa e capta isso!

E acredito que tem um movimento dos grupos subrepresentados. Essas pessoas terão de escolher de quem irão comprar, a quem vão dar seu dinheiro. Se isso não acontecer, as empresas continuarão achando que está tudo bem, porque as pessoas continuam comprando. Então, tem de haver um movimento dos dois lados. 

As empresas vão ter de colocar, sim, percentual de perda se não conseguirem manter uma diversidade de inclusão. E você, cidadão, vai ter que começar a se movimentar, se posicionar e parar de comprar de empresas que não te representam 

Não dá pra culpabilizar uma pessoa preta porque ela passa [sofre] racismo. Mas existe uma responsabilidade dela: reconhecer quem ela é, reconhecer o poder do dinheiro dela – e começar a criar consciência pra gerar a mudança, principalmente financeira.

E as organizações têm responsabilidade de mudar a cultura e política internas para manter as pessoas negras. Não tem como avançarem sem desenvolver essas pessoas, porque não é só o aspecto técnico, existe a questão emocional que as terapias, os ambientes de saúde mental e o coaching podem ajudar.

Você tem uma colocação interessante sobre o combate ao racismo e aos vieses: afirma ser quase um processo de conexão e convivência com pessoas diferentes. O que é preciso para isso acontecer em um ambiente empresarial, onde, em geral, não sobra tempo para quase nada?
É importante trazer que estamos numa jornada sem fim. Por isso, o autoconhecimento e o conhecimento dos seus vieses são importantes.

Estamos no momento “ooh, tem pretinhos no Brasil, tem mulheres, tem PcDs”! 56% da população é preta; 52% é mulher; 13% é LGBTQIA+; 24% é PcD… Hoje, temos mais pessoas de 60 do que de 9 anos de idade. Então, a gente não está mais funcionando da forma que estava até ontem!

Todos nós estamos numa pegada de aprendizado. Não é porque eu sou a mulher preta que eu sei de tudo. Eu estou aprendendo todos os dias.

Na década de 1990, já fazíamos uma forma de inclusão, só não usávamos a palavra diversidade. A gente falava de violência doméstica, racismo, de pessoas serem mortas, pessoas serem paradas pela polícia. Hoje, estamos falando de trazer mais pessoas dos grupos subrepresentados para grandes companhias. Então, é uma jornada.

As pessoas acreditam que diversidade e inclusão é uma pílula que se toma em um ambiente diverso pra gostar de todo mundo. Não! Nós temos um desafio muito grande, porque falamos de valores… e os nossos valores são racistas 

Não adianta romantizar: “Vamos conseguir terminar com os vieses”. Não vamos, porque essa é a forma como o mundo é estruturado e as nossas mentes tomam decisões mais rápidas – que às vezes não são as melhores – se vão para essa estrutura automática! 

A questão é: quais são esses vieses e como vou reprogramar minha mente? Como não achar natural atravessar a rua quando você vê uma pessoa preta? 

Vamos precisar agilizar essa reprogramação dos vieses [inconscientes]. Como? Primeiro, me autoconhecendo. É preciso saber o que faz sentido pra você, com quem você se conecta, quais são seus valores – e quais deles te impedem de olhar pessoas pretas e se relacionar com elas. Depois é que vem a tomada de consciência: “Tenho um problema: sou racista, machista, xenofóbico”

O problema do Brasil é que fomos programados pra sermos legais, amáveis, lindos. Se alguém vem me dizer que eu sou racista… que absurdo! Não queremos reconhecer essa parte que não é tão legal na nossa caminhada. Só que faz parte da vida! Ao reconhecer esses vieses, ao reconhecer que você tem um problema, a partir daí você vai estudar para reprogramar isso.

E uma coisa que precisa ficar escurecida – ou nítida – é que não é obrigação minha ensinar brancos. Eu posso trazer informação, mas isso deve ser propositivo: você vai ter que estudar e se organizar pra entender, minimamente, o mundo onde está vivendo 

Um dos nossos maiores desafios dentro das corporações é o assédio moral, porque, em geral, você não consegue entender se é racismo, se é xenofobia, se é machismo. Porque é possível assediar qualquer pessoa, por isso a gente ainda fala pouco disso. 

A conscientização dessa jornada de autorresponsabilidade, de entender que eu não sou culpada pelo racismo – mas sou responsável por criar um mundo melhor –, tem que ser o mote pra gente avançar. 

Dentro das corporações não vai ser genuíno, terá de ser obrigatório, propositivo. E será preciso dinheiro para fazer as ações e treinar pessoas para que elas sejam melhores dentro do ambiente… ou até [se for o caso] para demiti-las

A população, o Estado e as empresas vão precisar se unir para diminuir esses impactos e pautar o reconhecimento do ser humano como uma pessoa potente, que pode entregar o melhor dela.

O capitalismo criou essa ideia de que você precisa ser sempre menos… ganhando menos, você entrega muito mais. Quer dizer, você ganha pouco e entrega 20, 30 vezes mais para que a empresa possa fazer dinheiro. O ser humano está entendendo que pode fazer dinheiro, fazer o bem e gerar um ambiente mais positivo. 

Fala-se muito: “A gente precisa mudar as empresas”. Não! As empresas são órgãos fixos. Quem faz a transformação são as pessoas. E essas pessoas precisam entender que elas têm responsabilidade dentro desse ambiente, senão não acontece 

É lógico que tem cultura, política e processos que têm de ser ajustados, mas quem ajusta isso são as pessoas. Se elas não criam essa autoconsciência de que nós somos um e tudo que acontece no mundo também é responsabilidade delas… que elas podem ser também agentes transformadores que agem todos os dias com pequenas ações, elas não vão fazer.

Você atua também como consultora na aceleradora online Startadora, é voluntária do Grupo Mulheres do Brasil e mentora na ONG AWEBrasil. Quais as demandas mais urgentes e feedbacks mais frequentes que você escuta ao conversar com afroempreendedores?
O primeiro ponto é: o empreendedorismo negro existe desde que o mundo é mundo. Existe porque não somos bem quistos dentro de grandes companhias. Então, somos empreendedores por necessidade. 

A maioria de nós empreende porque está desempregada, porque o mercado não nos absorve. E se uma pessoa empreende por necessidade, vai fazer o que sabe, da forma que dá – uma trança, um artesanato. Não vai planejar. 

Quando resolvi ser empreendedora, sabia que não ia passar fome – porque tinha apoio familiar, minhas irmãs estavam bem estruturadas –, pude investir meu dinheiro no que quis. Já a maioria da população negra empreende – cerca de 54% –, mas não consegue pagar um funcionário. Por quê? 

Porque, primeiro, tem a educação em relação ao negócio e nós não recebemos essa educação, não estamos aprendendo a gerir. Nós gerimos do nosso jeito – mas uma gestão que faça a conexão com corporações ainda está sendo aprendida. 

Tem ainda a questão do racismo. Solicitações de empréstimos são negadas de três a quatro vezes mais para nós, quando comparado a uma pessoa branca. Além disso, temos mais dificuldade para fazer uma venda para pessoas brancas – o tipo de venda que, em geral, faz um negócio escalar

Se estou em grandes corporações é porque pessoas brancas me levaram até lá. Hoje, existem mais indicações de pessoas negras porque há mais pessoas negras no ambiente – mas a maioria é de pessoas brancas. 

Profissionalizar a empresa exige conhecimento, dinheiro, networking e aliados. A tecnologia ajuda, mas não é suficiente. É preciso educar essas pessoas para entenderem como melhorar o negócio, como embalar numa caixinha bonitinha pra poder vender. Estamos nesse processo.

Em janeiro do ano passado surgiu o Potências Negras. O que foi o primeiro evento? Que resultados vocês colheram?
Sempre sonhei em criar um evento que fosse de preto pra preto. Sempre que eu falava desse projeto, as pessoas não davam atenção. E nessa caminhada comecei a fazer um trabalho com a Profissas, levei a ideia e eles toparam. 

Fizemos nosso primeiro summit em março de 2021. O objetivo era enegrecer o mercado de trabalho e, muito mais que isso, mostrar pra população negra que é faxineira ou escriturária que tem pretos CIOs, diretores etc.

Eu tenho uma rede grande de contatos… buscamos todas as pessoas negras e as trouxemos pra falar sobre suas histórias e como chegaram lá.

A gente entrou zerado, investimos do nosso bolso uns 30 mil reais. Depois, captamos um pouco daqui, um pouco de lá e acreditamos que o projeto ia se pagar. Foi sensacional: foram mais de 15 mil pessoas participando, 12 horas de evento, com essas trilhas de conhecimentos – oito aulas de 45 minutos –, atividade cultural e painéis. Isso até mudou a forma como o mercado passou a fazer eventos online. 

O segundo ponto é que recebemos centenas de relatos de como as pessoas começaram a enxergar de forma diferente, a entender que era possível. Depois, teve a questão da empregabilidade. Ajudamos pessoas a conseguirem emprego nessas empresas que faziam ações afirmativas. E pra mim, o maior [ganho] de todos é subjetivo: é [acreditar] se alguém fez, eu também consigo

Daí pensamos em aumentar e avançar em um segundo evento, que foi o Potências Negras Tec [em agosto de 2021]. 

Se a população negra ou os grupos subrepresentados não se apropriarem dos ambientes de tecnologia hoje, não poderão reclamar daqui a cinco anos que estarão excluídos novamente

O Potências Negras Tec foi um boom de participação de parceiros. Nele a gente começou a fazer recrutamento e seleção na hora de almoço, pra que as empresas apresentassem seus pitches e as pessoas pudessem conhecer as empresas.

Um dos maiores ganhos desse projeto foi que as empresas brancas não conseguem chegar na população negra, não a conhecem. E o Potências Negras é a ponte entre um e outro que se conecta no evento, faz essas trocas e continua fortalecendo durante a caminhada. 

O último [evento], fizemos pra mulheres pretas [o Potências Negras Mulheres, em abril de 2022]. E aí tem um dado importante: nesse não tivemos tanto apoio financeiro. 

Nos outros deu pra pagar as contas e ainda ter lucro. Esse evento não deu lucro. Conseguimos atingir pessoas, mas tivemos menos captação, menos parceiros… Esse evento demonstrou que mulher preta não é prioridade no Brasil

Em agosto, vamos fazer o Tec de novo. Parte dele vai ser presencial, com plateia, e estou animadíssima. 

Estamos plantando hoje e só vamos ver resultado daqui a 10, 20 ou 30 anos. Não é “para hoje”; é para que os filhos de meus sobrinhos tenham uma vida mais próspera e abundante. E isso depende de uma reprogramação mental e emocional.

O Brasil passou 74% de seu tempo [de sua história] num processo escravocrata e apenas 26% de tempo de um Brasil “liberto”. Por mais que a tecnologia esteja a nosso serviço, se quem a programa são só pessoas brancas, vamos continuar repetindo os mesmos resultados.

Como anda sua relação com o LinkedIn após o episódio de a plataforma excluir anúncios de processos seletivos com preferência a candidatos negros e indígenas – e o seu pronunciamento duro contra a rede social?
Eu sou Top Voice no LinkedIn porque tenho voz e tenho que colocá-la ao dispor da sociedade. 

Embora esses episódios sejam tristes, eu adoro que isso aconteça, porque esse tipo de coisa ocorria há muito tempo, sem ninguém denunciar, até que veio uma empresa que teve coragem de falar: “Que porra é essa? Você disse que quer ser inclusivo e faz isso?” 

Uma coisa que discuti bastante é: o que funciona no global não funciona no local. Todo mundo achou que estava tudo bem ter uma política global, sem levar em consideração os desafios de determinadas regiões. 

Aqui no Brasil, trabalhamos diversidade e inclusão racial como mote, como a ponta do iceberg, porque se não olharmos pra isso, a gente não consegue avançar. Nos EUA por exemplo, embora se fale de negros, o foco deles é nos latinos. Outras regiões ainda passam pelo processo de inclusão das mulheres. 

São lugares diferentes com necessidades diferentes. Logo, não dá pra ter as mesmas políticas. Não dá pra recrutar do mesmo jeito. 

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