Aquela ideia de ser um coletivo de projetos criativos não vingou, mas o bar Balsa ainda fervilha com festas no centrão de São Paulo

Dani Rosolen - 6 jul 2022
Elohim Barros, cofundador da Balsa e DJ.
Dani Rosolen - 6 jul 2022
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Assim que a pandemia foi decretada no Brasil, a Balsa, um bar-terraço descolado de São Paulo, com vista para o Centro e conhecido por suas festas musicais, pausou suas operações e “ancorou” por tempo indeterminado.

Como milhares de outros empreendimentos do ramo, a Balsa não estava pronta passar tanto tempo sem entradas financeiras. Os sócios Elohim Barros e Renata Mein (assim como outros empreendedores de bares e restaurantes) acharam que a quarentena duraria 15 dias — ou no máximo 40, como o próprio nome quarentena sugere.

Mas, claro, não foi bem assim. “Eu e a Renata chegamos a conversar qual era o teto, até quanto de dívida a gente topava fazer antes de falar chega”, diz Elohim, que além de fundador da casa é DJ.

Felizmente, aquele dia de dizer chega nunca veio. Depois de meses se virando, criando estratégias para manter algum fluxo de caixa, a Balsa aproveitou a flexibilização sanitária e retomou suas atividades, para alegria dos habitués que vinham em busca do seu som, drinques e comidinhas  — alguns desde a inauguração, em 2013.

Se antes a casa funcionava apenas de quinta a sábado, hoje o horário de funcionamento vai de quarta a domingo.

O SONHO DE TER UM ESPAÇO PARA ENCONTRAR AMIGOS E A INSPIRAÇÃO RUSSA

Bem antes da pandemia tornar os estabelecimentos ao ar livre um lugar de desejo para encontros entre amigos, em 2012, os designers Elohim e Renata, na época um casal, já sonhavam com um espaço como o que é hoje a Balsa. Segundo o empreendedor:

“Costumávamos receber os amigos no nosso apartamento, mas sentíamos necessidade de ter um espaço aberto para passar um sábado com o tempo bom. A opção geralmente era um parque, mas aí a ‘vibe’ era outra, com gente correndo, água de coco, pipoca…”

A ideia nem era ter um negócio próprio, mas buscar algum espaço já existente, e que não fosse apenas um boteco com mesas na calçada. Eles não encontraram nada como queriam, até que em uma viagem à Rússia descobriram um lugar com esse perfil em São Petersburgo. Era um predinho antigo, diz Elohim, e cada andar tinha uma proposta: um abrigava um estúdio de design, outro funcionava como local de exposições… e no último havia um bar-restaurante com terraço.

“O lugar não era nada demais, porque havia muitos prédio em volta, mas olhando aquilo ali, vimos que um terraço era a única oportunidade de fazer algo parecido em São Paulo”, diz Elohim. “Aí, durante o resto da viagem ficamos pirando na ideia de abrir um bar neste estilo.”

ELES COMEÇARAM A BUSCAR  UM LUGAR NO CENTRO DE SÃO PAULO, MAS NÃO FOI SIMPLES ACHAR O PONTO PERFEITO

Quando voltou para o Brasil, a dupla estava disposta a buscar um prédio com terraço para levar o sonho adiante. “Escolhemos procurar no Centro por conta da facilidade de condução, acessibilidade e do preço. Além disso, sempre tive uma relação próxima com a região, porque desde que era moleque meu pai morava no edifício Copan”, diz o empreendedor.

O terraço da Balsa, com vista para lugares icônicos do Centro de São Paulo.

Os dois avisaram os amigos que tinham negócios ou circulavam por ali para ficar de olho se vissem algum prédio do jeito que eles imaginavam. Em pouco tempo, uma amiga falou que um colega fotógrafo tinha encontrado um lugar e queria mostrar as fotos para Elohim e Renata.

No apartamento desse fotógrafo, eles descobririam que o prédio era mesmo “maravilhoso”, mas muito alto e, na verdade, não tinha um terraço e sim uma varanda. Além disso, a construção estava ligada à prefeitura, o que já desanimou o antigo casal por conta da possível burocracia.

Mas ali mesmo, da janela do imóvel onde realizaram este encontro, eles avistaram um terraço vizinho que parecia o espaço ideal… Foram descobrir mais a respeito do predinho de quatro andares na rua Capitão Salomão, número 26.

O espaço era alugado por uma distribuidora de CDs e DVDs que utilizava apenas três dos quatro pavimentos da construção. O terraço e o andar logo abaixo, cada um com cerca de 150 metros quadrados, estavam desocupados — o que não poderia ser mais perfeito.

“O lugar era muito melhor do que a gente havia ilustrado na cabeça. Não tinha prédios grudados em volta, era numa esquina que dá para o final do Vale do Anhangabaú e de frente para lugares icônicos, como a ponte Santa Ifigênia e o edifício Martinelli”, lembra Elohim.

“Conversamos com o pessoal da distribuidora e com o dono do prédio e eles acharam a ideia uma loucura. Duvidavam que as pessoas topassem subir quatro andares de escada para ir num bar”

Segundo Elohim, o pessoal da distribuidora chegou a fazer uma proposta ruim e uma série de exigências, como reformas e instalação de câmeras, para que os dois desistissem da ideia. “Eles desacreditaram quando a gente aceitou o acordo com eles e com o dono do prédio.”

MÃOS À OBRA, LITERALMENTE: ELES REFORMARAM O ESPAÇO E, AOS POUCOS, FORAM DANDO A CARA DELES AO EMPREENDIMENTO

Elohim e Renata chamaram os amigos para ajudar e começaram os reparos e a parte de decoração. “Sempre gostamos muito de ir em casas de doação e aí começamos a trazer objetos e móveis para dentro, antes mesmo de ter o contrato, em setembro de 2012”, diz.

“Fiz muita coisa ali, até mesmo o acabamento do banheiro, em que usei uma madeira encontrada numa caçamba. Naquela época, a gente começou a caçar caçamba incessantemente” 

Até hoje, diz ele, o móvel da discotecagem é uma mistura de um topo de um guarda-roupa com a parte debaixo de uma mesa. Já as prateleiras, que acomodam um monte de bibelôs e tornam a decoração do local uma marca única, são resultado de gavetas achadas no lixo.

“Fomos dando passos pequenos, não teve essa coisa do investir muito de uma vez só. Para ter uma ideia, na primeira festa que a gente fez, em fevereiro de 2013, o balcão do bar nem estava pronto. Pouco antes, não tinha geladeira, aí compramos de um amigo que estava fechando um bar e vendendo umas coisas.”

Ao todo, para a reforma, Elohim conta que investiram 70 mil reais. Nem ele nem Renata tinham empreendido antes. Ele trabalhava como diretor de arte da editora Trip e ela, na revista da São Paulo Fashion Week, a FFW MAG, além de fazer frilas para a Trip. Os dois foram levando o empreendimento paralelamente por um ano, até passarem a se dedicar exclusivamente à Balsa.

“Hoje faço um ou outro frila, algumas capas de livro para a editora Todavia, mas atualmente minha segunda profissão é muito mais de DJ do que designer”, afirma Elohim.

Além da Balsa, ele toca em lugares como a festa Talco Bells, da qual é um dos criadores, na Kingston, na Caracol, no Espaço Cultural LOTE, entre outros.

DEPOIS QUE A DISTRIBUIDORA DE CDS E DVS FECHOU, ELES CHAMARAM UMA TURMA DE AMIGOS PARA OCUPAR O PRÉDIO

Após dois anos, conta o empreendedor, a empresa de CDs e DVDs, começou a reduzir a suas atividades, com o declínio deste tipo de mídia.

“Quando reparei que o estoque deles começou a diminuir, perguntei se estavam pensando em procurar um lugar menor e disse que se fossem sair, me avisassem porque queria trazer pessoas para o prédio”

Um tempo depois, isso aconteceu e entraram para ocupar o primeiro andar Baixo Ribeiro e Mari Saad, com o Instituto Choque Cultural. O segundo andar foi transformado em uma espécie de coworking, batizado de Líquen (já escrevemos sobre ele aqui).

Além do terraço, a Balsa tem uma opção coberta no quarto andar do prédio.

“Como estávamos trabalhando muito de casa e éramos acostumados com redação, sentíamos falta de sair e de ter um lugar para trocar ideias e mostrar nossos projetos para outras pessoas. Chamamos alguns amigos que também tinham esse perfil, o Felipe Morozini, a Graziela Perez e o casal empreendedor do estúdio Aretha, Andrea Company e Luciano Schiavon”, conta Elohim.

“A ideia era até chamar mais gente, mas a proposta, como coworking, nunca funcionou muito bem. Bancávamos o escritório e tudo certo”, diz.

Já o terceiro andar, foi ocupado pelo Fluxo, do jornalista Bruno Torturra. Nesta época, a ideia dos amigos era fazer projetos coletivos, que envolvessem todos os andares. Para isso, batizaram o prédio de Farol e fizeram um lançamento (falamos sobre essa ideia aqui).

“Acabou rolando um ou outro evento coletivo, mas todo mundo era ocupado demais e o dia a dia roubou da gente este plano. Aí também veio a recessão, o Choque Cultural e o Fluxo tiveram projetos cancelados, o aluguel começou a pesar e as pessoas foram se mudando”

Depois que o Choque Cultural e o Fluxo saíram, passaram pelo primeiro e terceiro andares outras empresas como a Plana e a Cultura e Mercado.

Hoje o primeiro andar está vago e o terceiro é ocupado por duas agências que se uniram, Colletivo e Moonstro. O Líquen deixou de existir e o segundo andar funciona como escritório da Balsa e refeitório da equipe.

NO PERÍODO MAIS TENSO DA PANDEMIA, UM CROWDFUNDING E A VENDA DE “QUINQUILHARIAS” SERVIRAM DE SALVA-VIDAS

Apesar das flutuações de ocupantes nos andares vizinhos, a Balsa ia muito bem até o começo de 2020. Com a pandemia, no entanto, as portas permaneceram fechadas de março a setembro de 2020.

A decoração com bibelôs garimpados em casas de doação é uma marca registrada da Balsa.

Neste período, Elohim e Renata decidiram manter os seis funcionários, mas fizeram um acordo para pagar 50% do salário.

Eles tentaram negociar o aluguel, mas no começo não teve jeito.  Só lá pelo quarto mês, conta Elohim, conseguiram um desconto. Para tentar contornar a planilha vermelha, ou como diz o empreendedor, “dar uma mini azulada”, eles começaram a pensar em algumas estratégias.

Eles não podiam depender do delivery, como muitos bares fizeram nesta fase, já que a cozinha do local não era própria — sempre foi um espaço de colaboração, em que chefs era convidados por temporadas.

Então, a primeira ideia dos sócios foi lançar um crowdfunding. As pessoas que colaboravam recebiam como recompensa camisetas e outros acessórios com estampas em silk, algo feito pelos próprios empreendedores designers e que a Balsa já costumava vender ou oferecer como brinde. A meta, com a vaquinha, era arrecadar 30 mil reais, mas eles só chegaram aos 17 mil.

“Não era só pelo dinheiro, mas para termos alguma coisa para remar, algo que nos motivasse. Fazíamos um turno, uma dia vinha um funcionário fazer o silk, no outro eu vinha e a gente nem se encontrava, mas tinha esse projeto que nos dava um certo ânimo”

Para ser lembrada, a Balsa também passou a realizar lives de discotecagem e chegou a conseguir um pequeno patrocínio de duas marcas para arcar com o pagamento dos DJs convidados.

Depois da campanha, eles viram que poderiam criar uma lojinha para vender não só as camisetas, panos de pratos e outros acessórios com estampas de silk, mas também porcelanas e outros bibelôs. Ele e Renata já costumavam selecionar esses objetos, chamados carinhosamente por Elohim de “quinquilharias”, nas casas de doação, mas tinham dado um tempo por falta de espaço na Balsa.

“Quando reabrimos de vez, a gente parou de colocar esses itens de decoração na lojinha, porque dá muito trabalho, tem todo um processo de curadoria, de tirar foto, escolher o preço, subir no site etc. Mas isso deu um gás para a gente sim e os produtos em silk continuam lá.”

A VANTAGEM DO TERRAÇO NUM MOMENTO EM QUE O VÍRUS DA COVID AINDA CIRCULA POR AÍ

Em setembro de 2020, com a flexibilização da quarentena, a Balsa reabriu suas portas, mas num esquema totalmente reduzido em termos de circulação.

Apesar de ter como vantagem o espaço a céu aberto do terraço, os empreendedores resolveram limitar o acesso, permitindo apenas 38 pessoas por abertura da casa.

Os interessados compravam a entrada antecipada e tinham acesso à uma mesa para apenas duas pessoa. O pacote também incluía um menu fechado. De acordo com Elohim:

“Como a lotação era limitada, começamos a pensar em abrir mais vezes. Em vez de quinta, sexta e sábado, como funcionava antes da pandemia, passamos a abrir de quarta a domingo, para fazer sentido financeiramente”

No final de 2020, a Balsa aumentou um pouquinho mais sua capacidade, até que vieram as festa de ano novo e o número de casos de Covid aumentaram. “Aí fechamos em janeiro e ficamos vendo o que ia acontecer, então reabrirmos no mês seguinte. Mas a gente sempre tomou muito cuidado e flexibilizou menos do que era liberado pelas medidas do governo”, diz o fundador.

Hoje, a Balsa está operando normalmente e recebe cerca de 300 pessoas por abertura (mais ou menos o mesmo número de antes da pandemia). De quarta a sexta e aos domingos, o bar abre com um uma playlist selecionada por Elohim e, apenas aos sábados rolam as festas temáticas com DJs convidados, como a “Matilda”, de música soul caribenha, a “FunKey”, com funk dos anos 70, a “Compacto”, só com discotecagem de vinil compacto.

“Tem também a ‘Balsa Pianinho’, que a gente não chama de festa. É um sábado com trilha sonora em um volume mais baixo, para apaziguar o ânimo com os vizinhos”, brinca o DJ.

Agora que tudo voltou a funcionar como antes, diz Elohim, a meta é cuidar com carinho da Balsa para que ela siga o fluxo e, prestes a completar dez anos (em fevereiro do ano que vem), continue atraindo quem está em busca de um bom drinque, um lugar com uma bela vista de São Paulo e um som gostoso para passar o tempo.

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  • Projeto: Balsa
  • O que faz: Bar com terraço no Centro de São Paulo
  • Sócio(s): Elohim Barros e Renata Mein
  • Funcionários: 8
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2013
  • Investimento inicial: R$ 70 mil
  • Contato: [email protected]
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