As fundadoras do Cabe na Mala vivem de malas prontas: vão para onde a startup possa crescer

Juliana Amato - 20 fev 2015 Marcela e Ana Paula, empreendedoras precoces e "nômades" da startup que criaram: Cabe na Mala.
Marcela e Ana Paula, empreendedoras precoces e "nômades" da startup que criaram: Cabe na Mala.
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Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo. Antes dos 25 anos de idade e em menos de dois anos, Marcela Kashiwagi e Ana Paula Lessa precisaram fazer um giro por três das maiores capitais do país. E não foi a passeio. Em 2013, a dupla de amigas e jovens empreendedoras deixou a casa que dividia no Rio de Janeiro e se mandou para Belo Horizonte depois de receber a notícia da aprovação no programa de aceleração da Secretaria de Estado da Educação (SEED). “Foi muito rápido. Não deu nem tempo para nos despedirmos direito dos amigos e da família”, conta Marcela. Por seis meses, o curso ensinou o caminho do empreendedorismo para as sócias. Marcela, engenheira da Computação e Ana Paula, formada em Turismo e Publicidade, puderam finalmente tirar uma velha ideia do papel. Era o começo de uma saga que está em pleno curso: fazer o Cabe na Mala decolar.

Em 2007, Marcela havia feito uma viagem de work experience para Orlando. Anos depois, faria um programa de imersão no Babson College, universidade que oferece um dos melhores cursos de empreendedorismo do mundo. Nas duas jornadas aos Estados Unidos, a carioca percebeu o óbvio: a maioria dos turistas brasileiros desembarcava no país sedenta para ir às compras, enquanto muitos viajantes embarcavam de volta ao Brasil com espaço sobrando na mala. Veio a sacada: criar uma startup que colocasse viajantes em contato com pessoas que desejassem um determinado produto vendido lá fora, “ao mesmo tempo, os interessados pagariam pelo serviço”.

Marcela e Ana Paula na rotina de viagens para aprender e expor a startup. Aqui, no Tech Crunch Disrupt, em São Francisco no ano passado.

Marcela e Ana Paula no Tech Crunch Disrupt, em São Francisco no ano passado.

Assim nasceu o Cabe na Mala, em janeiro de 2013. Os usuários podem cadastrar pedidos de “espaço na mala” ou informar uma viagem a caminho com mala disponível. Um algoritmo se encarrega de combinar as informações de acordo com a localização, o destino e as datas de partida e de volta. A pessoa que encomendou o “frete” entra em contato com o viajante e juntos eles acertam o local de entrega. O limite de preço das transações no site é de 500 dólares, para que não alcance o nível em que é cobrado imposto alfangedário. O valor do serviço, definido pela startup, varia de acordo com o tamanho e preço do produto. Por exemplo, por uma maquiagem de 50 dólares, o comprador paga 50 pela entrega. Este valor é dividido entre o viajante e a startup. No geral, o Cabe na Mala fica com 30%. Todo mundo sai ganhando.

 

Desde o início da operação, já foram realizadas mais de 1 500 entregas pelo site. Neste período, os viajantes que ofereceram espaço em suas bagagens ganharam cerca de 300 mil reais em “recompensas”, termo usado pelas sócias para o valor pago a quem traz o produto desejado. E, também segundo as empreendedoras, os compradores economizaram mais de 450 mil reais — soma da diferença entre os preços dos produtos no Brasil e no exterior. Ao todo, a plataforma tem 30 mil cadastrados.

Conquistar esses números não foi nada fácil. Quando o programa de aceleração do SEED terminou, as amigas voltaram para o Rio e a empresa patinou. “A produtividade caiu, o faturamento diminuiu e a nossa motivação também”, conta Marcela. Na capital fluminense, estava difícil encontrar investidores. Entre desistir do negócio e tentar uma última cartada, elas decidiram estender a busca para São Paulo.

Assim, no começo de 2014, num processo que levou apenas um mês, elas fizeram as malas e partiram novamente para tentar fincar a bandeira da startup em outras paragens. Não foi mole. O apartamento alugado, por exemplo, estava longe do ideal. Não tinha geladeira, fogão, máquina de lavar, muito menos internet. E o entorno não era dos melhores. “Tinha ponto de venda de drogas e prostituição na nossa porta”, diz Marcela. “Como já tínhamos pago o mês adiantado, não havia como ir para outro lugar.”

Por outro lado, a startup fez brilhar os olhos de um investidor, daqueles muito exigentes. “Ele queria saber se tínhamos capacidade de pensar e entregar rápido”, conta Ana Paula. Sem internet em casa, as meninas praticamente se mudaram para uma Starbucks, por causa do wifi aberto para os clientes, e o local virou refúgio e local de trabalho quase permanente. Tanto sacrifício rendeu frutos e elas conseguiram o investimento que buscavam (de valor não revelado).

Visita ao Google, no Vale do Silicio, no ano passado.

Visita ao Google, no Vale do Silicio, no ano passado.

Hoje, além de ter sido a primeira colocada do SEED, a Cabe na Mala também foi a vencedora da DEMO Brasil 2014. Atualmente, a fanpage da startup tem mais de 56 mil seguidores no Facebook (sinal de que a ideia tem mais simpatizantes dos que usuários, que são 30 mil no site). Apesar da pouca idade, Marcela foi eleita pelo site ZDNet uma das 10 mulheres que mais se destacaram no cenário de inovação tecnológica do Brasil. A dupla ainda participa de eventos voltados para startups e também dá palestras sobre temas como “o que fazer para validar uma ideia”, “cultura de startups no Vale do Silício”, “dicas para arrasar no pitch”, entre outros.

Com a virada do Cabe na Mala, a vida das meninas mudou radicalmente. O lado empresarial trouxe um amadurecimento precoce à dupla. “A Ana Paula tinha 19 anos quando participamos do primeiro evento. Um ano depois ela já estava apresentando o projeto a investidores, fazendo fluxo de caixa, dando palestras, contratando pessoas mais velhas do que ela”, conta Marcela.

Apesar da maturidade adquirida, Ana Paula, que é fã de MPB, de bacon e foi artilheira do time de futebol na época do SEED, acredita que a diversão deve sempre fazer parte da essência da empresa. Claro, acompanhada de flexibilidade e raciocínio rápido:

“Nem sempre a gente se sente preparada, mas acho que a diferença dos projetos que dão certo é justamente conseguir aprender rápido e seguir em frente”

Antes do Cabe na Mala, Marcela trabalhou na Zign, uma agência de marketing digital onde foi desenvolvedora e gerente de projetos. Ana Paula, que já era sua amiga, foi chamada por ela para participar de uma seleção na empresa e, assim, as duas começaram a trabalhar juntas. “A Ana Paula era muito boa na parte de comunicação da agência. Eu sempre fui mais reservada, lidava muito mais com computadores do que com pessoas”, conta Marcela. “Então pensei que faríamos a parceria perfeita. Contei a ideia do projeto da startup, ela se animou e acabou me contagiando para que eu arriscasse a empreender.”

QUANDO É PRECISO AMADURECER LONGE DE CASA

A maior dificuldade no início foi aprender a lidar com o medo de errar. “Quando você faz algo que não existe muita gente duvida e as barreiras surgem”, afirma Marcela, que está lendo Traction, livro de Gabriel Weinberg sobre startups. “Eu acredito que se algo é possível, alguém já teria inventado. Mas, na verdade, o mundo está cheio de coisas que podem ser melhoradas com boas ideias de pessoas dispostas a se dedicar para fazer isso acontecer.”

Com a chegada do Cabe na Mala, as duas conheceram muita gente. “É impressionante o quanto as pessoas estão dispostas a ajudar. Tanto empreendedores, quanto usuários”, diz Marcela. “Já chegamos a nos hospedar na casa de uma usuária do site, na Flórida, e já recebemos usuários nas nossas casas.”

Na mala das sócias sempre tem um espacinho sobrando para as encomendas. “Na última viagem, demos preferência para produtos mais urgentes: remédios, vitaminas e itens para bebês”, conta Ana Paula. O envolvimento com o projeto é tanto que já aconteceu delas irem entregar pessoalmente um produto em outra cidade. “A pessoa nos explicou a importância que isso teria na vida da mãe dela e fizemos questão de estar lá”, conta Marcela, sem esconder que ficou difícil separar a vida pessoal da profissional. “Mas acho que isso é bom sinal, quer dizer, que estamos mesmo fazendo parte da vida das pessoas e elas das nossas.”

Desde a virada do ano, as sócias estão trabalhando parcerias para oferecerem mais opções de lojas virtuais parceiras além da Amazon (que, convenhamos, não é nada mal para uma primeira parceria). Elas também esperam brindar os viajantes com outros benefícios, além da recompensa em dinheiro. “Queremos dar descontos em passagens aéreas, hotéis, hostels, ingressos para shows e jogos”, conta Marcela, que por enquanto trabalha apenas com a Amazon. Elas preferem assim por uma questão de segurança. “Assim, o viajante recebe produtos novos da Amazon em seu hotel e, se preferir, pode abrir e tirar da caixa”, diz. Essa é uma garantia para evitar o transporte de mercadorias ilegais.

Apesar da saudade dos amigos e família, elas acreditam no sucesso do negócio sob o céu paulistano. “Não temos a intenção de voltar para o Rio. Encontramos condições melhores para fazer o negócio crescer em São Paulo, montamos uma equipe fantástica aqui e vemos que ainda há muita coisa para acontecer.” Quem sabe, quando chegar o momento de internacionalizar a startup, elas não mudem de ideia. As malas estarão prontas.

draft card CABEMALA

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