Vai uma carona aí? A Joycar ajuda empresas a economizar na gestão de frotas aplicando tecnologia ao compartilhamento de carros

Leandro Vieira - 28 set 2021
Rafael Taube, CEO da Joycar (crédito: Leo Branco/divulgação Joycar).
Leandro Vieira - 28 set 2021
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Presente no Brasil há cerca de uma década, a Uber praticamente inaugurou no país o serviço de compartilhamento de veículos por aplicativo. Hoje, segundo uma pesquisa realizada em setembro de 2020 pela empresa Opinion Box, 68% dos usuários de smartphone no Brasil dizem usar com frequência a Uber, ainda a principal companhia de compartilhamento de carros em atividade por aqui.

Mas, se a solução já se popularizou no nível público, o que dizer das empresas e instituições particulares? Muitas até recorreram a planos e pacotes fechados com as gigantes como a própria Uber ou a 99, mas boa parte continua com frotas enormes de carros, muitas vezes parados ou não disponíveis quando são mais necessários.

Foi para ajudar as empresas a gerenciar melhor suas frotas de carros próprios ou alugados que a paulistana Joycar criou um sistema que permite gerir o compartilhamento de veículos entre os funcionários. O sistema, que pode ser acessado pelo computador ou mesmo por aplicativo no celular, funciona junto com um hardware instalado pela empresa em todos os carros da frota.

Fundador e CEO da Joycar, Rafael Taube, 36, explica o conceito:

“Entendemos que as empresas costumam ter muitos carros, geralmente usados de forma ineficiente. Com nossa plataforma conseguimos transformar a cultura dessas empresas e criar frotas de veículos compartilhados”

A solução da empresa permite organizar em uma agenda a utilização de todos os veículos. Quando chega a hora, o funcionário abre o carro usando o próprio aplicativo, sem necessidade de ficar passando a chave de mão em mão (uma dor de cabeça a menos dentro do já complexo ambiente corporativo).

BUSCANDO AUTONOMIA, RAFAEL DEIXOU O EMPREGO PARA APROVEITAR VEIA EMPREENDEDORA

Quando a Joycar surgiu, em 2015, o foco era diferente. Formado em administração pela ESPM, Rafael vinha de um período de seis anos trabalhando no Itaú BBA, onde atuava na área de crédito.

Uma das motivações para deixar o cargo foi a veia empreendedora, herdada de família. Apesar de ter tido avôs, tios e pais empreendedores, nenhum dos familiares manteve negócio aberto no momento em que ele poderia integrar a empresa. O jeito então era começar a empreender por conta própria, o que ele acreditava que lhe daria mais autonomia no mercado.

“Uma questão que me marcou muito é que minha mãe foi dispensada da Riachuelo, onde era executiva de alto escalão. Foi uma situação dura para ela sair do mercado de trabalho, e eu não queria passar por isso algum dia”

Por restrições de capital, a Joycar começou com um escopo modesto, mas já tendo como foco o uso do carro compartilhado em ambiente privado. A ideia inicial, como conta Rafael, era colocar veículos dentro de condomínios em São Paulo. Lá, eles poderiam ser usados por moradores que não tivessem carro ou que precisassem eventualmente de um veículo adicional.

O investimento inicial veio do sogro de Rafael, que injetou logo de saída uma quantia no negócio. Com essa grana e o foco definido, o empreendedor importou da Alemanha uma plataforma de tecnologia que pretendia adaptar ao modelo da Joycar por aqui.

O processo de construção e validação do sistema demorou bem mais do que o empresário esperava: cerca de dois anos de trabalho intenso.

O fato de vir do mercado financeiro e não ter muita experiência em tecnologia acabou atrapalhando, mas também permitiu uma longa e importante jornada de aprendizado, como ele mesmo conta. “Certamente, bati bem mais cabeça do que bateria hoje, com os conhecimentos que adquiri desde aquela época.”

A PROPOSTA DE UMA EMPRESA AUTOMOTIVA ACABOU MUDANDO O FOCO DA JOYCAR

Com os protótipos desenvolvidos e prontos para rodar, a primeira oportunidade de negócio surgiu a partir de um contato com a ALD Automotive, empresa francesa especializada em gerenciamento e operacional de leasing de automóveis. O então CEO da companhia no Brasil, Pascal Vitantonio, propôs instalar o modelo de compartilhamento de veículos oferecido pela Joycar para o uso dos funcionários do setor comercial da empresa.

Esse foi o primeiro cliente do mundo de negócios. Após um período de teste de seis meses, o modelo foi implementado. Logo depois, a própria ALD ajudou a Joycar a travar conversa com a empresa química alemã BASF, que a automotiva atendia na época. A ideia era que a ALD fornecesse os veículos, e a Joycar, toda a plataforma tecnológica e de gerenciamento.

Foi aí que começou uma mudança de foco. De fornecedora de veículo compartilhado para condomínios, a Joycar iniciou um movimento de pivotagem para se tornar uma operadora de tecnologia para empresas. Dessa forma, os veículos já seriam de propriedade do próprio cliente ou alugados de um terceiro.

Só que a empresa alemã, da qual Rafael importou a plataforma de tecnologia que usava na época, não tinha interesse em continuar a parceria nessas condições. Foi aí que o empreendedor decidiu assumir ele mesmo toda a operação tecnológica por aqui.

Para isso, convidou para o time os amigos Cássio de Freitas, hoje tech leader na empresa, e Heitor Cunha, que é CTO. Os dois acabaram entrando como cofundadores nessa nova fase do empreendimento.

“Aí desenvolvemos a plataforma inteira, tanto o equipamento para instalar no carro quanto o software de gestão de usuários e carros. A Joycar de fato virou uma provedora de tecnologia de carro compartilhado”

Para montar o primeiro protótipo do hardware — o aparelho instalado fisicamente nos veículos para travar e destravar as portas —, Rafael chegou a pedir para amigos enviarem de outros países pelo correio peças que não existiam no Brasil. Em 2019, a Joycar começou a funcionar inteiramente com esses novos moldes.

A EMPRESA OFERECE SOLUÇÃO DE PONTA A PONTA E COBRA MENSALIDADE POR CARRO

O empresário conta que outras empresas que também tentaram entrar nessa área aqui no Brasil acabaram naufragando. Para ele, o grande diferencial da Joycar é a falta de pressa e a segurança com que a companhia vem sendo desenvolvida.

“Viemos construindo tijolinho por tijolinho e conseguimos contas com nomes relevantes como a Hyundai, Honda, Petrobras e Raízen, todos clientes muito exigentes”

A solução que a Joycar oferece é de ponta a ponta, abarcando desde o email que o gestor envia aos funcionários alertando sobre o novo sistema de uso de carros até todo o suporte necessário caso os usuários tenham algum problema.

O primeiro passo é sempre instalar o equipamento em todos os veículos usados pela empresa, o que é feito por técnicos parceiros da Joycar. Aí os funcionários são orientados a baixar o aplicativo da empresa. 

Assim, quando precisam de um carro, basta reservar o veículo na plataforma para a data, horário e pelo tempo necessário. Se a data chegar, a pessoa vai até o carro, destrava as portas pelo celular, preenche a checklist, tira uma foto do veículo e pega a chave, que sempre vai estar no porta-luva.

A mensalidade é calculada de acordo com a quantidade de equipamentos instalados em veículos. Não há limite para o uso da plataforma nem para o número de usuários cadastrados. Segundo Rafael, há desde clientes que usam dez carros até os que têm 200 veículos. 

Para a ALD e a Hyundai, a Joycar também construiu plataformas personalizadas, de acordo com as orientações e necessidades específicas das companhias. O contrato, claro, também é diferente, envolvendo valores de customização e licenciamento de software, entre outros.

OS CARROS COMPARTILHADOS TROUXERAM MAIS FLEXIBILIDADE E ECONOMIA A EMPRESAS

Antes de fechar parceria com a Joycar, a BASF costumava alugar veículos de forma pontual para seus colaboradores sempre que necessário. Com a mudança, além de passarem a ter carros terceirizados da ALD sempre à disposição, a conta mensal também reduziu consideravelmente. “O carro terceirizado era muito mais barato fracionado do que ficar alugando carro quando necessário.” 

Outro desafio importante na empresa era o do horário. Isso porque, se o colaborador precisasse chegar numa reunião às 8h em outra cidade, a locadora não estaria aberta. Portanto, em grande parte dos casos, era necessário pegar o carro no dia anterior. 

“Às vezes, para viajar um dia, o funcionário precisava reservar o carro por três. Com a Joycar, você reserva o carro para o dia que precisa, pega e devolve à noite” 

Assim, segundo Rafael, apesar de a empresa ter aumentado o número de carros alugados, ainda conseguiu gerar alguma economia.

O modelo da Joycar também já veio a calhar para substituir uma van fretada por uma empresa, que fazia duas viagens por dia entre São Paulo e Valinhos, levando funcionários de manhã e trazendo à noite. O problema é que, como as viagens eram bastante reduzidas, faltava flexibilidade para aqueles que precisassem ir ou voltar do escritório em outros horários.

No fim das contas, a van, que tinha um valor alto de aluguel, ainda com dois motoristas contratados, foi substituída por dez veículos compartilhados. A partir de uma funcionalidade do aplicativo que permite organizar caronas, quando alguém reserva um carro, os outros assentos ficam disponíveis para funcionários que queiram se locomover junto.

“Além de ter economizado 45% do que gastavam antes, aumentou a disponibilidade de viagens. Em vez de uma de manhã e outra à tarde, tinha gente indo e vindo o dia inteiro nos carros compartilhados”

Outro case relevante se deu com uma empresa que decidiu cortar pela metade sua frota de 400 carros alugados. Com os 200 que restaram, eles criaram uma frota compartilhada com o auxílio da Joycar.

“Hoje tem mais de 1 500 usuários cadastrados usando os 200 veículos, sendo que antes eram 400 carros para 400 donos.”

O SONHO DO EMPREENDEDOR É DEMOCRATIZAR A TECNOLOGIA DO CAR SHARING

Hoje a Joycar atende um total de dez clientes, presentes em 17 estados e mais de 80 cidades espalhadas pelo Brasil. Como é tarefa quase impossível manter parceiros técnicos fixos por todo o país, assim que fecham um novo negócio, a equipe vai atrás de especialistas locais. A empresa já tem até um pequeno curso preparado para ensinar os recém-chegados a fazer de forma correta a instalação dos equipamentos nos veículos.

A pandemia emperrou novos negócios, mas também serviu para jogar mais luz sobre a relevância da mobilidade. Rafael aposta que o modelo híbrido entre home office e presencial deve acabar sendo preponderante no mundo dos negócios, o que acaba criando novas necessidade.

“Nosso mercado vai se beneficiar desse momento. Temos recebido empresas que dizem que o negócio continuou funcionando, mas que ainda mantêm cem carros no estacionamento sem necessidade. Vai existir cada vez mais esse questionamento do mundo empresarial — uma coisa boa para a gente”

Em 2020, a Joycar captou R$ 2,235 milhões com investidores. A ideia, segundo o CEO, é usar esse dinheiro para construir as bases para um crescimento saudável da empresa, permitindo que o negócio escale nos próximos anos. Desde 2019, a companhia vem dobrando o faturamento ano a ano. Para 2021, a previsão é faturar um total de 2 milhões de reais.

No futuro, o empreendedor pretende continuar crescendo ainda totalmente focado no mundo corporativo. Hoje, planeja ir também atrás de perfis de clientes um pouco diferentes daqueles que atende e pensa em colocar a tecnologia também à disposição de microempresários — incluindo até aqueles que usam apenas um veículo.

“Nosso grande sonho continua sendo democratizar a tecnologia do car sharing”, diz Rafael. “Carrego comigo por muitos anos essa visão do carro como um ativo ainda ineficiente. Pode parecer besteira, mas a ideia é que no futuro qualquer um possa criar uma locadora digital usando a tecnologia da Joycar.”

 

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  • Projeto: Joycar
  • O que faz: Oferece tecnologia de compartilhamento de carros para as necessidades internas de empresas
  • Sócio(s): Rafael Taube, Cássio de Freitas e Heitor Cunha
  • Funcionários: 15
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2015
  • Faturamento: R$ 2 milhões (expectativa para 2021)
  • Contato: [email protected]
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