Como a 99Jobs prospera mesmo com a difícil missão de mudar as relações de trabalho: mais amor, por favor

Giovanna Riato - 6 ago 2015
Alexandre Pellaes, 40, é o sócio e "tio" da 99Jobs.
Giovanna Riato - 6 ago 2015
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O trabalho segue o mesmo ritmo das relações humanas: mesmo felizes, é impossível ter nele apenas bons momentos. A 99Jobs, startup que nasceu em meados de 2013 como uma plataforma online, acredita ter encontrado a solução para acabar com a frustração na carreira. A meta é conectar pessoas e empresas por seus ideais e não apenas pelas habilidades exigidas para o cargo. “Faça o que você ama” está lá, cravado no site. O sistema da empresa é semelhante ao usado por alguns sites de relacionamento e o objetivo é o mesmo: o “matching”. Sim, o mesmo encaixe que se busca no Tinder, mas na versão candidato e vaga. Alexandre Pellaes, sócio da 99Jobs que atua principalmente na gestão estratégica, fala a respeito:

“Empresas são plataformas que permitem às pessoas mostrar sua energia produtiva para o mundo. Trabalho é a coluna central do nosso valor para a sociedade. Numa conversa, é a segunda coisa que alguém fala depois de dizer o nome”

Lá dentro, ele recebeu o apelido de “tio” já que, aos 40, é o mais velho de uma equipe que possui hoje 21 funcionários, sendo que os outros dois sócios, Eduardo Migliano e Diego Ximenes, os fundadores da empresa, têm 26 anos. Eduardo e Diego usaram o que viviam (a juventude) para, com uma linguagem descontraída e direta, estremecer o mercado de recursos humanos com uma plataforma online que oferece vagas e inscreve interessados, mas também permite que os funcionários avaliem as companhias. Com isso, e com base em informações das redes sociais e em um breve questionário, a 99Jobs apresenta as oportunidades que mais têm a ver com o usuário. A prioridade é o “match” de ideais. Currículo, histórico profissional e formação só aparecem em uma segunda etapa para concluir o perfil do candidato.

Diego e Eduardo, ambos com 26 anos, fundaram a 99Jobs para unir pessoas a empregos de que gostassem.

Diego e Eduardo, ambos com 26 anos, fundaram a 99Jobs para unir pessoas a empregos de que gostassem.

Com essa sacada, no final de 2014 a plataforma já tinha mais de 380 mil inscritos. Hoje esse número passa de 430 mil. E eles não têm custo algum para usar a ferramenta. “Acreditamos que ninguém deve pagar para buscar trabalho”, diz Alexandre. As empresas tampouco são cobradas para cadastrar uma vaga. Toda a receita da startup vem dos planos de serviços mais refinados, como algum tipo de pré-seleção entre os funcionários que se candidataram, à disposição das empresas. Os pacotes custam a partir de 99 reais. Alexandre afirma que a ideia não é cobrar caro, mas ter um grande volume de vendas. No ano passado, a 99Jobs teve um faturamento de 1,3 milhão de reais.

Além dos pacotes, a receita vem também dos serviços offline: consultoria e projetos mais amplos como, por exemplo, conduzir todo o processo seletivo de uma organização de forma “humana e eficaz”, como descreve o sócio, ou a realização de ações de desenvolvimento na área de recursos humanos dentro das empresas. Numa delas, feita para o Citibank, a 99Jobs realizou um mentoring reverso, no qual estagiários atuaram como gestores de profissionais de cargos sênior. “Nossos clientes normalmente começam devagar, com projetos menores, e vão ampliando. Costumamos ser muito bem aceitos, apesar de sempre existir o receio inicial com o fato de uma empresa tão jovem realizar um processo tão grande”, afirma Alexandre.

COMO CRESCER NA CRISE

Com estes serviços, hoje a 99Jobs tem cerca de 2 200 companhias cadastradas, com cerca de 25 pagantes na plataforma online e, eventualmente, em projetos offline. A lista de clientes inclui empresas como o Grupo Votorantim, Magazine Luiza, Globo e Cargill. A meta é dobrar o faturamento em 2015, mesmo com o cenário econômico menos favorável, como fala Alexandre:

“Para nós, a crise realmente se mostra como oportunidade. As empresas estão reduzindo os projetos, mas conscientes da necessidade de melhorar as relações no trabalho. O online começa a ser opção cada vez mais interessante”

Nessa comparação, ele diz que o valor do processo seletivo tradicional para preencher uma única vaga de secretária-executiva equivale aos cerca de 2,3 mil reais que a empresa gastaria em dois anos de mensalidade na 99Jobs. A oferta, porém, requer uma mentalidade mais aberta à inovação — também por conta desse cliente.

A startup, que atua no mercado de RH, parte de uma proposta de mudança nas relações de trabalho. Apesar de ser um diferencial competitivo, isso também afasta alguns possíveis clientes. “As empresas precisam estar dispostas a serem provocadas”, Alexandre repetiu algumas vezes durante a conversa com o Draft. Tal filosofia já fez tanto a 99Jobs perder clientes como, também, se recusar a trabalhar com determinadas companhias. “Não adianta a gente se comprometer se a empresa não estiver disposta a mudar.”

Parte da equipe da 99Jobs, que tem funcionários e faturou 1,3 milhão no ano passado.

Parte da equipe da 99Jobs, que tem 21 funcionários e faturou 1,3 milhão de reais no ano passado.

Além de alguns projetos deixados de lado, as provocações da 99Jobs já renderam mal estar com empresas, pois qualquer funcionário pode criar a página da companhia em que trabalha e avaliar se é um bom empregador. Cabe à organização decidir assumir o controle do perfil na rede profissional e tentar melhorar sua imagem. Algumas, no entanto, mostraram que não estão preparadas para tanta interação. Duas delas pediram para ter suas páginas deletadas depois de receberem avaliações negativas. “Elas agiram de forma arrogante e não quiseram manter o canal de comunicação”, diz Alexandre.

UMA PAUSA NA REUNIÃO PARA PASSEAR COM O CACHORRO

Alexandre foi o último a entrar na sociedade da 99Jobs e trouxe à empresa a experiência que faltava aos dois fundadores. Formado em Ciências Contábeis pela FEA-USP, ele construiu carreira na área financeira de multinacionais como Bayer, Unilever e Ericsson e decidiu mudar de rumo quando se deu conta do anestesiamento que o trabalho em algumas corporações pode provocar, mudando os valores e até a personalidade de seus funcionários. A guinada começou em 2007, quando deixou as companhias tradicionais e foi trabalhar na W.L. Gore & Associates, empresa global e totalmente horizontal.

Lá, descobriu as vantagens de eliminar a hierarquia e entendeu que a profissão não precisa — e nem deve — se opor à vida pessoal. Certa vez, durante uma reunião por telefone com uma colega dos Estados Unidos, ele foi interrompido porque ela precisava levar o cachorro para passear. “Ela morava perto da fábrica e pediu que continuássemos mais tarde”, diz. Depois do susto, Alexandre refletiu e ficou impressionado com a transparência e a possibilidade que o novo arranjo corporativo poderia trazer. Para ele, o profissional não precisa anular suas necessidades pessoais, desde que mantenha a produtividade e atinja os resultados. Depois de cinco anos, ele decidiu que era a hora de caminhar sozinho e investiu na função de consultor de modelos flexíveis para empresas:

“Me apaixonei por estudar maneiras diferentes de interação no trabalho. Nas empresas, manter a hierarquia funciona, traz resultados, mas as pessoas não são felizes”

Em meados de 2013, enquanto tocava seu projeto independente, a 99Jobs, de Eduardo e Diego, chegava ao mercado chamando a atenção justamente por trazer esse conceito de trabalhar com mais felicidade. A essa altura, os dois jovens empreendedores tinham acabado de concluir o curso universitário. Eduardo fez comunicação na ESPM e Diego, administração na FGV. Eles se conheceram na Aiesec, organização especializada em intercâmbio estudantil. A decisão de investir no próprio negócio veio quando perceberam que, tanto eles quanto os amigos que se formaram na mesma época, estavam infelizes na recém-começada vida profissional.

QUE TAL LEVAR UMA RASTEIRA DO INVESTIDOR?

O embrião do que se tornaria a 99Jobs teve caminho árduo até que o projeto amadurecesse, passando por duas iniciativas que não deram certo. Uma delas incluiu uma rasteira do investidor, que se apropriou do dinheiro do negócio e aplicou em um paraíso fiscal. Apenas na terceira tentativa os fundadores encontraram o investidor anjo que aplicou 400 mil reais no negócio e ofereceu o espaço em que a 99Jobs está sediada até hoje: uma casa na zona oeste de São Paulo que abriga ainda outras duas startups, a Social Miner e a Saloote.

No fim de 2013 Alexandre enfim se aproximou de Eduardo e Diego. Interessado no projeto, marcou uma reunião com os dois, e eles em seguida começaram a trabalhar junto. Em três meses o “tio” tornava-se sócio, já em 2014. “Tanto eu quanto eles queríamos mudar o mundo do trabalho e ajudar pessoas e organizações a encontrarem novas formas de interagir com mais conexão, felicidade e sucesso”, diz ele.

Com a trinca de sócios formada, a 99Jobs foi capaz de gerar receitas antes do esperado. Agora, depois dessa etapa inicial, eles procuram um novo fundo de investimento para acelerar os próximos passos. “Tivemos uma média grande de crescimento, totalmente orgânico. Estamos em busca mas, mesmo que a gente não receba investimento, seguiremos com nossos planos da mesma maneira, só vai demorar um pouco mais”, diz Alexandre, que além do trabalho na 99Jobs, equilibra sua rotina com um mestrado em Psicologia Social e do Trabalho na USP.

Hoje a 99Jobs, que surgiu inovando, não está mais sozinha: o mercado reconheceu que um perfil menos formal e mais ligado ao propósito e ao prazer de trabalhar podia dar certo. Além verificar uma mudança na linguagem dos sites tradicionais de recrutamento, como o Vaga.com, Alexandre aponta o surgimento de empresas como a Love Mondays e Biz.u, que também investem na ideia de que as pessoas precisam amar o que fazem. Faz parte, não é ruim.

Alexandre acredita que vivemos um momento de transição do modelo tradicional para uma nova relação com o trabalho. “Muita gente enxerga a necessidade de chegar do lado de lá, mas falta quem construa essa ponte. Por isso não queremos ser tão disruptivos a ponto de perdermos essa conexão. Precisamos evoluir lentamente”, diz. “Sabemos que temos muito para aprender e estamos correndo atrás como ninguém. Não existe só uma resposta certa.” Talvez existam 99. E isso só pode ser bom.

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  • Projeto: 99 jobs
  • O que faz: Atração, recrutamento, employer branding e consultoria de recursos humanos
  • Sócio(s): Eduardo Migliano, Diego Ximenes e Alexandre Pellaes
  • Funcionários: 21
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2013
  • Investimento inicial: R$ 400.000 de um investidor anjo
  • Faturamento: R$ 1,3 milhão (em 2014)
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