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Como aproveitar que estamos juntos e misturados em casa na quarentena para melhorar nossas relações familiares?

Cláudia de Castro Lima - 21 Maio 2020
O isolamento social é um momento desafiador. Mas o psiquiatra Mauro Moore Madureira, do Hospital Israelita Albert Einsten, conta como é possível usá-lo para amadurecermos nossos relacionamentos (Foto: iStock)
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“Cuidado para não levar as emoções extremadas para dentro de casa!”. É assim, em tom de alerta, que tem início uma cartilha lançada em março pelo governo federal. O documento foi divulgado quando já estávamos em quarentena para evitar a disseminação do novo coronavírus – e mostra como a convivência mais intensa entre a família em um contexto de pandemia pode gerar desgaste emocional.

Um estudo divulgado no início de maio feito pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro revelou que, entre março e abril, por causa da pandemia, o percentual de pessoas com sintomas de depressão praticamente dobrou, enquanto as que relataram quadros de ansiedade saltaram 80%.

Não é de se espantar, portanto, que a terapia online esteja sendo incentivada pelo Conselho Federal de Psicoterapia. Ou que serviços como o Sodexo Apoio Pass, programa que oferece auxílio psicológico, social, financeiro ou jurídico para colaboradores de empresas que passam por momentos difíceis, tenham tido um “boom de procura”, segundo a executiva da empresa Claudia Rizzo.

Embora a situação de emergência que mudou nossa vida de repente – e nos colocou 24 horas por dia, sete dias por semana ao lado de nossos familiares – tenha esse aspecto desafiador, é possível que ela seja usada a nosso favor. E a favor de nossa relação interpessoal com quem vive conosco. “No fim, se tudo der errado, são essas as pessoas com quem podemos contar”, lembra o psiquiatra Mauro Moore Madureira, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Somos vários seres em um só – e conviver com todos já é um desafio

Segundo o psiquiatra, nós, como indivíduos, somos seres plurais. “Há em cada um de nós vários bichos, como o touro violento, o coelhinho assustado, a raposa ardilosa, o bicho-preguiça etc”, afirma ele, fazendo analogia. “Além disso, temos a criança e o adolescente, que já fomos, e, ainda, vovó com seus temores pessimistas e o vovô que exige o neto-herói, por exemplo. Felizmente temos também o adulto, que deve ser o CEO de si mesmo, tentando fazer desse bando uma equipe sob a sua presidência.”

Frente a qualquer situação, cada um desses nossos eus avalia, sente a emoção correspondente às referências que traz consigo e só então, de acordo com essa avaliação, parte para a ação. “Há no processo conflitos internos? Claro, eles são inevitáveis”, afirma.

A solução para essa empresa não falir?

“A pessoa é tanto mais saudável quanto mais seu adulto predomina na avaliação do fato e na conduta.”

Convivermos conosco mesmo já é um desafio. Estarmos com outras pessoas, e sem a possibilidade de sair desse contexto tão cedo, é ainda mais trabalhoso.

O que vemos nos grupos sociais, segundo ele, é similar ao que vemos em cada indivíduo. “Os sentimentos vêm todos à tona e a manifestação depende do grau de maturidade de cada um.”

O problema de enfrentar o imponderável

Nesta pandemia, sofremos com uma dose extra de ansiedade por causa da pouca clareza e da ausência de dados científicos confiáveis. “Há, portanto, um show de opiniões definitivas baseadas no ‘achismo’. Onde há o imponderável, aparecem a incerteza e sua irmã, a angústia.”

Se você está com a impressão de que crises fazem aflorar o que há de melhor, mas também o que há de pior em nós, você tem razão. “Em cada um de nós coexistem anjos, demônios e intermediários”, afirma o doutor Mauro. “Repito: cada um de nós tem todas as características. O que nos diferencia é a proporção em que esses diversos personagens aparecem. A ética, a solidariedade, são atributos do nosso adulto.”

Para nosso bem-estar, diz o especialista, é preciso que tenhamos “uma autoestima saudável”. O sentimento está baseado em nossa autoavaliação, com contribuições generosas de amigos (e de inimigos também).

“Quando a autoestima está muito dependente de ‘afeto importado’, estar só é muito penoso”, diz o psiquiatra.

“A ansiedade deve ficar bem dosada com o predomínio do adulto, com sua visão realista.”

Ansiedade muito alta, no entanto, alerta Mauro, é sinal da necessidade de buscar ajuda psicoterapêutica.

Como então melhorar nossas relações?

Com a convivência compulsória, todos esses nossos “eus” estão mais expostos – e, portanto, mais vulneráveis. “Mas essa é nossa oportunidade de redenção, de melhorar nossa capacidade de produzir bons relacionamentos”, afirma o médico. É hora de, segundo ele, pensar nos desejos coletivos.

Entre os casais, este é um momento em que o relacionamento é colocado à prova. “Casais jovens, em que os dois trabalham fora em empresas, geralmente se relacionam muito pouco tempo entre si e com os filhos. Face a esta situação nova, muitas vezes as reações são péssimas, porque eles foram se afastando e deixaram morrer o sentimento de namorados.”

Nas longas horas em que são obrigados a conviver, pode haver brigas que levam ao afastamento, com mágoas e rancores incuráveis. “Outras vezes, no entanto, há uma gostosa reaproximação”, diz Mauro.

Para que essa última opção não seja exceção, é importante estarmos atentos aos nossos comportamentos. Pensar antes de falar, aquela regra de ouro, é essencial.

“A ideia de casar tem que estar vinculada ao compromisso de caprichar o tempo todo”, diz Mauro.

“No entanto, muitas vezes há uma acomodação e cada uma das pessoas passa a agir como era na casa dos pais, adolescente e egoísta.” Hora, afirma ele, de ser de fato um adulto.

Outras atitudes relativamente simples também têm um poder e tanto, como ter a rotina organizada, reservar momentos para fazer coisas gostosas a dois ou em família (como assistir a filmes ou inventar jogos), envolver as crianças nas tarefas do lar, praticar atividade física juntos, fazer chamadas de vídeo rotineiras para outros membros da família ou amigos e até começar um hobby novo, como jardinagem, a dois (ou a três ou a quatro).

Dá trabalho? Sim, muito.

Vale a pena? Muito mais.

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