Como democratizar o ensino de habilidades no contraturno escolar: elas criaram um app que hoje impacta milhares de famílias

Italo Rufino - 29 ago 2022
Fernanda Sotelo (à esq.) e Mariana Espindola, as sócias da Kiddle Pass.
Italo Rufino - 29 ago 2022
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Há dois anos, no auge da pandemia, a pequena Aira chorou ao receber a notícia que não poderia frequentar as aulas de balé. Sua mãe, Márcia Lopes, fez uma promessa para a filha: logo ela voltaria a dançar em um ambiente seguro e confortável.

Meses depois, o compromisso foi cumprido, adaptado à expansão do ensino online.

Aira é uma das mais de 13 mil crianças que hoje usufruem da Kiddle Pass, plataforma de atividades educacionais, físicas e culturais com foco no contraturno escolar de alunos de até 12 anos.

O mote é usar a tecnologia como aliada à renovação do ensino, diminuição da passividade frente às telas, ampliação da grade curricular e desenvolvimento de novas habilidades.

Por mês, são 200 aulas, ao vivo, na plataforma, com grade das 8 horas da manhã até 20 horas, de segunda a sexta-feira. Há também mais 100 aulas gravadas. Via aplicativo, os pais agendam as aulas de forma avulsa ou recorrente. Em média, cada sessão reúne 12 crianças.

Para dar conta do fluxo, a startup possui uma rede de 65 parceiros, responsáveis por ministrar as atividades. São exemplos a Casa de Makers, que utiliza a criatividade e o design para ensinar matemática, programação e ciências; a Cria, de circuitos, circo, yoga e esportes; e a escola de dança Ballet Maior.

O MODELO DE ASSINATURA ATRAVÉS DE CONTRATOS COM EMPRESAS FOI A CHAVE PARA O NEGÓCIO ENGRENAR 

Diferentemente da maioria de apps de conteúdo para crianças, a Kiddle Pass não é um negócio B2C.

Segundo Mariana Espindola, 35, cofundadora da startup, apps para o consumidor final demandam muito investimento inicial e complexas particularidades em hábitos de consumo para atender um país tão grande e diverso quanto o Brasil. Ela explica o modelo da startup:

“O diferencial da Kiddle Pass é oferecer assinaturas via parcerias com empresas, que ofertam o app como benefício para as colaboradoras” 

A startup tem contratos com 11 grandes empresas, entre elas Chubb Seguros, Matera e Grupo Arco. Os clientes subsidiam as assinaturas, o colaborador paga R$ 19,90 por mês para acesso até duas crianças. Hoje, o serviço está disponível para 15 mil famílias, e a taxa de adesão é de 60%, o que dá em torno de 9 mil lares.

Os clientes corporativos representam 80% das receitas da Kiddle Pass. Os outros 20% são de assinaturas avulsas. A expectativa da startup é faturar 650 mil reais em 2022, um crescimento de 300% em relação ao ano anterior.

COMO CONCILIAR CARREIRA E MATERNIDADE? AJUDAR A RESOLVER ESSE DILEMA DE MUITAS MULHERES INSPIROU A CRIAÇÃO DO NEGÓCIO

Mariana, a empreendedora da Kiddle Pass, se define como workaholic e alguém que gosta muito de estudar. Com formação em publicidade e propaganda, tem especializações em gestão de produtos, novos negócios e gestão administrativa.

A pequena Aira assiste a uma aula online de balé.

Ainda aos 17 anos, ela ingressou na empresa de nutrição esportiva Probiótica. Depois, trabalhou por três anos na CIMED, uma das maiores farmacêuticas brasileiras, chegando ao cargo de gerente de negócios. “Trabalhar na CIMED foi uma virada na minha vida. Entrei uma menina e sai uma mulher.”

Depois, ela trabalhou na Acelity, empresa do grupo 3M, onde foi gerente de acesso ao mercado. Foi lá que Mariana conheceu Fernanda Sotelo. Graduada e especializada em marketing, Fernanda viria a se tornar cofundadora da Kiddle Pass.

Naquela época, as duas jovens executivas perceberam uma demanda no mercado. Muitas mulheres na faixa dos 30 anos estão em ascensão na carreira e, ao mesmo tempo, começam a pensar em casar e ter filhos.

Porém, o que poderia ser a realização de um duplo sonho – profissional e pessoal – acaba se tornando uma angústia. Mariana conta:

“Eu percebia que muitas mulheres tinham receio de a maternidade ser um impeditivo para a carreira. Pensávamos: ou terei filhos, ou focarei em ser uma executiva para conquistar posições cada vez maiores” 

E o receio era legítimo. Estudos apontam que cerca de metade das mulheres deixam o mercado em até 24 meses após a licença-maternidade. Além de ser um gargalo em equidade de gênero, a conta não fecha. Até 2030, a presença de mulheres no mercado de trabalhar será de 64,3%, de acordo com o IPEA.

E há ainda outro fator: quanto maior equidade de gênero nas organizações, com mulheres em cargos de liderança, maior os resultados.

Um levantamento da Organização Mundial do Trabalho, realizado com mais de 70 mil empresas em 13 países, apontou ganhos em produtividade, rentabilidade, criatividade e inovação em equipes com maior diversidade de gênero. Além disso, 57% dos consultados afirmaram perceber melhorias na reputação do negócio.

“Muitas mulheres querem – e podem – ser mães e ótimas profissionais. O nosso negócio resolve a dor da empresa, que precisa atrair, reter e valorizar mulheres, e das mães, que querem que os filhos sejam bem assistidos enquanto elas trabalham.”

REALITY SHOW, OBSTÁCULOS, INVESTIMENTOS E PIVOTAGEM: NA BUSCA PELA ESCALABILIDADE

Em 2019, as sócias participaram da primeira edição do Planeta Startup, um reality show feito em parceria entre o InovaBra e a emissora Bandeirantes. Por 45 dias, a startup ficou incubada no InovaBra e teve como mentor Tallis Gomes, fundador da Easy Taxi, Singu e G4 Educação.

Interface do aplicativo Kiddle Pass.

A Kiddle Pass foi uma das finalistas do reality, e apresentou um pitch para os investidores e gurus do empreendedorismo Amure Pinho, Dani Arruda e Fernando Seabra. Por pouco, não saiu vencedora. A escolhida foi a duLocal, delivery de comida fresca e orgânica (que também já foi pauta aqui no Draft).

Nesta época, o MVP era focado no agendamento de atividades presenciais, num modelo similar ao da Gympass. Na sequência, a startup ingressou na rede Chiefs Group, que conecta empreendedores a grandes executivos para fechar programas de mentoria e investimentos.

No começo de 2020, a Kiddle levantou 700 mil reais para lançar a operação comercial. Foram investidores Cristiane Mendes, fundadora da Chiefs Group, Alexandre Cruz, da Jive Investments; Samuel Vilarinho; Jhonathan Martins e Brian Bittencourt, que atuou nas áreas de crescimento e vendas da Gympass, Tmov, Cuidas e Beer&Coffee.

A CHEGADA DA COVID-19 QUASE PÔS FIM À EMPRESA E EXIGIU UMA MUDANÇA DE ROTA

Com modelo validado, dinheiro no caixa e três clientes robustos, as expectativas estavam nas alturas. Acontece que a pandemia chegou e destruiu os planos. Mariana relembra o cenário:

“Com o lockdown, todos os parceiros fecharam as portas. De um mês para o outro, nosso modelo de negócio estava inviabilizado. Abril de 2020 foi o mês mais difícil da minha vida”

As empreendedoras remodelaram o negócio, com apoio da Chiefs Group e foco 100% no digital. A inovação trouxe benefícios, tanto para o negócio quanto para a sociedade.

Uma vez que muitas micro e pequenas empresas não podiam atender de forma presencial, se tornar parceira da Kiddle Pass foi uma oportunidade de gerar receita via aulas online.

A empresa também começou a recrutar e treinar professores autônomos, que viram na plataforma uma oportunidade de renda extra.

A DIGITALIZAÇÃO HOJE PERMITE ATENDER FAMÍLIAS DE TODO O BRASIL COM FOCO EM CLASSES POPULARES 

Em paralelo, a Kiddle Pass realizou 10 projetos com grandes empresas, como Fiat, Unilever e Johnson & Johnson. Ao longo do tempo, a digitalização se tornou uma tática de escalabilidade.

Hoje, o time de 11 funcionários, com pessoas de tecnologia, educadores, pediatras e consultores em psiquiatria infantil, trabalham 100% em home office.

“Quebramos barreiras físicas, sociais e econômicas e o potencial de alcance da plataforma aumentou muito. Hoje, numa mesma aula, há crianças do Amazonas, Rio Grande do Sul e São Paulo”

Outro ponto trabalhado foi o público-alvo. Hoje, o aplicativo é focado em famílias das classes C e D, e cerca de 70% das crianças são alunas de escolas públicas.

O posicionamento de democratização da educação extracurricular também é uma forma de se diferenciar no mercado. Entre os principais concorrentes está a empresa indiana Byju’s, de ensino de matemática e programação, que desembarcou no Brasil ano passado.

Mariana afirma que o mercado de educação infantil digital tem sido pouco explorado frente ao seu tamanho, estimado segundo ela em 8,4 bilhões de dólares.

“O mercado é enorme e há poucas soluções efetivas. E a Kiddle Pass é a única solução SaaS direcionada para classes populares.”

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  • Projeto: Kiddle Pass
  • O que faz: Plataforma de atividades educacionais, físicas e culturais com foco no contraturno escolar
  • Sócio(s): Mariana Espindola, Fernanda Sotelo e pool de investidores
  • Funcionários: 11
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 200 mil
  • Faturamento: R$ 650 mil (estimativa 2022)
  • Contato: [email protected]
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