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Como e por que uma gigante da tecnologia como a Samsung escolheu treinar empreendedores no Brasil

Giovanna Riato - 23 out 2015
O projeto Ocean tem duas unidades no Brasil: uma em Manaus (acima) e outra na capital paulista.
Giovanna Riato - 23 out 2015
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Investir em treinamento para criar um ecossistema robusto de desenvolvedores de aplicativos e soluções: esta é a missão do projeto Samsung Ocean, um centro inaugurado em março de 2014 que oferece cursos, palestras e mentorias para incentivar startups e empreendedores. Na prática, isso tira os desenvolvedores da garagem e os coloca dentro de uma estrutura capaz de dar impulso às novas iniciativas. É o que Eduardo Conejo, responsável pela área de pesquisa e desenvolvimento do Media Center Solution da Samsung na América Latina, chama de pré-aceleração.

Eduardo diz que a oportunidade é boa para os dois lados: as startups recebem orientação de uma gigante de tecnologia e se aproximam da realidade do mercado e, por sua vez, a Samsung expande as possibilidades de sua área de pesquisa e desenvolvimento e passa a contar com novos aplicativos e soluções para seu sistema. Além disso, cria-se um ecossistema que inclui estudantes, profissionais, governo e universidades.

Com unidades em São Paulo e em Manaus, o Ocean já ofereceu treinamento a cerca de 18 mil pessoas neste um ano e meio de atividades. O Brasil é o primeiro país a contar com a iniciativa fora da Coreia do Sul, onde fica a sede da companhia e o primeiro Ocean do mundo, inaugurado há cinco anos. Por questões de política interna, o investimento feito na iniciativa não pode ser revelado. “O Brasil é estratégico para nós. Em Manaus está a nossa maior fábrica fora da Coreia. Lá, temos também dois institutos de pesquisa locais”, diz Eduardo. Para fortalecer a relação de ganha-ganha, com benefícios para as duas partes, as atividades e cursos são gratuitos.

“Nossa intenção não é substituir a universidade, mas servir como complemento. Conseguimos oferecer algo avançado porque temos a oportunidade de aplicação de alguns conceitos”

O Samsung Ocean oferece dois tipos de treinamento. O primeiro, aberto, tem duração de três a quatro horas. Qualquer interessado pode participar sem passar por processo seletivo. O único limite está no número de vagas que restringe as inscrições no site. “O foco não é atrair apenas programadores. Empreendedores que tenham boa visão de negócios também são essenciais para que os projetos evoluam”, conta Eduardo.

Aula de design centrado no usuário, no Samsung Ocean de São Paulo

Aula de design centrado no usuário, no Samsung Ocean de São Paulo

Mas a grande demanda estimulou a Samsung a oferecer cursos mais aprofundados, o chamado programa intensivo. Em quatro meses os grupos participantes passam por treinamento e mentoria. Não é necessário ter uma startup estabelecida, mas é essencial chegar com um time já formado e uma ideia em mente, que será submetida ao processo seletivo. O Ocean só conduz o programa com oito a dez grupos por vez.

UMA CORPORAÇÃO ACELERANDO NOVAS IDEIAS

“Nas cinco primeiras semanas o foco está no business: fazer a pesquisa de mercado, entender o cliente e montar o plano de negócio. Depois vem a fase de prototipação e o desenvolvimento em si”, conta Guilherme Selber, gerente administrativo do Media Center Solution da Samsung América Latina. Durante o programa, as equipes frequentam diariamente as unidades do Ocean. A evolução é acompanhada semanalmente. Ninguém sai dali sem dar uns bons passos para frente. Passado este período, com o protótipo em mãos, os grupos e startups podem partir para a fase de aceleração e buscar investimentos no mercado.

O Ocean abre as portas da Samsung para o mundo das startups e dos empreendedores. O sinal é claro: procura-se novas ideias e inovação. Além de arejar a organização, a estratégia incentiva a produção de conteúdo para as plataformas da fabricante, fazendo elas ficarem mais atrativas para o consumidor. Eduardo fala do desafio que a empresa tem pela frente:

“Os smartphones estão muito parecidos mesmo entre as diversas fabricantes, a diferença é o conteúdo, a forma de interagir com ele. É uma plataforma aberta e jamais seremos capazes de atender a toda a demanda sozinhos”

Com o canal criado pelo Ocean a empresa encurta alguns caminhos que são naturalmente mais longos e burocráticos em grandes companhias. “É este ecossistema que nos indica para onde a demanda está indo.” Assim nascem soluções adequadas à realidade brasileira, com a cara do cliente local.

Já passaram pelo programa startups como a Educity, plataforma de educação financeira baseada em gamification, a Onion Menu, uma solução de autoatendimento para clientes de restaurantes, hotéis e shoppings e a DecorAR, que visa minimizar os problemas encontrados na compra e visualização de móveis usando realidade aumentada.

Há outros exemplos, como o desenvolvimento de jogos na unidade de Manaus que utilizam a floresta amazônica como pano de fundo. “Estamos alcançando bons resultados. É claro que os downloads são inferiores aos de jogos mais conhecidos, como o Candy Crush, mas o volume é expressivo”, diz Eduardo. Em aplicativos, há soluções relacionadas com assuntos como a escassez de água em São Paulo e educação financeira para crianças. A ideia é encontrar soluções digitais para questões reais brasileiras. A Educity e a Onion Menu já publicaram versões beta no Google Play e assim conquistaram os primeiros clientes.

O direito autoral do que nasce ou se desenvolve no Ocean continua com o responsável pela ideia. O acordo é que, caso a Samsung tenha interesse em adquirir a solução, que ela tenha prioridade na negociação em relação aos concorrentes. Ainda assim, isso não é uma obrigação.

UMA CORRIDA PARA APLICATIVOS QUE RESOLVAM PROBLEMAS REAIS

Outra ferramenta para estimular o ecossistema em torno da Samsung, é a AppRun, maratona de seis meses para o desenvolvimento de aplicativos para tablets e smartphones. A primeira edição foi lançada em julho deste ano e, mesmo sem muita divulgação, recebeu 70 inscrições. Os responsáveis pelos projetos vão desenvolver suas soluções, que deverão estar na loja de aplicativos da Samsung a partir de 6 de novembro. A equipe do Ocean dará treinamentos e mentoria aos interessados.

Aula de ilustração digital para jogos, no Samsung Ocean de Manaus.

Aula de ilustração digital para jogos, no Samsung Ocean de Manaus.

Uma equipe da companhia avaliará cada app para escolher os que merecem destaque. “Se todos os aplicativos forem bons, podemos reconhecer até mesmo os 70 inscritos”, diz Guilherme. O prêmio, neste caso, é que, além de receberem os certificados, as equipes vencedoras terão seus projetos em destaque na loja Galaxy Apps. Isso conta, pois é bom lembrar que uma campanha de marketing digital custaria caro demais para a maioria dessas startups.

AINDA EM BUSCA DO “UAU”

É dessa maneira que a companhia sinaliza o caminho de sua área de pesquisa e desenvolvimento no futuro: dar espaço a pequenas empresas com novas ideias e trabalhar de forma colaborativa. “Não é sustentável ter grandes áreas de P&D fechadas. As empresas precisam estar envolvidas com a sociedade, com outras instituições. Algumas soluções não poderão ser pensadas por funcionários de carreira”, afirma Eduardo. Ele acredita que o Ocean é um dos caminhos para que a Samsung crie um ecossistema vivo e atuante, mas admite que a empresa ainda não foi surpreendida por um projeto disruptivo:

“Não sei dizer o que estamos procurando, mas estou certo de que vamos perceber quando encontrar. Há muita coisa boa, mas ainda não tivemos o grande ‘uau’. Noto que a chance de isso acontecer é cada vez maior”

Segundo ele, os projetos nascem com vocação para atrair o público brasileiro, mas nada impede que as soluções e aplicativos mais interessantes cheguem a outros países. “O Brasil é um paraíso de oportunidades e ideias novas. Temos profissionais, escolas e estudantes de altíssimo nível, que não devem em nada para o que vemos internacionalmente”, diz.

Ele diz que o fôlego para correr atrás das boas ideias é parte da essência do Ocean. Para o primeiro semestre de 2016 já está prevista a segunda edição da AppRun, dessa vez com toda a divulgação que uma maratona tecnológica desse porte merece para atrair mais inscrições. Eduardo diz que os resultados do incentivo à inovação valem a pena. “Em um ano e meio de atuação já somos referência. Algumas empresas nos procuram como parceiros, nos consultam sobre aplicativos. É um ecossistema que se autoalimenta”, diz. E a gigante coreana Samsung segue com fome.

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