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Como melhorar a escrita dos alunos? A Letrus une IA e pedagogia para ajudar professores a agilizar a devolutiva de redações

Dani Rosolen - 14 set 2026 Thiago Rached, cofundador da Letrus.
Thiago Rached, cofundador da Letrus.
Dani Rosolen - 14 set 2026
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A redação é um elemento central em processos seletivos como o Enem e os vestibulares de universidades públicas e privadas. Por isso, as escolas investem tanto em aulas para abordar essa atividade durante os anos finais de formação escolar. 

Mas, com um volume exorbitante de textos para ler em pouco tempo, os professores acabam não conseguindo oferecer um retorno aprofundado sobre erros e acertos para que os alunos evoluam e escrevam melhor.

Essa foi a questão que a Letrus buscou resolver adicionando inteligência artificial a essa equação, ou melhor, à correção das redações. Segundo Thiago Rached

“A pergunta que mais recebo hoje é ‘como usar IA na educação?’. E eu retorno da seguinte forma: a pergunta não é como usar IA, mas qual problema você quer resolver?”

No caso da edtech, fundada por Thiago e Luis Junqueira, o problema é a falta de prática da escrita e da leitura e o processo manual de correção, que sobrecarrega os professores e, consequentemente, desincentiva a aplicação de tarefas de produção textual.

Desde o início da sua operação, há uma década, a Letrus já alcançou 1,2 milhão de estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do médio em todas as regiões do Brasil  (está presente em três estados como política pública: Espírito Santo, Goiás e Mato Grosso). Além disso, avaliou mais de 7,5 milhões de redações.

ELE DECIDIU LARGAR A CARREIRA COMO INVESTIDOR PARA EMPREENDER

Thiago sempre teve uma atuação muito ativa no meio social na área de educação. “Fui professor de inglês em periferia, monitor de creche, participei de uma iniciativa de alfabetização de adultos ainda quando estava na USP.”

Ele se formou em Administração de Empresas e construiu sua carreira no mercado financeiro, atuando como sócio da Monashees, uma das maiores gestoras de venture capital da América Latina.

Cobrindo na gestora o setor de educação, Thiago conheceu muitos empreendedores e startups nessa época. E percebeu que diversos problemas estruturais da área não estavam sendo endereçados pelos fundos de investimento.

“Venture capital necessariamente demanda tração e velocidade, negócios que são mais rápidos para se desenvolver e que não necessariamente tentam ser profundos na resolução de um problema social.”

DE “PITAQUEIRO” A COFUNDADOR DA LETRUS

A partir dessa percepção, ele resolveu sair do mundo dos investimentos para empreender no setor educacional. Em 2013, conheceu Luis Junqueira, após ser convidado pela Fundação Lemann para atuar como consultor de projetos de impacto.

“Virei um pitaqueiro do projeto, que ainda nem se chamava Letrus. O Luis, inclusive, se apresentava como professor, não se considerava um empreendedor”

Na mesma época, Thiago mergulhou em um  mestrado em International Educational Development, no Teachers College, da Universidade de Columbia, em Nova York.

De volta ao Brasil, em 2015, ele pretendia fundar e tocar sua própria edtech, mas continuou apoiando projetos de outros empreendedores, inclusive o de Luis.

“Comecei a ajudar organicamente a frente de negócios, distribuição e modelagem. Aquilo fazia sentido para mim, gostava muito. Quando vi, larguei o projeto que tinha desenhado para empreender e falei: ‘Luis, quero ir com você na Letrus’.”

COMO TORNAR A REDAÇÃO UMA PRÁTICA E DESAFOGAR AS DEMANDAS DOS PROFESSORES

A Letrus surgiu de um problema que Luis acompanhava de perto como professor de português: a dificuldade de transformar a produção de texto em prática contínua por causa da sobrecarga da correção manual.

“Um professor experiente leva, em média, 20 minutos por redação para fazer essas indicações. Multiplica isso por 200… Sem tempo suficiente, na maioria das vezes, ele consegue entregar apenas a nota e alguns sublinhados, mas sem muita explicação”

A edtech passou a usar inteligência artificial para gerar devolutivas rápidas e personalizadas, enquanto o professor assume um papel mais estratégico.

“Ele consegue visualizar todas as avaliações e editar a análise feita pela IA, se quiser. Mais do que isso, tem acesso a uma camada de inteligência, identificando os pontos que precisam ser trabalhados com cada turma”

Thiago conta que o programa da edtech aumentou em um terço o tempo dedicado pelos professores aos atendimentos individuais dos estudantes – segundo a startup, cerca de 18 mil docentes já utilizaram o sistema. “A gente busca colocar o professor no lugar de gestor da aprendizagem, de facilitador do processo, potencializando o papel humano”, diz. E complementa:

“O impacto do feedback tecnológico versus o impacto do feedback do professor é completamente diferente. Se o aluno percebe que está sendo enxergado, seu engajamento é outro. A educação acontece a partir de um engajamento profundo e isso demanda conexão humana.”

A EMPRESA APOSTA EM UMA IA PENSADA PARA A REALIDADE BRASILEIRA

A Letrus não foca em soluções genéricas de IA; ela se baseia em uma inteligência proprietária e com olhar local.

Segundo Thiago, uma IA genérica poderia até corrigir uma redação com base nas competências do Enem, mas a cada pedido faria uma correção diferente e não identificaria o ponto específico que o aluno precisa melhorar, nem indicaria atividades para fazê-lo evoluir. 

Já a IA da Letrus conta com uma inteligência pedagógica capaz de identificar, por exemplo, que o estudante enfrenta um desafio de coesão.

“A nossa IA percebe que o aluno não está usando uma diversidade suficiente de conjunções e que os conectivos em falta são os adversativos, o que bate com uma habilidade específica da BNCC [Base Nacional Comum Curricular], que é coesão, e com uma micro-habilidade, que é aplicação de conectivos”, cita Thiago.

“Essa engenharia por trás é 100% da Letrus, uma arquitetura e inteligência pedagógica que um LLM não entrega”

Com base nessa análise, o sistema consegue listar atividades que trabalham essa questão de forma adequada para um aluno do oitavo ano do ensino fundamental no Brasil.  

A LETRUS COMPROVOU SUA EFICÁCIA EM UM ESTUDO FINANCIADO POR UM LABORATÓRIO DO MIT

Thiago afirma que. o time da Letrus sempre se preocupou em comprovar que sua entrega melhorava a aprendizagem. Como ex-investidor, ele sabia, claro, da importância de apresentar evidências.

Em 2020, a edtech publicou um estudo randômico, financiado pelo J-PAL (laboratório referência do MIT), que mostrou o impacto da plataforma, com base em dados do Espírito Santo. Participaram 19 mil alunos do terceiro ano do ensino médio e 400 professores de 174 escolas estaduais públicas que usaram o programa da startup durante cinco meses.

“Os alunos que tiveram acesso à [plataforma da] Letrus ranquearam em segundo lugar do Brasil na redação do Enem. O grupo que não usou ficou em oitavo. Conseguimos demonstrar uma redução de 9% na lacuna de qualificações entre os estudantes de escolas públicas em comparação com os das privadas”

O estudo também mostrou, segundo Thiago, que os grupos que receberam feedback da IA e os que tiveram a avaliação tecnológica complementada pelo professor obtiveram desempenho semelhante. A descoberta levou a Letrus a adotar apenas IA nos programas (antes, a startup mantinha professores corretores para uma segunda leitura).

A pesquisa se tornou referência do J-PAL e levou a edtech a dar formações a organizações de outros países sobre o uso de IA para impacto social. Segundo Thiago, a Letrus foi ainda reconhecida pela Unesco como a melhor tecnologia educacional do mundo, em 2022.

OS APRENDIZADOS DE UM EX-INVESTIDOR NA PELE DE EMPREENDEDOR

Por ter vindo do universo de investimentos, Thiago diz ter uma visão crítica sobre as escolhas dos fundos quando o tema é IA:

“Sinto falta de profundidade, de repertório dos investidores, para poderem apostar em projetos que entregam um impacto real”

Hoje, a principal investidora da Letrus é a Potencia Ventures, escolhida, segundo ele, pelo repertório e alinhamento com a tese de impacto.

Do outro lado do balcão, sua própria percepção sobre financiamento também mudou.

“A gente ainda está no ecossistema de startup em que a regra do jogo é o venture capital. No caso de vários setores de impacto, mas especificamente em educação, de 2020 para cá caiu 88% o volume de investimento total de venture capital”

Para Thiago, esse modelo é pouco aderente à educação, que exige tempo para resolver problemas profundos. Por isso, ele defende capital filantrópico, não apenas focado em doação, mas em instrumentos de investimento mais pacientes e disciplinados.

Outra questão são os desafios próprios de um negócio B2G. Para conseguir gerar impacto em larga escala, a Letrus precisa vender sua solução para governos.

“Os mecanismos de parceria de inovação pelo Estado são muito frágeis e os modelos de contratos dos governos são cada um de um jeito… Apesar da legislação ser única, a interpretação é diversa, o que trava o processo mesmo com precedentes bem-sucedidos”

Mesmo diante dessas barreiras, a startup vem avançando: “Nossos contratos com o governo já venceram e a gente renovou e ampliou todos eles”.

 A IA COMO MEIO, NÃO COMO FIM

A Letrus começou a trabalhar com inteligência artificial em 2017, antes da popularização da IA generativa. Desde o início, a proposta era orientar o aluno e dar feedbacks — e não escrever por ele. 

Em meio ao hype atual em torno da tecnologia, Thiago acredita que a diferença entre empresas que usam IA para resolver um problema e quem usa apenas “por usar” tende a ganhar mais relevância. E conta como a sua própria relação com a escrita mudou:

“Sinto necessidade de construir uma identidade pelo texto. Então, não consigo dar um toque pessoal ou trabalhar em cima de um artigo base que a equipe de marketing escreveu para anunciar um novo projeto da Letrus… Preciso criar do zero”

Para o empreendedor, a popularização da IA pode, paradoxalmente, aumentar o valor daquilo que é genuinamente humano.

“Acho que vamos ter uma valorização cada vez maior do que é humano, especialmente na escrita e na arte. Não sei se a gente vai conseguir distinguir cada vez mais o que é IA ou não, mas aquilo que não for vai se destacar.”

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