Conciliar filhos e trabalho está difícil? Que tal uma rede de apoio 24h com pediatra, psicólogo e até consultora de amamentação?

Dani Rosolen - 10 ago 2020
Flavia Deutsch Gotfryd (à esq.) e Paula Crespi: fundadoras da Theia, elas ficaram amigas no MBA.
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Em pleno século 21, ninguém deveria ser obrigada a escolher entre ser mãe e trabalhar.

Mesmo assim, cerca de 48% das mulheres deixam o mercado de trabalho em até 12 meses após o nascimento de seus filhos, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas.

Foi para ajudar famílias a conciliar parentalidade e carreira que Flavia Deutsch Gotfryd e Paula Crespi fundaram a Theia, em 2019.

A healthtech se posiciona como a primeira plataforma digital a oferecer a mães e pais o acesso a uma rede de profissionais especializados como pediatras, psicólogos, ginecologistas, nutricionistas, coaching de carreira, terapeuta do sono, aleitamento materno etc. Todo atendimento é feito 24 horas por dia por vídeo e chat no site ou no aplicativo da startup.

As sócias acreditam que a pandemia só reforçou a necessidade de um produto como o da Theia, já que o atendimento por vídeo passou a ser o “novo normal”; além disso, o home office e a presença dos filhos em casa 24/7 fragilizaram ainda mais a barreira que separava vida profissional e pessoal.

O INTUITO DE FORTALECER A MULHER ESTÁ NO PRÓPRIO NOME DA STARTUP

Theia, na mitologia grega, é a deusa da luz, mãe do sol, da lua e da aurora. “A gente gostou desse nome pela questão de dar à luz, mas também por ser uma rede, uma teia que nos conecta”, diz Flavia.

Paula complementa: “Depois, descobrimos que Theia é o nome de um planeta que supostamente colidiu com a Terra dando origem à Lua. A figura feminina nesse nome é muito forte e passa ao mesmo tempo a ideia de firmeza e gentileza”.

Apesar da healthtech ter como foco mães e pais que trabalham, a questão da mulher merece um cuidado especial, já que são elas, em geral, as mais prejudicadas na equação família-carreira, sendo vítimas de carga mental e tendo que, muitas vezes, sacrificar a possibilidade de crescer na empresa e alcançar cargos de liderança.

As sócias começaram a perceber isso durante um MBA em Stanford, onde se conheceram, em 2011, e observaram que a maioria dos colegas homens saiu de lá “pronto” para fundar uma empresa, enquanto as mulheres ocupavam cargos de apoio nesse processo.

UM MBA NO MEIO DO CAMINHO

Com formações distintas, as cofundadores da Theia têm trajetórias profissionais bem semelhantes.

Flavia é formada em Administração, com passagem por grandes bancos como JP Morgan e Citibank e decidiu fazer um MBA em Stanford quando começou a repensar sua relação com o trabalho, com um empurrãozinho da mãe, que é pediatra. Ela conta:

“Um dia cheguei do banco às 6 da manhã e já ia sair de novo, quando minha mãe perguntou por que eu precisava estar no trabalho de madrugada. Ela disse que fazia sentido estar no hospital nesse horário, pois podia chegar um paciente grave e ela precisaria fazer uma intervenção. Mas num banco?”

De volta ao Brasil, ela ainda não se sentia pronta para abrir a própria empresa, mas largou o mundo dos bancos para ingressar na Acesso Pagamentos.

Graduada em Propaganda e Marketing, Paula fez carreira na Whirlpool e decidiu cursar o MBA com a promessa de trazer inovação para a empresa. Ela diz que se sentia um peixe fora d’água no curso: ao contrário das outras mulheres da turma, ela já era casada e sem intenções de abrir um negócio.

No entanto, foi “picada pelo mosquitinho” do empreendedorismo. Após o período de estudo, voltou à Whirlpool, mas ficou apenas mais cinco meses na empresa, antes de sair para ser o braço direito na área de negócios do fundador do Guia Bolso, que na época dava os primeiros passos.

Dentro do universo empreendedor, mesmo que ainda não empreendendo, a dupla começou a cogitar sobre essa possibilidade. Ainda mais ao observar seus pares do sexo masculino. Paula afirma:

“Entre a minha turma e a da Flavia no MBA saíram empreendedores como David Vélez, do Nubank, André Penha e Gabriel Braga, do QuintoAndar, Mauricio Feldman, da Volanty, Fernando Gadotti, do DogHero. A gente começou a questionar o que nos separava deles e por que não havia mais mulheres nesse universo”

A conclusão das duas foi de que aquele universo era muito fechado, um “Clube do Bolinha” e de que as mulheres pela forma de criação costumavam se autossabotar, não se sentindo capazes de empreender.

COMO MÃES E PAIS PODEM LIDAR COM TANTAS DÚVIDAS: COM UMA REDE DE APOIO

Até que, no começo de 2019, Flavia chamou Paula para jantar com uma proposta de negócio.

“Primeiro, discutimos muito essa questão de trazer mais mulheres para a mesa, o porquê de empreender, questões relacionadas a nossos valores e como gerar impacto. A última coisa sobre a qual falamos foi o que iríamos construir.”

As futuras sócias começaram a pensar em uma dor que fosse muito presente em suas vidas. E chegaram ao ponto: queriam criar uma ferramenta que ajudasse na conciliação carreira e vida em família. Flavia tinha acabado de ter o segundo filho; Paula estava começando a pensar em planejamento familiar. Flavia comenta:

“A gente via como era difícil manter esse equilíbrio entre trabalho e vida pessoal pelas estatísticas, pela nossa própria experiência e de amigos e pela realidade nas empresas, com falta de diversidade de gênero em cargos de liderança e retenção de talentos, muito disso relacionado à maternidade”

Elas perceberam que uma rede de profissionais da área da saúde especializados em atender famílias — da gestação aos dois anos de vida do bebê — poderia ajudar mães e pais a manterem a saúde mental e física, para que no momento do trabalho estivessem com o foco 100% presente. Paula explica:

“A Flavia tem uma vida outlier [fora da curva] em que todo mundo da família é médico, inclusive o marido. E eu tenho uma irmã pediatra que tem uma rede de médicos de confiança para me indicar. Só que essa não é a realidade da maioria das pessoas. Ter com quem se orientar num momento de gestação ou primeiros anos de vida do filho, em que estamos cheias de dúvidas, é muito importante para produzir melhor no trabalho.”

Assim, elas começaram a estruturar como seria essa rede de apoio e quais profissionais deveriam fazer parte dela (são 30 em nove especialidades diferentes). “Desenvolvemos um processo de seleção bastante criterioso com pessoas que são referência em suas áreas de atuação. Os especialistas que atendem na plataforma, além de receberem uma remuneração por atendimento, também acreditam muito no problema que queremos resolver e querem mudar o mundo junto com a Theia”, afirma Paula.

As sócias também decidiram que a plataforma deveria funcionar como um benefício corporativo, para que as empresas também tomassem parte da responsabilidade nesse processo e, ao mesmo tempo, retivessem talentos e aumentassem a diversidade do time.

Depois do plano e do modelo de negócio definido, era hora de ir atrás de investimento para transformar o projeto em realidade.

EM BUSCA DE INVESTIDORAS-ANJO

Após apresentarem o projeto, as sócias receberam uma proposta dos fundos Kaszek Ventures e Maya Capital (primeiro fundo de venture capital liderado por mulheres na América Latina). Mas a dupla criou a meta de, para cada investidor-anjo homem, trazer uma mulher para a mesa de negociação.

Sem esse “detalhe”, dizem, elas teriam fechado com os fundos em maio de 2019. Mas, com a condição imposta, concluíram a negociação em agosto, com dez homens e dez mulheres investindo na startup. O aporte recebido foi de 7 milhões de reais, a maior rodada seed levantada por uma empresa liderada por mulheres no ano passado na América Latina.

Parece muito dinheiro, diz Flavia, mas quando se olha para toda a cadeira do venture capital, em que os valores são muito maiores, percebe-se que os aportes são subdirecionados para startups lideradas por mulheres, diversidade racial, LGBTQI+ etc.

As sócias afirmam que diferente da maioria dos casos em que fundadoras enfrentam preconceito ao apresentar seus pitches, o fato de serem mulheres ajudou no processo.

“Mas isso aconteceu justamente porque já tínhamos preenchido todos os outros pré-requisitos, com experiência no ecossistema, bagagem na construção de empresas e networking”, aponta Paula.

A OPERAÇÃO EM MODO BETA COINCIDIU COM O NASCIMENTO DO FILHO DE PAULA

Enfim, em novembro, a plataforma começou a rodar em modo beta para os funcionários da primeira empresa cliente. No mesmo dia, nascia o filho de Paula.

“Estávamos de madrugada fazendo o refinamento da plataforma para o lançamento no dia seguinte. Quando fechei o computador, minha bolsa estourou. A gente brinca que meu filho e a Theia são gêmeos!”

Ao todo, cinco empresas contrataram a Theia ainda na fase beta, entre elas a Simco e QuintoAndar. Em julho, as cofundadoras abriram a empresa para o mercado e agora estão em fase de captação de novas organizações parceiras.

Até o momento, já são 2 mil mães e pais cadastrados. Com a pandemia, a Theia também abriu a plataforma para o B2C e está liberando o acesso em um esquema de fila de espera.

A PANDEMIA “ABRIU OS OLHOS” DE MUITAS EMPRESAS PARA A PARENTALIDADE

A quarentena, claro, transformou a rotina em muitos lares, diz Flavia:

“Famílias com crianças pequenas se viram com 40 horas adicionais por semana de trabalho com educação e cuidado com os filhos. E não é que a semana ganhou mais 40 horas, elas estão sendo tiradas de outras áreas da vida, seja do sono, do desenvolvimento, do lazer ou do próprio trabalho remunerado”

Uma pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo C6 Bank e publicada na última quarta-feira (5) mostrou que os afazeres domésticos dificultam o home office para 64,5% das mulheres (57% disseram ter acumulado a maior parte dos cuidados com a casa, enquanto o percentual entre os homens é de 21%).

Outro levantamento com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua apontou que o número de mulheres que perderam o emprego na pandemia foi 25% maior em relação aos homens (7 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho nas duas últimas semanas de março).

Um dos receios das duas sócias com esse movimento é de que haja um retrocesso na luta por equidade de gênero conquistada até aqui. Elas trabalham para que esse “novo normal” não seja um impeditivo no crescimento de carreira das mulheres. Flavia afirma:

“A Theia tem todo um trabalho de ações e workshops de sensibilização nas empresas. Mas o que gente vê é que a pandemia trouxe muito mais atenção a esse tema. Os gestores tinham a ilusão de que era muito fácil separar vida pessoal e profissional e estão tendo reuniões com filhos pulando no meio do vídeo e entendendo que se você não está bem em casa, é impossível estar bem no trabalho — e vice-versa.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Theia
  • O que faz: Plataforma de apoio a mães e pais que trabalham
  • Sócio(s): Flavia Deutsch Gotfryd e Paula Crespi
  • Funcionários: 17 (com as sócias)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2019
  • Investimento inicial: R$ 7 milhões
  • Contato: [email protected]
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