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De olho nos “novos motoristas” de aplicativos, o StopClub lança uma rede de serviços no Rio

Marina Audi - 25 jun 2018
Os sócios e fundadores da StopClub: Rafael Béco, Luiz Neves, Pedro Inada e Marcus Pais no primeiro ponto de apoio da StopClub, no Rio de Janeiro.
Marina Audi - 25 jun 2018
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A popularização das novas tecnologias em mobilidade urbana (Uber, apps de carona e plataformas de entregas expressas), mudou drasticamente o hábito das pessoas, modificando também o uso dos espaços das cidades, além de gerar uma reviravolta no perfil dos proprietários de automóveis. Pensando nisso e em um nicho novo de trabalhadores — os novos motoristas profissionais —, quatro empreendedores do Rio de Janeiro criaram o StopClub, uma rede de pontos de apoio para esses condutores fazerem paradas durante o dia.

No local, eles podem estacionar com segurança, fazer refeições, usar toaletes, wi-fi, tomar água e café, além de até arrumar barba e cabelo ou comprar itens de uso diário (balas, carregador de celular, cabo USB etc). É como se fosse um “coworking” para quem, efetivamente, trabalha no carro, mas que passa a poder compartilhar benefícios nos momentos de descanso.

“Somos a segunda derivada do impacto tecnológico”, diz Pedro Inada, 36, CEO e cofundador da empresa, cujo diferencial está em conectar motoristas-clientes a prestadores de serviços especializados em atender quem trabalha o dia todo circulando pelas ruas da cidade. Ele completa: “Dizemos ao motorista que a gente resolve as necessidades diárias dele para que possa focar somente em dirigir”.

No StopClub, os motoristas podem almoçar, usar o banheiro, o wi-fi e se prepararem para a próxima corrida.

Duas características diferenciam a iniciativa. Uma é que o StopClub busca usar espaços já existentes e que estavam ociosos. O primeiro ponto de apoio, inaugurado em setembro do ano passado, fica na Casa D’España, um clube com mais de 30 anos de existência localizado no Humaitá, bairro da zona sul carioca. Lá, o estacionamento andava vazio, subaproveitado e, com a iniciativa, o estacionamento voltou a se movimentar mesmo em dias em que não há eventos.

Outra é que, apesar de o modelo de negócio necessitar de um espaço físico, a base da operação é essencialmente digital (será 100% assim em breve, dizem os sócios) e os processos são automatizados: desde o cadastramento dos prestadores de serviços à facilitação do pagamento na saída. Pedro conta que, assim, “é como se a pessoa fizesse compras em várias lojas e pagasse tudo em um só lugar. Quando nosso cliente sai, sabemos toda sua jornada de consumo no StopClub”.

Marcus Pais, 30, Product Owner da empresa, fala que, hoje, eles têm o app – no qual os clientes fazem o check-in e participam do ranking de motoristas (que distribui vales combustível e prêmios) – e um sistema formatado para colher os dados de consumo. Por exemplo, é possível emitir relatórios sobre quem lavou o carro, quando e quanto tempo demorou. “Ainda estamos terminando a modelagem do back-end do sistema mais robusto para suportar múltiplos StopClubs e inúmeros prestadores de serviço. Como não tem nada similar no mercado, tivemos de montar do zero. Além disso, no futuro há muitos tipos de parcerias que poderemos fazer com a nossa comunidade e que temos de prever desde já.”

ELES SE PREPARARAM PARA CENTENAS DE MOTORISTAS: NÃO VEIO NINGUÉM

A iniciativa veio da cabeça de Pedro, que por sinal, é o ponto em comum dos outros três sócios. Ele trabalhou dez anos no mercado financeiro antes de tomar a decisão de empreender. Em 2013, abriu a GoGodi, cuja ideia era ser um e-commerce de qualquer tipo de serviço. “Levantamos mais de 1 milhão de reais, montamos equipe, foi uma experiência incrível, mas acabou não dando certo. Fiquei bem mal, foi difícil”, conta. Em julho de 2017, depois de três meses de baixo astral, Pedro pensava em voltar ao mercado, pois estava prestes a ser pai. Foi quando teve a ideia do StopClub.

Empolgado, foi até o amigo de infância, o advogado Luiz Neves, 37, atual COO, para dividir impressões. Na quarta vez em que pediu a opinião do amigo, Pedro arrumou um sócio. Luiz havia terminado um ciclo de implantação do projeto Vila Portugal – área dentro do Jockey Club Brasileiro, revitalizada e transformada em um polo gastronômico e cultural, com restaurantes e galerias de arte – e finalizado a renovação da AG Rio Turismo, pertencente a sua família. O tempo livre acabou quando se uniu a Pedro.

O braço tecnológico do StopClub, formado pelos sócios Marcus e Rafael Béco, 31, CTO, veio quase da mesma maneira. Pedro trabalhou com a dupla através da GoGodi, que tinha contratado a WeWay, agência digital, para desenvolver um app. Marcus fala desse momento:

“Eu estava cansado de trabalhar para clientes. Sempre quis um projeto em que eu tivesse a palavra final sobre o produto, mas não tinha surgido uma ideia fácil de validar”

Ela, enfim, surgiu. E os sócios foram também a campo para pesquisar a dor real dos motoristas. Montaram um questionário e fizeram 100 viagens de Uber para entender como era essa rotina. Ao final, pediam o telefone do condutor e perguntavam se poderiam avisá-lo quando o local fosse lançado.

Rafael conta que um dos primeiros movimentos foi um teste de tecnologia: “Montamos um bootcamp no antigo escritório da WeWay e fizemos o protótipo de um aplicativo que reconhecia a placa do carro”. Já as demais funcionalidades, eles deixaram para fazer depois de conhecer melhor as necessidades dos clientes. Isso poupou trabalho à toa com o desenvolvimento do meio de pagamento ideal, que os sócios acreditavam ser o cartão de pagamento. Em pouco tempo, descobriram que 50% dos clientes pagavam em dinheiro e que os smartphones usados não eram tão modernos assim e não suportavam grandes malabarismos tecnológicos.

No StopClub, os motoristas podem aproveitar o tempo, inclusive, para dar um tapa no visual. Fazer a barba por lá sai a partir de 15 reais.

Os motoristas também podem aproveitar o tempo no ponto de apoio para dar um tapa no visual. Fazer a barba por lá sai a partir de 15 reais.

Para testar a tração da ideia, os empreendedores firmaram um contrato de um mês com o clube parceiro para alugar 30 vagas, mesas, cadeiras e ainda para comprar comida do próprio clube.

Luiz fala: “Dia 4 de setembro, começamos. Não podia ser mais MVP. A gente brincava que era uma espelunca… O engraçado é que nesse primeiro dia, a gente estava se preparando para carreatas de gente entrando (risos)! Ficamos conjeturando como iríamos nos dividir se entrassem várias pessoas ao mesmo tempo”.

Na primeira semana, não veio ninguém. Na segunda semana, veio um cliente, o Arnaldo. Na terceira semana, vieram cinco — e aí começou o boca-a-boca.

Então, eles fizeram um investimento pequeno no local, para arrumar e deixar o “laboratório honesto”, como gostam de dizer, pois ainda pretendem melhorar bastante o ponto de apoio. Hoje, recebem de 300 a 500 motoristas por semana. A estrutura atual funciona de segunda à sexta-feira, das 8h às 16h, e nunca foi lotada. Podem sentar, ao mesmo tempo, 60 pessoas. Mas a maioria dos motoristas chega, almoça e vai embora.

PREÇO CAMARADA E BAIXA MARGEM DE LUCRO PARA FORMAR UMA COMUNIDADE

Luiz afirma que, no modelo de negócio, a cada serviço prestado, o StopClub recebe uma porcentagem. Diz ainda que é um jogo de margens bem curtas, para poderem entregar preço, já que o motorista é muito sensível à esta questão. Cada refeição, lavagem ou permanência na cadeira do barbeiro custa 15 reais. Ele fala mais a respeito:

“A gente compete com a ‘tia’ que vende quentinha na rua, com os garotos que pegam água da bica ilegal e usam um detergente qualquer para lavar o veículo. Então, ter bom preço é fundamental”

O maior valor que ele vê no negócio é a formação de uma comunidade e os possíveis acordos comerciais que ela pode atrair. Pedro, por exemplo, conta que a maior rádio da cidade já os procurou para uma ação que impactasse os motoristas, já que são eles quem escolhem qual a estação de rádio que toca no carro, independente do cliente. Foram também sondados por um app de transporte para usar o espaço do StopClub como ponto de entrega de brindes. E ainda outra startup os contatou porque quer transformar os carros dos motoristas em lojas. “À medida que formamos a comunidade, aparecem oportunidade de rentabilizarmos ainda mais o nosso negócio.”

A meta a curto prazo é usar parte do aporte de 200 mil dólares recebido do fundo Canary para encontrar um segundo local ocioso no Rio e abrir outro ponto de apoio ainda este ano. Com isso, crescerão o faturamento, previsto em 350 mil reais para este ano, e tentarão uma segunda rodada de investimento maior. A ideia é abrir, em 2019, mais cinco pontos. Um deles em São Paulo.

Sobre a maior dificuldade até aqui? De sopetão, Pedro diz: “Conseguirmos comunicar, com clareza, o que somos. Estamos montando um negócio que não existe. É um shopping, mas não é um shopping. É um restaurante, mas não é um restaurante… Além disso, explicar que o nosso valor está além do serviço, está na comunidade que criamos”. Bem, toda disrupção vem acompanhada de algum ônus, nada que não possa ser superado.

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: StopClub
  • O que faz: Marketplace offline especializado em serviços para motoristas profissionais
  • Sócio(s): Pedro Inada, Luiz Neves, Marcus Pais e Rafael Béco
  • Funcionários: 3
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2017
  • Investimento inicial: Aporte de US$ 200.000 da Canary
  • Faturamento: R$ 350.000 (previsão para este ano)
  • Contato: [email protected]
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