Draft Eleições 2014 | Por que vou votar no Aécio | Leandro Narloch

Leandro Narloch - 23 out 2014 Leandro Narloch, 36,, é jornalista e mestre em filosofia pela Universidade de Londres. Foi repórter da revista Veja e editor de Superinteressante e Aventuras na História. É autor de três guias politicamente incorretos: da História do Brasil, da América Latina e da História do Mundo. Os livros venderam mais de 700 mil exemplares desde 2009.
Leandro Narloch, 36, é jornalista e mestre em filosofia pela Universidade de Londres. Foi repórter da revista Veja e editor de Superinteressante e Aventuras na História. É autor de três Guias Politicamente Incorretos: da História do Brasil, da América Latina e da História do Mundo. Os livros venderam mais de 700 mil exemplares desde 2009.
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Entre quinta e sexta, véspera de uma das eleições presidenciais mais acirradas da história brasileira, convidamos dois articulistas para defender o voto em Dilma Rousseff, dois para defender o voto em Aécio Neves, dois para defender o voto nulo e um para defender o não-voto. Com você, teses bem defendidas, que tentam escapar às desinteligências e à desinformação que tomaram conta dos ânimos neste final de campanha. Para que você termine de formar a sua opinião.

 

Por Leandro Narloch

Vou votar em Aécio por um motivo simples: o governo do PSDB será muito mais entediante que o do PT. E eu considero a capacidade de provocar tédio nos cidadãos não só uma qualidade, mas a virtude número 0001 de um bom político.

Infelizmente, poucos deles atendem minha modesta exigência. Os políticos costumam inflar o peito dos cidadãos com expectativas que nunca se satisfazem, assustam o povo com regras novas e teorias de gabinete, azucrinam quem tem um estilo de vida fora do padrão, atrapalham os produtores de riqueza, esculhambam a economia e o pior: com frequência culpam um pequeno grupo da população pelos problemas do país.

Minha frase preferida sobre a política é: “nunca desconfie da capacidade de um governo de piorar o que já é ruim”. Se um político atrapalhar pouco, está ótimo. Se não atrapalhar, sensacional. Voto no cara minha vida inteira.

Não é ironia, prometo a você. Na minha opinião, o personagem que mais provocou morte e miséria no último século foi o político de atitude enérgica e ideias bem-intencionadas – justamente o perfil que tanto se vende nos debates e na propaganda eleitoral. Por onde passa, essa figura demole dois dos bens públicos fundamentais: a paz e a previsibilidade econômica, sem os quais não há prosperidade ou redução de pobreza.

Foram justamente as atitudes enérgicas que arruinaram o governo Dilma. Veja o caso da redução do preço da energia elétrica. De repente, em 2012, o governo anunciou que cortaria em 20% o valor final da eletricidade. Como sempre acontece quando se tenta controlar preços, os preços se descontrolaram. Em vez de cortar impostos, Dilma resolveu reduzir a remuneração de geradoras e transmissoras de energia. A atitude assustou investidores e tornou menos atrativa a construção de novas usinas. Como no congelamento de preços do Plano Cruzado, faltou energia elétrica nas prateleiras. Ela ficou mais rara e, pela lei de oferta e procura, mais cara. Quando a chuva parou de cair, o país estava vulnerável. Um megawatt que custava 400 reais em 2012 no mercado livre chegou a 822 reais no início deste ano.

Outro triste exemplo é o das usinas de etanol. Ao incentivar o consumo para manter o crescimento da economia, Dilma descuidou da inflação. Para jogar a inflação debaixo do tapete, ela teve que segurar o preço da gasolina, tornando o etanol menos competitivo. De 384 usinas de etanol do país, 44 fecharam e 45 estão na beira do precipício. Pelo menos 30 mil trabalhadores desse setor perderam o emprego desde 2010.

Mas o caso de interferência política que mais me irrita vem da Anvisa. Até 2010, donos de clínicas e hospitais que quisessem importar equipamentos médicos podiam apresentar à Receita Federal qualquer certificação internacional. Valia o selo da Food and Drug Administration, a Anvisa americana. De repente, porém, o governo decidiu que, se a FDA não reconhecia a certificação da Anvisa, o Brasil faria o mesmo com a FDA. Agora é preciso ter certificação nacional para passar na fronteira com um tomógrafo ou um aparelho mais moderno de ultrassonografia. Só que a autorização da Anvisa demora pelo menos quatro anos para sair. Enquanto isso, hospitais são obrigados a rejeitar equipamentos mais novos, ainda sem carimbo da Anvisa, e importar modelos mais antigos, que emitem mais radiação.

Alguém poderá perguntar: mesmo em países pobres e injustos há necessidade de políticos enfadonhos? Sim, principalmente neles. Veja o caso da África. Na década de 1960, o mundo todo se entusiasmava com a África independente. Mas os políticos de emoções fortes e atitudes enérgicas arruinaram o pouco que havia de prosperidade no continente. Na Etiópia, o ditador Mengitsu, sob a consultoria de Fidel Castro, removeu povoados inteiros para fazendas coletivas, onde houve, dez anos depois, uma das piores crises de fome do século 20. Em Uganda, Idi Amin expulsou 75 mil comerciantes indianos que viviam ali desde os tempos do Império Britânico. Na Tanzânia, o presidente Julius Nyerere se apropriou de indústrias, bancos, companhias de seguros, companhias de comércio exterior e ordenou que 10 milhões de pessoas se mudassem, caminhando, até as fazendas estatais. O país passou da posição de maior exportador para a de maior importador de comida na África. Botsuana, por outro lado, teve a sorte de ser liderada por políticos enfadonhos. O primeiro presidente não se apropriou de empresas nem fechou o país ao comércio internacional. Foi reeleito e depois sucedido pelo vice-presidente, que também foi reeleito e sucedido por seu suplente. A estabilidade rendeu a Botsuana o maior avanço em qualidade de vida entre os países africanos.

A política econômica do PSDB é nessa linha: ortodoxa, entediante. Nada de achar que é possível resolver a economia ou a natureza humana por meio da política – o máximo que os políticos podem fazer é limpar o terreno, estabelecer condições para a cooperação entre os indivíduos. E Aécio é mineirinho no sentido mais rico do termo. Desconfiado dos poderes do estado, prefere apaziguar, conciliar, comer quieto, aproveitar os prazeres da vida. Tucano, não tem convicções fortes demais, não é radicalmente contra ou a favor de coisa nenhuma. Eis o melhor fornecedor do tédio de que tanto precisamos.

Leandro Narloch, 36, é jornalista e mestre em filosofia pela Universidade de Londres. Foi repórter da revista Veja e editor de Superinteressante e Aventuras na História. É autor de três Guias Politicamente Incorretos: da História do Brasil, da América Latina e da História do Mundo. Os livros venderam mais de 700 mil exemplares desde 2009.

Leia aqui a análise dos outros articulistas a favor de Dilma, de Aécio, do voto nulo e do não-voto.
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