“Ele é o Photoshop e eu sou o Excel”: os irmãos Szacher uniram expertises para criar a Zupi e o Pixel Show. Agora, se reinventam outra vez

Marcela Marcos - 20 mar 2024
Os irmãos Símon (à esq.) e Allan Szacher, criadores da Zupi, do Pixel Show e da Zupi Live.
Marcela Marcos - 20 mar 2024
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O que começou com um CNPJ despretensioso para fazer freelas de design e ilustração se transformou em uma empresa que deu origem a uma revista independente para valorizar o trabalho autoral de criativos: a Zupi

Mais tarde, os sócios – os irmãos Allan Szacher, 47, e Símon Szacher, 45 – complementaram experiências para dar origem ao maior festival de criatividade da América Latina: o Pixel Show

Hoje, além desses produtos, a dupla se dedica a abrir novas frentes de negócio na Zupi Live.

Curioso que essa trajetória empreendedora teve início ainda na adolescência, quando os irmãos – Allan tinha 15 anos e Símon, 13 – ficaram de castigo por terem “aprontado muito”.

O castigo era o seguinte: os dois ficariam duas semanas “presos” no escritório do pai, pensando no que poderiam fazer de útil no computador; caso contrário, não poderiam mais usar o equipamento. 

A dupla, então, resolveu fazer etiquetas para selar cartões (de aniversário, boas festas etc). Allan conta:

“A gente virou para o nosso pai e disse que já sabia o que fazer, mas que precisava de 300 cruzeiros, na moeda da época. Ele deu risada, pensou ser brincadeira, mas deu o dinheiro”

Com a quantia, os dois foram a uma papelaria e compraram um foamboard (placa de espuma laminada com papel, frequentemente utilizada para imprimir materiais de design). 

E assim surgia a Cards & Labels, o primeiro empreendimento dos irmãos Szacher.

O CRESCIMENTO DA DEMANDA PÔS FIM AO PRIMEIRO NEGÓCIO DOS IRMÃOS, QUE AINDA ESTAVAM EM FASE ESCOLAR

O portfólio da Cards & Label incluía as etiquetas e os próprios cartões – que eles ilustravam com base nos modelos facilmente encontrados em papelarias. 

Poucos meses depois, diz Símon, já contabilizavam mais de mil clientes: “E praticamente ninguém mais era da família”.

A empresa, segundo os irmãos, não evoluiu porque a demanda começou a aumentar demais, o que coincidiu com o fim do período escolar de Allan, que passou a pensar em fazer faculdade. 

“Eu já tinha feito um curso do Sebrae, de uma semana, que reunia experiências de empreendedores, dos falidos aos bilionários”, conta Allan. E explica: 

“A atividade do curso consistia em criar um business plan. Teve gente que abriu uma concessionária, colocando grana pesada. Eu fiz o que podia na época: criei um evento de drinks e pizza” 

Apesar da veia empreendedora pulsando, ele resolveu fazer um curso técnico de Eletrônica e Robótica e faculdade de Propaganda e Marketing. 

Um pouco mais tarde, Símon foi estudar Administração de Empresas. E assim, por um tempo, cada um seguiu seu curso.

INSPIRADO PELA BIENAL DE DESIGN, ALLAN SAIU DISPARANDO SEU CURRÍCULO E TRABALHOU COM TRÊS MESTRES DAS ARTES GRÁFICAS

A trajetória profissional dos dois, porém, estava fadada a se entrelaçar de novo, tal como na adolescência .

Allan fazia estágio em uma agência de publicidade até que, um dia, se deparou com um pôster da Bienal de Design Gráfico. 

“Fui ao evento e saí de lá alucinado, comprei uns catálogos e descobri que o designer criava marcas, ilustrações, capas, coisas assim. Eu nem sabia”

Ele passou a disparar seu currículo para os escritórios que se destacavam nos catálogos. E foi assim que chegou aos artistas gráficos que considera, até hoje, seus mestres na profissão: Cássio Leitão, Guto Lacaz e Ricardo van Steen, com os quais trabalhou. 

Depois dessas experiências, Allan resolveu empreender, em 2001, criando a empresa que, então, se chamava Zupi Design, em 2001, para trabalhar como freelancer (fazendo ilustrações e diagramação para revistas). 

O irmão mais novo entrou como sócio, mas, até então, somente no papel. O investimento inicial foi de 30 mil reais.

Um ano depois, Allan resolveu morar na Austrália, onde teve facilidade em ingressar no mercado de trabalho da própria área. Em Melbourne, por exemplo, ilustrou um jornal de finanças. 

Em 2004, Allan retornou ao Brasil, “expulsou” o pai do escritório que ele mantinha na Vila Mariana, na Zona Sul de São Paulo, e montou o próprio, no mesmo local. 

Enquanto isso, Símon trabalhava com auditoria de normas de qualidade e comércio exterior. Porém, em breve ele deixaria o emprego:

“Em 2006, fui desligado da gerência da empresa onde eu trabalhava com exportação e, então, o Allan me chamou porque a Zupi estava crescendo. Ele perguntou se, além de ser sócio dele no papel, eu não gostaria de ser na vida real, também” 

Com a Zupi, Allan prestava serviços de design, mas também mantinha um blog homônimo, uma newsletter – e uma revista impressa. 

A ZUPI FLORESCEU NO AUGE DO MERCADO DE REVISTAS INDEPENDENTES (MAS SUA PRODUÇÃO CUSTAVA O VALOR DE UM CARRO POPULAR)

Definida por eles como “diferente, independente e sem fins lucrativos”, a revista de ilustração e cultura visual Zupi nasceu com a proposta de incentivar e registrar a produção de trabalhos autorais no Brasil e no exterior. 

O objetivo, dizem, sempre foi privilegiar quem tinha um traço muito original, diferente do que vem sendo feito. O público leitor é composto por designers, ilustradores, diretores de arte, fotógrafos, estilistas, grafiteiros, arquitetos, publicitários… criativos, de modo geral. 

O problema é que, mesmo no início, o gasto que tinham para as tiragens custava, segundo os irmãos, “o mesmo valor de um carro popular”. 

Quando o volume estourou (de 3 mil exemplares, rapidamente chegou a 15 mil), eles até tiveram alguns patrocinadores e lucraram com venda de assinaturas, mas, ainda assim, o que entrava no caixa não era suficiente para arcar com o custo alto de impressão. Símon conta:

“A revista nasceu na época de ouro das empresas desse mercado de publicação independente, porque, de lá para cá, as grandes redes só quebraram, mas o mercado de leitura em geral começou a ruir quando veio o iPad”

A Zupi chegou a ser comercializada em 28 pontos de venda fora do país. Em São Paulo, o principal ponto era a Fnac (a famosa rede francesa, que vendia livros e produtos eletrônicos, teve endereços na Avenida Paulista e em Pinheiros, antes de fechar sua última loja física no país em 2018).

Hoje, o número de exemplares da Zupi é semelhante ao volume com o qual tudo começou – e quem quiser comprar um, precisa ir até o Zupi Space, o escritório da Vila Mariana. 

Paralelamente à revista, porém, outra ideia do hub de criatividade dos irmãos Szacher surgiu em 2005 e se tornou rapidamente um sucesso: o Pixel Show.

AS DORES E AS DELÍCIAS DE COMANDAR UM EVENTO EXPONENCIAL 

O Pixel Show nasceu em 2005. Símon e Allan perceberam que já contabilizavam mais de 40 mil pessoas em um mailing de interessados em receber os conteúdos da Zupi. A ideia, então, foi tentar reunir ao vivo aquele público. 

A primeira edição do evento foi realizada no Museu da Imagem e do Som (MIS), na capital paulista, para repercutir o que havia de mais interessante nos mercados de ilustração, design gráfico, publicidade e animação. A estreia atraiu 300 pessoas – todas elas da agenda de contatos dos fundadores. 

Já a quarta edição, em 2008, ocorreu no Memorial da América Latina, com abertura para o público externo. Na ocasião, 900 pessoas assistiram a palestras em um auditório e outras 5 mil visitaram os estandes do lado de fora. 

O Pixel acabou se transformando no maior festival de criatividade da América Latina, como a gente já havia contado no Draft. Em 2019 (quando as atrações se misturavam entre feira, workshops, palestras e exposições ao vivo em telas gigantes), atingiu a marca de 50 mil participantes.

O tamanho da equipe também precisou se moldar. A Zupi enquanto empresa começou com três contratados, expandiu para 20 funcionários fixos e 200 pessoas na equipe do Pixel Show. 

Com o aumento do fluxo, vieram, naturalmente, os problemas, “quase todos de pré-produção”, segundo Símon – desde a falta de papel higiênico nos banheiros (não comunicada com antecedência pela organização do espaço locado) até inundações, o que levou a perrengues contratuais com os quais os empreendedores foram aprendendo a lidar na medida em que surgiam. 

Eles explicam que a parceria deu certo pela complementariedade entre os dois. Allan faz a ponte com os artistas; enquanto isso, Símon administra o negócio. “Ele é o Photoshop e eu sou o Excel”, brinca o caçula.

A PANDEMIA RECONFIGUROU O PIXEL SHOW; O MOMENTO, AGORA, É DE REBRANDING  

Até 2020, o Pixel Show crescia exponencialmente a cada ano, tendo sido definido por um participante como “uma panela de pressão, um Pinterest ao vivo em que todo mundo está ali com vontade e vibrando positivamente”. 

Mas, com a pandemia, foi preciso se adaptar ao isolamento. Em 2020, o evento aconteceu online, com palestras e outras atrações por meio de lives, mas, em 2021, o formato já estava desgastado. Allan afirma:

“Na pandemia a gente aprendeu a transformar o business, mas chegou um momento em que ninguém aguentava mais evento online. As pessoas queriam interação olho no olho, queriam abraçar, fazer networking”

Acabaram aproveitando uma sala do escritório (“até então lotada de caixas do estoque de outras edições do Pixel Show, materiais que sobravam etc.”) para incrementar a estrutura e o negócio. 

“Demos uma organizada e a transformamos em um estúdio para as transmissões”, diz Allan 

Não demorou para que, na repaginada do espaço, os irmãos criativos passassem a enxergá-lo como mais uma fonte de receita. “A gente sempre fez muita parceria e, com o estúdio, não foi diferente”, diz Símon. “Uma das marcas que toparam fazer permuta foi a Mobly.” 

Mesmo com a volta do formato presencial do Pixel Show, em 2022, o estúdio (que passaram a alugar para gravações de podcasts e videocasts) continuou funcionando. Aliás, se tornou o foco dos Szacher e levou ao rebranding da empresa que, agora, passará a se chamar Zupi Live. 

A oferta de serviços passa a incluir gravação de conteúdos de clientes, além da organização de eventos corporativos, aproveitando a expertise do festival de inovação – que, por enquanto, não tem uma nova edição prevista. Símon explica: 

“Como o Pixel Show cresceu demais, o custo de produção passou a variar de 2 a 3 milhões de reais, então, qualquer passo errado quebra nossa empresa e minha família. Não podemos arriscar” 

Enquanto buscam patrocínio por meio das leis de incentivo à cultura, os sócios se dedicam aos projetos dos clientes e a manter o próprio espaço cultural, que tem uma área de exposições das mais de 300 obras do acervo, produzidas ao vivo durante os festivais. 

O faturamento da companhia em 2023 foi de 1,8 milhão de reais. A expectativa para 2024 é de 2,5 milhão de reais, e a dupla já tem mais um modelo de negócios em mente: mentoria para artistas. 

“Queremos ensinar ilustradores e designers gráficos a valorizar o próprio trabalho”, diz Allan. “A maior parte deles não tem um administrador, e precisa disso para conseguir focar em um trabalho criativo livre.” 

DRAFT CARD

  • Projeto: Zupi Live
  • O que faz: Eventos, filmagem, street art, tendências, experiências, tecnologia e economia criativa
  • Sócio(s): Allan Szacher e Símon Szacher
  • Funcionários: 9 (além dos sócios)
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2001
  • Investimento inicial: R$ 30 mil
  • Faturamento: R$ 1,8 milhão (em 2023)
  • Contato: info@zupi.live
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