“Os negros sempre precisaram ser criativos. Com essa capacidade inovadora, vamos gerar os próximos unicórnios”

Dani Rosolen - 9 dez 2020
Maitê Lourenço, psicóloga e fundadora do BlackRocks Startups (foto: Wendy Andrade).
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Maitê Lourenço, 36, costuma dizer que foi a Psicologia que a escolheu. Na verdade, foi o empreendedorismo.

Há dez anos, ainda durante a faculdade, ela fundou a Cia de Currículos, um e-commerce de gestão de carreira. Participando de eventos de inovação e tecnologia, percebia a falta de diversidade no ecossistema.

Para mudar esse cenário, Maitê empreendeu de novo e criou, em 2016, o BlackRocks Startups, uma aceleradora focada em negócios fundados por empreendedores negros.

O programa de aceleração começou a operar em 2018, com cinco empresas. No ano passado não houve edição, mas em 2020 dez startups estão sendo aceleradas graças a uma parceria com o BTG Pactual e com o TikTok, que possibilitará rodar o programa pelos próximos dois anos, impulsionando mais 14 empreendimentos.

Colunista da Forbes Brasil e considerada uma das 50 pessoas mais criativas do país (segundo o Wired Festival CreativeX deste ano), Maitê fala, a seguir, sobre a criação da aceleradora, os desafios da pandemia, sua visão sobre ações de diversidade empresarial e o que espera da sua startup para o futuro (spoiler: o sonho dela é que empresa um dia feche as portas).

 

Na infância, com o que você sonhava em trabalhar quando crescesse?
Sempre me questiono se o que eu queria ser era porque enxergava capacidade em mim de fazer aquilo ou porque via referências de pessoas parecidas comigo trabalhando naquela área. E eu não chego a resposta alguma…

Eu ia no banco e queria ser escriturária. Assistia ao programa Rá-Tim-Bum e queria ser cientista. Via as cabeleireiras e — mesmo elas não cuidando de cabelos como os meus — eu gostava de cuidar dos cabelos das minhas amigas que tinham cabelo liso. Como adoro esportes, via o pessoal dos supermercados patinando e pensava que queria trabalhar daquela maneira.

Minha indagação é muito do quanto, se a gente não se vê representada, não tende a sonhar tão alto. É muito comum filhos de pessoas que são médicas, advogadas, de um eixo mais tradicional e burguês, acabarem sonhando em ter as mesmas profissões que os pais

O ponto de discussão é: se eu tivesse sido incentivada por pais que tiveram Ensino Superior para ser mais, será que eu teria tido outros sonhos? Será que me colocaria no lugar de ser astronauta, médica ou engenheira?

É importante discutir que os espaços que alguns grupos sonham ocupar não necessariamente são espaços de oportunidade, de habilidades, de visão de competências… E sim apenas as posições de trabalho onde essa pessoa consegue se enxergar, com o racismo dizendo que ela não pertence a outros lugares.

No final das contas, você acabou se formando em Psicologia. Como se desenvolveu sua carreira nessa área?
Sempre quis entrar na universidade. Mas, por não ter tempo nem dinheiro, acabei postergando a vida acadêmica. Era muito comum os cursos da manhã terem desconto ou bolsas. Só que se você estuda de manhã, logo não trabalha — ou tem que achar um estágio no período da tarde, o que é muito difícil.

Então, foi um desafio conciliar o trabalho, que era uma prioridade, com os estudos. Essa é outra reflexão: esperar que as pessoas periféricas e negras falem da graduação como uma “escolha” é uma utopia. Não dá para falar simplesmente “fui lá e me dediquei…” Muitas vezes vez, para se manter dentro da universidade você precisa conseguir trabalho

Com 24 anos, eu prestei o Enem e consegui uma bolsa de 100% do Prouni. Na inscrição, era possível marcar cinco opções de curso. Eu coloquei quatro para Relações Públicas e uma para Psicologia. Acabei passando em Psicologia, por isso falo que não escolhi a Psicologia, ela é que me escolheu.

Foi nessa época que você criou seu primeiro empreendimento, a Cia de Currículos, né?
Desde o meu primeiro estágio, antes de entrar na faculdade, trabalhei na área de treinamento. Eu ficava responsável por contratar as empresas que davam treinamento para os fiscais do Ministério Público. E de lá para cá, sempre atuei com gestão de pessoas e recursos humanos.

Em 2010, no comecinho da faculdade, consegui um emprego numa grande instituição de colocação profissional pela internet e lá entendi que existia um mundo de trabalho online, que simplesmente a gente não precisava estar pessoalmente nos lugares.

Comecei a tentar entender esse universo, e vi que a área de elaboração de currículos era muito interessante e requisitada. Então eu e outra pessoa que trabalhava nesse mesmo lugar decidimos criar um negócio nesse ramo, a Cia de Currículos. No começo, fazíamos tudo por e-mail; depois, entendemos que precisávamos de um site para as pessoas contratarem o nosso serviço.

Acabei indo trabalhar em outra empresa, mas em 2013 saí de lá para me dedicar integralmente à Cia de Currículos. Além do processo de elaboração de CVs, eu fazia uma simulação de entrevista para os clientes. E dali fui criando estruturas para entender um pouco da parte financeira, administrativa e de outras questões relacionadas a empreender um negócio.

Por causa desse empreendimento, você já frequentava eventos de startups. Qual foi a virada de chave para criar o BlackRocks?
Por não curtir tanto a parte mais prática de elaboração de currículos, comecei a pesquisar como automatizar essa frente. Nesse meio tempo, a sociedade acabou não dando certo e eu comprei a parte da minha sócia na Cia de Currículos.

Naquela época eu não tinha dimensão do que era uma startup, mas estava com a ideia de estruturar algo tecnológico para entregar aos clientes de forma mais rápida a elaboração dos CVs. Então, comecei a frequentar eventos de tecnologia e inovação.

Em 2014, entrei para um grupo de trabalho dentro do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo com enfoque em relações raciais. Por conta dessas provocações do quanto a psicologia ainda não é inclusiva, passei a fazer o “teste do pescoço” nos eventos de empreendedorismo que frequentava: olhava para os lados para ver quantas pessoas negras existiam no lugar, quais eram suas posições e condições.

A virada de chave para empreender o BlackRocks foi a junção desses dois pontos: querer automatizar o processo da minha empresa e enxergar o potencial que a população negra tem para ocupar espaço no ecossistema de startups, já que nós somos extremamente criativos. Podemos muito bem ser os próximos unicórnios se tudo convergir para que nos enxerguem dessa maneira

Percebi que esse universo das startups é muito restrito e que os empreendedores apresentam um pitch, uma ideia no PowerPoint, e saem com 10 mil reais num fim de semana. Imaginei aqueles empreendedores criativos que estão na periferia ou no centro, mas que não conseguem aporte nem são vistos como inovadores por serem negros…. Então, pensei: por que não criar uma estrutura que incentive essas pessoas a ter um espaço?

Como o BlackRocks se estruturou, com seus diferentes produtos como mentoria, eventos e aceleração?
Como uma instituição de uma “eupreendedora”, o desafio foi começar pequeno mas já gerando muito impacto. Um dos pontos que o ecossistema de startups me trouxe de possibilidades é isso: não precisa necessariamente ser algo tão grande — mas o impacto que aquilo representa tem que ser potente.

Começamos realizando pequenos eventos, com no máximo 40 pessoas, e trazendo a perspectiva de ouvir o que já existia. E aí fomos criando todas essas ações, que são um funil.

O Arena BlackRocks é um festival de inovação com foco em capacitação dos participantes. Depois vem o programa de IdeiAção, para quem já tem uma ideia e quer estruturá-la de forma adequada.

Tem também as mentorias, para empreendedores que já possuam algum tipo de experiência ou estejam trilhando um caminho de inovação e tecnologia. E, por fim, a aceleração de negócios, onde selecionamos startups com perfil de crescimento e criamos estratégias para conseguirem clientes e investimento.

Pode citar algum exemplo de startup de sucesso do BlackRocks?
Gosto de mencionar o caso do Cairê Moreira, empreendedor muito inovador que criou a Genyz, sistema de escaneamento do corpo das pessoas para a confecção de roupas em medida customizada.

A gente conseguiu conectar esse empreendedor com o ecossistema e ele foi apresentar a solução em um curso de Futurismo. Dentro desse grupo, tinham empresas varejistas que estavam assistindo [à apresentação] e se aproximaram dele. Em dois anos, uma das empresas, a Renner, comprou a solução.

Para mim essa é uma prova tangível de que não olhar para aquelas pessoas que muitas vezes não são vistas como inovadoras faz com que o mercado perca oportunidades. E essa instituição varejista não perdeu essa chance. Além de comprar a solução, contratou o empreender como head da área de inovação em 3D.

Ver que um jovem negro, que com certeza seria uma das vítimas da polícia, está se tornando relevante para a indústria 4.0 e de impressão 3D é muito gratificante

Fora o caso de outras startups que estão no mercado e conseguiram se tornar referência, como a InQuímica, que até foi pauta no Draft.

Agora, o BlackRocks está com um batch de aceleração com dez startups, com soluções que vão de blockchain a inteligência artificial.

E como está sendo fazer essa aceleração numa versão online por causa da pandemia?
O formato online permitiu que o BlackRocks ampliasse sua atuação e tivesse contato com startups do Brasil inteiro. Recebemos inscrições do Norte ao Sul do país.

Essa troca que está acontecendo entre os empreendedores participantes é muito rica, porque eles estão conseguindo criar uma dimensão dos problemas muito maior, com soluções mais abrangentes do que se estivessem olhando só para o Sudeste, por exemplo.

Nessa edição priorizamos que 20% das startups tivessem mulheres negras liderando, o que também enriquece a discussão porque elas trazem dores diferentes.

O desafio nesse formato é adaptar a metodologia do presencial para o online, conseguir que a dinâmica aconteça, que os participantes se aproximem no virtual. Tem sido desafiador, mas são desafios muito bons e gostosos. E estamos vendo que, para além da conexão da internet, já há uma ligação entre nós.

Você sente que os empreendedores negros estão sendo mais impactados por essa crise?
Sim, pelo fato de a população negra ser mais vulnerável financeiramente. No entanto, somos a população da gambiarra, do jeito, da ideia, da criatividade e da inovação.

Antes, o BlackRocks recebia um tanto de submissão de inscrições com soluções de e-commerces, de plataforma para conectar “isso com aquilo”. Hoje, estamos recebendo uma variedade de produtos e serviços, porque as dores mudaram — e a criatividade dessas pessoas começou a explodir em outras esferas.

Episódios de violência como o que resultou na morte de George Floyd (e, mais recentemente, de João Alberto Silveira Freitas, morto no Carrefour em Porto Alegre) geraram comoção entre as pessoas e também reação de marcas, que veicularam campanhas e posicionamentos pró-diversidade. Você vê hipocrisia nesse movimento?
Eu vejo um acordar. Tem gente que acorda e finge que está dormindo. Tem gente que acorda e deseja continuar dormindo. Tem gente que acorda, levanta e decide fazer algo com aquilo. E tem gente que simplesmente não levanta. Estou fazendo uma analogia, mas posso dizer que os negócios que estão acordando estão ganhando mais.

Um ponto aqui é: se a empresa começou a fazer alguma ação de inclusão e diversidade, isso já é algo relevante. Seja ou não por hipocrisia, essa ação tem um impacto. A questão é o que a empresa faz com esse impacto, como olha para ele, como gerencia

E eu não sou a pessoa que vai falar que é hipocrisia das empresas. Sou a pessoa que vai querer que a gente tenha cada vez mais instituições olhando para a diversidade racial — seja de forma superficial, seja de forma efetiva. Precisamos falar sobre diversidade racial.

Consta que a BlackRocks pretende criar um fundo de investimento. Você pode falar um pouco desse plano?
Entendendo que existem várias esferas de necessidade dos empreendedores, o BlackRocks vem desenvolvendo cada dia mais ações que possam agregar algo para esses empreendedores.

Pensar no capital social, no smartmoney, no networking, nas conexões, tudo isso é extremamente necessário… Mas sem os outros 50% — o aporte –, fica muito difícil conseguir se constituir. Então, estamos buscando construir uma ferramenta para oferecer recursos financeiros aos empreendedores que passam pela aceleradora

Ainda não é um fundo de investimento, mas estamos desenvolvendo estratégias para viabilizar recursos. A parceria com o BTG Pactual, que é o maior banco de investimento da América Latina, é justamente para validar esse processo.

Como você imagina o BlackRocks daqui a cinco anos?
Sempre brinco que meu maior plano é que o BlackRocks não precise mais existir, que a Maitê precise procurar emprego. Mas trazendo para uma perspectiva mais ampla da nossa atuação como aceleradora, o plano é ter mais startups aceleradas, capacitar cada vez mais empreendedores e buscar novas parcerias.

Os próximos cinco anos vão ser de constituição e de análise dos impactos. Vamos analisar onde essas startups que estão agora com o BlackRocks conseguiram chegar, como os empreendedores se desenvolveram a partir dessa experiência.

Acredito que será um período de colheita de impacto. Mas ainda será, também, [um período] de formação de um mercado, de diálogo, de ações efetivas… Para que cada vez mais a população negra esteja liderando negócios inovadores.

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