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Envelhecer é um privilégio, mas também um processo complexo — não só para quem envelhece, mas para quem cuida. Geralmente, essa responsabilidade recai sobre as mulheres da família (se você ainda não conhece o termo economia do cuidado, vale dar uma olhada aqui).
Mesmo quando essa missão se dilui entre algumas pessoas, muitos familiares não conseguem acompanhar o idoso em tempo integral por causa do trabalho e enfrentam resistência em convencer pais e avós a deixar a própria casa para morar com parentes ou mesmo em residenciais para idosos.
Michael Kapps, 36, economista russo criado no Canadá e radicado no Brasil, entende essa resistência. É por isso que sua startup, a Sanii, levanta a bandeira do aging in place: a ideia de que a própria casa é o melhor lugar para envelhecer com dignidade.
“Diferente dos Estados Unidos, onde os idosos querem morar nesses lares, a maioria dos brasileiros prefere envelhecer em casa. Passou a vida inteira construindo e pagando por seu espaço e quer ficar ali”
Mas não é só uma questão de apego: “Existe embasamento clínico de que, em alguns quadros neurodegenerativos, estar cercado por objetos e memórias permite um declínio mais lento do que quando a pessoa é levada para um lugar estranho”.
O cuidado domiciliar, porém, exige adaptações, incluindo contratar alguém para acompanhar a rotina do idoso. Só que inserir um desconhecido no dia a dia da família não é simples. É aí que a Sanii entra: a startup conecta famílias (geralmente das classes A e B) a cuidadores capacitados e de confiança, assumindo recrutamento, treinamento, gestão de escalas, monitoramento remoto e todo o backoffice operacional.
O diferencial em relação às pequenas agências do setor é a tecnologia. Com apoio de inteligência artificial, a startup consegue encontrar o profissional mais adequado para cada necessidade, além de gerenciar processos e a relação entre cuidador e família.
A Sanii foi fundada em 2022, quando Michael, que já havia criado as healthtechs TNH Health e a Vitalk, se uniu a Renato Tilkian e Angelina Clarke.
Renato já era conhecido no ecossistema de saúde, com experiência em aquisições em empresas do setor, além de empreender um lar de idosos, o Hanami Residencial, e um hospital de transição e cuidados pós-agudos, o Yuna. Angelina, por sua vez, veio das áreas de educação e operações (foi VP de estratégia da Descomplica) e tinha uma motivação pessoal para se envolver com o negócio. Por ter perdido os pais cedo, ela começou a pensar mais sobre os cuidados com a saúde.
A Sanii nasceu focada em prevenção, com um programa de envelhecimento saudável domiciliar, que incluía estimulação cognitiva e exercícios físicos para idosos ainda independentes. Apesar do interesse dos filhos, o público final não comprou a ideia. Foi aí que o time percebeu que o problema real estava em outro estágio do envelhecimento: quando a independência já não é total e o cuidado deixa de ser opcional.
A mudança de foco foi reforçada por fatores como o rápido envelhecimento dos brasileiros — hoje, mais de 30 milhões de pessoas têm 60 anos ou mais (quase 16% da população) — e a desorganização de um setor ainda pouco regulamentado. “As pessoas ainda enxergam cuidadores como uma empregada doméstica com mais atribuições”, diz Michael.
Além disso, o mercado depende de pequenas agências que apenas alocam profissionais, sem fazer a gestão do cuidado ou ganhar escala por falta de tecnologia. Ao mudar o foco, os sócios entenderam que precisavam de maior experiência no setor.
“A solução que encontramos foi incorporar outro negócio com 13 anos de estrada, a Senior Services. Era uma empresa tradicional, mas com muita história e expertise, e decidimos modernizá-la com recursos tecnológicos”
Com a aquisição, sua fundadora, a psicóloga e gerontóloga Margherita Mizan, passou a integrar o time, que foi absorvido pela Sanii.
A startup utiliza cerca de 20 critérios para fazer o match entre cuidadores e famílias de idosos, de localização e habilidades técnicas exigidas para o quadro de saúde a preferências pessoais. Há idosos que querem cuidadores mais jovens, outros mais velhos; alguns, por exemplo, não aceitam profissionais com tatuagens ou fumantes.
Segundo Michael, todos os meses cerca de 2 mil profissionais se candidatam para atuar com a startup, mas menos de 2% são aprovados. O empreendedor brinca:
“É mais difícil ser cuidador na Sanii do que entrar em Harvard”
A inteligência artificial apoia o processo, da checagem de antecedentes à conferência das qualificações técnicas (como saber manejar uma sonda ou dar banho em pacientes acamados). A própria startup oferece orientações voltadas a habilidades socioemocionais, já que o cuidador lida não só com o idoso, mas com toda a família.
A automação via WhatsApp, ainda segundo o empreendedor, facilita desde o gerenciamento de plantões (os cuidadores podem aceitar ou recusar) até pagamentos, check-ins e suporte contínuo com um time de enfermagem e gerontologia.
Com esse formato, afirma Michael, a Sanii cresceu cerca de seis vezes em um ano. O serviço começou na cidade de São Paulo e mais recentemente chegou a Campinas, no interior paulista.
O modelo de negócio é baseado na venda de pacotes de plantão de 12 ou 24 horas (o máximo por cuidador são 12 horas), com valores que variam conforme a complexidade do quadro e as necessidades do idoso — que pode sofrer de demência, estar sob cuidados paliativos ou apenas precisar de alguém para ajudar com a higiene e fazer companhia. Michael não divulga os preços nem números de cuidadores e clientes, mas afirma que a Sanii já realizou quase meio milhão de horas de cuidado.
Outro diferencial, menos tecnológico, mas estratégico para a startup, é o investimento em eventos. Em setembro passado, a Sanii realizou o Summit Envelhecer em Casa, reunindo médicos, enfermeiros, investidores, advogados e políticos para debater o conceito e os benefícios do aging in place. “Queremos ser vistos como uma empresa que pensa políticas públicas e inovação para essa área.”
Em 2023, a Sanii captou 8 milhões de reais em uma rodada pré-seed com fundos internacionais como Seedstars, TipTop VC e Geist Capital, além do brasileiro GVAngels. O aporte financiou a mudança de foco do negócio e o rebranding.
Agora, no fim de 2025, a startup recebeu mais 5 milhões de reais em uma rodada liderada pela Sororitê, com participação de investidores antigos. Os recursos estão sendo direcionados à expansão geográfica e à tecnologia.
A meta é chegar a mais três praças ainda este ano e a dez em até 18 meses. Dentro da aposta em IA, a empresa desenvolve um “copiloto do cuidado”, que deve orientar cuidadores de forma personalizada, conforme as necessidades de cada cliente.
Planos de curto e médio prazo incluem cursos de capacitação, prêmios para os melhores cuidadores e investimento em outras demanda domiciliares, incluindo entrega de medicamentos, realização de exames, fisioterapia e uso de internet das coisas (IoT) para ajudar famílias a monitorar o dia a dia dos idosos e dos profissionais durante os plantões.
Mais do que o crescimento, o impacto é a principal métrica de sucesso, diz Michael. “Muitas famílias relatam alívio ao não precisar lidar com a gestão diária do cuidado. Isso reduz o desgaste entre irmãos e ajuda os filhos a voltarem a ver os pais como pais — e não apenas como alguém que precisa de cuidado.”
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