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Espécie de Trivago da logística, Everlog nasceu para resolver de forma digital e inteligente a ineficiência do setor

Cláudia de Castro Lima - 19 dez 2019
Com 20 anos de experiência no mercado, Rodrigo sabia o que não fazer ao empreender
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Provavelmente logística seja uma das últimas coisas em que você vai pensar quando está sentado em um bar, tranquilamente bebendo um copo de cerveja gelada. Mas, até aquela bebida refrescante descer por sua goela, muita logística foi necessária.

Do fornecimento de matérias-primas e suprimentos para a cervejaria até o produto engarrafado chegar ao ponto de venda, o processo logístico é complexo, cheio de notas, papeladas, telefonemas para cotações – e feito basicamente em planilhas, já que a tecnologia existente é cara e geralmente complicada.

Passada a missão do embarcador, profissional responsável pela mercadoria, de contratar os transportadores que oferecem o melhor custo-benefício dentro do prazo que ele precisa que seja cumprido, vem a hora de pagar pelo frete. São inúmeras notas de cobrança, uma para cada frete feito.

Diariamente, mais de 480 mil indústrias no país usam sistemas de transporte que envolvem esse processo todo – e cuja ineficiência custa caro. Mais especificamente, 24 bilhões de reais por ano

Depois de duas décadas atuando no ramo logístico em uma tradicional empresa de sistemas de fretes, e conhecendo seus problemas, gargalos e erros, Rodrigo Fávero (na foto acima) resolveu empreender.

A Everlog, que surgiu em 2016 como uma empresa de consultoria, hoje é uma startup que elimina toda a burocracia do processo de logística, digitalizando-o – e uma das cinco selecionadas para o Programa de Empreendedorismo Colaborativo TheHop Brasil, da Estrella Galicia.

O negócio que está sendo acelerado pela cervejaria espanhola – e que acaba de abrir uma rodada de crowdfunding, na qual qualquer interessado pode investir a partir de R$ 100 – funciona como uma espécie de Trivago das transportadoras.

Mostra, em um sistema com interface intuitiva, qual delas pode atender melhor a empresa, levando em consideração preço, prazo e performance, já que as transportadoras podem ser avaliadas pelos clientes

A solução oferecida pela Everlog também controla todo o processo e audita os pagamentos de frete, evitando erro, duplicação de valores na cobrança e corrupção, entre outros problemas. A economia que a empresa faz é de, em média, 7%. Há casos, no entanto, em que ela supera os 60%.

UM ANO ALMOÇANDO COXINHA DE R$ 1

“Decidir o que não fazer é tão importante quanto decidir o que fazer”, disse certa vez o empresário Steve Jobs, fundador da Apple. Quando Rodrigo resolveu que montaria um negócio próprio no ramo da logística, se ele tinha algo bem claro era exatamente o que não fazer.

Charles Cardoso, o resiliente cofundador da Everlog

“Não queria repetir os erros que vi acontecerem em 20 anos de experiência no meio”, diz ele. Montou a Everlog em 2016 como uma consultoria pensando em vender sua experiência no ramo. Sabia, no entanto, que seu negócio não era escalável.

No fim daquele ano, o amigo Charles Cardoso, que ele conhecera no antigo emprego, juntou-se a Rodrigo para transformar a Everlog em uma empresa de serviços de auditoria de frete. “Contratamos um administrador financeiro e os primeiros meses foram um baita perrengue. A gente tinha que meter a mão na massa não só para pensar no produto, mas também para fazer faxina mesmo”, diz o empreendedor. “Quando entravam R$ 1000 a gente ficava feliz.” O terceiro membro, que, como os sócios, havia deixado um salário bom para trás, desistiu.

Rodrigo e Charles passaram um ano “almoçando coxinha de R$ 1” e “contando moeda para conseguir ir para reuniões”, como dizem. O que os manteve resilientes? “A certeza de saber que a gente tinha um bom produto”, diz Charles.

O estresse estava num nível altíssimo, mas Rodrigo só percebeu que chegara no limite quando um dia, à toa, estourou com o filho pequeno. “Ele tinha que ir de fantasia para a escola e ele não queria colocar. Fiquei tão irritado que rasguei a fantasia em vários pedaços”, relembra. “Quando vi a cara do meu filho mais velho, acuado e todo assustado com a cena, percebi que tinha que fazer algo para mudar aquela rotina.”

HORA DE REPENSAR A ESTRATÉGIA

Rodrigo e Charles começaram então a repensar a estratégia da Everlog e decidiram passar a atuar como uma startup. Chegaram à conclusão de que tinham que procurar programas de aceleração, para de fato entrarem no ecossistema.

Ao mesmo tempo, conseguiram fechar seu primeiro cliente – as coisas aliviaram um pouco, porque foi possível tirar um salário, mesmo que pequeno

Em março de 2018, foram selecionados para o programa Camp (Cotidiano Acelera Meu Projeto) e passaram três meses imersos em Brasília, sede da aceleradora. “Aprendemos muito lá, foi nosso ponto de virada. Reestruturamos a parte comercial e como pensar em nosso marketing e no produto”, afirma Rodrigo. “Foi uma pivotada”, diz Charles.

No último mês da aceleração, a Everlog fechou um grande cliente – Charles teve que inclusive voltar de Brasília para Vinhedo, em São Paulo, para tocar o negócio. Outro programa de aceleração veio na esteira do Camp, o Conecta, criado pela Confederação Nacional do Transporte e desenvolvido em conjunto com o BMG UpTech. Nele, a Everlog recebeu R$ 20 mil ao ser selecionada para o pitch day e mais R$ 210 mil ao ficar entre as 25 finalistas.

Danilo Forti: incorporado ao time para dar consistência ao marketing

Em junho do ano passado, a já mais bem estruturada startup recebeu outros R$ 230 mil ao ser uma das cinco escolhidas para a fase 3 do Conecta. Além disso, passaram um mês na sede da Plug and Play, importante aceleradora do Vale do Silício, nos Estados Unidos. “Com a visibilidade, fomos fechando mais clientes e aumentando a equipe”, conta Charles. “E ir para o Vale do Silício mudou nossa cabeça.”

Com a mentoria que receberam de Bow Rodgers, executivo e empreendedor serial americano, perceberam que era mais interessante se eles focassem no médio embarcador, e não nos grandes, como estavam imaginando. Para mudar a estratégia, tínhamos que mudar o discurso.

“Para o cliente de uma indústria grande, temos que falar em redução de custos, porque é isso que interessa para seu negócio”, diz Rodrigo. “Já para os médios, que geralmente são os donos da empresa, temos que mostrar quanto nossa solução coloca de dinheiro em seu bolso.”

O objetivo da Everlog mudou. “Viramos uma empresa de tecnologia, não de serviço, até para pensarmos em escala, para sermos mais flexíveis e atender cada cliente de forma diferente”, afirma Rodrigo. A plataforma passou a facilitar o processo de gestão de transportes desenvolvendo soluções acessíveis que ajudam na cotação de fretes, descomplicam o monitoramento de entregas e otimizam a auditoria.

UM MERCADO COM UMA ENORME PERSPECTIVA

Em 2019, a startup mudou a ferramenta para usar tecnologia própria e incorporou novos membros, como Danilo Forti, na gerência de marketing, e Ari Mendes Júnior, como gerente comercial.

A reformulação deu resultado e a Everlog passou a fechar em média dois novos clientes por mês. Sua margem de lucro aumentou três vezes. “Mas nem tudo foram flores”, avisa Rodrigo. Eles perderam neste ano seu maior cliente, para o qual metade da empresa estava voltado. A receita caiu 50%, assim como a equipe. Pior: o cliente não pagou tudo o que devia.

Os sócios, no entanto, se muniram de coragem e decidiram não tirar o pé do acelerador. Continuaram investindo no produto e zeraram o caixa no fim do ano – o recurso do crowdfunding vai vir bem a calhar

Com a rodada de investimento na Organismo Brasil, aberta agora em dezembro, a startup, que foi acelerada mais duas vezes, pretende captar R$ 1,5 milhão. Desse montante, 60% vão ser investidos em marketing e vendas, 30% no desenvolvimento da plataforma e 10% em novos produtos. O sistema em que a Everlog opera é o de assinatura mensal, que varia de acordo com o volume de transportadoras envolvidas nos frete.

O negócio – que foi avaliado em R$ 10 milhões, tem hoje 17 clientes e fatura R$ 2,5 milhões ao ano – foi convidado este ano pela Fujitsu para o Web Summit, maior conferência de tecnologia do mundo. Também foi uma das selecionadas pelo StartOut Brasil, programa de apoio à inserção de empreendimentos brasileiros em promissores ecossistemas do mundo, e seguiu para uma imersão em Xangai, na China.

Os sócios inscreveram-se para o programa TheHop Brasil porque queriam passar por uma aceleração que tivesse uma empresa por trás. “Entendemos que isso agrega valor ao nosso produto”, diz Rodrigo. “Como logística interessava à Estrella Galicia, resolvemos participar.”

Um problema no país, a ineficiência da gestão de fretes, é a oportunidade que faz a Everlog crescer mais de 125% ao ano. Segundo os sócios, 22% dos documentos desse ramo contêm erros e apenas 2% das indústrias usam serviços digitalizados na área, o que abre um mercado gigantesco para a startup. “A perspectiva de crescimento do mercado é de 400% nos próximos anos”, comemora Rodrigo.

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