“Eu não queria que mais nenhuma mãe fosse calada ou não tivesse sua dor acolhida. Assim, criei para elas a rede de apoio que eu não tive”

Cris Vasconcelos - 12 maio 2023
Cris Vasconcelos é criadora e gestora da comunidade Ohana.
Cris Vasconcelos - 12 maio 2023
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Essa parte da minha história começa em um sonho construído a dois: sermos três. Foram sete anos tentando até que em um momento inesperado ele chegou.

Gestar Bernardo foi calmaria. Mesmo com enjoos durante os nove meses, existia em mim uma tranquilidade, como a da espera de um grande amigo.

Meu papel era arrumar a casa para essa chegada e me preparei ao máximo para isso. Pesquisei muito para que não tivesse surpresas em nenhuma das etapas. Tola eu ao acreditar que a teoria é semelhante à prática.

A MATERNIDADE SÓ PARECIA PERFEITA PARA AS OUTRAS MÃES: NÃO TIVE O PARTO QUE PLANEJEI, NEM CONSEGUI AMAMENTAR

Minhas surpresas e o descortinar dos meus sonhos começaram assim que cheguei à maternidade humanizada — onde o atendimento seria desumano.

Ali, todo meu conhecimento deu lugar ao medo: medo da hostilidade, medo por minha vida e pela do meu filho. A negligência da equipe quase tirou de nós o nosso sonho. De mim, ela certamente tirou meu sorriso e minha voz

Eu só pensava: assim que eu sair daqui tudo vai melhorar… Tudo vai ser mais fácil.

E não foi.

A amamentação foi outro grande desafio. Eu sentia o leite produzir, o peito encher, mas ele não saía. Novamente usei todos os recursos, sem sucesso. Trinta dias depois, deixei meu bebê aos cuidados do pai e precisei me internar para retirar os abscessos de leite. Foram sete dias de internação para controlar a infecção e uma saudade infinita.

Do lado de fora, eu ouvia: “O que importa é que o bebê está bem” ou “Nossa, você poderia se esforçar mais para amamentar, pois ele não vai criar vínculo com você”.

Do lado de dentro, eu me sentia perdida e sozinha. Os amigos de carne e osso cuidavam cada um de suas vidas e, nas relações virtuais, não havia espaço para mim

Existia o grupo daquelas que tiveram o parto perfeito, das que amamentaram… Mas não existia espaço para quem teve os sonhos roubados.

Eu me afastei das redes sociais e abracei a solidão naquele momento. Acreditava que a maternidade era perfeita para todas as mães, só não era para mim.

DESCOBRI QUE NÃO ESTAVA SOZINHA E QUIS CRIAR UMA REDE DE APOIO PARA QUE NENHUMA OUTRA MULHER PASSASSE PELO QUE PASSEI

Aos poucos, fui retomando minha conta e meu espaço no meio digital, comentando em poucos grupos. No entanto, para minha surpresa, numa velocidade impressionante descobri que não estava sozinha. A dor que eu sentia também existia em outros corações.

Descobri também que — quer seja no parto humanizado (que se tornou cesariana), quer seja na amamentação (que se tornou mastite), quer seja nas noites em privação do sono — todas nós, em algum momento, precisamos ouvir: “Eu me importo com você”.

Eu não queria que mais nenhuma mulher passasse pelo que eu passei. Não queria que nenhuma outra mãe fosse calada ou não tivesse sua dor acolhida. Queria formar a rede de apoio que eu não tive.

Dessa necessidade nasceu a Ohana: uma comunidade criada no Facebook (também está no Instagram) para famílias que procuram por um porto seguro, um local de acolhimento e de informações seguras

O nome Ohana é um caso à parte. Muita gente acredita que eu assistia à animação da Disney, Lilo & Stitch, que conta a relação de uma garotinha e de um alienígena que se passa por um cachorro, e dali teria tirado a ideia (em dado momento do filme, Lilo diz para Stitch que Ohana quer dizer família).

Na verdade, eu nunca vi esse filme. Enquanto buscava por nomes numa pesquisa, me encantei pela sonoridade e pela história por trás da cultura havaiana. Ohana, como dito, é uma expressão que significa “família de sangue”, mas também os amigos e a relação familiar que formamos com pessoas próximas. Exatamente o que nós somos!

MUITAS MÃES FORAM SE VOLUNTARIANDO PARA DAR APOIO ÀS FAMÍLIAS QUE PRECISAVAM DE SUPORTE NO CUIDADO COM SEUS FILHOS

A Ohana não poderia ser feita somente por mim. Ela precisaria representar as várias formas de ser família. Afinal, não existe apenas um único modelo familiar.

Ainda que as dúvidas e as dores sejam muitas vezes parecidas, era necessário criar um modelo de personalização e cuidado em cada resposta. Era preciso ter um conhecimento múltiplo

Afinal, parentalidade engloba muita coisa! Saúde infantil, gestação, parto, saúde mental, educação, pedagogias, psicologia…

Pouco a pouco, fui formando um time de mulheres mães que desejavam contribuir: começamos com uma fonoaudióloga, depois surgiu uma fisioterapeuta, e então uma psicopedagoga, entre outras. 

O crescimento da Ohana está diretamente atrelado a essa equipe ultracapacitada. Hoje, sempre que necessário, fazemos um processo seletivo rigoroso de atualização, com treinamento sobre comunicação não-violenta.

Como os cuidadores e cuidadoras, na maioria mães, se veem muito sozinhas nessa caminhada, é comum ver todo tipo de profissional se candidatando ao voluntariado

Elas querem ajudar e apoiar umas as outras. E nossos desejos são iguais: que outras mães não passem pelo que passamos ou que, pelo menos, tenham acesso às informações e ao acolhimento ideal para essa fase.

GANHEI UMA SÓCIA E UMA GRANDE AMIGA NESTA EMPREITADA DA OHANA

Grandes profissionais já compuseram nosso time e cada uma delas transformou nossa história de maneiras diferentes e surpreendentes. Uma delas é a Vivian Salomão.

Por algum motivo, a foto daquela moça de cabelos curtos sempre me chamou atenção. Quando ela se candidatou para o processo de moderação fiquei super feliz, mas aquele não era o momento.

No entanto, eu não me esqueci dela, existia em mim uma voz que não se aquietava dizendo para convocá-la. Mesmo não tendo espaço para ela na moderação do grupo, resolvi inventar. Criei uma oportunidade para a Vivian cuidar das redes sociais da Ohana.

Vivian chegou revolucionando, trazendo colo e inovação. Criou planilha, apresentação, mudou identidade. Era certo ali o porquê da presença daquela voz que não se calava em mim. Eu precisava da Vivian e, de alguma forma, ela também precisava de mim

Ela tinha acabado de se mudar para outro país e a maternidade trouxe à tona aquela solidão profunda. Hoje, ela me conta como a Ohana trouxe luz e cor aos seus dias enquanto cuidava com zelo do seu bebê.

Quase quatro anos depois, a Ohana conta atualmente com uma equipe multidisciplinar de 25 mulheres que se dedicam diariamente com muito carinho, estudo e ciência para cuidar das nossas mais de 18 mil famílias.

Temos pedagogas, educadoras parentais, psicólogas, cientistas, sociólogas, consultoras de amamentação, odontopediatras, obstetras e muitas outras especialidades para compor esse quadro completo com foco em ciência e acolhimento.

BUSQUEI UMA ACELERAÇÃO PARA A NOSSA COMUNIDADE, MAS NA PRIMEIRA TENTATIVA NÃO FOMOS SELECIONADAS

Cuidar da Ohana é uma tarefa diária e muito delicada, a qual valorizo muito. Por isso sempre quis que nossa comunidade fosse reconhecida pelo tamanho do projeto, pela capacidade gigante de impactar a vida das famílias e, consequentemente, o futuro do mundo onde vivemos.

Nessa busca, encontramos o Programa Aceleradora de Comunidades da Meta, e ele se tornou nosso objetivo! Na primeira vez que tentamos, não fomos aprovadas. Foi doloroso.

Mas descobri que precisávamos nos organizar ainda mais até que, no ano passado, fomos selecionadas. Que alegria! Quanto entusiasmo.

Ser uma comunidade acelerada pela Meta significa imergir profundamente nas necessidades, nos objetivos e nos desejos das pessoas que fazem parte dela

É estudar sobre impacto social, gerenciamento e sustentabilidade. É entender que almejamos algo que nem sempre é exatamente aquilo que a comunidade deseja e, aí, direcionar as energias para a junção perfeita entre os objetivos estratégicos da Ohana e as necessidades dos nossos membros. 

OUTRA FELIZ DESCOBERTA PROPORCIONADA PELA OHANA, A DÉA HOJE ESTÁ POR TRÁS DO LIVRO QUE ESTAMOS LANÇANDO

Foi nessa imersão que chegamos à conclusão de que a comunidade deseja contar suas histórias e ser ouvida. As pessoas, especialmente as mães, precisam ver que não são as únicas.

A identificação e como cada família tratou de suas dores são processos importantes que curam. Daí nasceu o livro Ohana — A maternidade ecoa. Ele é o nosso projeto do programa de aceleração, junto ao evento Eco — Encontro de Conexões Ecoa.

Temos certeza que nossa comunidade impacta diariamente a vida de muitas famílias. E algumas dessas histórias são particularmente especiais para se contar, como a da Déa Aguiar.

Mãe de três crianças incríveis, ela é uma mulher neurodivergente e foi por meio do diagnóstico dos filhos que descobriu também ser uma pessoa autista, TDAH e com altas habilidades

Déa chegou até a Ohana através de dois posts nada comuns: o primeiro falava de livros para abordar o processo de luto com as crianças (ela havia perdido o pai há poucos meses durante a pandemia); o segundo era sobre algo que poucos falam na maternidade: hemorroidas na gestação.

Déa passou por isso e logo pensou: bom, um lugar que fala de hemorroidas de forma clara, informativa e sem tabus é mesmo um lugar sério.

E, nessa jornada, fomos nos aproximando e a Déa se tornou colunista das nossas redes sociais — ela já era escritora e sempre entregou os melhores, mais bonitos e mais provocativos conteúdos para nós.

Quando veio o programa de aceleração da Meta, novamente eu ouvi um nome na minha mente, desta vez era o dela. Eu sabia que precisava convidá-la para fazer parte dessa equipe.

Ao longo do processo de estudos e de aprofundamento na nossa comunidade, descobrimos que nosso projeto seria um livro e tínhamos ali a escritora ideal

Bom, foi então que os olhos da Déa brilharam feito diamante. Na intensa missão de escrever um livro com histórias das mães, Déa se viu realizando um dos seus maiores sonhos.

Mais do que isso: percebeu que todos os obstáculos que sempre teve ao longo de sua trajetória, sem diagnóstico, foram enfrentados e ela, que sempre se sentia aquém da sociedade por não conseguir concluir seus ciclos, os superou e fora incrivelmente capaz de concluí-los. Sim, ela podia fazer tudo o que quisesse. 

O livro Ohana — A maternidade ecoa, aliás, será lançado hoje, 12 de maio, às 19 horas, na Livraria da Vila da Rua Lorena, em São Paulo. Mas já dá para garantir o exemplar no site da editora, em outras livrarias e nos principais marketplaces.

Já o nosso evento, Eco — Encontro de Conexões Ecoa, acontece neste sábado (13), na Casa B2Mamy, também em São Paulo, onde falaremos de visibilidade materna, lançaremos o nosso livro para a comunidade e teremos muita troca e aprendizado. 

HOJE, ACOLHEMOS MAIS DE 18 MIL FAMÍLIAS, MAS O NOSSO SONHO É FAZER AINDA MAIS

Assim como Déa, a Ohana reconheceu sua capacidade e real valor. Hoje ela é uma comunidade do Facebook que trabalha voluntariamente para mais de 18 mil famílias. Mas é claro que eu sonho mais. Sempre sonhei mais!

Nossos projetos agora estão em formar mais alianças e desenhar um plano de negócios capaz de gerar sustentabilidade financeira.

Queremos também promover mais eventos e gerar mais conexões potentes entre as mães, pais e cuidadores para que todos e todas possam enxergar sua força e alimentar sua autoestima para além da aparência física

Almejamos que as competências e soft skills tão desejadas no mercado sejam reconhecidas em cada membro do nosso grupo que, por diversos motivos, somos impedidos de enxergar.

Por último, queremos avançar com um projeto robusto a fim de levar conhecimento e informações às empresas e aos líderes corporativos em busca de uma transformação valiosa, e devolver o pai a essa equação parental (de onde nunca deveria ter saído).

Estamos só começando.

 

Cris Vasconcelos é criadora e gestora da comunidade Ohana, elo entre a informação – com base na ciência – e o acolhimento das pessoas, com empatia e valorizando a diversidade e diferentes composições familiares. 

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