“Eu ouvia que ‘estagiário é tudo burro’ e me incomodava…”: ele criou uma startup para melhorar a formação dos novos profissionais

Angélica Weise - 19 dez 2022
Lucas Rana, fundador da DNC.
Angélica Weise - 19 dez 2022
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Você passa quatro anos (pelo menos) ralando na faculdade, e sai de lá com a cabeça cheia de conhecimento e muita vontade de ingressar logo no mercado de trabalho… A realidade, porém, costuma ser mais difícil.

Segundo a pesquisa do Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube), nos anos de 2019 e 2020, apenas 15% dos profissionais recém-saídos da faculdade conseguiram, em até três meses após o fim do curso, uma vaga em sua área de formação.

Como reverter esse cenário? A resposta da DNC é: com mais educação. 

Atenta às mudanças no mercado de trabalho, a startup de formação profissional complementar busca preparar profissionais para esse ingresso na vida profissional. 

A DNC oferece cinco cursos online de longa duração: formação em marketing, dados, projetos, produtos e tecnologia. A proposta das aulas é promover a empregabilidade dos alunos, a possibilidade de migração de carreira e o aumento de performance. 

“Estamos trabalhando para ser uma alternativa à graduação – mas não a queremos substituir”, diz Lucas Rana, 30, fundador e CEO da DNC. 

Com sede em São José dos Campos (SP), a edtech soma dez anos de atividade, um time de mais de 200 funcionários e a marca, segundo a empresa, de 12 mil alunos formados.

ELE COMEÇOU A TRABALHAR CEDO, NA ESCOLA PROFISSIONALIZANTE DO PADRASTO, E VIU DE PERTO O PODER DA EDUCAÇÃO

O padrasto de Lucas era dono de uma escola profissionalizante de cabeleireiros, mecânica de automóveis e informática. 

Foi assim que o futuro empreendedor começou a escrever sua trajetória profissional, dando expediente como técnico de informática na empresa – e testemunhando de perto o impacto na vida dos alunos. 

“Com 12 anos, eu já trabalhava – e via a transformação das pessoas que faziam o curso”

Depois disso, Lucas fez um curso de mecânica; em seguida, entrou como estagiário de engenharia na Pilkington, empresa automotiva

Ele permaneceu na Pilkington por mais de três anos. Com apenas 21, já podia se orgulhar de ser coordenador de projetos. 

 A DEFASAGEM DE CONHECIMENTO DOS ESTAGIÁRIOS INSPIROU O EMPREENDEDOR A CRIAR SEU NEGÓCIO

Lucas equilibrava o trabalho e os estudos: trabalhava parte do dia na Pilkington, e em paralelo se dedicava à USP, onde cursou Engenharia de Produção. 

Durante os anos de faculdade, ele foi sentindo na pele o abismo entre o que era ensinado em classe e as competências exigidas de fato no dia a dia do trabalho. Uma defasagem que acabava gerando provocações: “Me incomodava bastante o pessoal falar na fábrica que ‘estagiário é tudo burro’…”

O rapaz percebeu que havia uma demanda por treinamentos mais dinâmicos para dar um gás na capacitação dessa mão-de-obra que vinha sendo formada nas universidades. 

E assim, Lucas empreendeu a Dinâmica Treinamentos – o nome atual, DNC, veio mais tarde, uma espécie de abreviação.

“Criei a empresa em 2012, vendendo aulas presenciais em visitas a outras faculdades, com conteúdos que ensinavam a utilizar AutoCAD [software usado para elaboração de peças de desenho técnico], Excel e a metodologia Scrum

O próprio Lucas foi o primeiro professor da escola. E para vender os cursos e fechar turmas, ele visitava faculdades – os primeiros alunos da DNC foram universitários da USP de Lorena, interior paulista.

UMA EMPRESA NÃO CRESCE DA NOITE PARA O DIA: COMO LUCAS FOI CONSOLIDANDO AOS POUCOS A SUA STARTUP

Lucas foi estruturando o negócio. Em 2013, saiu da Pilkington e investiu 40 mil reais de rescisão da fábrica para rodar a DNC. No ano seguinte, montou um escritório em Guaratinguetá (SP), sua cidade natal. 

A DNC funcionou ali até 2017, quando ele a levou para São José dos Campos, por ser uma cidade maior, sede de grandes empresas (a Embraer é a mais emblemática), polo de tecnologia e startups. 

Ele também fechava turmas em cidades vizinhas e até de outros estados, como Itajubá (MG) e Cornélio Procópio (PR).

Em 2018, Lucas passou a trabalhar com orientação de carreira, desenvolvendo trilhas de autoconhecimento e fortalecendo hard e soft skills – sempre com foco em formar pessoas para o mercado.

A PANDEMIA MUDOU OS PLANOS E OBRIGOU A EDTECH A MIGRAR OS CURSOS PARA O ONLINE

A partir de 2019, a escola resolveu redesenhar a sua grade. 

As aulas continuariam sendo presenciais, mas o que antes eram cursos avulsos passariam a ser oferecidos em “pacotes”, como parte de uma formação mais ampla.

Esse novo jeito de “empacotar” e vender os conteúdos estava prestes a estrear, quando a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil.

Lucas relembra como, até aquele momento, ele torcia o nariz para o conceito de EAD, a educação a distância. 

“Eu sempre fui um cara contra EAD. Então sentei junto com minha diretoria e gastamos por volta de duas semanas desenhando um EAD que a gente acreditasse e funcionasse”

A proposta, diz ele, foi bem recebida e impulsionou a DNC a crescer 800% nesse período. 

O online virou prioridade, e a escola hoje trabalha com aquelas cinco formações: marketing, dados, projetos, produtos e tecnologia.

CONSULTORES FAZEM O PRIMEIRO ATENDIMENTO PARA ENTENDER AS DEMANDAS E DIRECIONAR OS ALUNOS

Quando alguém entra em contato com a DNC, um consultor terceirizado faz o atendimento para entender o objetivo daquele potencial aluno ou aluna – e se a escola vai poder suprir de forma efetiva essa demanda. 

Em geral, diz Lucas, quem procura a DNC se encaixa em um desses três perfis: gente atrás de um emprego; pessoas em busca de migrar de área; ou interessados em incrementar seu desempenho profissional.

“Queremos entender o que realmente faz sentido para ele, a sua situação atual, para então indicar a formação mais adequada”

A carga horária de uma formação da DNC fica entre 380 horas e 520 horas, conforme o curso. Por exemplo, a formação de marketing tem 420 horas de duração, incluindo 25 semanas de projetos, 125 horas online e 13 dias de atividades ao vivo. 

Os alunos, segundo a escola, desenvolvem competências específicas em Marketing Analytics, Growth, Metodologia Ágil e Sales Analytics, habilitando-se a atuar em diversas áreas, de Inteligência de Mercado a Customer Success e Branding.

PARA GANHAR EXPERIÊNCIA PRÁTICA, OS ALUNOS TOCAM PROJETOS EM EMPRESAS COMO IFOOD, UNILEVER E AMBEV

Um dos pilares da DNC é dar a chance aos alunos de pôr em prática seu aprendizado. 

Para turbinar a formação, a edtech realiza parcerias com empresas. Na lista estão iFood, Unilever, Ambev, Geekhunter, Ramper, Caju, Zaitt, ImovelWeb e MaxMilhas. 

Isso permite que o aluno tenha uma vivência concreta do mundo corporativo, se debruçando para entender e ajudar a resolver dores reais do dia a dia dos executivos:

“É exatamente isso que a gente está buscando: simular o mercado, o problema de verdade. Assim, o nosso aluno ganha resiliência e uma técnica diferenciada”

Outro diferencial da DNC, diz Lucas, é a mentoria de carreira ao longo da jornada. 

Além disso, alunos encontram suporte 24 horas pela plataforma Slack ou, em horário mais restrito (das 12h às 21h), por WhatsApp.

UMA PLATAFORMA DE AUTOAVALIAÇÃO AJUDA A STARTUP A MAPEAR A EVOLUÇÃO DOS ESTUDANTES

Cada formação da DNC custa entre 5 mil a 9,6 mil reais. Se o valor parece salgado, a empresa garante que a metodologia dá resultado.

Um relatório da própria DNC, divulgado no segundo trimestre de 2022, indica – a partir de entrevistas com 144 estudantes – que 98% deles afirmaram estar empregados em três meses após sua formatura (percentual bem acima dos 15% do mercado citado lá em cima, no segundo parágrafo desta matéria). 

Além disso, o relatório apontou que 95% dos matriculados alcançaram seus objetivos nas formações, com apoio do acompanhamento personalizado e das mentorias individuais. 

Ao longo da formação, os estudantes se autoavaliam; assim, a edtech consegue mapear a evolução de suas habilidades durante o curso.

“Temos um processo de mapeamento muito forte e orientação ao longo da jornada, para que ele ou ela possa melhorar esses skills. Tudo isso é feito através da tecnologia”

Nesse processo, a DNC usa Jumpy, uma ferramenta interna de treinamento e gestão de funcionários. A plataforma reúne informações necessárias para mapear obstáculos e capacitar o time. 

Sobre a questão da empregabilidade, Lucas reforma que a comunidade que se cria entre os alunos ajuda a alavancar o networking e o compartilhamento de vagas abertas.

A EMPRESA AGORA PREPARA UMA FORMAÇÃO ESPECÍFICA PARA QUEM ESTÁ NA FILA DO DESEMPREGO

Em 2021, a DNC recebeu seu primeiro aporte externo, um investimento-anjo dos CEOs da Buser e da Cuponomia no valor de 1,1 milhão de reais. 

Quando olha para trás, Lucas diz que “o grande desafio foi não desistir; [no começo] eu era muito imaturo para o negócio”.

 Agora de olho no futuro, Lucas diz que a DNC está preparando uma formação específica para quem está fora do mercado de trabalho – e portanto com menos grana disponível para investir:

“Vamos ter imersões para quem está desempregado. Elas serão full time, durante três meses, e com um valor muito abaixo: as seis primeiras parcelas são de R$ 99,90”

Não haverá processo seletivo, mas os candidatos devem preencher alguns requisitos: estar desempregado, ter mais de 18 anos, ensino médio completo, disponibilidade para estudar das 7h30 às 21h (de segunda a sexta, durante três meses).

O objetivo é que, transcorridos mais três meses após o fim do curso, essa turma esteja ingressando em vagas de estágio ou analista júnior, e assim dando seus primeiros passos para (re)começar a carreira.

“Temos uma frente social”, diz Lucas. “Somos uma empresa privada, mas tudo que a gente puder fazer para deixar [o curso] mais acessível, faremos.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: DNC
  • O que faz: Edtech com foco em formação profissional
  • Sócio(s): Lucas Rana
  • Funcionários: 200
  • Sede: São José dos Campos (SP)
  • Início das atividades: 2012
  • Contato: joã[email protected]
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