Por que eu me tornei uma publicitária. E por que eu deixei de ser uma publicitária.

Andréa Fortes - 19 set 2014 Andréa Fortes, da Sarau: daqui para a frente, menos campanhas e mais conversas, menos metas de vendas e mais propósito.
Andréa Fortes, da Sarau: daqui para a frente, menos campanhas e mais conversas, menos metas de vendas e mais propósito.
Andréa Fortes - 19 set 2014
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Por Andréa Fortes

 

Cresci no interior do Rio Grande do Sul. Os primeiros anos de vida foram numa fazenda, com direito a café da manhã dos deuses, leite tirado da vaca, galopes a cavalo por campos abertos, morros altos para serem descobertos com um graveto na mão e o peito aberto às aventuras.

Minha infância não tem preço. Foi simplesmente espetacular. O pão quentinho que a minha mãe fazia, as guerras de lanterna à noite, jogos de xadrez na mesa da sala à luz de velas. Não sei se foi tudo isto mesmo ou se boa parte disto teve muito a ver com os livros que eu li. Foram centenas.

Meu pai, que casou bem tarde, depois dos 50, com a moça bonita da cidade, comprava desde muito cedo livros e enciclopédias. “Para os filhos que um dia viriam”, ele dizia. E vieram. Meu pai era viciado em leitura. Não de livros, necessariamente. Mas de jornais. Era um ritual toda manhã esperar cada um dos jornais que adentravam por baixo da porta.

Antes de sabermos ler, já disputávamos, eu e meus irmãos, a parte do jornal que nos cabia: a das histórias em quadrinho. Eram duas folhas dobradas ao meio e a divisão era bem colaborativa: uma vez, um “levava” a folha dupla e os demais dividiam a outra. Íamos revezando.

Aprendemos, assim, o tal do “sharing” de que tanto se fala hoje. Mas não foi só desse jeito que os jornais transformaram minha vida. Tenho a dizer que a minha veia empreendedora também tem a ver com eles. Como tinha muito jornal em casa e eu tinha muita liberdade de circular pela cidade (depois dos 5 anos fomos morar na cidade, Cachoeira do Sul, para estudar. Íamos para a fazenda em feriados e nas férias), eu era figura conhecida na frutaria da esquina. Dona Beth, segue por lá até hoje. Mas deixou de vender verduras e frutas. Hoje vende flores. Na época, “a japonesa”, como era conhecida, usava jornal para embalar os produtos. Precisava de muito jornal. E tínhamos muito jornal em casa. Claro, eu os vendia para ela. E fazia, desde muito cedo, o meu dinheirinho. A Andréa “economista” nasceu ali.

“As palavras são perigosas. Quando pronunciadas, já embutem um monte de coisas. E fecham, na mesma medida, um mar de possibilidades.”

Tínhamos também nas enciclopédias uma fonte de fantasias. Não tinha Google mas era bem divertido. O Tesouro da Juventude, uma beeem antiga, era muito completa. Tinha História, Ciências e as tais Fábulas de Esopo, que seguem no meu imaginário até hoje.

Das enciclopédias, migramos rapidamente para os livros. Tínhamos uma tia bem velhinha, a tia Dudu, que, além de fazer bonecas de pano, trabalhava na Biblioteca Pública da cidade. Era um barato passar as tardes lá. De manhã, colégio. À tarde, biblioteca. Todos os dias, religiosamente. Com uns 10 anos eu tinha lido toda a seção infantil. Lembro como se fosse hoje das aventuras da Coleção Vagalume.

Eu não convivia tanto com os colegas de aula. Convivia com meus irmãos e com os livros. E com as “tias” da biblioteca, que organizavam rodas de leituras e pequenos eventos pra gente. Os meus irmãos devoravam livros comigo, quase numa competição. E assim, desde muito cedo, meu imaginário se ampliou. Hoje, olhando pra trás, não sei direito se as coisas que enxergo são reais ou se foram parte da minha fantasia de criança leitora. Não importa.

Graças aos livros – e ao professor Antônio Carlos –, na sexta série, passei também a escrever. Desde sempre, contava histórias no colégio. Adorava recontar um texto, viajar de novo na história, com umas pitadas autorais, claro. O professor Antonio Carlos percebeu que meus textos eram bacanas. Ele me incentivou e dali saiu um primeiro livrinho, em “cocriação” com a turma toda.

A vizinha do lado de casa, a Dalila, era editora literária do jornal da cidade, o Jornal do Povo. Rapidinho, descobriu a “pupila” mirim e me provocou a escrever para o jornal. Com 12 anos, tive várias poesias publicadas. As primeiras, “a mulher” e “o homem”, seguem comigo até hoje, como temas que me causam verdadeiro frisson.

Depois veio a “Mãe Coragem”, que marcou muito minha trajetória. Eu me moldei muito naquela personagem sobre a qual escrevi. Era, sim, a minha mãe. Uma baita guerreira. Mas também muito do meu imaginário estava ali.

Minha mãe também incentivou muito a literatura em mim. Ela nos contava uma história da geleia de jabuticaba roubada durante a noite por um menino muito arteiro. Recontou-nos algumas centenas de vezes. Nunca cansamos de ouvi-la. Meu pai, meu heroi, claro, intelectual, mais velho, inteligente, botava lenha na fogueira. Carregava os recortes de jornal das minhas poesias na carteira. E mostrava pra todo mundo.

“Nós nunca gostamos de vender ‘coisas’, de ‘empurrar’ produto. A questão, para a gente, é outra. Gostamos de gente, de entender o produto, de fazer evento, encontro, de comunicar de um jeito mais amplo.”

Foi assim que eu cresci. Foi assim que eu descobri o meu espaço no mundo. Foi assim que fui reconhecida como filha, que encontrei minha brecha de identidade, como a irmã sanduíche. Não era a mais velha e linda, nem o caçula querido da mamãe. Mas era uma guria que escrevia coisas bacanas. E isto orgulhava os meus pais.

Na adolescência, não sabia o que queria ser. Pensei em virar maquiadora. Minha mãe me demoveu da ideia porque “não dava dinheiro”. Pensei em ser juíza porque “é alguém que manda”. Mas não tinha muito a ver comigo. Eu gostava de histórias. De História. De literatura. Tinha que fazer algo ligado a isso. Ser escritora não era uma opção. Mas podia escolher algo que tivesse a ver com textos. Jornalista? “Hum, parece bom”.

Aí decidi pela Publicidade. Pensei seriamente em fazer PP (como se chama Publicidade e Propaganda no Rio Grande do Sul), RP (Relações Públicas) e Jornal. As três. Seria fácil ter os três títulos. Era só dedicar mais uns 3 anos depois da primeira formação e aí eu seria uma “comunicadora” completa. Na verdade, nunca fez sentido para mim esta divisão das “comunicações”. Comunicar, para mim, sempre foi algo bem amplo. Eu sempre fui comunicadora. Ao mesmo tempo que nunca me senti publicitária.

Meu primeiro estágio foi na TV Educativa. Foi minha mãe que conseguiu para mim. O presidente era um cachoeirense bem famoso e muito bacana (sou muito amiga do filho dele hoje, aqui em São Paulo, o Rodrigo Vieira da Cunha, da Profile). Ele mexeu uns pauzinhos (não tenho a menor vergonha de dizer isto), e eu entrei numa seleção.

Minha primeira experiência profissional, como estagiária, teve pouco de estágio e muito de comunicação integrada. Fiquei um ano e meio por lá e ganhei uma bagagem e tanto. Fazia jornais, escrevia textos, editorava revistas, preparava eventos e, de brinde, ganhei a amizade e a curadoria de um grande jornalista, o Danilo Ucha. Um dos meus primeiros padrinhos nesta vida.

O Vieira, presidente da TV, também foi um mentor, claro. De lá, fui para uma grande agência. Sonho de consumo. E aí a ficha começou a cair. Era grande demais e as pessoas não se falavam. A agência era “criativa” demais e integrava as coisas de menos. Não tinha a percepção direito do que era aquilo, mas me incomodava. Fiquei seis meses lá e aproveitei cada segundo. Fominha que sou (sigo sendo), fazia muito mais que as minhas horas protocolares. Porque eu queria aprender. Queria entender aquele mundo.

“Estamos mudando de endereço – de um escritório num prédio comercial num bairro cheio de empresas para uma casa charmosa num bairro cheio de gente. Eu não sou mais a mesma. E nunca fui tão eu.”

Eis que um dia conheci um colega de faculdade que me convidou para ser estagiária na agência dele. Pequena. Eu tinha tudo para dizer não. Mas meu coração falou mais alto e topei. Até hoje não sei o que me levou para a Mais Comunicação – nome da agência na época. Só sei que era para eu ter ido.

A Mais eram sete meninos e eu. Claro, em pouco tempo, dominei o campinho, dei uma geral na casa e comecei a colocar o meu jeitinho autoral nos projetos. Virei redatora, diretora de criação e, em dois anos, sócia. A Mais, por ser pequena, me deu um superespaço para crescer. Foi lá que eu me descobri como profissional. Não exatamente como publicitária. Nós nunca gostamos de vender “coisas”, de “empurrar” produto. Não que todos publicitários o façam. Alguns até fazem, claro. A questão, para a gente, era outra. Gostávamos de gente, de entender o produto, de fazer evento, encontro, de comunicar de um jeito mais largo.

Na faculdade, eu sofria “bullying” porque não tinha cara de publicitária. Fazia estágio desde o segundo semestre. Eu me vestia toda certinha, usava maquiagem bonitinha. Tinha “cara de RP”, diziam os colegas descolados e tatuados. De fato, nunca fui uma publicitária. Nunca achei que essa palavra me representasse integralmente. E as palavras são perigosas. Quando pronunciadas, já embutem um monte de coisas. E fecham, na mesma medida, um mar de possibilidades.

(É como ter um tiquinho de vergonha de dizer, hoje, que meu marido é cirurgião plástico. Ele é médico e gosta de gente! É super holístico, natureba, estudioso de medicinas integrativas. Mexe com a vida das pessoas, com a autoestima. E busca resgatar a beleza interior de muitas delas. Estamos pensando num novo nome pra ele também! Para mim, o de publicitária não cabe mais. Já faz tempo.)

Um pouco depois da Mais, ainda em Porto Alegre, criamos a Sarau. Faz sete anos. Os antroposóficos falam em setênios. Acho que tem a ver. Na época, o nome soou bonito. Mas não fazia tanto sentido assim. Mudei minha vida, vim pra São Paulo e, por necessidade, virei ponte entre pessoas. Conheci muita gente e resgatei o meu dom antigo de contar e escutar histórias. Voltei a reunir gente, como fazia em torno dos livros na Biblioteca de Cachoeira e nas rodas do galpão da fazenda.

Eu gosto de gente, gosto de histórias, gosto de palavras e isto tem tudo a ver com comunicação. No sentido de comunicar, colocar junto, resgatar a arte do encontro. Tem a ver com sarau também. Eita palavra bem linda!

Faz pouco mais de sete anos que eu cheguei em São Paulo. E minha vida agora desabrocha. Precisei sair do meu chão para encontrar… meu chão. Aqui eu casei (com um gaúcho da fronteira, que me apresentou a metrópole, quem diria). Aqui, tive minha filha. Aqui, descobri que os nomes e rótulos podem ser pequenos diante da amplitude de quem somos de fato.

A Sarau deixou de ser agência. E eu deixei, de vez, de ser publicitária. Honro a faculdade que fiz e todas as minhas escolhas. Mas sou outra coisa agora. Ponte, escritora, comunicadora, construtora de marcas, não importa. Eu não vivo mais de fazer campanhas. Vou mudar de endereço – de um escritório num prédio comercial num bairro cheio de empresas para uma casa charmosa num bairro cheio de gente. Eu não sou mais a mesma. E nunca fui tão eu.

 

Andréa Fortes é sócia da Sarau.

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