“Há muita coisa sobre a gravidez – e sobre a maternidade – que ninguém diz. Eu resolvi falar”

Thais Cimino - 31 ago 2015 Thais Cimino, com Vida. criadora do Projeto Precisamos Falar Sobre Isso, uma plataformam para "reunir desabafos de mulheres que se depararam com coisas sobre as quais a maioria das pessoas prefere silenciar – e que não encontram ajuda ou apoio para falar sobre isso".
Thais Cimino, com a filha, Vida, criou o Projeto Temos que Falar Sobre Isso, uma plataforma para "reunir desabafos de mulheres que se depararam com coisas sobre as quais a maioria das pessoas prefere silenciar – e que não encontram ajuda ou apoio para falar sobre isso".
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Por Thais Cimino

 

Engravidei em 2013, sem planejar. Nunca soube o sexo do bebê, pois meu companheiro queria a surpresa. Ter um filho sempre foi algo que eu quis muito. E mesmo sem ter sido planejado, o bebê foi muito desejado. Mas, para mim, a realidade da gestação foi bastante diferente do sonho. A minha experiência não reflete necessariamente o modo como as coisas acontecem para todas as mulheres. Mas acho que há muitas mães que viveram situações como a minha e que acabam silenciando a respeito. Esse artigo é uma tentativa de romper com esse silêncio. Eis o meu depoimento.

A gravidez me transformou numa pessoa muito irritada, sem paciência e angustiada. As brigas com meu companheiro passaram a acontecer todos os dias.

Nos primeiros meses, a barriga não aparecia. O que me fazia lembrar que eu estava grávida eram os enjoos, 24 horas por dia, sete dias por semana, a enorme dor nos seios, as tonturas e o cansaço constante.

Mais tarde, a partir do sexto mês, deixei de conseguir cortar as unhas do pé e me depilar sozinha. O banho se tornou uma coisa perigosa – eu tinha medo de que com as tonturas eu pudesse desmaiar, cair no box e perder o bebê.

Perder o bebê era uma preocupação constante. Acho que é algo que a maioria das mulheres pensa quando está grávida. A minha gravidez não era de risco, mas durante os primeiros meses sempre há um risco de perda natural. Para mim, esse medo persistiu durante toda a gravidez.

Há 10 anos decidi me aventurar pelo mundo. Primeiro, fui para os Estados Unidos. Depois, vivi sete anos na Espanha. Aí resolvi viajar com uma amiga pela Ásia e pela Oceania. Na Tailândia conheci meu companheiro, um francês. Fazia apenas alguns meses que havíamos chegado na Austrália, e naquela época alugávamos um quarto em uma casa compartilhada. Eu trabalhava cuidando de dois meninos, em uma família muito bacana de australianos.

Nosso plano era viajar pela Austrália, Nova Zelândia e, por fim, ir ao Japão. Nesse meio tempo, engravidei. Fomos para a França, a convite da família dele. Pensávamos que encontraríamos apoio. O que aconteceu foi bem diferente. Uma semana depois que havíamos chegado, a mãe dele fez uma “reunião” conosco, onde ela basicamente nos disse que o melhor “para mim” (ou talvez para ela) seria eu voltar ao Brasil sozinha e ter o meu filho por lá.

Ficamos sem chão. A família dele simplesmente nos deu as costas. Naquele mesmo dia, saímos da casa dela e ficamos sozinhos. Eu não falava nada de francês, estava longe da minha família e sem ninguém por perto que falasse a minha língua materna ou qualquer outro idioma que eu soubesse falar. Tive que me apoiar em mim mesma. Me senti muito sozinha e desamparada. A gravidez representou para mim uma espécie de alienação do mundo exterior e da vida social.

 

Thais com sua filha, na França, onde vive: "O processo da maternidade é um salto no desconhecido. Não é uma fábula rósea, com tons pastéis e ambiente romântico. É uma luta – mais uma das batalhas que precisamos lutar na vida. Precisamos de apoio, acolhimento e de espaço para viver essa experiência plenamente, em todos os seus aspectos".

Thais com sua filha, na França, onde vive: “O processo da maternidade é um salto no desconhecido. Não é uma fábula rósea, com tons pastéis e ambiente romântico. É uma luta – mais uma das batalhas que precisamos lutar na vida. Precisamos de apoio, acolhimento e de espaço para viver essa experiência plenamente, em todos os seus aspectos”.

 

Eu não queria voltar ao Brasil para ter o bebê. Como voltar depois de uma década fora, com um companheiro que não falava português, com uma mochila nas costas e uma criança na barriga, sem confiança nos serviços de saúde pública brasileiros?

Tinha horror só de pensar na “epidemia de cesarianas” que há no nosso país. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o Brasil como o líder mundial de cesárias, com 56% dos partos na rede pública e chegando ao índice de 84% na rede privada. A taxa considerada ideal pela OMS é entre 10 e 15% dos partos serem cesarianas, em casos onde há risco de vida para o bebê ou para a mãe.

Por outro lado, o abuso das cesarianas aumenta os riscos à saúde da mulher: hemorragia, problemas circulatórios, hipertensão e infecções, o que aumenta os índices de mortalidade materna no país, impactando também a taxa de mortalidade infantil. Esses números mostram que a mulher brasileira ainda não tem seus desejos respeitados.

Eu não estava disposta a encarar esse panorama, e ainda ter que enfrentar outro problema seríssimo que assola Brasil: a violência obstétrica. Esse termo se refere aos atos e intervenções praticados à mulher grávida, no parto ou no pós-parto, sem o seu consentimento. Ou, ainda, ao desrespeito, abuso, maus tratos e negligência contra a mulher e o bebê, desrespeitando sua autonomia, sentimentos, opções, integridade física e mental.

Estima-se que uma em cada quatro mulheres tenham sofrido algum tipo de violência obstétrica no Brasil. Eu não queria correr o risco de passar por isso. Queria ter os meus desejos respeitados e a minha dignidade preservada. Minha vontade era dar à luz da forma mais natural possível, ainda que com suporte, se alguma coisa saísse do rumo normal.

Enfim: descartamos a possibilidade de ir ao Brasil termos o nosso bebê.

Durante a gravidez, eu chorava muito. Todos os dias. Uma vez estava no banho, chorando, deprimida, e pensei que deveria ser daquela forma que uma criança de 1 ano e meio se sentiria: insegura, incompreendida, indefesa, desesperada. Eu só queria um abraço, sem ter que pedir. E ele não veio. Queria me sentir acolhida. Naquele momento percebi que se algum dia um sofrimento assim acontecesse com meu bebê, eu gostaria de estar lá para oferecer a ele ou a ela aquele abraço apertado e silencioso, tão necessário, e que ali me faltava.

A natureza é sábia, deixa a mulher vulnerável durante a gravidez para que ela tenha total empatia com os sentimentos do bebê que está por vir. Ficamos à mercê da próxima geração. Naquele momento, nossa função é reproduzir, parir e dar continuidade à espécie. Mas isso eu não sabia, é outra coisa que ninguém diz.

No pré-natal eu ficava quase uma hora em cada consulta. E cada vez que chegava o dia da consulta eu não sabia o que perguntar, mesmo tendo pensado todo o mês no que eu queria saber.

Eu não sabia que o caminho dos nove meses de gravidez seria tão solitário. O que me confortava era o bebê crescendo e se movendo em minha barriga. Quando ele ficava um pouquinho mais parado, meu medo de perdê-lo voltava.

Então se aproximou o grande momento. Sabia que o bebê estava grande e saudável. E que poderia nascer a qualquer momento. Tudo que eu queria era tê-lo nos meus braços. Mas, ao mesmo tempo, queria adiar ao máximo a hora de liberá-lo do meu próprio corpo.

Quando as contrações começaram, minha mãe, meu companheiro e eu fomos juntos para a maternidade, 45 minutos de carro. No início, as contrações estavam não doíam muito. É como uma cólica menstrual elevada à milésima potência que dura alguns instantes e vai embora.

Ao chegar na sala de pré-parto, a bolsa estourou. É como fazer xixi nas calças sem se dar conta. Aí sim cai a ficha: falta pouco para você conhecer aquela pessoa que durante tanto tempo fez parte de você. Em uma hora dilatei os requeridos 10 centímetros (o que quer que isso signifique).

Eu gritava muito a cada contração, que agora estava elevada à milionésima potência. Uma cada vez mais próxima da outra. Era o meu corpo empurrando o bebê para fora. O corpo da mãe faz isso sozinho. Eu apenas gritava.

Deitei no chão, fiquei de quatro, de lado, encostada na cama. Em determinado momento, evacuei. Fezes mesmo. Outra coisa sobre a qual ninguém fala. Uma cena linda.

Foram três horas com dores fortes e profundas. Eu estava cansada e cheguei a pedir anestesia, pois pensei que não aguentaria mais. Tudo era novo e eu não sabia quanto tempo ainda ia durar aquele processo. Mas já não dava mais para a anestesia fazer efeito – eu estava na resta final. Aguentei firme. A enfermeira obstetra só me dizia que já estávamos quase lá. Eu estava em outra dimensão. No limite do meu corpo, da minha alma. No limite entre a consciência e o instinto animal, entre a capacidade de racionalizar e a necessidade de deixar a fúria se manifestar.

Mais um empurrão e a cabeça saiu. Eu pensava que seria incompetente, eu achei que não conseguiria. Então ela chegou. Recebi aquela pessoinha com as minhas próprias mãos. E a pus em meus braços. Aquele corpinho, pela primeira vez fora de mim. Era uma menina. Vida. Ela veio direto para o meu peito. A dor acabou.

“E como se nasce na floresta, eu nasci: de forma natural, quando eu estava pronta, na hora que eu quis, sem intervenções, com muito amor. Fiz a minha mãe se transformar em mãe durante os nove meses em que estive dentro dela, mas nas 3 horas de parto ela nasceu junto comigo, com a força e o desejo inato que tivemos de estar juntas, de transcender a dor, de provar o mais selvagem de ser animais humanos e de descobrir instantaneamente o amor sem adjetivos. Ao amor que se estabelece não cabe nenhuma qualidade, é simplesmente amor e ponto. Só quando nasci ela descobriu que eu era uma menina como ela, a surpresa foi guardada até o momento do meu nascimento. Saí do seu corpo direto para os seus braços e lá fiquei aconchegada e nua. Ficamos grudadas. Sou uma extensão da alma dela, nos sentimos mutuamente como se ainda fossemos uma só. E, na verdade, eternamente seremos. Se alguém ainda se pergunta qual o sentido da vida, a resposta é simples: é a própria vida. Minha mãe se emociona só de olhar para mim, de ver a criação dela, do quanto deusa, animal, selvagem, mágica ela é, de se dar conta da capacidade de criar vida dentro do corpo e da alma dela. E, sem mais, ela me chamou Vida. A nossa história está somente começando, mas já nos marcou para sempre. Felicidade é uma palavra muito pequena para descrever o que estamos sentindo! Amo o amor que ela me dá, amo amar a minha mãe. Juntas somos mais!”

Escrevi esse texto no dia em que Vida nasceu. Espero que um dia ela o leia, goste e aceite assiná-lo.

Quanto a mim, para nascer junto com ela, naquele momento, eu tive que morrer um pouco.

Quando me olhei no espelho, no dia seguinte, me assustei com o tamanho dos meus peitos. Tinham triplicado. Pesavam e doíam. Voltamos para a casa. Começava um novo capítulo em nossa história, igualmente cheio de surpresas.

Meu companheiro estava completamente descolocado, fora de órbita. A ficha dele não tinha caído. Acho que ele passou por uma regressão à adolescência, logo quando eu mais precisava dele como homem e como pai, para me apoiar nas tarefas que estavam por vir. Perdido, sem saber como atuar, ele se fechou em um mundo de dúvidas – e acredito que de medos e de inseguranças também. Da forma que ele conseguiu, ele me apoiou. E eu não percebi o tanto que ele precisava de apoio também. Outra coisa sobre a qual pouco se discute.

Apreciar minha filha era um êxtase. O amor jorrava de mim por todos os lados – a começar pelos seios fartos. Eu olhava para Vida e chorava. Felicidade pura. Toda a emoção que não me cabia no coração transbordava pelos meus olhos.

Sabia da importância do aleitamento. Já tinha me programado para amamentar até quando o bebê decidisse que fosse o momento de parar. Eu estava completamente disponível para esse “ato de amor puro” – como se diz por aí. Sabia que era o melhor para mim e para ela. Tinha definido que não iria trabalhar nos três primeiros anos de vida dela, para poder me dedicar exclusivamente à sua criação, evitando a terceirização de seus cuidados.

Uma cena inesquecível: minha filha mamando no seio esquerdo, a enfermeira obstetra massageando o seio direito, a minha mãe fazendo compressa de água quente, meu marido esterilizando a bomba de tirar o leite, e eu rindo do absurdo daquela cena e chorando de dor ao mesmo tempo.

Meu mamilo rachou, sangrou, e o leite começou a “empedrar” em um dos seios. Eu estava com muita dor, e cansada fisicamente, pois essa era a minha rotina todos os dias: dar o peito, fazer compressa fria, compressa quente, tirar o leite com a bombinha, massagear o seio. Cinco minutos depois de haver acabado esse processo, ele começava outra vez, pois Vida estava novamente com fome.

Além do sofrimento físico, havia a frustração e a dúvida. Eu estava arrebentada, mas não podia de forma alguma “ser fraca”, não tinha o direito de “não aguentar”. Afinal, “é assim mesmo”, e “a única forma de passar é colocando o bebê para mamar” – ou seja, fazendo mais daquilo que me machucava. “Você está fazendo tudo certo, não está pensando em desistir, né?”, me diziam. “Não há nada mais que possamos fazer, tem que esperar passar, vai passar”, era o máximo de alento que me ofereciam.

A dor foi minha companheira nos primeiro 45 dias desde o nascimento de Vida. Visitamos pediatras, a enfermeira obstetra veio me ajudar em casa, a procurei na casa dela diversas vezes, fomos parar três vezes na emergência da maternidade para pedir auxílio com a amamentação. Tive apoio. Mas não obtive ajuda. Em teoria tudo estava OK e eu deveria me sentir bem. Mas eu estava cada vez mais insegura. Tinha medo e sabia que sentir aquele medo era “errado”. Tentava manter uma fachada. Por dentro, eu estava mortificada.

Como um ato tão natural e tão importante poderia ser tão desgastaste e tão dolorido? Por que eu precisava atravessar aquele martírio para criar um vínculo com o meu bebê? Aquilo era uma prova de amor materno?

Queria ter sucesso na amamentação e me sentia vivendo um fracasso total. Finalmente uma ecografia revelou um abcesso mamário. Outra coisa que ninguém havia me dito que poderia acontecer. Internação urgente, cirurgia com anestesia geral no dia seguinte. Saí de lá com um dreno, que caiu sozinho uma semana depois. O corte fica aberto para cicatrizar de dentro para fora – o que acontece em cerca de um mês.

Tive medo de morrer na mesa de cirurgia e de não ter a chance de ver minha filha crescer. Eu, que queria amamentar até que ela abrisse mão do meu peito, tive que desmamar Vida abruptamente quando ela tinha apenas 45 dias. Chorava quando tirava o leite do outro seio e tinha que jogá-lo no ralo – para mim, era “amor líquido” posto no lixo. Esse leite não podia ser dado a ela, pois eu estava tomando muitos medicamentos. Vivi isso por mais de uma semana.

Me sentia mal, muitas vezes, por ter que dar mamadeira para Vida em público. Não me sentia uma má mãe, mas me sentia triste e fracassada. E achava que os olhares estariam me julgando, me considerando uma criminosa. Mas era eu mesmo que me julgava. E me condenava.

Não entendia, e não aceitava, por que tudo aquilo tinha que acontecer comigo. Logo eu, que tinha me entregado tanto. Será que era só comigo? Será que era assim com todas as mulheres? Mas por que nada daquilo tinha chegado até mim antes?

A vida me deu um tapa na cara. E me mostrou que não podemos controlá-la. Não há garantia de nada. E acreditar que tudo possa ser organizado bonitinho conforme nosso desejo só traz sofrimento. Já Vida, minha filha, me ensinou que o amor está muito além de tudo isso.

Eu me transformei, e de certo modo tive que “morrer” para renascer, para (re)aprender a olhar para mim mesma, como mulher e como mãe, para curar essas cicatrizes e me perdoar e entender que sequer era culpada de muitas coisas que eu mesma estava colocando em minha conta.

E depois de mais de um ano, entendi o que eu faria com tudo isso por que passei. Hoje me dedico ao Projeto Temos que Falar Sobre Isso, que estimula mulheres a falarem abertamente sobre suas expectativas e frustrações, sobre seus sonhos e suas angústias, sobre seus medos e suas realidades, no que refere à gestação e maternidade.

O processo da maternidade é um salto no desconhecido. Não é uma fábula rósea, com tons pastéis e ambiente romântico. É uma luta – mais uma das batalhas que precisamos lutar na vida. Precisamos de apoio, acolhimento e de espaço para viver essa experiência plenamente, em todos os seus aspectos.

Há momentos de intensa felicidade, de amor pleno, que convivem com outros sentimentos de tristeza, insegurança, medo e solidão. E tudo é do jogo. E tudo faz parte. E em tudo há lições que podemos aprender para nos tornarmos mulheres e mães melhores.

Trata-se de uma montanha-russa, que requer muita entrega e que nos ensina a abrir mão do controle para viver os momentos como eles se apresentam. Eu já aprendi que não existem fórmulas mágicas, padrões, roteiros prontos nem verdades absolutas. Hoje tenho somente uma convicção: temos que falar sobre isso!

 

Thais Cimino, 31, mãe de Vida, hoje com 1 ano e meio. Fundadora e coordenadora do Projeto Temos que Falar Sobre Isso, uma plataforma de relatos anônimos de mães que tiveram depressão pós-parto, transtornos ligados à saúde mental na maternidade, sofrimento físico e psíquico no período perinatal (desde a concepção até o primeiro ano do bebê), dificuldades durante a gravidez, problemas com amamentação, perda gestacional, partos traumáticos e violência obstétrica, entre outros. A ideia é reunir desabafos de mulheres que se depararam com coisas sobre as quais a maioria das pessoas prefere silenciar – e que não encontram ajuda ou apoio para falar sobre isso.

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