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Helena Singer, da Ashoka: “O que os jovens precisam é que as pessoas os escutem e levem a sério as iniciativas que eles estão criando”

Marina Audi - 10 mar 2022
Helena Singer, líder da Estratégia de Juventude da Ashoka na América Latina (foto: Joice Aguiar).
Marina Audi - 10 mar 2022
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Helena Singer, 54, sempre quis perceber as transformações sociais e colaborar com elas ao lado dos agentes que provocam mudanças.

Graduada em sociologia, ela atuou durante dez anos (de 1989 a 1999) no Núcleo de Estudos da Violência da USP, cujo foco teórico são os direitos humanos e a violência perpetrada pelo Estado contra os cidadãos. Temas como punitivismo e encarceramento faziam parte da sua produção acadêmica. (Seu doutorado “Discursos Desconcertados: Linchamentos, Punições e Direitos Humanos” ganhou o Prêmio Jovem Cientista em Língua Portuguesa.)

“A punição que existe no mundo ocidental é a prisão, que é algo ineficiente e promove mais violência. Pelos direitos humanos, a gente tem que buscar outras estratégias para lidar com os conflitos sociais que não as punições”

Foi a partir dessa percepção que ela se aproximou ainda mais de outro tema, a educação, que já havia sido abordado por ela no mestrado. Helena migrou de área, em busca da “semente da transformação”. Ela passou pelo Instituto Lumiar, escola mantida por Ricardo Semler e a Fundação Semco. Atuou na ONG Cidade Escola Aprendiz (fundada por Gilberto Dimenstein) e teve uma breve passagem pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC).

Desde 2017, Helena é líder da Estratégia de Juventude da Ashoka na América Latina, onde trabalha a inovação social para além da educação. A organização sem fins lucrativos fomenta o empreendedorismo social e ações em prol de um mundo em que todos se reconheçam como agentes de transformação positiva.

Hoje, mais de 3 800 empreendedores sociais fazem parte da rede Ashoka, 384 deles no Brasil. Essa rede é vitalícia: uma vez reconhecido como fellow, o empreendedor permanece ligado à organização até o fim da vida.

Helena ajuda a trazer pessoas de 12 a 20 anos à discussão sobre o planeta e a sociedade. O resultado dos esforços é o programa Jovens Transformadores, que desde 2019 já reconheceu 31 adolescentes e jovens adultos (a terceira edição terminou em dezembro).

Leia a seguir a entrevista que Helena Singer deu ao Draft:

Você iniciou sua trajetória no Núcleo de Estudos da Violência. Como foi essa jornada?
Quando estava na graduação [em sociologia], comecei a fazer iniciação científica no Núcleo de Estudos da Violência, que se criou naquele período [fim dos anos 1980]. O foco do Núcleo é em direitos humanos: estudos, pesquisas, sobre a violência perpetrada pelo Estado contra seus cidadãos. Entrei ali em um projeto de pesquisa sobre 1968 [ano do AI-5, que endureceu o regime militar].

Embora fosse uma pesquisa histórica, teórica, enfim, mais documental, para mim, sempre esteve muito claro que o que eu gostaria de fazer seria mesmo atuar… Perceber as transformações sociais atuando por elas, em contato com os atores sociais que fazem a mudança

Eu fiquei 10 anos no Núcleo, foi muito importante também nessa perspectiva, para construir essa certeza. Fiz todo o caminho acadêmico — mestrado, doutorado, pós-doutorado —, sempre atuando também no mundo das organizações da sociedade civil. Atuando para fazer, para mudar alguma coisa. 

No seu mestrado, você já tratava de experiências com educação democrática, tendo como ponto de partida Alexander Sutherland Neill e a escola livre de Summerhill. Mais tarde, você enveredaria de vez para a educação. O que motivou essa mudança?
Logo depois da graduação, escolhi mestrado na área [de educação] porque já tinha em mim a busca da semente da transformação. A pauta – e mesmo a atuação – dos grupos de direitos humanos é muito “enxugar gelo”, tirar água do barco furado. 

É desgastante para quem atua nesse campo, porque é uma pauta pouco esperançosa, é uma luta contra coisas que a gente quer acabar. E a educação é o contrário – é a fonte de toda esperança 

Então, acho que busquei isso. Na época, eu não tinha essa consciência e clareza de hoje. Justamente, em 1991, quando entrei em contato com a escola livre de Summerhill, a internet não existia como essa ferramenta tão próxima e usual do cotidiano. 

Foi um artigo que caiu na minha mão, uma notícia. Ninguém sabia me dizer se essa escola ainda existia, mas eu fiquei encantada. Falei: “Aqui tem um foco de esperança para um mundo novo, que a gente tem que conhecer melhor”. 

O que lhe encantou na escola de Summerhill? Teve algo que ver com a liberdade dali, em oposição ao que você via nos estudos sobre cerceamento da liberdade no sistema prisional?
Eu acho que tem a ver sim. A ideia de uma escola em que a gestão é feita por assembleias e, portanto, o peso da voz dos estudantes nas decisões é muito grande, me brilhou os olhos. 

Foram dois aspectos: o primeiro é confiar que o ser humano, inclusive as crianças, são capazes de tomar decisões razoáveis diante de processos em que elas precisam decidir. Isso é o verdadeiro substrato da democracia. 

Na verdade, a democracia sempre é o meu objeto. Em relação aos linchamentos [tema do seu doutorado], eu buscava formas democráticas de lidar com esses conflitos sociais. Certamente, a prisão não é [uma dessas formas]. Mas quais seriam? 

Foi quando entrei em contato com o abolicionismo penal [movimento que visa a abolição do direito penal através de formas diversas de resolução de conflitos que não o castigo], sobre o qual se volta a falar hoje com mais conhecimento. O movimento antirracista assumiu, em parte, essa agenda. 

Para mim, a proposta do abolicionismo penal, de imaginar a sociedade sem o sistema penal, é a mesma fonte de inspiração, liberdade e transformação que escolas geridas pelos estudantes. 

Desde quando você se considera uma empreendedora social?
Desde que eu entrei na Ashoka (risos). O processo de seleção de equipe é espelhado no processo de seleção de empreendedores sociais, que é sobre autoconhecimento, uma coisa muito fascinante. Aliás, é o mesmo que a gente usa com os Jovens Transformadores. 

São várias entrevistas que duram meses e em que você vai revisar a sua própria trajetória, o seu modus operandi e perceber se você é mesmo um empreendedor social. Eu já passava dos 50 anos quando me vi com essa identidade. 

Mas o Instituto Lumiar, fundado e dirigido por você entre 1999 e 2007, não foi um empreendimento de impacto social?
Quando terminei o mestrado, Fernando Rossetti fez uma matéria sobre a minha tese [que virou o livro] República de Crianças: sobre experiências escolares de resistência, na Folha de S.Paulo

O Ricardo Semler [investidor e empresário, presidente do Conselho e sócio da Semco Partners, autor de Virando a própria mesa] viu, entrou em contato e pediu um exemplar para ler. Ele foi visitar as escolas – eu nem tomei conhecimento disso! 

Alguns anos depois, eu estava no NEV [Núcleo de Estudos da Violência], fazia doutorado sobre linchamentos – ainda estava nos EUA fazendo a bolsa sanduíche – e ele me convidou para fazer a primeira escola democrática do Brasil

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação possibilitou [a partir de 1996] que as escolas se organizassem de uma forma mais democrática. E aí eu topei, não pensei nem duas vezes.

Foi um chamado. Mas é interessante, porque a identidade de empreendedora social não me veio assim. Eu aceitei um convite, o empreendedor era ele! 

Quais foram os desafios de propor gestão participativa na escola?
Ricardo me deu toda liberdade e a gente desenhou juntos como seria. Em primeiro lugar, queríamos uma escola que não só fosse democrática, mas que tivesse a diversidade social de uma cidade como São Paulo. 

Havia um programa de bolsas muito inovador, porque 75% dos estudantes tinham algum nível de bolsa. Tínhamos desde estudantes de classe média alta até estudantes de classe C e D convivendo 

E, na sequência, já começamos a trabalhar com escolas da rede pública, na perspectiva de que o importante mesmo era transformar a educação pública. 

A Lumiar era um modelo, uma escola que as pessoas podiam visitar e saber: “Bom, isso funciona. Isso dá certo. Não é uma loucura da cabeça de alguém”.

Em 2007, você foi atuar como diretora da ONG Cidade Escola Aprendiz, onde ficou até 2015. O que lhe moveu nessa direção?
Com o tempo, entendi que o ideal da escola democrática no modelo Summerhill é muito bacana do ponto de vista do protagonismo dos estudantes, mas faltava a conexão com a realidade, com a cultura das pessoas. 

Summerhill é um internato. Neill falava: “Aqui as crianças estão protegidas da tirania adulta”. A ideia começou a me incomodar um pouco. A escola deveria ser um lugar da comunidade, em que tanto os adultos e as famílias quanto as crianças se sentissem parte

Aí, encontrei na Cidade Escola Aprendiz as referências que eu precisava para pensar e avançar nisso. Gilberto Dimenstein, que inclusive era fellow Ashoka, me convidou para assumir a direção ali com a Natacha Costa

O Aprendiz já tinha anos atuando totalmente fora da escola, em uma experiência de transformação do bairro a partir da educação sem escola. E eles estavam começando a ser demandados para atuar com as escolas – inclusive pelo Governo Federal.

Gilberto e Natacha queriam uma pessoa que entendesse de escola, mas que não estivesse dentro da “caixinha da escola”, para pensar com eles como esse modelo – que nasceu, fundamentalmente, fora da escola – poderia inspirar a construção de uma política nacional. E foi o que acabou acontecendo com o Programa Mais Educação.

Você foi assessora especial no Ministério da Educação e Cultura no governo de Dilma Rousseff. Chegou a reunir um grupo de trabalho para discutir como renovar a educação, mas o impeachment interrompeu a iniciativa. Para levar o debate à frente, surgiu em 2016 o Movimento de Inovação na Educação, um realização da Cidade Escola Aprendiz junto com a Ashoka. Foi este projeto que lhe aproximou da Ashoka?
Não, a relação com a Ashoka era anterior. Em 2014, a Ashoka começou um processo de buscar e reconhecer Escolas Transformadoras no mundo [hoje são 300], no mesmo espírito do que fazia com os empreendedores sociais. 

Até então, a Ashoka tinha como principal missão constituir o campo do empreendedorismo social. Por volta de 2010, concluíram que a missão tinha sido cumprida – havia faculdade para formar empreendedor social, as pessoas sabiam o que era, havia formas de financiamento… Mas o mundo ainda não tinha mudado da forma que se queria. 

A organização passou a desenvolver essa nova visão de que todas as pessoas têm a capacidade transformadora. O que precisava era elas saberem disso e se colocarem em ação. E existe um momento chave para isso que é a infância, sobretudo a adolescência. 

Se na adolescência todas as pessoas tiverem essa experiência de se sensibilizar em relação ao mundo, de causar um impacto, a sua trajetória muda dali em diante!

Não é que todas vão se tornar empreendedoras sociais… mas o mundo vai mudar porque o número de soluções será muito maior que o de problemas, se todas as pessoas estiverem pensando nisso. 

Então, a Ashoka começou a buscar quais as escolas que já formavam desse modo para dar visibilidade a elas, como a gente faz com os empreendedores sociais. 

Nessa época, eu estava na Cidade Escola Aprendiz e a Ashoka me procurou para que eu indicasse as escolas transformadoras. Quando fui para o MEC, chamei a Ashoka para desenvolver a estratégia de trazer para perto do Ministério instituições capazes de mudar o modo com que as pessoas pensam. 

Se a gente não mudar o MEC, as Secretarias da Educação, o que a mídia fala sobre a educação, o que os pais escutam, o que os sindicatos reivindicam, o que as faculdades de educação formam, não tem como isso mudar rápido. 

Então, ao mesmo tempo que eu estava fazendo isso no MEC, a Ashoka começa a consolidar isso mais claramente para o mundo. 

Qual foi a missão que você abraçou ao assumir uma posição dentro da Ashoka, em 2017?
Fui procurar a Ashoka porque fiquei interessada em trabalhar com o campo da inovação social mais amplamente, não só em educação. Aí eles me chamaram para assumir a estratégia de juventude, que era uma coisa que estava se desenhando ainda. Havia uma clareza de precisar trazer os jovens para cá. 

Era uma contradição a gente dizer que são os jovens que devem estar na liderança dos processos de transformação e, aqui dentro da Ashoka mesmo, eles não estarem. Mas não havia [ainda] clareza de como trazer os jovens para liderar esse processo 

Então, desenhamos, em nível global, o programa Jovens Transformadores Ashoka para buscar adolescentes que têm essa experiência para estarem com a gente. Começou em 2018 nos EUA e na Índia, depois, em 2019, veio para o Brasil, Indonésia e Bangladesh. A partir de agora, ele vai para todos os países onde a Ashoka opera. 

Como foi esse processo de construção do programa?
A Ashoka faz pesquisa com essa rede de fellows espalhados em mais de 90 países no mundo há mais de 40 anos, por isso ela é a grande especialista em inovação social. E descobrimos duas coisas muito importantes sobre isso. 

A primeira é que os fellows que trabalham com adolescentes, e mesmo com crianças, fazem desse jeito: colocam os garotos no comando, colocam para pensarem os projetos, o que querem fazer, se organizar coletivamente e apoiam no que eles estão fazendo, assim como Gilberto Dimenstein fazia no Aprendiz. Essa é uma característica comum no mundo todo. 

A outra característica da maioria dos fellows é que, na adolescência, eles tiveram uma experiência de transformação muito grande. Essa fase é determinante para você reconhecer o seu potencial de transformação 

Com base nesses dois dados, a Ashoka começa a pensar uma estratégia que garanta essa experiência na adolescência e que garanta que as instituições educativas, como regra, coloquem os jovens no comando. 

Essa foi uma briga que Bill Drayton, o criador da Ashoka, comprou internamente quase sozinho, no começo! As resistências dos adultos vinham de toda parte: “Nossa, mas você vai substituir com adolescentes? É muita sobrecarga em cima deles”

A primeira jovem que trouxemos para as reuniões com o Conselho da Ashoka foi a indiana Garvita G. que criou uma estratégia de economizar água em restaurantes. Aí, veio a Ara Kusuma, da Indonésia. E a mágica se fez, porque ficou evidente tudo o que o Bill falava. Eles tinham clareza, sem ter uma teoria 

A experiência de ambos os jovens era tão esclarecedora que fez a equipe de liderança da Ashoka reconhecer o que designamos como potencial transformador da adolescência… e as barreiras foram cedendo. 

Existe uma trilha formal de desenvolvimento definida para os Jovens Transformadores? Alguma linha de financiamento ou apoios para que se tornem mais adiante fellows da Ashoka?
Isso ainda está em construção, mas esses quatro anos nos deram a clareza de que a Ashoka não é uma organização de apoio a jovens. Existem outras e a gente trabalha em parceria com elas. 

Por exemplo, aqui no Brasil, assim que o jovem entra para a Ashoka, a gente conversa com a Peace First para os que precisam, e querem, poderem ter apoio para suas iniciativas. Isso foi uma conquista deles mesmos. Foi o Luan M., um Jovem Transformador do agreste pernambucano, que trouxe a Peace First para os outros! 

A gente trabalha em parcerias e articula oportunidades para os jovens transformadores, mas a Ashoka não apoia diretamente. O que a gente faz é chamar esses adolescentes para orientar nossas estratégias

 Uma coisa muito importante que fazemos é contar as histórias deles em vídeo, de forma a mostrar, com clareza, como eles desenvolvem essas capacidades de empatia, colaboração, criatividade e a capacidade de colocar uma ideia em pé. 

Assim como Ara e Garvita foram capazes de nos abrir os olhos, todo mundo precisa ter contato com esse tipo de jovem! Contar as histórias deles é muito importante. 

A outra coisa que a gente faz – a partir das iniciativas deles, das diferentes temáticas em que atuam – é pensar junto como é que a gente chega em todos os jovens… Cada um atua com o assunto que lhe interessa: meio ambiente, inclusão social, educação, diversidade cultural, equidade de gênero e direitos humanos. 

Não queremos ficar trabalhando com meia dúzia, 100, 2 mil, nem com 5 mil jovens. A gente quer chegar em todos os jovens! E sempre passa, necessariamente, por trazer a iniciativa deles para o sistema regular de ensino 

Por exemplo, o lançamento do livro Valor de uma Voz (2020) conta histórias e iniciativas do primeiro grupo de Jovens Transformadores Ashoka. É um livro didático para o Ensino Médio publicado pela Editora Moderna. (O livro está no Programa Nacional do Livro Didático e logo nos primeiros meses chegou a 90 mil alunos.)

Não só as histórias, mas as ferramentas que eles criam foram didaticamente colocadas [no livro] para que os professores trabalhem com as suas turmas a partir dessas referências. 

Nas interações com os adolescentes, vocês percebem a ansiedade deles em relação ao mundo, à crise climática? E como vocês trabalham esse tipo de demanda?
Sim, os Jovens Transformadores Ashoka trazem muito isso e não somente deles mesmos, mas dos outros jovens. Trazem o quanto as iniciativas deles também se focam em ajudar os colegas, porque eles veem os outros jovens depressivos, com dificuldades. 

Tem alguns que atuam diretamente com isso, como a Mariana G. da Bahia, que articula uma rede nacional de psicólogos voluntários que apoiam jovens em situação de depressão e angústia. 

Já estava ruim antes e as coisas vêm piorando desde a pandemia. Agora, é interessante observar que os jovens que se envolvem, que lideram essas iniciativas e engajam outras pessoas criam antídotos contra isso. 

É muito psicoprofilático exercer a transformação, ver o resultado das suas ações, conhecer a sua capacidade de fazer uma mudança positiva no mundo… Isso faz muito bem – e, imediatamente, eles querem que outros tenham essa capacidade também 

Este é um dos critérios para ser um Jovem Transformador Ashoka – é uma liderança necessariamente compartilhada. É liderar e fazer com que os outros também se engajem. 

Em um mapeamento, a Ashoka identificou nove Territórios Transformadores no Brasil. Dois deles ficam na região Norte: Manaus (AM) e Tapajós (PA). Foi com base nesse mapeamento que a terceira edição do Jovens Transformadores teve foco na busca por adolescentes da região amazônica? De que outras maneiras esses achados norteiam as estratégias da Ashoka?
Começamos esse processo ao mesmo tempo em que a gente buscava e reconhecia os Jovens Transformadores, e avançava nas parcerias com agentes estratégicos: mídia, governos, associações profissionais, faculdades de educação, universidades. 

Quando conseguimos um número relevante, entendemos que precisávamos atuar nos territórios, colocar o pé no chão, não ficar só no nível nacional… Porque as mudanças acontecem nas cidades, onde as pessoas estão. Então, passamos a mapear onde havia mais densidade transformadora no Brasil 

O que é densidade transformadora? É onde tem um número bom de empreendedores sociais da rede Ashoka e, obviamente, onde tem parceiros – pessoas com essa capacidade transformadora dentro das secretarias de educação, dos veículos da mídia, nas universidades. 

Essas nove regiões apresentam essas características. Em 2021, decidimos começar pelas duas do Norte, com um projeto de busca e seleção de Jovens Transformadores focado na Amazônia, porque no primeiro ano da pandemia não tivemos nenhuma inscrição dessa área do Brasil: houve um problema de conexão, a notícia não chegou e precisaríamos fazer um outro processo focado. 

E a gente não iria atuar lá sem conhecer a realidade mais específica. Os nossos parceiros no território têm um foco muito importante na questão ambiental. (O primeiro fellow Ashoka no Brasil foi o ativista político e seringueiro Chico Mendes, reconhecido em novembro de 1988, um mês antes do seu assassinato.)

Então, começamos fazendo o Mapeamento Juventudes e Justiça Climática na Amazônia: o que é a inovação – transversalizando para a questão ambiental – que coloca os jovens como protagonistas? 

E também passamos a buscar mais fellows nessas duas áreas da Amazônia, quando entendemos que ali tinha mais densidade. Duas foram reconhecidas em 2020 –  Angela Mendes e Katia Brasil e outros dois no ano passado, Tasso Azevedo e Carlos Nobre.

Em cada um dos territórios transformadores, trabalhamos como articular a nossa rede para pensar, primeiro: qual é a missão? E como é que cada um dos parceiros estratégicos engaja 1% das pessoas dali na liderança do movimento? 

Por exemplo, temos 500 escolas na rede municipal de Manaus, então lá precisamos de cinco que liderem o movimento. Já temos 24! 

Por que 1%? Porque é um número que não assusta as pessoas (risos). Pensando em Brasil, 1% da população são 2 milhões de pessoas. A Ashoka vai chegar nelas? Não. É o empreendedor social e o Jovem Transformador Ashoka, as Secretarias de Educação, a grande mídia, as universidades… 

São esses atores que são capazes de chegar nessa população. Cada um pensando em como engajar 1% da sua população. Se cada 1% engaja cinco, dez ou 15, a transformação vai muito mais rápido. 

Se por um lado a região Norte se destacou como polo de transformação social, ela é também a mais carente em termos de educação, saúde, transporte, tecnologias… De que esses Jovens Transformadores – e futuros empreendedores sociais – da Amazônia mais precisam? É prepotência de quem está em uma metrópole pensar que eles precisam de robótica e IA?
A primeira vez em que reunimos todos eles virtualmente conosco, com os nossos parceiros estratégicos no Brasil e alguns fellows da região, o que dominava mesmo era: “Agora a gente não está mais sozinho!”. O sentimento de isolamento deles é muito forte. 

Em geral, os Jovens Transformadores se sentem isolados porque escutam da família e da escola: “Deixa disso. Esquece, não vai dar em nada. Você está maluco. Concentra nos estudos”

Eles se sentem sozinhos até a hora que conseguem superar esse monte de negativas e fazer a coisa andar. E aí, quando encontram outros jovens que fazem a mesma coisa, acharam a “turma” deles 

Na região amazônica isso é muito mais forte, porque eles estão literalmente muito longe uns dos outros. Temos 31 Jovens Transformadores no país, 11 da região Norte, mas ficam a horas de avião um do outro, mesmo que cinco deles estejam no estado do Pará! E muitas vezes não existe o avião, tem o rio e o barco. 

Então, a primeira coisa de que eles precisam é conexão. Claro que passa pela conexão tecnológica, porque é essa ferramenta que nos possibilita, mesmo estando em um povoado no meio da floresta, conectar com outros. Mas é também a conexão de divisão de ideias – e de saber que não estão sozinhos 

Por exemplo, no dia do reconhecimento dos últimos sete jovens, a Beatriz L., que é de religião de matriz africana e trabalha com a amiga evangélica no Pará o tema da equidade em todas as perspectivas – gênero, tolerância religiosa etc. – entrou em contato com a Euzeni Trajano, da Secretaria Municipal de Educação de Manaus, que se encantou pelo projeto dela. 

Na mesma semana, Euzeni colocou Beatriz em contato com a coordenação de diversidade da secretaria e, agora, Beatriz está em diálogo para expandir a iniciativa dela para a rede de Manaus! E ela pediu para a rede de Manaus: “Vocês podem vir conversar com o pessoal daqui do Pará? Porque aqui, não me escutam”

Sobretudo, o que os jovens precisam é que as pessoas os escutem, que levem a sério o que eles estão falando e as iniciativas que eles estão criando. 

A prática do ESG vai mudar algo para o empreendedorismo social na região Norte? E no Brasil, em geral?
O que o mapeamento mostrou é que os jovens têm bastante dificuldade de lidar com as empresas. A pauta climática não é priorizada pelas empresas da região no geral, sobretudo as grandes empresas. Temos que trabalhar para mudar isso. 

A prática da responsabilidade social é importante, ela pode dar um apoio importante para o empreendedorismo social, mas eu acho que a coisa muda mesmo quando um negócio muda 

A transformação de fato vai acontecer quando os negócios passarem a reconhecer que o mundo mudou e que para ter sucesso é preciso atuar nessa outra perspectiva: reconhecer que as pessoas precisam participar dos processos de decisão; que as conexões precisam ser feitas; e a responsabilidade não é só o imediato, mas é com as gerações futuras também. 

Como vocês planejam facilitar esse diálogo e promover a conexão desses jovens com líderes de empresas?
A prioridade da Ashoka são as organizações que impactam o ecossistema da juventude. Claro que as empresas também têm um impacto. 

A forma que trabalhamos com as empresas é a mesma – buscar dentro delas quem são as pessoas que têm essa visão de mundo, o compromisso ético com a transformação social, e trazê-las para trabalhar em equipe, pensar juntos 

Às vezes a empresa tem que transformar a sua forma de recrutar pessoas, porque pode não estar recrutando considerando as habilidades transformadoras. Se ela passar a priorizar as habilidades transformadoras na hora de contratar, esses mesmos valores serão levados para dentro da empresa.

Você e a Ashoka defendem que inovação social é cocriar soluções junto com as pessoas envolvidas no contexto do problema abordado. Entretanto, para a maioria das pessoas “inovação é tecnologia”. Como a tecnologia tem ajudado o empreendedorismo social? Ela pode ajudar mais?
A tecnologia é uma ferramenta, que está “a serviço de”. Então, se temos um projeto de transformação em um país mais inclusivo, democrático e igualitário, as tecnologias da informação digital são ferramentas poderosíssimas para esse projeto. 

A dificuldade está quando a gente não tem projeto e os outros têm um projeto de desinformação, promoção do ódio – e vão usar a mesma tecnologia! 

O que importa é termos um projeto de país e uma estratégia de fortalecimento dos milhões de pequenos projetos pelo bem comum, que os empreendedores sociais, os jovens e a maioria das pessoas têm quando não estão focadas na destruição e na violência 

Acho que as tecnologias são uma ferramenta maravilhosa para empoderar, ampliar o alcance. A gente vê isso com esses jovens.

O Marcelo B., que está lá no interior de Goiás, criou uma iniciativa contra as queimadas. Por causa da pandemia, ele começou a levar as ideias para o virtual. O negócio espalhou e, agora, ele tem embaixadores no Brasil todo, cada um desenvolvendo as suas ações pelo meio ambiente e usando a plataforma dele para trocar experiências, para estimular outros, para um aprender com o outro. 

São ferramentas poderosíssimas – e a gente tem que se apropriar delas.

 

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