Já ouviu falar em impressão botânica? O ateliê As Tintureiras tinge e estampa tecidos usando plantas, flores e raízes

Maisa Infante - 5 fev 2020
Adriana Fontana e Maria Fontana, mãe e filha, criaram o ateliê As Tintureiras em 2018. Juntas, elas tingem e estampam tecidos a partir de elementos da natureza, como folhas, flores, sementes e raízes.
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A generosidade da natureza vai muito além daquilo que é essencial à vida, como água, ar e alimentos.

É fácil intuir isso navegando pelo site do ateliê As Tintureiras, especializado em tingimento natural e impressão botânica. Folhas, raízes, rizomas, flores, cascas e sementes emprestam suas cores e servem de decalque a lenços, quimonos e almofadas. Em breve, estarão em 14 estampas criadas por elas que serão vendidas por metro e sob encomenda por este mesmo site.

As Tintureiras são duas, mãe e filha: Adriana Fontana, 56, e Maria Fontana, 28. Desde 2016 elas vinham fazendo testes com tecidos no quintal de casa, em São Paulo. A partir de 2018, a coisa ficou mais séria. Durante um ano e meio, o foco foi tingir e estampar roupas, acessórios e itens de decoração e vender pelo site e em feiras de produtos artesanais.

O B2C, porém, virou uma fatia menor do negócio (aliás, pode reparar que vários dos itens à venda no site estão esgotados). Hoje, 90% da atividade do ateliê é sob encomenda para confecções. Em 2019, a empresa — tocada apenas pelas duas, sem funcionários — faturou 90 mil reais.

ADRIANA COMEÇOU PRODUZINDO ACESSÓRIOS PARA PRESENTEAR OS AMIGOS

O tingimento natural é uma técnica milenar; a impressão botânica (ou ecoprint), por sua vez, foi uma inovação da artista australiana India Flint, que em 1999 descobriu a possibilidade de imprimir plantas em tecidos usando eucalipto.

A impressão botânica transfere para os tecidos a cor e a forma de plantas por meio da compressão e do cozimento.

A técnica consiste em passar para os tecidos as cores e as formas das plantas por meio da compressão e do cozimento (sim, o tecido vai para dentro da panela!).

Adriana sempre gostou de plantas e de trabalhos manuais. Ao descobrir o universo da impressão botânica, mergulhou em cursos e leituras — e começou a testar em casa.

Fazia lenços, acessórios e almofadas, para uso pessoal e para presentear amigos, e criou uma conta no Instagram para repercutir sua produção:

“As pessoas estão se voltando para as raízes, para a simplicidade, procurando soluções que não agridam o planeta. Criamos a marca porque as plantas e o trabalho manual já faziam sentido para nós. E percebemos que existe um nicho de pessoas interessadas”

Na época, ela era professora de italiano e facilitadora de trabalhos manuais no Terceiro Setor. Acabou abandonando estas atividades para seguir com As Tintureiras.

EM NOVA YORK, HÁ MATÉRIA-PRIMA EM ABUNDÂNCIA; NO BRASIL, NEM TANTO

Maria, a filha publicitária, embarcou no sonho da mãe: aproveitou uma estadia de seis meses em Nova York para estudar tingimento e impressão botânica e deixou a sociedade numa agência de marketing digital para se dedicar 100% ao projeto.

Leia também: Por uma moda mais consciente: a história da Mattricaria e sua pequena fábrica de corantes naturais

Em Nova York, diz Maria, há lojas especializadas em pigmentos naturais. É de lá que elas compram o pau-campeche, o catechu e a Rubia cordifolia, um dos corantes naturais mais antigos de que se tem notícia (outro é o índigo, que dá a cor azul e as sócias importam do Canadá).

Por aqui, porém, o acesso à matéria-prima é mais complicado. Maria explica:

“O Brasil está um passo atrás nesse quesito. Não há livro em português sobre a impressão botânica e o tingimento, e os livros importados não falam de plantas brasileiras — o que é ruim, porque temos uma flora muito rica”

Três vezes por ano, Adriana vai à Chapada dos Veadeiros, em Goiás, para comprar plantas do Cerrado e algumas espécies amazônicas, como o crajiru. O pau-brasil, conhecido pela tintura vermelha, é fornecido por um fabricante brasiliense de arcos de violino.

Flores e folhagens são compradas em São Paulo, na Ceagesp; embora usem plantas frescas, mãe e filha secam algumas delas, sobretudo as sazonais, para manter um estoque e usar conforme a demanda.

AS SÓCIAS PIVOTARAM PARA O B2B DE OLHO EM UMA DEMANDA DO MERCADO

A guinada do B2C para o B2B se deu em meados de 2019, quando surgiu a demanda de uma “grande marca” — elas não divulgam qual, alegando questões contratuais — para que tingissem e estampassem tecidos para uma coleção-cápsula (coleção de curta duração).

As duas arregaçaram as mangas e, ao longo de sete meses, tingiram e estamparam 600 metros de tecido. A partir daí, outras confecções também entraram em contato para fazer o trabalho de estamparia, e elas resolveram focar neste mercado.

Para as sócias, esse interesse mostra que a indústria da moda vem de fato procurando processos mais justos e sustentáveis. Uma exigência que começa lá na ponta. Segundo Maria:

“Só há demanda por parte das marcas porque os consumidores estão pedindo. Eles estão mais conscientes e começando a se enxergar como parte do processo, querem saber como as marcas lidam com a cadeia de trabalho e qual filosofia seguem”

Essa relação entre o trabalho artesanal e marcas de apelo mais industrial é complexa, mas tem sido um caminho trilhado por empresas. Na alta costura, por exemplo, a Dior recorreu a um pequeno ateliê para desenvolver, com impressão botânica, peças de sua coleção primavera-verão 2020.

REALIZAR UM TRABALHO ARTESANAL É ABRAÇAR A IMPREVISIBILIDADE

Um ponto quando se fala em aplicar a impressão botânica para a grande indústria é que simplesmente não é possível, nesse caso, produzir estampas em séries, cores perfeitas ou padronagens milimetricamente simétricas. “Essa é a parte mais bonita do trabalho”, diz Maria. “O consumidor acaba tendo uma peça única.”

Adriana e Maria mostram que é possível extrair cores vivas a partir de pigmentos naturais.

O resultado final é influenciado por diversos fatores: a época em que a planta foi colhida, a quantidade de tanino, a proporção do fixador usado, o tempo de contato com o calor, a intensidade e o tempo de pressão das plantas com o tecido…

Por falar em fixador: para fixar as tintas, as sócias usam alúmen de potássio (um tipo de sal utilizado também na cosmética natural) e ainda “água enferrujada”, um fixador de nome autoexplicativo que mãe e filha produzem deixando objetos enferrujados “de molho” em um tonel, por cerca de um mês — para saber se está bom ou não, só testando. Segundo Adriana:

“O importante é não usar nada que agrida o meio ambiente. Tudo que a gente usa pode ser descartado no ralo”

Diante desse modo de produção, as marcas que chegam ao ateliê já estão abertas ao imprevisível. Mesmo assim, de vez em quando aparece algum potencial cliente com a expectativa de uma entrega com padrão industrial… “Nestes casos nem aceitamos [a encomenda], porque sabemos que lá na frente teremos problemas”, diz Maria.

EM VEZ DE GANHAR ESCALA, ELAS PREFEREM DAR UM PASSO DE CADA VEZ

Hoje, o ateliê consegue tingir pedaços de tecido de até 3 metros. Esse trabalho leva cerca de um dia inteiro. Já na parte de impressão botânica, elas dão conta de fazer até 30 metros por dia.

São as duas, sozinhas, que lavam, enrolam, tingem, estampam, lavam novamente, estendem e passam os tecidos. Isso sem falar nas outras tarefas: comprar as matérias-primas, secar as plantas quando necessário, estocar, dar aulas, produzir conteúdos, atender os clientes, administrar as contas da empresa…

Viver de um negócio 100% artesanal e sustentável exige, segundo Adriana, muita disciplina e organização.

“É preciso estar com foco para ter uma boa produção e um bom resultado financeiro apesar do ritmo mais lento desse tipo de trabalho”

Para ganhar escala, as sócias sabem que terão de se mudar para um espaço maior e contratar funcionários. Por ora, elas preferem dar um passo de cada vez, esperar a demanda aumentar para, aí sim, fazer o movimento de crescer sem perder a essência — e sem abrir mão do prazer de extrair, de cada planta, a sua cor.

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  • Projeto: As Tintureiras
  • O que faz: Tingimento natural e impressão botânica
  • Sócio(s): Adriana Fontana e Maria Fontana
  • Funcionários: não tem
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2018
  • Faturamento: R$ 90 mil (2019)
  • Contato: [email protected]
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