Inquieta desde a infância, Taynaah Reis encontrou no blockchain uma ferramenta em prol do pequeno produtor

Liora Mindrisz - 7 jan 2020
Taynaah Reis, CEO da Moeda: vontade de impactar o mundo desde cedo.
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Ela sempre foi inquieta, uma daquelas pessoas com pressa de impactar o mundo. Programadora autodidata aos 12, empreendedora aos 16, Taynaah Reis chegou a entrar na Universidade de Brasília para cursar economia, mas conta que largou a faculdade depois de três anos para “ouvir o chamado da tecnologia”.

Hoje, Taynaah, 31, é cofundadora e CEO da Moeda. A plataforma criada em 2017 funciona como um híbrido de fintech, aceleradora e marketplace. A empresa oferece microcrédito orientado, conecta investidores e pequenos produtores à frente de projetos de impacto social (dando transparência ao processo com o blockchain), dá mentorias e serve de vitrine aos produtos, apoiando sua comercialização.

Nascida em Belo Horizonte, mas criada em Brasília desde os 3 anos, Taynaah foi uma criança-prodígio, educada em casa até os 8, pela mãe. “Ela percebia que tinha algo diferente em mim e que a escola formal não estava conseguindo instigar”, diz.

O pai também foi uma influência decisiva em sua formação. Ele trabalhava para o Ministério da Agricultura, sendo um dos responsáveis, segundo ela, pela criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), em 1995.

“Meu pai foi um visionário. Inovar no governo não é fácil hoje, mas era muito mais difícil 30 anos atrás. Lembro que muitas vezes em que as pessoas não tinham dinheiro e o pagavam com produtos”

Tocada desde sempre pela temática da agricultura familiar — ela lembra que cresceu “tomando uva Aurora” (produzido por uma cooperativa vinícola que hoje tem mais de mil famílias associadas) –, Taynaah foi consolidando dentro de si a visão de um dia ajudar a criar uma cadeia de produção mais justa para quem trabalha no campo.

ELA GANHOU BAGAGEM TRABALHANDO COM GOVERNO E NO SETOR PRIVADO

Ainda adolescente, ela fundou sua primeira empresa (a Global Digital Impact, de BI, Big Data, Crowdsourcing e tecnologia de segurança) e começou a colaborar com o então Ministério do Desenvolvimento Agrário, inicialmente por meio do Instituto das Novas Fronteiras da Cooperação.

Ao longo dos anos, Taynaah atuou em projetos como o da Rede Brasil Rural. Iniciativa da secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo do Ministério da Agricultura, a Rede surgiu como uma plataforma de comércio eletrônico para fazer a ponte entre cooperativas e associações de produtores rurais e consumidores.

“Com a experiência trabalhando tanto com o governo quanto com setor privado, pude entender a mentalidade assistencialista no Brasil. Não há educação financeira. É preciso um banco mais humano, especialmente em tempos de incertezas”

Essa bagagem profissional também a ajudou a aprofundar seu entendimento sobre os gargalos (e as desigualdades) da cadeia produtiva — da busca do investimento inicial até a venda do produto final.

A EMPREENDEDORA CONHECEU OS SÓCIOS NUM HACKATON EM NOVA YORK

Antes dos 18, Taynaah já tinha entrado em contato pela primeira vez com a ONU, atuando como assistente de projetos, em Brasília, no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que visa a erradicação da pobreza. Mais de uma década depois, vivendo em Nova York, os caminhos voltaram a se entrelaçar.

Em 2016, Taynaah virou diretora de tecnologia e inovação da Foundation for the Support of the United Nations (FSUN), uma ONG que atua junto à ONU para promover os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Nesse posto, ela foi a anfitriã de um hackaton, em março de 2017, para estimular a criação de projetos em prol das ODS com uso do blockchain.

O sul-coreano Brad Chun e a chinesa Isa Yu venceram o hackaton — e se tornaram sócios de Taynaah na aventura do desenvolvimento do que era até então um projeto pessoal, a Moeda. A transparência do blockchain, ela entendeu, poderia ser a resposta para a ebulição que sentia desde sempre.

Ainda em 2017, os três realizaram uma Initial Coin Offering (ICO):

“Tivemos mais de 800 investidores, a maioria chinesa e jovens, entre 20 e 28 anos. Dessa forma criamos a moeda de maior liquidez no Brasil”

No ICO, foram colocadas à venda 20 milhões de MDA (a primeira criptomoeda da empresa), ao valor de 1 dólar, cada. A venda foi finalizada em duas semanas, com a emissão de 19 628 888 MDA (leia mais aqui). Por meio da oferta, os sócios captaram cerca de 60 milhões de reais, usados como investimento inicial.

A ÊNFASE NO FEMININO ESTÁ INSCRITA NA LOGOMARCA DO NEGÓCIO

A Moeda nasceu oferecendo um Programa de Nano e Microcrédito Orientado, com empréstimos a partir de 20 reais e taxas de 2,5% para pessoas físicas e jurídicas (bem mais acessíveis do que as oferecidas por instituições financeiras tradicionais).

A ideia era ajudar a eliminar os obstáculos que os empreendedores de pequenas comunidades, especialmente as mulheres, têm que ultrapassar naturalmente.

Essa ênfase no empreendedorismo feminino aparece na logomarca da Moeda: uma “simbiose” entre o símbolo do feminino e o da igualdade.

“Sempre trabalhei em meios muito masculinos, o da tecnologia e das finanças. Encontrei muita dificuldade. Minha carreira foi mais valorizada fora do Brasil e mesmo assim houve muito estigma e julgamentos por ser mulher, jovem e brasileira”

Os primeiros projetos incentivados surgiram de uma parceria com a União Nacional das Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (UNICAFES), que permitiu à Moeda incorporar mais de mil cooperativas em sua rede. “Trabalhamos com parceiros e o governo do estado do Ceará, que nos apoiam na seleção, validação e acompanhamento da nossa carteira de projetos”, afirma Taynaah.

O PRIMEIRO PRODUTO DE SUCESSO FOI UMA CERVEJA FEITA COM BARU

Desde 2018, a Moeda acelera negócios com mentorias para que os projetos incentivados possam agregar o valor de suas mercadorias. Um fundo rotativo com recursos próprios começou, em junho daquele ano, a oferecer investimentos para 18 Projetos Semente iniciais, sob mentoria da Moeda. “Estamos estruturando um FIDC para aumentar o volume de investimentos e atrair um capital mais tradicional por meio de parceiros, para multiplicar esforços.”

No portfólio, diz Taynaah, há hoje mais de 200 micro e pequenos negócios em áreas rurais e de periferia urbana. A metodologia de aceleração consiste em três ciclos: diagnóstico e formatação do plano de negócios, com análises de viabilidade econômica, sustentabilidade financeira e ambiental; monitoramento e desembolso dos recursos de acordo com um plano de ação; e apoio na comercialização dos produtos, visando a exportação.

“Em todos os ciclos, utilizamos ferramentas próprias e os dados são registrados em Blockchain para uma prestação de contas, com transparência, dos resultados de impacto, geração de emprego e renda”

O primeiro produto de sucesso, segundo a empreendedora, foi a Baru Beer, uma brown ale artesanal que leva na receita a castanha do cerrado. O projeto da Cooperativa Mista do Vale da Esperança (Cooperval), baseada em Formosa (GO), teve como parceiro de produção a Cervejaria Dádiva, e apoio e mentoria da Moeda.

EM DEZEMBRO, A EMPRESA LANÇOU UMA FRENTE DE MARKETPLACE

Hoje, Taynaah afirma, a Moeda mais de 5 mil investidores. “O montante alocado de nosso portfólio para aceleração é de 5 milhões de reais.” Além da criptomoeda, também é possível investir comprando diretamente os produtos com PayPal, depósito em conta ou cartões de crédito e débito.

Segundo ela, mais de 20 mil usuários interagem com os sistemas da Moeda. O acesso se dá sobretudo pelo website, mas há também um aplicativo (e um jogo, o Moeda Go!, que faz parte de uma estratégia de educação financeira para crianças)

“Somos um conjunto de sete empresas porque não era possível fazer tudo em apenas um CNPJ. Primeiro fizemos a fintech para garantir capital de giro. Depois veio a aceleradora e, agora, o marketplace, pois havia necessidade de fechar o ciclo com a venda dos produtos”

Essa frente de marketplace foi lançada para valer em dezembro, com o e-commerce do projeto Artesaniaas, parceria com a Catarina Mina, marca cearense de bolsas artesanais. Ao comprar os produtos, diz Taynaah, o consumidor pode verificar o destino dos recursos.

“Por meio do nosso sistema de pagamentos MoedaPay, antecipamos o pagamento de compras parceladas e o dinheiro é direcionado em tempo real para as contas das artesãs e associações — e o impacto da compra geração de emprego e renda são também calculados e informados ao consumidor.”

O OBJETIVO PARA 2020 É ALCANÇAR E IMPACTAR 1 MILHÃO DE MULHERES

Mesmo sem diploma de graduação, Taynaah hoje é mestranda em Governança Ambiental e Formulação de Políticas Internacionais pelo Instituto de Pós-Graduação em Estudos Internacionais e Desenvolvimento de Genebra. Desde 2018, ela também fez cursos de inovação disruptiva e cibersegurança por Harvard e de inteligência artificial pelo MIT.

Hoje a Moeda tem 86 colaboradores em Brasília, Montevidéu, Nova York, Genebra e Pequim. O faturamento varia entre 300 mil reais e 500 mil reais por mês.

“Ser pioneira é encontrar o desafio. Não existe regulação de criptomoeda no Brasil e por isso fomos os primeiros a pedir para que isso fosse regulamentado. Hoje, estamos participando ativamente da construção de novas leis”

Agora, apoiando o ciclo do pequeno produtor desde o desenvolvimento inicial até a venda, passando pelo investimento, Taynaah não vê limites para a Moeda. Segundo ela, já são 10 mil empreendedoras impactadas diretamente, todas brasileiras, em sua maioria na área rural e de periferia urbana — e o número aumenta a cada dia.

“Nosso objetivo para 2020 é alcançar 1 milhão, além de expandir para outros países da América Latina e transformar o máximo de vidas possível.”

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  • Projeto: Moeda
  • O que faz: Apoia a cadeia de produção do pequeno produtor, do financiamento e mentoria à venda do produto final.
  • Sócio(s): Taynaah Reis, Brad Chun e Isa Yu
  • Funcionários: 86
  • Sede: Brasília
  • Início das atividades: 2017
  • Faturamento: R$ 300 mil a R$ 500 mil (por mês)
  • Contato: [email protected]
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