Inspirado pelos jogos e baladas da faculdade, o Guni quer ser a rede social preferida dos universitários

Paulo Noviello - 27 maio 2019
Ana Laura Coffani, CEO do Guni: o aplicativo já tem 100 mil usuários e pretende chegar, em cinco anos, aos celulares de 70% dos estudantes.
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Quem viu A Rede Social, de David Fincher, lembra bem como Mark Zuckerberg criou o Facebook enquanto estudava em Harvard (inicialmente como um “jogo” de comparação de beleza entre os colegas…). Agora troque Harvard pela USP de Ribeirão Preto e você tem a gênese do Guni: com mais de 100 mil usuários de mil universidades do país, o aplicativo quer ser a rede social preferida dos universitários brasileiros.

Ousadia? “Pretendemos atingir um milhão de usuários até o fim de 2019″, diz Ana Laura Coffani, 25, CEO. “Para os próximos cinco anos, o objetivo é passar de quatro milhões, o que representa 70% dos alunos de graduação em cursos presenciais no Brasil.”

O Guni foi lançado em 2016 por Ana Laura e quatro colegas (Heitor Bassi, Mario Perino, Matheus Torrano e Allan Poppe), sendo os três primeiros sócios citados do curso de Administração e o último, do de Ciências da Computação. A empresa acaba de receber um investimento de valor não revelado da agência Mercado Jovem, de São Paulo, tem um valuation de 7 milhões de reais e realiza ações com marcas que querem “colar” seus produtos ao segmento universitário, como Coca-Cola, Red Bull e SmartFit.

Natural de Bauru, Ana Laura cogitou Publicidade na hora do vestibular. “Acabei optando por Administração me daria melhor trabalhando com o lado da gestão, mesmo se fosse com comunicação e marketing.”

Aprovada na Fuvest, ela se mudou para Ribeirão Preto e mergulhou na vida universitária: participava da bateria, dos jogos, não perdia uma festa. A ideia de empreender, porém, ainda passava longe da sua cabeça:

“A princípio, meu sonho era virar executiva de uma grande multinacional. Trabalhar em São Paulo, na Paulista, Faria Lima, depois ir para o exterior”

O contato com o Movimento Choice, criado pela Artemisia para engajar jovens empreendedores sociais, começou a abrir seus olhos para outro caminho. Após um ano de intercâmbio entre Itália e Alemanha, Ana Laura voltou ao Brasil e  trabalhou como diretora de projetos da Yunus & Youth, startup endossada pelo Nobel da Paz Muhammad Yunus. E, “para poder entrar de graça nas festas”, diz, começou a fotografar eventos universitários com alguns amigos de turma.

As fotos eram reunidas em um site: o Guni. “No começo era algo totalmente despretensioso, mas a coisa começou a pegar e uma hora vimos que o Guni tinha muito mais potencial”. Os jovens recrutaram um amigo, o programador Allan Poppe, incumbido de desenhar o que imaginavam, inicialmente, como um aplicativo para vender convites de festas. Mas já havia outros produtos assim.

Decidiram seguir outro caminho. A ideia do Guni é organizar, em uma única plataforma que “fala a língua” dos universitários, a comunicação que hoje é feita por grupos de Facebook e WhatsApp, agregando funções de rede social e utilidades pessoais.

“No app, os estudantes centralizam todas as informações de suas vidas dentro das instituições de ensino: eventos, grade de disciplinas, controle de faltas, oportunidades de estágio, entidades estudantis…”

O Guni foi lançado em 2016, no TUSCA (Troféu Universitário de São Carlos), que reúne mais de 20 mil universitários para jogos e baladas na cidade do interior paulista. Até chegar de fato aos smartphones dos seus colegas, porém, os jovens ainda teriam que aprender um bocado. O curso de Administração da USP não tinha, segundo Ana Laura, um enfoque empreendedor:

“Nós éramos preparados para sermos trainees e depois executivos de grandes empresas. Não éramos formados para tirar ideias do papel”

Os sócios foram aprendendo na marra, com tentativa e erro. “Saímos pedindo ajuda, perguntando para muita gente”, diz Ana Laura. Foram acolhidos pelo Supera Parque de Inovação e Tecnologia, incubadora instalada no campus da USP de Ribeirão Preto, que oferece assessoria jurídica e contábil (além do espaço de coworking) e deu vários toques fundamentais sobre registro de marca, modelo de negócio, validação do produto…

O suporte ajudou o Guni a deslanchar entre os estudantes. O principal gancho são os conteúdos ligados a eventos (jogos e festas), que geram acessos e engajamento: é o caso dos resultados dos torneios esportivos e do “torcidômetro”, que mede as torcidas e baterias mais empolgantes.

“Hoje, o Guni é o aplicativo oficial de 58 eventos universitários, em todo o Brasil”, diz a CEO. “Embora os eventos sejam um chamariz, queremos pegar todos os perfis de estudantes, inclusive aqueles que não são da balada, quem trabalha e só vai na aula à noite, ou quem não foi e precisa saber quando é a prova, quais textos o professor deu, em que pé estão os trabalhos em grupo…”

Para expandir, o time do Guni traçou uma estratégia que aposta no marketing digital, sim, mas também na divulgação offline, o bom e velho boca a boca. O pontapé inicial é o patrocínio de algum evento; a partir daí, a empresa faz um trabalho de relacionamento investindo em ações dentro da faculdade com apoio de “microinfluenciadores universitários”, que atuam como embaixadores.

Embaixadores em evento em Maresias: os “microinfluenciadores universitários” ajudam a consolidar a divulgação dentro das faculdades.

“São pessoas que curtem o Guni e veem sentido nessa plataforma, para vestir a camisa e ajudar a gente lá dentro a fazer divulgação, parceria com entidades, e adaptar a linguagem a cada faculdade”, diz Ana Laura. Eles são atraídos em rodadas de inscrição. A quarta, no fim de 2018, selecionou 133 embaixadores de 45 faculdades. No início de 2019, eles se reuniram em Maresias, no litoral paulista, para um evento com palestras, workshops, além de praia e balada.

A estratégia se reflete naquela base de usuários de mais de 100 mil pessoas. “Hoje temos usuários em todos os estados, mas é mais forte em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e, o que é curioso, o Acre é o quarto estado com mais inscritos, super ‘pegou’ lá”, diz Ana Laura.

Uma interrogação atual é como seguir crescendo e despertando o interesse em faculdades menores e com programação de eventos menos intensa.

“A maior dificuldade é a inserção de conteúdo em uma plataforma muito capilarizada”, afirma a CEO. “Em faculdades nas quais já temos esse conteúdo estabelecido, é fácil os estudantes ‘entrarem na onda’ e continuarem usando, mantendo o Guni relevante e atualizado. Chegamos a ter 60% de uso nessas faculdades. O desafio é replicar isso em grande escala por todo o Brasil.”

O app é gratuito. Como outras redes sociais, o Guni pretende monetizar a partir dos dados gerados pela interação dos usuários, de onde podem ser extraídos insights para marcas interessadas em atingir o público jovem. Ana Laura dá uma dimensão do mercado: 6 milhões de estudantes (com renda média mensal de R$ 330 para gastar em bens de consumo) e 100 megaeventos universitários por ano, que movimentam até 30 mil pessoas e 5 milhões de reais por edição.

“Falar que universitário não tem dinheiro é um erro. Na verdade, ele escolhe muito bem onde vai gastar. Além disso, tem grande poder de influência no consumo de outros membros da família”

As contas hoje são pagas realizando ações de marketing para empresas que querem entender e falar com esses jovens:

“Nosso conceito de rede não fica preso à rede social. Conseguimos unir os melhores benefícios do ambiente online com os do ambiente offline, trazendo um networking especializado para pesquisas e entendimento do público, bem como experiências ricas e engajadoras para ações de comunicação.”

Além dos cinco sócios, a equipe inclui três desenvolvedores full-time e quatro estagiários. A startup ainda não atingiu o break-even. “Estamos no momento de ‘cash burn’ com esse investimento da Mercado Jovem para expandir nossa base de usuários, mas a ideia é operar no azul a partir do ano que vem”.

Aos candidatos a empreendedores que querem mudar o mundo antes de pegar o diploma, a dica da Ana Laura é aproveitar tudo o que a universidade oferece:

“Quase todas as grandes empresas de tecnologia nasceram em universidades, como Stanford ou Harvard. A faculdade é o ambiente perfeito para novas ideias surgirem, para a colaboração. Você pode colar num professor que é referência em sua área e que terá prazer em te ajudar. E as universidades estão atentas e investindo em incubadoras e centros de inovação.”

Num momento de discussão acalorada sobre as prioridades da educação e os cortes no orçamento das universidades públicas, parte da missão do Guni é desfazer a ideia de que os alunos só querem saber de protesto ou bebedeira.

“Quem atua com esse público sabe o quanto a galera rala, conciliando trabalho, estudo e lazer, que é importante para desestressar. São esses jovens que vão virar cientistas, inovadores, empreendedores. Estamos acompanhando os cortes, mas tenho certeza que a expansão do ensino superior, e por consequência desse mercado universitário, é uma tendência sem volta.”

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DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Guni
  • O que faz: Aplicativo com funções de rede social para universitários.
  • Sócio(s): Ana Laura Coffani, Allan Poppe, Heitor Bassi, Mario Perino e Matheus Torrano.
  • Funcionários: 12 (incluindo sócios)
  • Sede: Ribeirão Preto (SP)
  • Início das atividades: 2016
  • Contato: [email protected]
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