Você está revoltado com as queimadas no Pantanal? Lawrence Wahba conta como transformar sua indignação em ação prática

Maisa Infante - 28 set 2020
O documentarista Lawrence Wahba (foto: Leonardo Ramos).
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O documentarista de natureza Lawrence Wahba está no Pantanal há pouco mais de uma semana. Essa é a 41ª vez que ele vai à região — e a primeira em que seu objetivo não é mostrar as belezas locais.

Lawrence, 51, é um dos idealizadores de uma campanha para arrecadar recursos para a criação da Brigada Alto Pantanal, que vai atuar no combate ao fogo no corredor entre a Serra do Amolar, o Parque Nacional do Pantanal e o Parque Estadual Encontro das Águas, um dos maiores corredores ecológicos de onças-pintadas do mundo.

A ideia desse projeto é ter dois postos fixos de brigada anti-incêndios na região (um na Serra do Amolar e um no Parque Estadual Encontro das Águas) para atuar não apenas agora, contra as chamas que consomem o Pantanal, mas também na estação seca de 2021. 

O objetivo é ter homens treinados e equipados para combater o fogo logo no início, evitando que ele atinja grandes proporções. Segundo Lawrence, 20% dos recursos arrecadados serão destinados para iniciativas veterinárias, que atuam com os animais atingidos pelo fogo. 

A campanha ativou quatro plataformas para captação de doações. Há dois crowdfundings rolando: um pelo Catarse, com meta de atingir 500 mil reais, e outro voltado ao público internacional (operado pelo parceiro Jaguar ID Project e com expectativa de atrair até 100 mil dólares). 

Além disso, a campanha pede doações em criptomoedas (aceitas pela plataforma Mercado Bitcoin) e na forma de equipamentos — como barcos, máscaras e EPIs (Equipamentos de Proteção Individual). Empresas poderão eventualmente inserir suas marcas nos itens doados. 

Lawrence conversou com o Draft na semana passada por telefone, direto da Reserva Ecológica Caimã — local que em 2019 foi consumido pelo fogo e, depois de várias iniciativas, conseguiu se recuperar. 

 

O que você já viu no Pantanal desde que chegou à região?
Cheguei no dia 20 de setembro e ainda não tive contato direto com o fogo [atualização: dias depois da entrevista, Lawrence viu o fogo de perto]. Daqui de onde falo com você, vejo o céu borrado de fumaça, mas está tudo verde. Estou vendo cinco veadinhos e três emas pastando na minha frente; nas últimas 24 horas vi três onças-pintadas e um tamanduá. 

Estou em uma fazenda chamada Refúgio Ecológico Caimã, na região de Miranda, no Mato Grosso do Sul, que teve 60% da sua área destruída pelo fogo no ano passado, e devido a uma série de medidas, hoje está protegida e verde. Mas tenho contato diário com amigos pantaneiros e sei da gravidade da situação, dos bichos que morrem carbonizados. 

Alguns lugares onde estive no ano passado, gravando o projeto Inspirado pela Natureza, em parceria com a Jeep, foram destruídos. Onde eu fiz o episódio da onça não existe mais, é um carvoal. A jaguatirica do episódio 3 morreu carbonizada 

Isso me dói no coração de uma forma que você não consegue imaginar… Nos últimos 10 anos, estive 26 vezes nessa região, que virou um grande inferno. 

Você vai visitar estes lugares novamente?
Sim. Só não fui antes porque eu era mais útil para o combate fazendo essa articulação que tenho feito. Eu não sou treinado para combater fogo. Se eu for lá, serei mais um bem intencionado — mas não sou capacitado. Então, em São Paulo, consegui juntar artistas, ONGs e fazer um crowdfunding para ajudar de uma forma muito mais substancial. 

Como surgiu a ideia dessa campanha?
Em março eu estava em uma área muito remota do Pantanal, na fronteira do Brasil com a Bolívia, fazendo uma pesquisa de locação para um filme de cinema, que acabou adiado. 

Quando decretaram a pandemia, o coronel Rabelo, do Instituto Homem Pantaneiro, que conheço há muitos anos, me ajudou com a operação de logística para evacuar a nossa equipe de uma região muito remota até Corumbá. Nesse processo, fiquei mais próximo dele e comentamos sobre o fogo anormal em março. 

De volta a São Paulo, comecei a acompanhar as queimadas do Pantanal e lá pelo mês de agosto liguei para o coronel. Perguntei como estavam as coisas e ele me deu um report assustador: era um fogo que em quase 40 anos de Pantanal ele nunca tinha visto

Passei uma noite sem dormir. Tenho uma ligação com o Pantanal desde que eu era estudante secundarista, boa parte da minha carreira foi no Pantanal. Então eu precisava fazer alguma coisa.

E por que fazer um projeto para instituir brigadas de incêndio?
O Estado, o corpo de bombeiros, o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e o Prevfogo (Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais) sempre priorizam as áreas habitadas por seres humanos, o que está totalmente certo. 

Mas nesses “Pantanaizões” remotos, ermos, onde só tem bichos, unidade de conservação, parque nacional, parque estadual, reserva natural, não tem quem faça o combate. Aí o fogo começa e chega a um tamanho incontrolável 

Então, se tiver uma brigada nas áreas naturais não habitadas, treinada para agir no início do fogo, temos uma chance muito maior de minimizar o impacto desse problema. 

O que vocês já conseguiram fazer?
Começamos este movimento e, em duas semanas, por conta da comoção nacional, por conta do meu network, foi possível articular muitas coisas. 

De repente, essa nossa campanha virou uma grande campanha apoiada pelo Instituto Homem Pantaneiro, SOS Pantanal, Documenta Pantanal, Greenpeace, Pantera Brasil, Ampara Silvestre e artistas como Luciano Huck, Otaviano Costa, Eliana Michaelichen, Tiago Abravanel, entre muitos outros.

Com os primeiros recursos que chegaram, o Instituto Homem Pantaneiro e a ONG Pantera Brasil, que já têm brigadistas, conseguiram comprar equipamentos e já ajudar a controlar o fogo nas terras dos índios Guató, que são índios canoeiros do Pantanal. 

Você vai fazer um documentário sobre isso?
Neste primeiro momento, a ideia é fazer o registro fotográfico e ajudar a destinar e organizar estes recursos. A partir da chegada das chuvas, em novembro, quero fazer um filme sobre o renascimento do Pantanal. Vai se chamar Pantanal Reborn. Agora, estou muito mais numa articulação política. 

Estamos viajando com pouquíssimo equipamento. Nos próximos dias, vamos peregrinar por este Pantanal por todos os meios de transporte possíveis: carro, barco, aviãozinho, “aviãozão”. Vamos dar uma volta em tudo para ajudar a organizar esta campanha

Aí, num segundo momento, quando o pessoal estiver com o dinheiro, as brigadas começarem a trabalhar, eu posso voltar a me dedicar a fazer filmes. E não vejo a hora de fazer isso, porque o trabalho político é muito mais desgastante emocionalmente.

Você fica no Pantanal até quando? E por que começou essa visita por um lugar onde o fogo ainda não chegou?
A princípio fico até 2 de outubro. Decidimos começar a nossa narrativa com uma mensagem de esperança, porque a mídia está sendo muito superficial. Ela coloca só o problema da destruição — que é grave, mas deve ser contextualizado.

Senão, daqui a pouco o pantaneiro – que já está muito empobrecido por conta da seca terrível e por conta da pandemia – vai estar ainda pior. 

Aqui, o turismo é uma das grandes fontes de renda – e neste ano não existiu. Se começamos a colocar só que o Pantanal está destruído, não vamos conseguir que o pantaneiro retome a atividade turística no próximo ano 

Por isso começamos a nossa narrativa no local, a pedido de vários atores, para mostrar que o Pantanal sobrevive. Em seguida vamos mostrar o problema. 

Pelo que você tem visto aí in loco, esse fogo todo é criminoso ou natural?
O fogo tem origens diversas — mas [neste momento] sempre humana. Estamos vivendo a pior seca dos últimos 47 anos do Pantanal. Se eu jogar uma bituca de cigarro onde eu estou agora, vai pegar fogo. 

Tem também um movimento que eu não chamo nem de criminoso, mas de terrorismo. 

A Reserva do Sesc é uma das mais belas de todo o Pantanal, é onde vou encerrar a viagem. Nada menos que 93% da reserva pegou fogo, e a polícia encontrou galão com gasolina ali. Aquilo é terrorismo, fogo criminoso, de invasores em uma reserva 

Tem ainda o fogo de pequenos produtores, de indígenas que estão queimando uma rocinha, vem o vento e, junto com esta seca, o fogo atinge esta proporção.

Seja por má fé e crime, seja por descuido ou acidente, neste momento todo fogo é de origem humana. O fogo natural do Pantanal vai começar [apenas] no final de outubro, quando vêm os raios das tempestades. Os raios botam um fogo que em seguida a chuva apaga — e o solo nasce mais forte. 

E como está sendo a ajuda governamental no combate ao fogo?
Eu tenho uma posição muito clara, completamente anti-Bolsonaro, acho o ministro [do Meio Ambiente] Ricardo Salles o pior ministro da história do Brasil. Mas neste momento estou me abstendo de polemizar, porque acho que não ajuda. 

Há 30 dias, o Coronel Homero, que era o presidente do ICMBio, mandou um esforço de combate aos incêndios, chamado Operação Pantanal. Equivocadamente, ele foi demitido do cargo de presidente do ICMBio e essa força-tarefa foi desmobilizada. 

Agora, 30 dias depois, eles remobilizaram a força-tarefa com o novo presidente do ICMBio. Então o Brasil, enquanto Nação, jogou fora 30 dias de planejamento de combate ao fogo. O que eu acho muito grave. 

O fogo não é de direita e nem de esquerda — mas destrói todo mundo. O fogo é ruim para o pantaneiro, para o pecuarista, para o operador de turismo, para o ambientalista, para o índio

Mas neste momento, precisamos de trégua. Depois a gente pode voltar a brigar. Agora, é hora de todo mundo se unir para controlar este fogo que está devastando um patrimônio que é de todos os brasileiros. 

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