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Mais do que pets: o animal como sujeito ativo na rotina multiespécie

Marisa Camargo - 6 nov 2026 Marisa Camargo, psicóloga e pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Marisa Camargo, psicóloga e pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Marisa Camargo - 6 nov 2026
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A vontade de estreitar a comunicação com os animais revela a importância que eles ganharam em nossas vidas: queremos entender o que os animais sentem, o que pensam e até o que tentam dizer. Não por acaso, cresce o interesse por tecnologias que prometem decodificar vocalizações de outras espécies.

Mas o acesso a essas tecnologias também traz uma pergunta incômoda: estamos tentando compreender os animais ou fazendo com que eles se comuniquem conosco à nossa maneira?

Essa diferença importa. Ao interpretar um comportamento de acordo com nossas emoções, podemos estar atribuindo ao animal sentimentos e intenções humanas que não correspondem necessariamente ao que ele está vivendo.

Da mesma forma, ao buscar respostas em tecnologias como os botões de comunicação ou aplicativos de tradução, corremos o risco de valorizar mais aquilo que conseguimos interpretar do que a maneira como o animal realmente se expressa.

Uma convivência mais ética começa quando reconhecemos que outra espécie não precisa ser parecida conosco para ser compreendida e respeitada.

Isso exige aprender sobre as características de cada espécie, observar seus sinais e considerar suas necessidades, seus ritmos e suas possibilidades de escolha.

COMO CRIAR CONDIÇÕES PARA QUE O ANIMAL PARTICIPE ATIVAMENTE DA ROTINA COMPARTILHADA

Mais do que abrir espaço para os animais em nossa rotina, trata-se de transformar a maneira como compartilhamos esse espaço com eles, cada vez mais presentes nas famílias multiespécie.

Reconhecer o animal como sujeito não significa apenas compreender melhor seus sinais, mas também criar condições para que ele participe ativamente da rotina compartilhada. Isso envolve oferecer possibilidades de escolha, exploração e expressão de comportamentos naturais. 

O passeio, por exemplo, implica não pensar apenas no deslocamento físico, mas permitir que o animal explore o ambiente por meio do faro, respeitando seu ritmo e oferecendo tempo para atividades que fazem sentido para ele.

Na alimentação, a comida pode deixar de ser apenas algo disponibilizado em um recipiente e se transformar em uma oportunidade de exploração, tornando a experiência mais desafiadora.

Faz parte dessa perspectiva integradora o adestramento que utiliza o reforço positivo evitando métodos baseados em medo, dor ou punição. Mais do que simplesmente conseguir obediência, procura construir uma comunicação mais clara entre tutor e animal.

Além da observação do comportamento e da tentativa de compreender o que ele está comunicando, é importante entender quais estímulos favorecem determinadas respostas e quais condições facilitam a aprendizagem.

O tutor deixa de ser apenas aquele que determina regras e passa também a aprender a interpretar o animal.

O aprendizado é construído a partir de confiança, consistência e reforço de comportamentos desejáveis.

Foi o próprio pet que levou Maria Fernanda Modaneze, especialista em comportamento animal e franqueada da Cão Cidadão, especializada em adestramento, à busca por essa modalidade. 

“Eu tenho um pet não convencional, um porco de estimação e foi ele que me trouxe para o mundo do adestramento, porque eu sou focada em comportamento. Eu só conhecia o método tradicional de adestramento, que é punitivista. Pesquisando, conheci a Cão Cidadão e percebi que havia uma outra possibilidade, o adestramento positivo, que foca no respeito e na segurança e não na obediência cega.”
(Maria Fernanda Modaneze, franqueada da Cão Cidadão)

A Cão Cidadão oferece adestramento presencial, online e consultoria comportamental e já auxiliou mais de 100 mil famílias multiespécie desde 1998.

O enriquecimento ambiental é outra prática que transforma a convivência com espécies não humanas: adapta espaços e rotinas do ambiente doméstico para oferecer estímulos físicos, mentais e sensoriais adequados às características de cada espécie e indivíduo.

O objetivo não é reproduzir artificialmente a vida selvagem, mas oferecer condições para que o animal possa expressar comportamentos compatíveis com sua espécie e suas características individuais. Trata-se de criar oportunidades de exploração e escolha.

Kamila Alves, especialista em comportamento felino, protetora animal, terapeuta floral pet e coordenadora do projeto Mais um Gato, dedicado ao resgate e adoção de animais abandonados, optou por essa prática de forma empírica.

Ela começou a estudar e pesquisar sobre comportamento de felinos por curiosidade, quando adotou sua primeira gata. Passou a compartilhar dicas de manejo e como lidar com comportamentos específicos, assim como adequar o ambiente e gradativamente foi fazendo formações e se especializando no tema. 

“Eu passo orientações pros tutores de enriquecimento da casa, para que os gatos possam expressar o comportamento natural deles e terem uma rotina mais dinâmica, não deixar sempre os mesmos brinquedos espalhados, trazer uma novidade. Digo que a vida dos gatos são eternos domingos, porque ela é toda igual. Outra questão relevante é o aumento de vínculo, então peço para o tutor chegar em casa e brincar pelo menos 15 minutos por dia.” (Kamila Alves, coordenadora da Mais um Gato, especialista em comportamento felino, protetora animal e terapeuta floral pet)

A inovação, portanto, não está em criar mais produtos ou serviços para pets, mas em reconhecer que a própria relação está mudando

Quando o animal passa de objeto de cuidado a participante da rotina, surgem novas necessidades, novos comportamentos e, consequentemente, novas oportunidades de convivência.

Bastidores das gravações de Carminha no filme “O Agente Secreto”.

Embora essas práticas sejam mais difundidas no trabalho com cães e gatos, princípios de aprendizagem e manejo baseado em reforço também podem ser utilizados com outras espécies, sempre considerando suas características específicas.

DO ANIMAL COMO OBJETO AO ANIMAL COMO INDIVÍDUO

A psicologia evolutiva aplicada aos animais busca compreender como os comportamentos, as emoções e os processos mentais das espécies não humanas se desenvolveram ao longo da evolução, de que maneira determinados traços e capacidades ajudam os animais a sobreviver — considerando tanto características físicas quanto comportamentais, preservadas ao longo das gerações. 

Estudos do século XIX realizados por Charles Darwin demonstraram que as expressões emocionais não eram exclusividade humana, mas estavam presentes também entre outras espécies. Mais de um século depois, os estudos aprofundaram essas questões, mostrando que diferentes espécies possuem formas próprias de perceber, aprender, sentir e responder ao mundo.

Os animais passam a ser reconhecidos como seres sencientes, dotados de experiências subjetivas, capacidades cognitivas e formas próprias de comunicação, ressignificando o vínculo entre humanos e não humanos

A senciência ganha relevância e a convivência passa a ser construída de maneira mais horizontal à medida que perde força a antiga hierarquia entre o humano dominador e o animal dominado. O vínculo deixa de ser apenas uma questão de posse ou de afeto e passa a envolver reconhecimento, responsabilidade e reciprocidade.

Esse argumento é fortemente defendido por Naila Fukimoto, Mestre em Ciências e doutoranda em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo (USP), além de ser membro do Laboratório de Etologia Canina (LECA). 

“A alteridade, por exemplo, você começa a ver um pouco mais de um pensamento quase filosófico, para se pensar a relação. E é interessante também no sentido da gente respeitar que o outro é o outro. Respeitar que o outro é outra espécie, olhar para esse mundo a partir do olhar dele, de um olhar que não é o seu. Eu não estou moldando ele para caber aqui no meu olhar, eu estou entendendo ele como ele é, na sua diversidade.”
(Naila Fukimoto, Mestre em Ciências e doutoranda em Psicologia Experimental pela Universidade de São Paulo , além de ser membro do Laboratório de Etologia Canina)

Mais recentemente, animais antes considerados exclusivamente exóticos passam a ser compreendidos de maneira menos estigmatizada. Répteis e outras espécies que tradicionalmente não ocupavam o lugar de animais de companhia passam a ser adotados de forma legal e consciente por tutores especializados.

O que está em jogo é uma mudança cultural no significado da convivência, à medida que muda o eixo das relações: os animais ocupam hoje um papel afetivo cada vez mais próximo daquele atribuído aos membros da família.

Trata-se da passagem de uma lógica de posse e utilidade para uma lógica de relação, reconhecimento e interdependência.

O cuidado continua sendo uma responsabilidade humana, mas passa a considerar de maneira mais explícita aquilo que o animal é, sente, prefere e necessita. E, nesse processo, o animal não precisa se tornar humano para adquirir valor. Ao contrário: é justamente o reconhecimento de sua diferença que permite construir uma relação mais respeitosa.

O futuro da convivência depende menos de aproximar os animais da condição humana e mais de aproximar os humanos da realidade dos animais: compreender melhor seus sistemas sensoriais, capacidades cognitivas, emoções, necessidades e formas de comunicação.

Talvez a questão central, portanto, não seja simplesmente se os animais devem ser reconhecidos como parte importante de nossas vidas, mas compreender que eles já participam de nossas vidas de maneira profunda — e que reconhecer sua subjetividade, sua capacidade de sentir e sua capacidade de agir sobre o próprio entorno transforma também a maneira como entendemos nossa própria existência.

 

Marisa Camargo é psicóloga e pesquisadora de mercado. Atua no desenvolvimento de projetos de pesquisa quantitativa de ponta a ponta e é especialista em quanti no estudo Futuro Multiespécie do Atelier do Futuro.

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