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Desde a pandemia da Covid-19 e com os efeitos das mudanças climáticas no cotidiano, a humanidade começa a repensar o modelo de hiperprodução e consumo do modo de vida contemporâneo e seus impactos na natureza.
Essa reflexão favorece uma relação mais respeitosa e horizontal com o meio ambiente, reconhecendo o valor de todas as formas de vida na Terra para além dos interesses humanos. Chamada de ecologia profunda, essa visão questiona o pensamento ecológico tradicional e incentiva inovações fundamentadas em práticas regenerativas.
Em entrevista ao Projeto Multiespécie, Fabio Scarano, curador do Museu do Amanhã e titular da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros, explica que futuros regenerativos dependem da solidariedade e da reconstrução dos nossos laços com a natureza para que a lógica de exploração e comodificação seja finalmente revertida.
Inspirado pelo pensador Bruno Latour, ele ressaltou a importância desse novo olhar ético para a criação de políticas de Gaia. Ou seja, ações que contemplem os interesses de todo o ecossistema do planeta Terra.
No horizonte multiespécie, a inovação vem da eficiência fundamentada na reciprocidade e no cuidado integrado.
Uma forma emergente de especular e fomentar atitudes favoráveis a um futuro multiespécie desejável é a simbiocracia, uma filosofia que propõe novos modelos de governança baseados na colaboração e na interdependência entre espécies. Seu objetivo é promover formas de coabitar o território que valorizem o cuidado e a preservação da vida, beneficiando o ecossistema como um todo
Na União Europeia, iniciativas como o projeto SYMBA vêm transformando processos industriais por meio da biotecnologia e da bioeconomia circular. A proposta cria uma nova metodologia de simbiose industrial ao conectar resíduos, subprodutos e recursos de diferentes indústrias. Esses materiais são transformados em insumos para outros setores produtivos.
O diferencial é integrar inteligência artificial a um banco de dados e análises de circularidade da produção. A tecnologia identifica possíveis conexões entre empresas, recursos e diferentes setores e regiões. Dessa forma, integra indústria química, têxtil, embalagens, biofertilizantes, agroalimentar, tratamento de águas, contribuindo para a criação de cadeias de valor com zero desperdício.
No âmbito público, as políticas de bem-estar único (One Welfare) ganham espaço ao reconhecer a conexão entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa abordagem busca soluções integradas, envolvendo diferentes instituições, profissionais e setores. Dessa maneira, tanto animais domésticos e silvestres quanto os comensais são igualmente considerados no planejamento de ações de governança urbana
Quando se trata do controle de populações comensais (como pombos, ratos, pardais, esquilos e raposas), se busca o equilíbrio entre as espécies pelo manejo de natalidade – em vez de tradicionalmente eliminá-las via extermínio químico.
As espécies comensais da fauna urbana, muitas vezes denominadas de praga, costumam ser estigmatizadas como transmissoras obrigatórias de doenças. Essa visão começa a ser questionada e algumas dessas espécies, a exemplo dos pombos, já são adotadas como animais de companhia.
A percepção sobre pombos serem “rato com asas” é um mito originado no início da década de 1960, em Nova York, quando casos de meningite foram erroneamente atribuídos a eles. Independentemente dos fatos, permaneceram estigmatizados. Pombos, assim como animais domésticos, transmitem doenças apenas se estiverem contaminados.
Para Bruna Becker, criadora do projeto Plumadas (responsável pela adoção e resgate de pombos), quando recebem os cuidados adequados, essas aves não apresentam de fato risco à saúde de pessoas com imunidade saudável. Ela afirma que os rótulos preconceituosos que recaem sobre pombos e outras espécies marginalizadas escondem o papel que esses animais desempenham dentro da ecologia urbana — e que uma eventual contaminação é apenas reflexo do impacto ecológico causado pelos próprios seres humanos.
A visão positiva ou negativa sobre as espécies traz um forte viés cultural, acrescenta Fabio Scarano. O julgamento costuma ser baseado apenas na aparência dos animais e na interpretação atribuída pela sociedade – e acaba excluindo a ciência. “Essa forma de preconceito, o especismo, deve ser combatida com educação para favorecer formas mais respeitosas de convivência”, ressalta
Nas redes sociais, é possível conferir perfis de mulheres jovens que compartilham suas rotinas com seus pets de espécies marginalizadas. É o caso das “pigeon girls”.
“Todos os seres são potencialmente vulneráveis e essa vulnerabilidade se estende à teia da vida como um todo. A atividade humana impactou os ecossistemas, criando uma responsabilidade ética em relação a outras espécies. Assim, a autonomia não é individual, mas relacional, e ela se desenvolve por meio da conexão com os outros — incluindo os animais, que também são agentes”. (Ericka Fosado, advogada mexicana e ativista da causa animal.)
De acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), os pets não convencionais – como aves canoras, peixes, répteis, pequenos mamíferos ou animais silvestres/exóticos – representam 39% do total de animais de estimação nos lares brasileiros em 2026.
O acesso à informação e a visibilidade nas redes sociais são os dois principais aspectos que impulsionaram esse crescimento. “Agora que é possível acompanhar o cotidiano de tutores e obter mais conhecimento sobre diferentes espécies e seus comportamentos, as pessoas passaram a se identificar com a personalidade de outros tipos de animais, como coelhos, galinhas e cabras”, diz Nathalia Miotto, veterinária e tutora de mais de 50 pets.
Ela alerta que, antes da adoção, é preciso entender as necessidades básicas da espécie escolhida para garantir o bem-estar do animal, além de procurar fontes legalizadas de adoção, evitando o tráfico de animais.
A popularidade de animais mini, como cavalos, vacas, porcos, galinhas e cabras, abre possibilidades para novos formatos de convivência multiespécie. Com menor porte e forte apelo estético, esses animais despertam interesse porque oferecem experiências incomuns de interação e cuidado no ambiente urbano. Por serem resultado de seleção ou modificações genéticas, exigem atenção redobrada às necessidades específicas de saúde e bem-estar
As demandas ainda pouco atendidas dos tutores de animais não convencionais abrem uma nova oportunidade de mercado com potencial para desenvolvimento de produtos e serviços especializados e ainda sub-representados no setor pet.
A Costa Rica transformou uma das regiões mais urbanizadas do país em uma cidade biofílica premiada pela ONU-Habitat. Curridabat, cujos insetos polinizadores são considerados cidadãos, foi reformada para integrar a natureza de forma central no cotidiano dos seus habitantes.
Chamada de “Cidade Doce”, a estratégia de planejamento urbano recebeu o investimento público de 45 milhões de dólares para a revitalização e criação de um habitat multiespécie, que fornece infraestrutura para promover a biodiversidade e permite a coexistência.
Com o objetivo de atender a esses pilares, o poder público restaurou solos e cursos d’água, ampliou a vegetação nativa e interconectou espaços verdes, que atuam como corredores ecológicos regionais para polinizadores dentro da cidade. Com planejamento e investimento, Curridabat se tornou uma cidade multiespécie inteligente e sustentável
Ao implementar princípios da ecologia profunda e simbiocracia, Curridabat está colhendo frutos tanto na qualidade de vida e de saúde mental da população quanto economicamente, atraindo turismo sustentável de nicho ao se converter em case de sucesso de cidade regenerativa.
No fim, quando encaramos a vida de todos os seres de forma integrada, a inovação passa a nascer da reciprocidade e do cuidado e não mais da lógica de exploração. As iniciativas baseadas na ecologia profunda e na filosofia de simbiocracia demonstram na prática que transformações alinhadas com a ética multiespécie são capazes de gerar valor a partir da coexistência.
Quiona Norberto Santos é mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em estudos interculturais. É consultora e pesquisadora de culturas juvenis, comportamentos de consumo e tendências de futuro há mais de 15 anos e pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie promovido pelo Atelier do Futuro.
Ideias que ontem pareciam impensáveis caminham para o terreno do possível e do popular. Daniel Torquato Fortes examina os meandros do ativismo para romper bolhas e construir consensos em torno de novas leis a favor da natureza e dos animais.
Em 2025, as denúncias de maus-tratos contra animais nas redes sociais subiram 53%. A pesquisadora Alessandra Moura expõe a relação entre zoossadismo e o design das plataformas, que transformam dor em espetáculo, ativo econômico e engajamento.
Nenhuma transformação se sustenta sem mudanças no imaginário coletivo. A pesquisadora Nicole Camargo Tietzmann mapeia os caminhos, a partir da convivência multiespécies, das narrativas literárias, cinematográficas e musicais contemporâneas.
