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Simbiose e inovação nas práticas de coexistência multiespécie

Quiona Norberto Santos - 14 out 2026 Quiona Norberto Santos, pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Quiona Norberto Santos, pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie.
Quiona Norberto Santos - 14 out 2026
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Desde a pandemia da Covid-19 e com os efeitos das mudanças climáticas no cotidiano, a humanidade começa a repensar o modelo de hiperprodução e consumo do modo de vida contemporâneo e seus impactos na natureza. 

Essa reflexão favorece uma relação mais respeitosa e horizontal com o meio ambiente, reconhecendo o valor de todas as formas de vida na Terra para além dos interesses humanos. Chamada de ecologia profunda, essa visão questiona o pensamento ecológico tradicional e incentiva inovações fundamentadas em práticas regenerativas.

Em entrevista ao Projeto Multiespécie, Fabio Scarano, curador do Museu do Amanhã e titular da Cátedra Unesco de Alfabetização em Futuros, explica que futuros regenerativos dependem da solidariedade e da reconstrução dos nossos laços com a natureza para que a lógica de exploração e comodificação seja finalmente revertida. 

Inspirado pelo pensador Bruno Latour, ele ressaltou a importância desse novo olhar ético para a criação de políticas de Gaia. Ou seja, ações que contemplem os interesses de todo o ecossistema do planeta Terra.

IMPACTOS NOS MODELOS DE GOVERNANÇA

No horizonte multiespécie, a inovação vem da eficiência fundamentada na reciprocidade e no cuidado integrado. 

Uma forma emergente de especular e fomentar atitudes favoráveis a um futuro multiespécie desejável é a simbiocracia, uma filosofia que propõe novos modelos de governança baseados na colaboração e na interdependência entre espécies. Seu objetivo é promover formas de coabitar o território que valorizem o cuidado e a preservação da vida, beneficiando o ecossistema como um todo

Na União Europeia, iniciativas como o projeto SYMBA vêm transformando processos industriais por meio da biotecnologia e da bioeconomia circular. A proposta cria uma nova metodologia de simbiose industrial ao conectar resíduos, subprodutos e recursos de diferentes indústrias. Esses materiais são transformados em insumos para outros setores produtivos. 

O diferencial é integrar inteligência artificial a um banco de dados e análises de circularidade da produção. A tecnologia identifica possíveis conexões entre empresas, recursos e diferentes setores e regiões. Dessa forma, integra indústria química, têxtil, embalagens, biofertilizantes, agroalimentar, tratamento de águas, contribuindo para a criação de cadeias de valor com zero desperdício.

No âmbito público, as políticas de bem-estar único (One Welfare) ganham espaço ao reconhecer a conexão entre a saúde humana, animal e ambiental. Essa abordagem busca soluções integradas, envolvendo diferentes instituições, profissionais e setores. Dessa maneira, tanto animais domésticos e silvestres quanto os comensais são igualmente considerados no planejamento de ações de governança urbana 

Quando se trata do controle de populações comensais (como pombos, ratos, pardais, esquilos e raposas), se busca o equilíbrio entre as espécies pelo manejo de natalidade – em vez de tradicionalmente eliminá-las via extermínio químico. 

DESMISTIFICAÇÃO DA FAUNA URBANA MARGINALIZADA

As espécies comensais da fauna urbana, muitas vezes denominadas de praga, costumam ser estigmatizadas como transmissoras obrigatórias de doenças. Essa visão começa a ser questionada e algumas dessas espécies, a exemplo dos pombos, já são adotadas como animais de companhia.

A percepção sobre pombos serem “rato com asas” é um mito originado no início da década de 1960, em Nova York, quando casos de meningite foram erroneamente atribuídos a eles. Independentemente dos fatos, permaneceram estigmatizados. Pombos, assim como animais domésticos, transmitem doenças apenas se estiverem contaminados. 

Para Bruna Becker, criadora do projeto Plumadas (responsável pela adoção e resgate de pombos), quando recebem os cuidados adequados, essas aves não apresentam de fato risco à saúde de pessoas com imunidade saudável. Ela afirma que os rótulos preconceituosos que recaem sobre pombos e outras espécies marginalizadas escondem o papel que esses animais desempenham dentro da ecologia urbana — e que uma eventual contaminação é apenas reflexo do impacto ecológico causado pelos próprios seres humanos. 

A visão positiva ou negativa sobre as espécies traz um forte viés cultural, acrescenta Fabio Scarano. O julgamento costuma ser baseado apenas na aparência dos animais e na interpretação atribuída pela sociedade – e acaba excluindo a ciência. “Essa forma de preconceito, o especismo, deve ser combatida com educação para favorecer formas mais respeitosas de convivência”, ressalta

Nas redes sociais, é possível conferir perfis de mulheres jovens que compartilham suas rotinas com seus pets de espécies marginalizadas. É o caso das “pigeon girls”.

“Todos os seres são potencialmente vulneráveis ​​e essa vulnerabilidade se estende à teia da vida como um todo. A atividade humana impactou os ecossistemas, criando uma responsabilidade ética em relação a outras espécies. Assim, a autonomia não é individual, mas relacional, e ela se desenvolve por meio da conexão com os outros — incluindo os animais, que também são agentes”. (Ericka Fosado, advogada mexicana e ativista da causa animal.)

CRESCIMENTO DO INTERESSE POR PETS NÃO CONVENCIONAIS

De acordo com os dados divulgados pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (ABINPET), os pets não convencionais – como aves canoras, peixes, répteis, pequenos mamíferos ou animais silvestres/exóticos – representam 39% do total de animais de estimação nos lares brasileiros em 2026.

O acesso à informação e a visibilidade nas redes sociais são os dois principais aspectos que impulsionaram esse crescimento. “Agora que é possível acompanhar o cotidiano de tutores e obter mais conhecimento sobre diferentes espécies e seus comportamentos, as pessoas passaram a se identificar com a personalidade de outros tipos de animais, como coelhos, galinhas e cabras”, diz Nathalia Miotto, veterinária e tutora de mais de 50 pets. 

Ela alerta que, antes da adoção, é preciso entender as necessidades básicas da espécie escolhida para garantir o bem-estar do animal, além de procurar fontes legalizadas de adoção, evitando o tráfico de animais. 

A popularidade de animais mini, como cavalos, vacas, porcos, galinhas e cabras, abre possibilidades para novos formatos de convivência multiespécie. Com menor porte e forte apelo estético, esses animais despertam interesse porque oferecem experiências incomuns de interação e cuidado no ambiente urbano. Por serem resultado de seleção ou modificações genéticas, exigem atenção redobrada às necessidades específicas de saúde e bem-estar

As demandas ainda pouco atendidas dos tutores de animais não convencionais abrem uma nova oportunidade de mercado com potencial para desenvolvimento de produtos e serviços especializados e ainda sub-representados no setor pet.

COEXISTÊNCIA URBANA PREMIADA

A Costa Rica transformou uma das regiões mais urbanizadas do país em uma cidade biofílica premiada pela ONU-Habitat. Curridabat, cujos insetos polinizadores são considerados cidadãos, foi reformada para integrar a natureza de forma central no cotidiano dos seus habitantes. 

Chamada de “Cidade Doce”, a estratégia de planejamento urbano recebeu o investimento público de 45 milhões de dólares para a revitalização e criação de um habitat multiespécie, que fornece infraestrutura para promover a biodiversidade e permite a coexistência.

Com o objetivo de atender a esses pilares, o poder público restaurou solos e cursos d’água, ampliou a vegetação nativa e interconectou espaços verdes, que atuam como corredores ecológicos regionais para polinizadores dentro da cidade. Com planejamento e investimento, Curridabat se tornou uma cidade multiespécie inteligente e sustentável

Ao implementar princípios da ecologia profunda e simbiocracia, Curridabat está colhendo frutos tanto na qualidade de vida e de saúde mental da população quanto economicamente, atraindo turismo sustentável de nicho ao se converter em case de sucesso de cidade regenerativa.

No fim, quando encaramos a vida de todos os seres de forma integrada, a inovação passa a nascer da reciprocidade e do cuidado e não mais da lógica de exploração. As iniciativas baseadas na ecologia profunda e na filosofia de simbiocracia demonstram na prática que transformações alinhadas com a ética multiespécie são capazes de gerar valor a partir da coexistência.

 

Quiona Norberto Santos é mestre em Comunicação e Semiótica, especialista em estudos interculturais. É consultora e pesquisadora de culturas juvenis, comportamentos de consumo e tendências de futuro há mais de 15 anos e pesquisadora do estudo Futuro Multiespécie promovido pelo Atelier do Futuro.

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