Martelo tem gênero? Fundadora da Concreto Rosa, ela não aceita desaforo e trabalha para demolir o machismo no canteiro de obras

Dani Rosolen - 12 set 2022
Geisa Garibaldi, fundadora da Concreto Rosa.
Dani Rosolen - 12 set 2022
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Em um canteiro de obra ou em um projeto de reforma de um apartamento ou casa, dificilmente se vê mulheres em ação. Porém, a área de construção civil é promissora para o público feminino — e a presença delas está crescendo.

De acordo com o IBGE, a atuação de mulheres neste mercado subiu 5% de 2019 para 2020, chegando a mais de 216 300 profissionais. Geisa Garibaldi, 38, concorda: o segmento é um dos que mais oferece oportunidades, remuneração e cargos mais igualitários na comparação com os profissionais homens.

Geisa fala com a propriedade de quem coloca a mão na massa. Ela é a fundadora da Concreto Rosa, uma empresa de mulheres arquitetas, bombeiras hidráulicas, engenheiras, eletricista, pintoras, pedreiras e urbanistas responsáveis por reformas, consultorias de projetos e promoção de oficinas e cursos de capacitação.

Fundada em 2015, no Rio de Janeiro, a Concreto Rosa nasceu de um desejo de Geisa– mulher negra e lésbica envolvida desde sempre com movimentos sociais — de trazer diversidade para esse mercado.

“Entendi que não conseguiria estar em todos os lugares, abraçando todas as causas, mas vi que meu trabalho poderia ser uma forma de luta, de política e ativismo”

Além de empreendedora, Geisa é mãe solo, conselheira do instituto Mulheres do Imobiliário, palestrante, bombeira hidráulica, pedreira, eletricista, pintora e apresentadora do programa Quebra Tudo, no canal GNT, que está sendo reprisado agora.

AO CONSTRUIR O BARRACO DA FAMÍLIA, A MÃE DE GEISA SERVIU DE INSPIRAÇÃO PARA A VIDA E O NEGÓCIO

Natural de Duque de Caxias (RJ), Geisa cresceu vendo a mãe adotiva, Anita Garibaldi, construir o barraco onde a família morava.

Parte do time em um trabalho para a cantora Preta Gil.

“Meu pai faleceu quando eu tinha 3 anos e minha mãe fez tudo pela família com muita luta. Eu lembro dela construindo nosso barraquinho, primeiro aterrando o terreno todo. Depois, esse barraco gradativamente foi se transformando numa casa de alvenaria.”

Geisa, a mais nova entre os irmãos, conta que todo mundo ajudava um pouquinho. “No final do ano, minha mãe sempre juntava todas as crianças para pintar a casa com cal, deixar tudo bonito para as festas.”

Ana era empregada doméstica e, mesmo sem conhecimento técnico, sabia muito bem o que estava fazendo em suas reformas.

“Lembro de começar a entender de obra por causa dela, de ouvir minha mãe falando de sapata, de fundação. Ela sabia assentar tijolo, tinha uma sapiência, uma sagacidade que eu não sei explicar de onde vinha” 

A empreendedora levou aqueles aprendizados consigo para a vida, empreendeu em diversas áreas por necessidade, até entender que aquela habilidade da mãe tinha relação com o seu propósito.

ELA BUSCOU SE ESPECIALIZAR E CONHECER MUITO DO ASSUNTO PARA NÃO OUVIR DESAFORO DE HOMENS

Geisa já costumava colocar a mão na massa em obras e planejar reformas onde morava.  “Fazia intervenções nas quitinetes que alugava, melhorias, para que o proprietário me desse um desconto no pagamento e eu pudesse morar num lugar bonito, bem cuidado.”

Em 2012, ela recorda que ajudou a “virar uma laje” para a irmã de um amigo que ia se casar. “Sempre teve algo de obra na minha vida, mas nunca me senti segura de fazer esse trabalho para outras pessoas”, diz. E complementa:

“Como mulher, a gente fica com tanto receio que primeiro quer se especializar para só depois falar que sabe fazer…, porque se der algum problema, sabemos que vão falar: está vendo?, deu ruim porque é mulher…”

Então, ela foi em busca de um curso na área entre 2014 e 2015. Não passou de primeira, pois eram apenas 70 vagas e ela foi a inscrição de número 402. Mesmo assim, persistiu. “Todo dia eu ligava para saber se alguém tinha desistido, até que conseguiram me encaixar depois de muita insistência.”

Antes de finalizar o curso, Geisa já tinha uma reforma e uma pintura contratadas e, após ver como amigas elogiavam esse movimento, “meteu as caras”.

“Elas falavam que era disso que precisavam, que não aguentavam mais ser enroladas por macho, se sentirem lesadas, enganadas, ameaçadas e até violentadas quando tinham que fazer uma obra em casa”

Geisa conta que tinha 2 reais no bolso e a sacola de ferramentas que ganhou após acabar o curso quando decidiu, enfim, que era hora de empreender, fundando a Concreto Rosa.

MESMO ENCARANDO VÁRIOS DESAFIOS, A EMPREENDEDORA SE NEGA A ROMANTIZAR ESSAS BATALHAS

Ao começar a realizar os primeiros atendimentos, junto com uma amiga, Geisa não tinha nem sequer uma furadeira. “Depois, consegui comprar uma dessas residenciais, mas era tão ruim que não furava nem papel”, brinca.

As ferramentas foram se tornando objeto de desejo. Tudo o que ela ganhava era reinvestido nos equipamentos.

“Quando comprei meu primeiro martelete, fiz praticamente um ensaio fotográfico com ele”

Ela afirma que a maioria dos homens neste setor está anos-luz à frente das mulheres em termos de equipamentos e apoio. Isso porque conseguem credito ou empréstimo com familiares, além de terem o suporte de mulheres cuidando de tudo para que eles possam empreender.

Apesar dessas batalhas e da luta pela igualdade ser cansativa, ela afirma que desistir não está em seu vocabulário.

“Foi duro, mas não romantizo todas essas dificuldades porque começar um negócio sem capital de giro, investimento e equipamento é um grande sacrifício.”

NO B2B, A CONCRETO ROSA ATENDE DESDE GRANDES EMPRESAS ATÉ ESCOLAS PARA WORKSHOPS COM CRIANÇAS

Geisa calcula ter realizado mais de 4 mil atendimentos ao longo de sete anos, atendendo pessoas físicas e empresas com serviços de reformas, construção, instalações elétricas e hidráulicas, pintura, entre outros.

No B2B, a Concreto Rosa atua em dois pilares. O primeiro é a conscientização de empresas que precisam de mão de obra na construção civil, para que entendam que oferecer vagas às mulheres não basta: é preciso capacitá-las e preparar o ambiente para recebê-las.

“Não adianta chamar a mulher para trabalhar, colocar uma furadeira na mão dela e falar: se vira! Precisa ouvir, entender o que ela sabe, fazer com que ela se sinta acolhida, oferecer um banheiro decente, garantir que não sofra com gracinhas de colegas homens…”

Entre os nomes de clientes empresariais estão DeWalt, Fundação Dom Cabral, Obra Max – Atacado de construção, Rede Globo (Canal GNT), Tok&Stok, TENDA, Sesc, Stanley, Viapol, Women on Top e Morar Mais Por Menos.

Apesar de ter marcas fortes na carteira de clientes, Geisa diz que já enfrentou barreiras no meio corporativo.

“O concreto é rosa, mas a pele é preta. A gente se depara com várias situações de empresas que querem fazer parceria, mas não querem investir. Aí oferecem para uma mulher branca, que não tem nem tantos seguidores quanto a gente, 20 mil reais para que pinte a própria parede…”

O segundo pilar B2B é a oferta de workshops, de pintura a reparos residenciais. Um deles, que ficou na memória, ocorreu em fevereiro de 2020, em uma escola do Rio de Janeiro que, coincidentemente, tem o mesmo nome da mãe de Geisa, Anita Garibaldi.

“A professora ligou querendo saber quanto era para fazermos uma aula com as crianças. Foi um dos workshops que eu achei mais difícil de fazer, mas um dos mais bonitos”, diz.

Ela afirma que as meninas ficaram super interessadas, perguntando sobre os equipamentos. Os meninos, por sua vez, já sabiam para o que servia cada ferramenta, mas não conheciam o nome técnico.

“A professora falou que geralmente quando os pais estão fazendo alguma obra, eles explicam para os meninos como as coisas funcionam; já para as meninas, não há paciência…”

MARTELO TEM GÊNERO? OU: COMO QUEBRAR O MACHISMO E DEMAIS PRECONCEITOS ENFRENTADOS NO DIA A DIA  

A fundadora afirma que, no geral, quem busca os serviços da Concreto Rosa tem curiosidade em ver as mulheres em ação. “Parece até um evento!.”

O preconceito com o time de mulheres, segundo ela, vem geralmente das pessoas no local onde a empresa adquire materiais.

“Uma vez, um vendedor disse que o martelo que eu queria comprar era para homem. Aí eu só falei: ‘Não sabia que martelo tinha gênero’. E ele tentou se justificar dizendo que a ferramenta era muito pesado e por isso disse aquilo…”

Geisa também aponta dificuldades com motoristas de aplicativo que alegam que o material de trabalho vai sujar o carro ou com porteiros nos prédios onde a empresa já atendeu.

“Às vezes, eu não sei se o cara está sendo machista, racista ou lesbofóbico, porque eu estou em várias pautas… Teve um dia que cheguei num prédio de uma cliente, falei o nome, o apartamento e o bloco e o porteiro perguntou o que eu ia fazer lá. Como se ele precisasse saber…”

Apesar de passar raiva de vez em quando, Geisa não deixa a peteca, ou melhor, o martelo cair. E faz questão de trazer homens para junto do time. Hoje, a Concreto Rosa conta com dez pessoas na equipe — quatro são homens –, mais freelancers contratados por projeto.

“A gente não tem como desconstruir padrões da sociedade sem ter os homens do lado. Quero construir com caras que entendam que vai ter sim uma mulher lésbica trabalhando na equipe e que ela será respeitada. Acredito nesta micropolítica de que, quando temos aliados na nossa causa, conseguimos mudar a realidade, mesmo que a conta-gotas.”

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  • Projeto: Concreto Rosa
  • O que faz: Projetos de reformas ou construção em geral com mão de obra feminina
  • Sócio(s): Geisa Garibaldi
  • Funcionários: 10
  • Sede: Rio de Janeiro
  • Início das atividades: 2015
  • Faturamento: R$ 250 mil (previsão para 2022)
  • Contato: [email protected]
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