Mulher na oficina não combina? Ela encarou o machismo e criou a Escola do Mecânico, que já formou milhares de profissionais

Dani Rosolen - 10 jan 2022
Sandra Nalli, fundadora da Escola do Mecânico.
Dani Rosolen - 10 jan 2022
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Há dez anos, a Escola do Mecânico abria as portas em Campinas (SP), com o objetivo de formar profissionais para atuar na área de reparação automotiva.

Se hoje este segmento ainda é predominantemente masculino, lá atrás, foi ainda mais complicado para Sandra Nalli construir uma carreira neste setor e, depois, montar seu próprio negócio.

 “O preconceito é 100% pelo fato de eu ser mulher, loirinha e baixinha”

Ela fala brincando, mas o machismo é real. Apesar das barreiras, Sandra não desistiu e achou inclusive formas de inserir mais mulheres no ramo.

Atualmente, o negócio conta com 37 unidades, dez próprias e 27 franquias, espalhadas por nove estados (Bahia, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo).

A escola oferece capacitação para atuar na linha leve (veículos de passeio), motocicletas e linha pesada (empilhadeira e diesel), além de cursos de tecnologia para carros híbridos, elétricos, injeção eletrônica e tecnologia avançada.

Sandra ainda criou um aplicativo para ajudar a conectar seus alunos a empresas interessadas em contratar esse tipo de mão de obra.

O impacto social trazido pela empresa na geração de emprego e de renda fez com que recentemente ela chamasse atenção da Yunus, que aportou 1 milhão de reais na edtech.

A empreendedora não abre o faturamento, mas a meta é fechar 2021 com um crescimento de 55% em relação ao ano anterior.

ELA QUERIA PÔR A MÃO NA GRAXA, MAS ESBARROU NO PRECONCEITO

Sandra conta que sempre foi apaixonada por carros. Começou a dirigir o fusca vermelho do pai aos 14 anos. Nesta época, entrou como menor aprendiz no grupo Dpaschoal, em Mogi Mirim (SP), sua cidade natal. Foram 20 anos na empresa. De aprendiz, ela passou por várias outras áreas, como administrativo e vendas. Mas seu sonho era outro:

“Eu terminava rapidinho o que precisava fazer para poder ficar na oficina, no meio dos pneus e da graxa. Tinha um fascínio por isso”

Era no meio de parafusos, torquímetros, macacos e outros equipamentos e ferramentas que Sandra se sentia em casa. Mas quando ela pediu uma oportunidade para atuar no pátio, a resposta foi negativa. Até que o empregador resolveu ceder.

“Na época, eu tinha 23 anos e não existia nenhuma mulher na rede trabalhando na oficina. Lembro que quando eu entrei na sala de treinamento, o instrutor falou que eu estava no lugar errado, que a sala do curso de treinamento administrativo era outra…”

Depois de realizar o sonho de estar na oficina, Sandra estudou bastante para evitar esse tipo de preconceito velado (e os casos não tão velados assim…) e se tornou líder de serviço, uma espécie de chefe de oficina.

“Quando comecei a atuar, sofri bastante restrição dos próprios clientes. Eles perguntavam se era eu quem ia cuidar do carro, se tinha habilitação, essas coisas”, diz. “Para contornar a situação, eu levava um mecânico junto comigo no atendimento, mas era eu que dava o diagnóstico e isso acabava gerando credibilidade.”

DA DIFICULDADE DE ENCONTRAR MECÂNICOS E DO TRABALHO COMO VOLUNTÁRIA NASCEU A IDEIA DO NEGÓCIO

Sandra acabou se tornou gerente de lojas em Campinas, onde passou a viver. Neste cargo, sentiu dificuldade de recrutar mecânicos para trabalhar na Dpaschoal.

Na época, ela atuava como voluntária na Fundação Casa, ministrando palestras motivacionais para os internos. E notou que os meninos poderiam ser reinseridos no mercado de trabalho aprendendo a fazer reparação automotiva.

Começou então a dar aulas básicas de mecânica em suas visitas voluntárias. Mas sabia que só assim não resolveria o problema da falta de mão de obra neste ramo.

Então, vendeu seu carro e com os 20 mil reais recebidos, mais 10 mil emprestados do pai, decidiu criar uma escola em uma salinha alugada no centro da cidade, onde oferecia um curso básico de mecânica. Assim, gerava empregos e renda para pessoas com poucas oportunidades.

“Para a minha surpresa, apareceram pessoas interessadas em comprar o curso. Então, resolvi fazer uma capacitação em negócios no Sebrae e em março de 2011 abri meu CNPJ”

Após a abertura da empresa, ela levou o projeto de dentro da Fundação Casa para a escola e, com a ajuda de uma assistente social, passou a selecionar internos em liberdade assistida ou prestes a ser libertos para realizar o treinamento em turmas de 15 alunos.

Hoje, por meio de uma parceria com a ONG SETA, a empreendedora continua atendendo alunos bolsistas em situação de risco, principalmente os que estão em liberdade assistida.

COMO ESCALAR A IDEIA. OU: DE UMA SALINHA PARA UMA FRANQUIA DE ESCOLAS

Em 2014, Sandra achou que ter uma única escola em Campinas era pouco. “Muitas oficinas começaram a me ligar pedindo profissionais e cursos nas cidades onde operavam. Aí, eu contratei uma consultoria [a Quintessa] e vimos que a melhor forma de escalar era o modelo de franquia”, afirma.

Durante o ano seguinte, ela se dedicou a estudar o modelo de franchising e, em 2016, abriu a primeira escola franqueada. Depois, vieram as outras unidades pelo Brasil.

O modelo de negócio da empresa na operação de franquias funciona com a cobrança de 7% de royalties sobre o faturamento de cada unidade. Mas a Escola do Mecânico também lucra com a mensalidade dos cursos oferecidos no B2C e no B2B.

“Para os alunos, pessoas da classe C, D e E, são oferecidos 16 módulos presenciais e práticos, cada um com duração de seis meses”, conta Sandra. Os cursos custam de 180 a 300 reais. E em parceria com a fintech Elev, a Escola do Mecânico consegue oferecer o parcelamento do curso em até 24 vezes.

Além do treinamento técnico, a escola conta com outros dois módulos complementares, um comportamental, para ajudar o aluno a entrar no mercado, e outro ambiental, sobre a destinação correta de óleo e peças.

Já no B2B, o negócio oferece consultorias para empresas do setor. A Escola do Mecânico faz um diagnóstico do gap de conhecimento da equipe e realiza capacitações customizadas para o time, tendo atendido clientes como Campneus, redes Ipiranga, Michelin e Sópneus.

NÃO BASTA FORMAR NOVOS PROFISSIONAIS. É PRECISO EMPREGÁ-LOS

A Escola do Mecânico já formou 38 mil pessoas em dez anos de atuação. Sandra, porém, diz que seu papel não estaria cumprido apenas com a oferta de profissionalização.

“Lá em 2014, quando eu ainda dava aula, senti a necessidade de ajudar esses alunos. Eu entrava na internet e ligava para as oficinas oferecendo meus alunos como auxiliares”

Até que em 2018, Sandra transformou esse trabalho de formiguinha em um aplicativo, o Emprega Mecânico, que conecta seus alunos a empresas contratantes — tudo gratuitamente para as duas partes.

“Somos uma empresa de impacto social. Vender curso qualquer um vende. Mas se preocupar com o sucesso do cliente — no caso, nosso aluno — é diferente. Isso ajuda as pessoas a mudarem de vida”

Ela conta que já ajudou a empregar 4 mil pessoas. Só nos últimos dois anos, mais de 500 alunos conseguiram emprego com o empurrãozinho do app, que viu o número de vagas disponíveis crescer 56% neste ano.

O salário de um auxiliar de mecânico, diz Sandra, não costuma passar de 1 800 reais. Já um mecânico mais experiente, com especialização, chega a faturar até 5 mil reais na linha leve.

O IMPACTO SOCIAL ESTÁ NA HISTÓRIA DE CADA ALUNO

Não faltam histórias emocionantes de alunos da Escola do Mecânico. Sandra cita o exemplo de Gabriel, para quem deu aulas na Fundação Casa.

“Na época, ele era escoltado até a escola e a mãe vinha acompanhar só para poder vê-lo de longe. Depois que foi liberto, veio fazer um curso de novo, pagando”, lembra. “Teve também o caso de um aluno que vendia balas nos semáforo para pagar o curso, juntando um saco de moedas… Quando descobrimos, demos uma bolsa para ele e devolvemos as moedas para ele poder comprar algo para a família.”

A Escola do Mecânico também gera impacto no combate ao machismo. Sandra conta que vem ajudando a inserir mais mulheres neste setor.

“No começo, não tínhamos nenhuma aluna matriculada. Em 2016, eram 100 alunos para uma menina. Hoje elas são cerca de 20% dos matriculados”

Para estimular a presença de mais alunas, ela definiu que cada escola tem que ter pelo menos uma mulher no atendimento ou como gestora. “Também temos como meta desenvolver e contratar mais instrutoras”. Hoje, são 460 instrutores, sendo 10% mulheres.

AGORA ELA QUER CRIAR UM “LINKEDIN” SÓ PARA MECÂNICOS

Para os próximos anos, a empreendedora planeja aumentar a capilaridade da Escola do Mecânico, levando a sua marca a mais cidades e estados.

Outro plano é dar um gás na Escola do Funileiro, uma spin-off criada há um ano e meio, com foco em cursos de funilaria, pintura e perito automotivo, que já formou 1 500 alunos. Atualmente, há apenas uma unidade do negócio na Zona Norte de São Paulo.

E, como o foco em geração de empregos não sai do seu radar, Sandra sonha em transformar o Emprega Mecânico em uma plataforma que facilite ainda mais a conexão entre profissionais e empresas:

“Hoje nenhum mecânico, funileiro, pintor, que são profissionais escassos no mercado, está no LinkedIn. Minha meta, com a ajuda dos recursos do Yunus, é deixar o aplicativo ainda mais adaptado às necessidades do contratante e do profissional, funcionando como uma espécie de LinkedIn do ofício.”

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DRAFT CARD

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  • Projeto: Escola do Mecânico
  • O que faz: Vende cursos de reparação automotiva
  • Sócio(s): Sandra Nalli
  • Funcionários: 460 colaboradores, somando todas as unidades
  • Sede: Campinas (SP)
  • Início das atividades: 2011
  • Investimento inicial: R$ 30 mil
  • Faturamento: Não informado
  • Contato: [email protected]
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