“Na terra da garoa aprendi a transbordar. São Paulo, saio de ti, mas tu nunca sairás de mim”

Andréa Fortes - 18 fev 2022
Andréa Fortes, cofundadora da Sarau.
Andréa Fortes - 18 fev 2022
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Quando eu era pequena, uma “guriazinha” lá de Cachoeira (interior do Rio Grande do Sul), São Paulo era território distante, coisa que a gente via na televisão.

Sou de uma geração em que viajar não era algo assim tão fácil e mesmo quem tinha algum ou muito dinheiro aventurava-se para lugares mais “cercanos”. Nossas férias, por exemplo, eram no Cassino, a praia mais larga do mundo, bem ao sul.

Empreendi cedo e nunca tive chefe. Já contei destas andanças num dos textos aqui no Draft. Fiz minha primeira América na vida em Porto Alegre, aos 17, para estudar e “virar alguém”, um passo e tanto para uma pessoa de uma cidade pequena/média.

Tenho um sócio há 23 anos e, desde sempre, tive/tivemos clientes com escritórios em Sampa. Íamos pontualmente visitá-los ou participar de feiras.

Aquela metrópole gigante era um ente desconhecido e eu a desbravava aos pedacinhos, curiosa e, confesso, um pouco aflita.

COM FRIO NA BARRIGA, ACEITEI O CONVITE-PROVOCAÇÃO DE VIVER E EMPREENDER EM SÃO PAULO

Certo dia, incentivada por um cliente destes que viram amigos e mentores (muitos viram), chegamos a um homem grande e generoso da capital, que, tempos depois, nos desafiou.

O queridíssimo José Carlos Teixeira Moreira, visionário que ele só, fez a pergunta que nos saracoteou: “Por que vocês não vêm empreender em São Paulo? As coisas acontecem aqui!”

Eu estava num momento especialmente desafiador na minha vida pessoal e vi com bons olhos (e um baita frio na barriga) aquele convite/convocação

Meu sócio, tão inquieto e desbravador quanto eu, também sentiu-se chamado e desenhamos um jeito de viabilizar este novo capítulo da nossa história.

Foi aí que nasceu a nossa Sarau (tem texto no Draft também sobre esta empreitada), em meados de 2007.

Nossa nova empresa veio ao mundo com jeito de startup (a gente não usava este nome na época) e ares de descobrimento.

Mantivemos a que tínhamos na capital gaúcha, para subsidiar o sonho, e fui, sozinha, de mala e cuia fazer uma América mais robusta.

Nos primeiros anos, tive duas casas (a de POA e um flat com cara de lar, em frente à Sarau).

Demorei para aceitar São Paulo. Dizem que ela é assim: você “odeia” no começo e acaba se apaixonando no “fim”. (a estas alturas do texto, já usei até um você).

DE CAFÉ EM CAFÉ, FUI CONQUISTANDO AMIGOS E CLIENTES, CONSTRUINDO UMA REDE DE APOIO E NOVOS PROJETOS

O ano 2007 foi também de uma grande crise mundial e os clientes que abundariam não chegaram. Incorporei rapidamente, mais por necessidade que por convicção, a coisa de tomar café com as pessoas. Em Sampa tudo acontece nos cafés, restaurantes.

Precisava conhecer gente, entender a cidade (isto incluiu estudar o mapa) e sua linguagem. Montamos escritório na Vila Olímpia, uma nova Av. Paulista que despontava, e lá eu vi a coisa toda acontecer.

De café em café, fiz rede, prosas, encontros, participei de eventos gigantes e amadureci como profissional. Eu usufrui dos teatros, fui em alguns bons shows (menos do que gostaria — São Paulo nunca nos sacia) e entendi como funciona este tal high business estonteante.

Já convivia com muitos homens do mundo corporativo no RS e me vi, mais uma vez, como, senão a única, uma das poucas mulheres em meio a muitos poderosos.

Botava a “fantasia” corporativa, scarpins altos e o meu sorriso largo da menina de Cachoeira (com batom vermelho) para desarmar alguns ambientes excessivamente gélidos e formais. Sempre fui respeitada e escutada mas, claro, saía exausta de alguns ambientes

Levei meu carro, descobri as ruas, o rodízio, o GPS e o fervor de dirigir num lugar que não dá arrego para quem chega com corpo mole.

Por outro lado, São Paulo, assim como o Brasil, é uma grande e generosa terra acolhedora, um verdadeiro lugar de misturas de sotaques e temperos.

Mineiros, nordestinos, gaúchos e gringos convivem num anonimato delicioso por suas avenidas apressadas. Ainda assim, com tanta velocidade, consegui conviver com um tanto de gente. Colocava bilhetes e mimos nas portas dos vizinhos e eles, com estranhamento e curiosidade, foram chegando.

Mudei, de casa, de vida, de estado civil. Vendi meu carro (e botei o escritório na frente de casa), larguei algumas crenças, engravidei, pari, me separei, me despetalei (falo sobre isso no podcast do Draft).

Desenhei as primeiras “Costuras”, encontros inusitados de uma Andréa menos business e mais autoral, já no nosso escritório com cara de casa, em Pinheiros.

Levei um tanto de gente pra tomar café na minha “casa” com paredes de poesia e fiz bolo quente para alimentá-los. Lancei meu livro num dos lugares mais cools da cidade, a convite do curador de conteúdo daquele espaço mágico que eu tanto admirava.

A PANDEMIA ME LEVOU A REFLETIR E ENTENDER QUE ERA O MOMENTO DE DIZER ADEUS A SAMPA

Estava “nadando de braçada” e reencontrando meus pedaços quando veio uma tal pandemia e fechou tudo.

Eu, super do “touch”, acostumada com aquele externo efervescente da cidade, fui pra caverna com a minha filha.

Segurei o que deu a sede da Sarau e tive que tomar a difícil decisão de fechar. A minha fiel escudeira em casa voltou para o nordeste, assustada, e precisei me reinventar no online, sozinha, fazendo reuniões, palestras, “costuras” enquanto fritava bife, acompanhava a escola da criança à distância e a botava para dormir

A Andréa de Cachoeira, prendada, voltou a ter protagonismo. E coexistiu junto com a empreendedora que já tinha, nos poros, o caminho da reinvenção.

Foi deste lugar, de alguém com ancestrais que desbravaram o oceano no século XVIII, que criei coragem para dizer adeus a Sampa e abrir espaço para uma nova vida, agora em Floripa.

Eu, que fui criada numa fazenda, entendi o quanto precisava dar também novos ares e espaços para minha filha.

PARA ESTA NOVA FASE, ESCOLHI UM “CAMINHO DO MEIO” ENTRE SÃO PAULO E O RIO GRANDE DO SUL ONDE NASCI

Em São Paulo, eu transbordei. Na Ilha da Magia, quero desabrochar.

Interessante que escolhi um caminho do meio entre o RS e SP para esta nova etapa (estou resumindo muito o tamanho desta decisão, ok?).

Foram 14 anos de Porto (como chamamos carinhosamente a capital gaúcha) e, igualmente, dois setênios da terra da garoa.

Honro e me sinto muito parte da Pauliceia, tanto que tive uma filha nas bandas de lá. Carolina fala “mó legal”, mas também carrega nuns “bah” de vez em quando

Assim como nunca tinha pensado em ir para São Paulo, o “sair” de lá foi um embarcar em oportunidades que vida me apresentou, inesperado, de novo.

Morava num prédio de nome “Mansão” e escolhi, “ao acaso”, uma rua de nome “Catavento” para meu novo habitar.

São Paulo, das tempestades de janeiro, do asfalto quente e motoboys esvoaçantes, da buzina e do moço da pamonha, dos eventos, da cultura, das etnias, sabores e novos saberes, terra de empreendedores, exploradores, dos leds e rios serpenteantes, das Marginais, pontes e rooftops, dos brunchs intermináveis aos domingos, dos novos (agora velhos) amigos, dos cursos, workshops e palestras internacionais, dos monumentos de pedra e um Ibirapuera que é puro respiro, saio de ti, mas, acredite, tu nunca sairás de mim.

Cheguei com 30, saio aos 45. Levo muito mais que anos na bagagem. Volto sempre, te prometo.

 

Andréa Fortes, 45, é sócia-fundadora da Sarau Filosofia Empresarial. Hoje se enxerga mais uma “costureira de relações”. Mas podem chamar também de mãe da Carolina.

 

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