Navegando pela desigualdade brasileira: a minha história

Adriano Silva - 24 jul 2020
Foto: Pixabay.
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Nasci e cresci na baixa classe média. Meus pais eram filhos de camponeses. Minha mãe estudou — seus pais tiveram esse lampejo, vieram para a cidade nos anos 50, para colocar os filhos na escola. Isso foi determinante na vida dela. E na minha também. Meu pai só conseguiu terminar os estudos já adulto. Seus pais nunca saíram do campo. Isso também foi determinante na vida dele e na minha.

A ética do trabalho sempre esteve muito presente em minha família. A lógica era crescer pelo próprio esforço, avançar na vida com o suor da própria testa. Era preciso plantar para colher. Fosse na lavoura, na marcenaria ou no escritório. Acordar cedo. Batalhar. Isso está impregnado em mim, até hoje. A minha melhor herança. Dar o sangue para construir alguma coisa. Um modus operandi austero, que aprendi.

Tenho tentado ser mais hedonista, relaxar um pouco, aprender a curtir também. Admitir, nem que seja por cinco minutos, o conceito de dolce far niente em minha vida. Mas a verdade é que meu sistema operacional é CDF. Tenho grande dificuldade de viver sem a sensação de estar sendo produtivo, ou de ter um propósito econômico claro.

DE GAROTO MEIO POBRE A PLAYBOY, A DEPENDER DO PONTO DE VISTA

Navegar pela desigualdade brasileira não é simples. E mexe com a cabeça da gente. Na infância, na escola particular que meus pais se esforçavam para pagar, eu convivia, um tanto deslocado, com os filhos da elite da cidade. Aquelas famílias davam nome a ruas, escolas municipais e empresas da cidade. Eles não raro se frequentavam, numa realidade que não era a minha.

Onde eu morava, tinha vizinhos que iam ao clube brincar na piscina, nas tardes escaldantes de verão, e viajavam aos fins de semana e nas férias, e tinham carros melhores (um Opala, uma Belina, um Aero-Willys), e casas maiores e mais bem mobiliadas, com TV em cores e geladeiras mais cheias. (Numa delas, vi pela primeira vez queijo e presunto fatiados.)

Em casa, nós comíamos pão d’água com margarina. (Uma delícia com café preto.) No meu prédio havia alguns fuscas. E um TL. E eu também tinha amigos que moravam pior, e se vestiam pior, e comiam pior do que eu

Mais tarde, na adolescência, na escola estadual (que naquela época, miolo dos anos 80, era considerada uma das melhores da cidade), eu participava da turma dos bacanas, que também tinham vindo de escolas particulares – me imiscuía ali, entre os garotos que tinham moto, os meninos e meninas que já começavam a dirigir o carro da família, e que usavam roupas e tênis com as grifes da época (de surfwear). Eu não tinha muito acesso a essas coisas, mas dava o meu jeito de me misturar. Essa era a turma do recreio, dos fins de semana e das festas.

E tinha também os amigos da sala de aula. Ainda mais proletários do que eu. Gente que provavelmente não faria faculdade. Aqueles garotos e garotas que usavam sempre a mesma roupa escura terminariam o ensino médio e começariam a trabalhar em empregos de nível técnico, no pequeno comércio, com teto relativamente baixo. Casariam e teriam filhos cedo, nos mesmos bairros proletários em que tinham nascido. Patronato, Boi-Morto, Nonoai. Para eles, o abonado era eu.

Quando visitava meus avós, nas férias, no arrabalde de uma pequena cidade do interior, onde o limite urbano dava lugar ao campo, eu também era visto como alguém da elite. Eu vinha de uma cidade maior e estudava. Meus pais não eram trabalhadores braçais. Então, para eles, eu era de outra espécie. Havia naqueles olhares, ainda marcados pela lógica rural, doses similares de admiração e de incômodo.

De um lado, ficava claro que eu corria numa pista que em seguida me permitiria alçar voos aos quais eles não tinham acesso. Eles caminhavam por outra trilha, próxima da baixa instrução, do trabalho manual, do fogão à lenha, da água de poço, do banheiro precário

De outro lado, minha dedicação aos estudos, e a própria lógica do trabalho intelectual, à qual eu me inseria, eram tidos como algo menor. Ao menos em termos morais. Uma vez um primo distante, mais ou menos da minha idade, apareceu na casa de minha avó. Eu provavelmente estava assistindo a um filme do Jerry Lewis na Sessão da Tarde ou lendo um gibi na sala.

Eu era muito magro. E ele já tinha músculos bem definidos, provavelmente à mercê do trabalho pesado na construção ou na agricultura. Na mão, eu só tinha o calo da caneta no dedo médio. Ele já tinha uma mão angulosa.

Eu lhe cumprimentei e lhe pedi, buscando uma camaradagem, que me dissesse o que eu podia fazer para ganhar corpo. E ele me respondeu: “Isso aqui é de ficar sentado em casa o dia todo assistindo televisão”.

Eu me equilibrava entre esses papéis de garoto meio pobre, nadando contra as forças da exclusão, na periferia do mundo, e de teen referencial, que repetia as gírias certas, conectado com o que acontecia na metrópole

Frequentava a turma dourada, em que tinha de inventar algumas meias-verdades e omitir um par de coisas a meu próprio respeito, para não dar na vista que de fato eu não pertencia àquele grupo. E era, ao mesmo tempo, junto às pessoas de poder aquisitivo mais parecido com o meu, considerado playboy – o ou netinho da vovó, menino lido e estudado da cidade grande que não pegava no pesado.

QUANDO O SENTIMENTO DE NÃO PERTENCER APERTA

Na Universidade, já entrando na vida adulta, essa dicotomia de viver culturalmente na classe A e economicamente na classe C ainda me incomodava. Talvez tenha perdido algumas paqueras por não ter um carro. (Talvez esse tipo de menina não valesse a pena, mas quem controla o desejo da gente?)

E é provável que a maior parte do problema não estivesse nos outros, mas em mim, no meu próprio desassossego diante da minha situação

Talvez eu não me sentisse à altura das turmas de que queria participar, e me alienasse voluntariamente desse convívio. (Ou desejasse tanto ser aceito que, afobado, acabava afastando justamente as pessoas de quem eu queria me aproximar.)

Ia e voltava de ônibus às festas para as quais era convidado. E, na alta madrugada, contava com a carona benevolente de alguns bons companheiros. Às vezes eu mesmo declinava de ir encontrar amigos num bar ou restaurante porque não tinha dinheiro para rachar a conta. (Foi o período mais duro, em termos financeiros, para a minha família.)

Eu sentia vergonha da minha condição. Esse é um dos fios condutores da minha infância e adolescência

Foram anos vivendo um pouquinho abaixo de uma linha imaginária de dignidade – que podemos chamar de “vida de classe média” – que me permitiria não me sentir tão desguarnecido em relação aos demais.

Tudo isso vai construindo a imagem, nos outros, mas principalmente dentro de você mesmo, de que você não é da turma. As diferenças vão se estabelecendo e as distâncias vão sendo cimentadas. Em nossa sociedade de castas, era – e, creio, ainda é – assim que funciona. A sua patota não é definida por quem você é, mas pelo que você tem. Ou pelo menos era assim que eu sentia.

COMPLEXO BRASILEIRO: VERGONHA POR TER E POR NÃO TER BOAS CONDIÇÕES

Aí veio o primeiro emprego. Vida adulta. Nessa fase, não importa ainda o quanto você ganha – o corte era entre quem tinha ou não um emprego. Entre quem já estava morando sozinho e quem ainda morava com os pais. E eu saí na frente.

Depois, fui estudar fora. Já não dependia dos meus pais. Ganhei uma bolsa e fui fazer um mestrado do outro lado do mundo. Eu começava a ocupar na vida, com aquela experiência internacional, o espaço que buscava para mim. Inclusive na forma como os outros me viam.

Se fosse para ser mantido à distância, que fosse como desagravo pelo que eu tinha conquistado, como o reverso de uma admiração; não como discriminação, ou desprezo, pelo que eu não tinha. (Que bobagem enorme.)

Na volta ao Brasil, aos 20 e tantos, tive minha primeira carreira: dez anos como executivo na indústria da Comunicação. Como yuppie paulistano, num casal sem filhos, curtindo a vida de classe média alta em São Paulo. Comprei casa, carro, frequentei bons restaurantes. Depois, tive filhos, construí o ninho, comecei a me preocupar em gerar um patrimônio.

Cheguei ao fim desse ciclo corporativo, aos 30 e tantos anos, buscando equilibrar o desejo de grandeza artística, de realização e de reconhecimento, com a ansiedade de garantir a sobrevivência, de não deixar faltar nada a nenhum dos meus em termos materiais.

Depois, veio a segunda carreira: o voo empreendedor, que já está em seu décimo-segundo ano. A doída troca de pele, e de DNA, da carreira executiva em grandes empresas para a vida à frente de um pequeno negócio criativo. A alegria de ver sua iniciativa encontrar um lugar no mundo. No cartel, duas empreitadas que deram certo.

Hoje, à beira dos 50, gostaria que meu sentimento fosse de realização. Como se já não fizesse muita diferença o que vão pensar ou dizer. Como se eu já tivesse me provado – para os outros, e principalmente para mim mesmo. Como se eu finalmente começasse a perceber – e a admitir – que não devo nada a ninguém. Especialmente ao meu mais ferrenho cobrador: eu mesmo

Gostaria que fosse ficando mais claro que o aplauso também é uma meta vã. E que envelhecer me permitisse achar graça da relativa insignificância das conquistas pelas quais me esfalfei. Afinal, não vou levar a lugar algum nada do que consegui acumular. E ninguém vai lembrar por mais de alguns segundos dos louros que porventura logrei colocar sobre a testa.

No fundo, acho que é só isso o que importa: a sua capacidade de se sentir bem com quem você é, com aquilo que você faz, com o que você tem. A sua habilidade para se assumir do jeito que você é, diante dos outros e de si mesmo, e ser feliz com isso.

No entanto, sinto que o desejo de admiração continua presente. Que a autocobrança continua tesa. Que os momentos de angústia existencial continuam frequentes. (Quem disse que é fácil viver?)

Quanto àquele antigo embaraço de pobretão, pelas coisas que eu não tinha e que me diferenciavam dos outros, que pareciam tê-las, ele parece hoje ter se transformado no constrangimento de quem conseguiu gerar condições que o distinguem dos demais, que não as têm.

No Brasil, é um pouco assim: você se envergonha por não ter. E você se envergonha por ter também. Ao menos é um pouco assim comigo.

Essas coisas são todas muito esquisitas. E eu nem sei se entendo bem tudo isso que acontece comigo, e dentro de mim. Mas decidi compartilhar com você mesmo assim. Porque me faz bem refletir a respeito. E porque talvez essa reflexão possa lhe ser de alguma forma útil também.

 

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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