O Brasil passa fome enquanto toneladas de comida vão para o lixo. A b4waste quer mudar isso com uma solução que atende todo mundo

Dani Rosolen - 17 out 2022
Luciano Kleiman (à esq.) e Daniel Neuman, os empreendedores da b4waste.
Dani Rosolen - 17 out 2022
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Entre coxinhas e refrigerantes de uma festinha infantil, no começo de 2020 (pré-pandemia), enquanto aguardavam os filhos curtirem o evento, Luciano Kleiman e Daniel Neuman tiveram uma conversa sobre desperdício de alimentos. Talvez não haja lugar mais propício para falar de desperdício do que numa festa, certo?

Mas na verdade eles estavam discutindo sobre o que acontece com empresas que jogam no lixo produtos em bom estado por estarem próximos ao vencimento. Esse tipo de descarte e outros processos mal geridos fazem com que 34% da produção mundial de alimentos seja desperdiçada ao ano. No Brasil, isso representa 27 milhões de toneladas.

Não é só a questão social que incomoda num país que passa fome. O custo ambiental do desperdício também é grande. De acordo com o estudo Closing the Food Waste Gap, da Boston Group Consulting, 11% dos gases de efeito estufa são derivados do desperdício de alimentos. Para entender melhor: cada três refeições desperdiçadas equivalem à mesma quantidade de emissão de CO2 de um carro em movimento por 24 horas, uma camiseta de algodão produzida ou 48 quilômetros de voo de um avião.

Daquele papo informal entre a dupla e todas as consequências do desperdício (estudadas depois a fundo) nasceu a ideia da b4waste, um marketplace que conecta estabelecimentos, em especial supermercados, com perdas por vencimento ou maturação (quando a validade ainda não expirou, mas o produto está meio “passadinho”), a pessoas e empresas interessadas em comprar esses itens pela metade do preço — ou até menos.

Segundo Luciano:

“No Brasil, há um desperdício anual de pelo menos 4 bilhões de dólares por vencimento e maturação. A cada venda que a gente realiza e salva um produto de ir pro lixo, não geramos benefício apenas para nossa empresa, mas para o planeta, para quem vende e para quem compra. Não tem greenwashing aqui”

Em operação desde março de 2021 em São Paulo, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a foodtech já ajudou a salvar mais de 400 toneladas de alimentos, evitando a emissão de mais de 18 toneladas de metano.

Por sua proposta, a b4waste fez parte de uma lista de 20 startups brasileiras selecionadas pelo IdeiaGov (iniciativa do governo paulista) e Connected Places Catapult (do Reino Unido) para apresentarem seus negócios na COP26, em novembro de 2021, em Glasgow, na Escócia.

UM DOS SÓCIOS JÁ ERA EMPREENDEDOR, O OUTRO TINHA EXPERIÊNCIA COM REDES DE SUPERMERCADO

Formado em administração, Luciano passou por empresas como Adidas, Birkenstock (marca alemã de sandálias) e Grand Cru Vinhos, da qual foi CEO.

Em março de 2020, foi chamado para uma experiência diferente: atuar no varejo alimentício como conselheiro do Giga Atacado e COO do supermercado Mambo. Como a b4waste ainda estava em desenvolvimento, Luciano topou o desafio, pensando também que isso ajudaria com o novo empreendimento.

“Fiquei um ano no Giga e dois anos tocando a operação do Mambo e, em paralelo, acompanhando a b4waste. Até que chegou um momento em que entendi que deveria me dedicar só à startup e pulei para dentro, para me dedicar exclusivamente ao negócio a partir de fevereiro deste ano”

Daniel, por outro lado, já tinha empreendido, pois vem de uma família dona de joalheria. Depois, teve oito lojas da rede The Gourmet Tea, até 2017. “O Daniel experimentou na pele a dor de perder alimentos, pois começou com uma marca de chás importados, mas foi derivando para restaurantes e percebendo esse problema do desperdício”, diz Luciano.

Inicialmente, a sociedade da foodtech incluía o empreendedor Hyung Jun Kim (ex-Grand-Cru e Rocket Internet), que ficou no time de cofundadores até setembro deste ano e hoje atua como advisor da b4waste.

Como Luciano já tinha contatos com o Mambo, a rede supermercados (com nove lojas na capital paulista) acabou sendo o primeiro cliente da b4waste assim que a plataforma ficou pronta, depois do investimento de 600 mil reais.

“Somos uma plataforma flexível para qualquer tipo de perda. Nossos objetivo é combater desperdício. A gente vai buscar uma forma de auxiliar a encontrar alguém que se interesse por produtos que ninguém queria antes”

Hoje, são mais de 100 estabelecimentos, entre eles DIA, Natural da Terra, Mundo Verde e Lopes. Também há outras empresas que fogem do perfil de supermercado ou hortifrúti, como padarias, restaurantes, a rede Ofner, petshops e até unidades da marca de cosméticos L’Occitane.

COMO TRANSFORMAR “LIXO” EM RECEITA ADICIONAL

A perda média dos supermercados brasileiros com vencimento e maturação, diz Luciano, é de 2% do faturamento de cada negócio. Por outro lado, o lucro líquido fica muito perto desse mesmo percentual.

A solução da b4waste permite que as empresas criem, dentro do aplicativo da startup, lojas virtuais para oferecer esses produtos que seriam descartados.

“Na prática, a gente transforma ‘lixo’ em receita adicional, sem risco e sem qualquer tipo de investimento para o varejista”

“Lixo”, aqui, precisa vir entre aspas. No caso, Luciano fala de alimentos que na prática ainda são bons para consumo, e poderiam estar no prato de mais de 60 milhões de pessoas em insegurança alimentar no Brasil. “Você já viu as caçambas de supermercado com produtos que são descartados por estarem próximos à data de validade ou maturação? É algo desolador…”

Segundo o empreendedor, a ferramenta da b4waste permite que, em apenas quatro meses, os estabelecimentos reduzam suas perdas pela metade:

“Quem vende vai escolher o que quer disponibilizar no nosso marketplace, qual a data de validade, o preço, quais opções de logística: delivery ou retirada na loja… e nós saímos em busca dos compradores desses itens”

Embora a b4waste atue com outros estabelecimentos, a operação é focada nos supermercados por ser onde há maior desperdício e também para atender melhor os usuários. “Não é sempre que uma padaria vai ter um produto próximo ao vencimento ou quando tiver vão ser dois ou três, mas num supermercado tem muita coisa todos os dias.”

O aplicativo é gratuito para os usuários (os compradores dos alimentos); já as empresas pagam à b4waste 20% do valor de cada produto transacionado pela plataforma. “Se um item custa 10 reais, a gente vende no aplicativo por 5, ficamos no final com 1 real”, explica Luciano. Neste modelo, a previsão para 2022 é faturar 5 milhões de reais.

Leia também: Milhões de pessoas no país não sabem o que vão comer hoje. Conheça empreendedores que lutam para mudar essa realidade

A B4WASTE AJUDA A POPULAÇÃO DE BAIXA RENDA A CONSUMIR ALIMENTOS QUE NÃO TERIAM LUGAR EM SUA CESTA

Pelo lado de quem compra, a b4waste mira o impacto social: com os descontos oferecidos, a foodtech consegue dar acesso a alimentos que talvez não fizessem parte da cesta de produtos de uma família por causa da restrição orçamentária.

“Nas lojas da rede Lopes [são 34 na periferia de São Paulo], quem compra é o pessoal das comunidades, porque pela metade do preço eles têm aceso a um produto ao qual geralmente não teriam pela barreira do preço, como por exemplo iogurtes”

O perfil de quem usa a b4waste – hoje são mais de 35 mil usuários cadastrados — não se restringe a esse público. De acordo com o empreendedor, também há quem busque no app por itens supérfluos com preços melhores e consumidores com consciência ambiental, que encontram na ferramenta uma forma simples de colaborar com um mundo melhor.

“Muito do que se faz para ajudar o planeta é um esforço, aqui é um prazer porque você pode fazer o bem economizando”, diz Luciano.

MAIS DO QUE AUMENTAR O NÚMERO DE PRAÇAS, A STARTUP HOJE ENTENDE A IMPORTÂNCIA DA DENSIDADE

Em setembro deste ano, a b4waste anunciou a captação de um aporte de 2 milhões de reais junto a GLOCAL – fundo de AgriFoodTech com certificação de Empresa B – e investidores como Pierre Berenstein (presidente da Bloomin’ Brands Brasil, dona da rede Outback), Alexandre Rappaport (CEO da CashMe), Rodrigo Rodrigues (head de agro na Falconi) e o Family Office Ene2 Participações.

Inicialmente, a ideia dos empreendedores era usar o montante para expandir a operação para todo o território nacional e até internacional, mas Luciano conta que percebeu que é preciso focar primeiro nos grandes centros.

“Queremos inicialmente nos solidificar como uma solução de combate ao desperdício nas capitais brasileiras, atendendo principalmente o varejo alimentar. Depois disso, como criamos um modelo que é replicável e escalável para poder controlar remotamente, pensamos sim em ter uma operação latino-americana”

Para isso, os sócios já iniciaram uma nova rodada no valor de 1,6 milhão de dólares a fim de quintuplicar o negócio nos próximos dois anos. Por ora, porém, o foco está em aprimorar a plataforma, melhorando a experiência do consumidor dentro do app.

“Acabamos de reforçar o time com duas pessoas, uma de tech e outra de growth, para nos ajudar a criar uma relação customizada. Hoje, por exemplo, se você gosta de cerveja, não há como habilitar um alerta na plataforma para te avisar sobre a disponibilidade desses produtos — mas nossa meta é fazer isso.”

Outra meta, ainda mais importante, é continuar combatendo o desperdício de alimentos, engajando consumidores e varejistas nessa luta.

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DRAFT CARD

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  • Projeto: b4waste
  • O que faz: Conecta estabelecimentos com produtos próximos ao vencimento a consumidores
  • Sócio(s): Daniel Neuman e Luciano Kleiman
  • Funcionários: 30
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2021
  • Investimento inicial: R$ 600 mil
  • Faturamento: R$ 5 milhões (previsão para 2022)
  • Contato: [email protected]
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