“Com o coronavírus, ficou ainda mais escancarado o apartheid social que existe em São Paulo”

Dani Rosolen - 26 Maio 2020
DJ Bola, fundador da produtora cultural A Banca, está à frente da ANIP com Artemisia e FGVcenn.
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Marcelo Rocha na certidão, DJ Bola, 39, aprendeu com a cultura hip hop os caminhos do empreendedorismo de impacto social.

Na década de 1990, Bola começou a se envolver com o universo musical e fundou A Banca, um movimento juvenil para promover festas e eventos no Jardim Ângela, na Zona Sul de São Paulo, onde nasceu e vive até hoje

Foi por meio dessas atividades e de oficinas realizadas na garagem da casa dos pais que ele ajudou o bairro a perder o título de mais violento do mundo, segundo dados da ONU (1996).

Nessa época, ele trabalhava numa farmácia, cuidando da limpeza das gôndolas à entrega dos produtos de bicicleta. Em 2001, conheceu o Instituto Sou da Paz e fez um curso para aprender a elaborar projetos culturais.

DJ Bola mudou de emprego, virou motoboy, e continuou a frequentar a organização por muitos anos. “Ia lá para usar o computador, acessar a internet internet, pesquisar editais, utilizar a impressora e fazer ligações.”

Foi no Instituto Sou da Paz que ele conheceu a Artemisia. A aceleradora de negócios sociais estava com inscrições abertas para o Programa Expedição Jovens Empreendedores 2007. “Inscrevi A Banca e fomos passando pela triagem até ficarmos entre os cinco projetos contemplados por um investimento-semente.”

Com o fim da aceleração, DJ Bola deixou de ser motoboy para focar 100% na produtora cultural, que se posicionou como um negócio social de impacto na periferia no formato de associação.

“Percebemos que só apostar em editais era uma ‘loteria’. E contar com filantropia também não era um caminho, pois a gente não tinha essa rede de contato. Oferecer algum tipo de serviço ou produto foi a maneira que encontramos para o nosso negócio não morrer”

A Banca não morreu. Pelo contrário, participou de uma série de programas de formação, como Quintessa, Nest, Rede Papel Solidário, além de outros fora de São Paulo e do Brasil. Dessas experiências, DJ Bola percebeu a importância de uma aceleração que atendesse as necessidades específicas dos negócios da periferia.

Começavam ali as inquietações que fariam surgir a ANIP, Articuladora de Negócios de Impacto da Periferia.

“CADÊ A QUEBRADA FAZENDO INOVAÇÃO?”

DJ Bola começou a fazer esse tipo de provocação em eventos que frequentava do outro lado da ponte: “Cadê a quebrada participando dos processos de inovação, cadê a abertura desses programas para colocar empreendedores de periferia dentro do ecossistema empreendedor?”

Em paralelo, passou a levantar a discussão internamente, tentando traduzir de maneira acessível o conceito de negócios de impacto para os moradores. “Mais do que uma beneficiária, acredito que a quebrada pode ser protagonista de inovações sociais criadas a partir de sua realidade, de sua dor”

Apesar da empolgação, as respostas nem sempre foram positivas:

“Eu conversava com diversas lideranças de fundações e institutos para pensar uma ação exclusiva na quebrada. E várias pessoas diziam que existe um abismo entre esse ecossistema e a periferia, entre a Faria Lima e a quebrada… Isso foi bem dolorido, mas serviu de combustível”

Enquanto isso, A Banca continuava suas atividades, funcionando de 2014 a 2016 como um ponto de cultura. Até que em 2016, DJ Bola participou de mais um processo de aceleração junto ao ICE (Inovação em Cidadania Empresarial), Anprotec e Sebrae e lá começou a prototipar algo exclusivo para a periferia.

“Saí com alguns rascunhos no final daquele ano e como tinha que fazer um evento final do ponto de cultura, decidi criar um fórum de discussões sobre negócios de impacto da periferia com uma apresentação musical de artistas do hip hop.”

Assim nasceu o primeiro Fórum de Negócios de Impacto da Periferia (FNIP), em maio de 2017, no Jardim Ângela. Após o evento, DJ Bola apresentou suas ideias a Edgard Barki, coordenador da FGVcenn, e Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia.

“Eles já estavam querendo atuar mais próximo da quebrada e, junto com A Banca, decidiram apostar na ANIP.”

DE ACELERADORA A ARTICULADORA DE NEGÓCIOS DE IMPACTO SOCIAL DA PERIFERIA

Em 2018, no primeiro ano de atuação da ANIP (que na época se posicionava como Aceleradora de Negócios de Impacto Social da Periferia), foi aberto um processo para selecionar negócios na Zona Sul da capital paulista, contemplando as subprefeituras de Campo Limpo, M’ Boi Mirim e Capela do Socorro.

Terceira turma de empreendedores acelerados pela ANIP.

Duas turmas, com cinco negócios cada, participaram por seis meses de encontros, mentorias, exercícios e ganharam um investimento-semente de 20 mil reais por projeto.

Em 2019, foi promovida uma única turma com dez negócios e o processo foi aberto para empresas de impacto da periferia de toda a cidade.

Entre os negócios que passaram pelo processo, alguns conseguiram crescer, expandir sua atuação, aumentar a equipe e alugar uma sede própria. Jovens Hackers, Jaubra, LiteraRua e Meninos da Billings já foram pauta aqui no Draft.

Em 2020, a ANIP pivotou. Bola diz:

“Entendemos que um programa de aceleração era muito pouco para o tamanho da diversidade e da potência que as periferias têm. Então, decidimos mudar nosso jeito de atuar”

Reposicionada como articuladora, a ANIP passou a ser um programa sustentado por quatro pilares. O primeiro deles é o de “Mobilização e Inspiração”, com fóruns, rodas de conversa e pílulas de formação de um dia.

O segundo eixo é o de “Formação”, por meio do LABNIP, metodologia exclusiva da Artemisia em que 30 negócios de impacto da periferia participarão de um curso de dois dias intensos, cinco semanas de intervalo para a execução das atividades e mais dois dias de finalização. Depois, os seis finalistas serão selecionados para um acompanhamento de um semestre com o Empreende Aí, uma escola de negócios de periferia que participou da primeira turma da ANIP.

Há ainda uma terceira frente, de geração de conhecimento, com a organização e compilação de dados que embasem pesquisas sobre negócios de periferia; e uma quarta, voltada à criação de novos modelos financeiros, incluindo um fundo emergencial (contamos mais a respeito, abaixo).

Além disso, em 2020, a ANIP passou a atuar também no Recife e em algumas cidades de Minas Gerais, expandindo a temática dos negócios sociais para outras periferias do Brasil.

Os 30 negócios selecionados nesta nova fase da ANIP devem ser anunciados em junho. Devido à pandemia, a articuladora se prepara para que o acompanhamento transcorra de forma online.

MAIS UMA BARREIRA PARA A PERIFERIA: A CRISE DO CORONAVÍRUS

Já em 2020, mas antes do distanciamento social, a ANIP realizou cinco rodas de conversas e planejava a 3ª edição do Fórum para agosto, no Sesc Campo Limpo, além de ter fechado a realização do projeto de formação-pílula no Galpão ZL, da Fundação Tite Setubal.

Com a quarentena, DJ Bola afirma que a equipe da ANIP estuda meios de transmitir esses eventos por plataformas de streaming. Mesmo trabalhando duro para não deixar os empreendedores na mão, ele admite que a realidade se impõe, e o dia a dia das comunidades anda ainda mais difícil:

“Já enfrentamos várias barreiras: psicológicas, históricas, de território, de acessibilidade… Só que agora, com o coronavírus, ficou ainda mais escancarado o apartheid social que existe em São Paulo”

A maioria dos negócios na periferia, diz Bola, não tem caixa para garantir o período de paralisação.

“Muitos dos empreendedores que passaram por nosso programa estão com dificuldades para pagar as contas básicas. Quando a pandemia for se diluindo e as atividades forem retomadas, o que vai ficar para nós da quebrada que passamos por esse processo?”

UM FUNDO EMERGENCIAL PARA CONTER A QUEBRADEIRA

Para evitar que a pandemia destrua tudo o que foi construído, a ANIP se uniu ao Banco Pérola e criou o fundo emergencial “Volta Por Cima”, focado em negócios de impacto da periferia.

Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia.

“O empréstimo é de até 15 mil reais, juro zero e carência de seis meses para o pagamento em até 12 parcelas”, diz Maure Pessanha, diretora da Artemisia e responsável por assuntos relacionados ao fundo. Ela explica que se o empreendedor conseguir repagar, esse recurso será utilizado para ajudar outros negócios.

Fundação ARYMAX, Fundação Tide Setubal, Instituto Vedacit e Gerdau são algumas das empresas e instituições aportando nesse fundo. Segundo Maure, pessoas físicas também podem doar.

Num primeiro momento, o fundo tem caráter emergencial para ajudar 50 empresas de impacto social que atuam em regiões periféricas ou com públicos vulneráveis, com prioridade para negócios que já passaram pela ANIP ou fazem parte da rede da Artemisia.

Além do financiamento, os empreendedores receberão acompanhamento e conteúdos. Maure afirma:

“Vamos conduzir encontros virtuais em grupo para combater essa sensação de que eles estão sozinhos. Também estamos articulando parcerias com outras organizações para apoiar nesse acompanhamento e troca de conhecimento”

Mesmo com os frutos colhidos até aqui e o apoio de instituições e empresas, DJ Bola diz que muitos atores ainda não “botam fé na potência que tem a quebrada”.

“O empreendedorismo tradicional está acostumado a criar soluções para escalar”, diz. “Para nós, porém, se um negócio consegue mudar a vida de uma única pessoa em situação de vulnerabilidade, isso já é uma microrrevolução.”

São nessas microrrevoluções que DJ Bola, o empreendedor social forjado na cultura hip hop, aposta suas fichas.

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