Está pensando em sair do país? O grande desafio (e o menos falado) é a adaptação cultural. Não o subestime

Adriano Silva - 12 jun 2020
(Imagem de Jan Vašek por Pixabay)
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O Canadá, onde vivo há quase um ano, é um país inclusivo no âmbito macro, das políticas e dos sistemas estabelecidos. Os serviços e os processos são, de modo geral, montados para funcionar para todos.

Não se trata, portanto, de uma sociedade baseada na ideia do privilégio, de um lado, e na exclusão, de outro. O motor da sociedade canadense não é colocar uma massa de gente se estapeando na competição pelos lugares marcados – gerando vencedores e perdedores. 

A ideia de fundo é que haja lugar para todos, ainda que uns venham a sentar em cadeiras na primeira fila e outros fiquem no fundo da arquibancada. (E ainda que, na prática, alguns tenham que ficar de pé, inevitavelmente.)

Mas o Canadá é um país frio no âmbito micro, do dia a dia, nas relações pessoais. Ao menos em regiões de colonização britânica, como Toronto, onde moro – em contraposição, possivelmente, à cultura francesa, mediterrânea, mais extrovertida, de Québec e Montreal. 

É assim até que você rompa a resistência inicial. Depois que você vira cliente, vizinho, prestador de serviço, faz contato, vira um acquaintance, deixa de ser um desconhecido, a polidez se reveste por vezes de uma simpatia e de uma cordialidade que você nem imaginava serem possíveis. 

É assim: a simpatia não vem no automático, no improviso, de modo casual, como costuma acontecer em países latinos, em que as pessoas trançam olhares o tempo todo, e se sorriem, e falam com estranhos como se fossem velhos conhecidos

Em países anglo-saxões, é preciso criar uma situação, gerar uma justificativa para o contato. E esse movimento dificilmente virá do lado de lá; ele terá de ser seu, que está chegando e talvez esteja mais acostumado à espontaneidade.

(Antes de seguir: será que ainda podemos dizer que o Brasil é o contrário disso tudo – um país que recebe mal no aspecto institucional, mas é caloroso no âmbito particular? Não sei bem. Não sei se fomos assim um dia. E desconfio que não somos assim hoje.)

POLIDEZ É DIFERENTE DE FRIEZA. E FAZ PARTE DO SENSO DE COLETIVIDADE

A relativa frieza do canadense médio tem a ver com respeito. Funciona assim: você não olha o outro no olho, porque o outro tem o direito de não ser encarado. Você não toca o outro, porque isso seria invasivo. Você não fala com o outro, porque ele não tem a obrigação de falar com alguém que não conhece. Você precisa solicitar o tempo e a atenção alheias, e esperar por um aceite, porque elas não lhe pertencem.

Eis o ponto em que eles são muito diferentes de nós: o espaço pessoal é muito valorizado. Cada um tem o seu universo – e tem direito exclusivo a ele.

Curiosamente, isso não significa egoísmo. Ao contrário: o canadense tem uma consciência muito grande das suas obrigações com a coletividade. Exatamente pelo seu respeito em relação ao outro, ele cumpre seus deveres para com o todo, para com o entorno – nem que seja para não precisar ser importunado por ninguém em seu espaço pessoal

Apesar de ser meio ermitão para os padrões brasileiros, confesso que sinto um pouco de falta disso: um desprendimento maior para a aproximação entre estranhos, um “distanciamento social” menor entre as pessoas, um tantinho mais de liberdade para a camaradagem.

E, no entanto, é curioso: nada disso torna os brasileiros menos excludentes. Somos superabertos em nossas relações pessoais, mas somos um dos países que mais segrega gente em castas – mantemos milhões de compatriotas sistematicamente destituídos dos itens mais básicos de sobrevivência. Somos um dos países que mais mata gays e mulheres e negros – convivemos bem com crimes de ódio e com a opressão (dos outros). 

O Canadá, por sua vez, com toda sua polidez distante, é um dos países mais inclusivos do planeta. Enquanto nós, os seres solares, sorridentes, bonachões, sempre prontos para um abraço ou para fazer um novo amigo de infância na próxima esquina, erguemos muros cheios de cacos de vidro e construímos cercas elétricas e instalamos serpentinas cortantes em nossas propriedades, os canadenses, que baixam a cabeça e desviam o olhar ao cruzar com você na calçada, e dizem “sorry” a todo momento como uma reafirmação do distanciamento protocolar entre as pessoas, não têm uma gradezinha sequer diante de suas casas.     

DE REPENTE, NO METRÔ, UM COMENTÁRIO INESPERADO ROMPE O AR BLASÉ

Logo que cheguei ao Canadá fui presenteado com dois momentos cheios de humanidade. Em nosso primeiro mês em Toronto, enquanto corríamos atrás de casa, escola para as crianças, seguro-saúde, conta bancária, naquele já distante verão de 2019, quando podíamos sair por aí, na hora em que bem entendêssemos, batendo perna em meio aos nossos novos conterrâneos, um dia estávamos no metrô, aprendendo a decodificar aquele ar meio blasé dos canadenses.

A gente quebrava um pouco o silêncio do vagão, ao conversar, entre risos, de pé, perto da porta. Os olhares nativos estavam sempre em um celular ou em um livro, e nos capturavam apenas de maneira periférica, sem dar chance a que devolvêssemos um olhar ou um sorriso. Então, um sujeito, ao passar por mim, descendo na sua estação, disse que eu tinha uma família bonita

Eu agradeci. Sorri. E fiquei intimamente grato com aquele lembrete pessoal e inusitado a respeito do que realmente importa na vida. Aquele cara, do nada, me chamava a atenção para o quanto eu era afortunado. E para o quanto era OK eu ser feliz e realizado com tudo aquilo que eu tinha conquistado – eu tinha muitos desafios à minha frente, com a mudança de país. E, no entanto, tudo que eu precisava já estava bem ali junto a mim.

NO ESPAÇO PÚBLICO, O RESPEITO À PRIVACIDADE E À INDIVIDUALIDADE ALHEIA

Noutro dia, sob o sol abrasador do início de agosto no Hemisfério Norte, sentamos sob uma sombra redentora, no pátio de um pub, para almoçar. Era um tempo tensionado para a gente. Tínhamos acabado de deixar para trás, no Brasil, a vida como a conhecíamos. Nossa casa, parentes, amigos. Nossa língua, comidas e jeitos.

Estávamos morando provisoriamente num apartamento pequeno, onde precisaríamos ficar mais tempo do que o que havíamos planejado, até que pudéssemos entrar na casa nova. Estávamos no marco zero da nova vida, tateando em território desconhecido, tendo que reconstruir uma porção de coisas.

Em determinado momento da conversa, minha filha começou a chorar. Eu aproximei a minha cadeira e a abracei. E assim ficamos por bom tempo. Quis lhe oferecer um lugar privado – meu ombro, meu peito – em que ela pudesse expressar seu sentimento sem se preocupar com quem estivesse ao redor. Quis também, possivelmente, me desculpar por alguma palavra ou gesto mal colocado.

Ninguém ao redor esboçou reação. O que poderia parecer indiferença era, outra vez, respeito à individualidade alheia. Em seguida, voltamos aos talheres e terminamos a refeição com as risadas e a tranquilidade de sempre. A surpresa veio quando eu pedi a conta: a garçonete me disse que a despesa já havia sido paga e apontou para uma mesa lateral

Um sujeito jovem, de aparência árabe, sentado sozinho, sorriu para a gente e ergueu seu copo. Eu perguntei do que se tratava, agradeci e recusei o favor, fiz questão de eu mesmo pagar a conta. 

Ele apenas disse que éramos uma família bacana. E que tinha ficado tocado com a cena que tinha presenciado. Com a emoção da minha filha e com o modo como tínhamos lidado com ela. Afirmou que tinha tido muita satisfação em pagar nossa conta e me pediu que aceitasse seu gesto. 

Eu decidi acatar o favor. Inclusive pelo constrangimento que seria cancelar o pagamento, a contragosto do nosso inusitado anfitrião. Agradeci. Trocamos cartões. Em seguida, deixamos o restaurante. E nunca mais o vimos. Assim como jamais veríamos de novo aquele sujeito atarracado que nos surpreendera com um elogio no metrô.

E o Canadá, de repente, nos abria os braços. E sorria para a gente. Sem qualquer traço de frieza ou distanciamento. Muito ao contrário.

 

Adriano Silva é fundador da The Factory e Publisher do Projeto Draft, Founder do Draft Inc. e Chief Creative Officer (CCO) do Draft Canada. É autor de nove livros, entre eles a série O Executivo SinceroTreze Meses Dentro da TV A República dos Editores.

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