• LOGO_DRAFTERS_NEGATIVO
  • VBT_LOGO_NEGATIVO
  • Logo

O Envolve é um invólucro ecofriendly para alimentos – e um negócio inspirado numa leitura do Draft!

Verônica Fraidenraich - 1 jul 2019 Verônica Fraidenraich - 1 jul 2019
COMPARTILHAR

“Ao lançar o Envolve, eu descobri o meu porquê: combater o desperdício de alimentos.” É assim que Luciana Caran, 54, publicitária de formação, fala sobre o seu produto: um pano feito com tecido de algodão, cera de abelha, breu e óleo de coco que serve para embalar frutas e verduras ou cobrir tigelas e refratários com alimentos. Lavável, reutilizável e compostável, o invólucro ecofriendly substitui o plástico-filme e pode durar pelo menos seis meses.

O Envolve nasceu em setembro de 2018, ainda com o nome de Bee Eco (e depois, 2b Eco). Luciana já conhecia um produto bem similar da Bee’s Wrap, de Vermont, nos Estados Unidos. Mas a inspiração definitiva para seu empreendimento, veja só, veio ao ler uma história contada aqui no Draft em maio do ano passado, sobre a Keep Eco, uma embalagem ecológica — também com tecido de algodão e cera de abelha — criada por um casal gaúcho radicado em Joinville. “Soube que estavam fazendo no Brasil através dessa matéria”, diz.

Semelhanças de produto à parte, a trajetória de cada empreendedor é única a seu modo. Em 2017, Luciana estava mergulhada “de cabeça” na coordenação para o lançamento de uma startup de locação de carros baseada em plataforma digital. Até que, no comecinho de novembro, após seis meses de trabalho, os sócios a chamaram para dizer que o projeto seria suspenso devido ao alto custo.

“Eu pensei: ‘Chega, quero algo que me fale à alma’. E decidi que mudaria completamente de carreira para fazer algo mais ‘roots’. Como mexer com comida, cozinha”

Essa pegada “roots” não tinha aparecido até então em sua vida profissional. Ainda em 1994, Luciana fundou a GateOne, uma agência de turismo na internet que funcionou até 2006. Ficou dois anos no Carrefour, liderando a implantação de agências de turismo na rede internacional de hipermercados, e abriu um novo negócio em 2008, a consultoria de marketing digital BridgeON, ainda ativa. Em paralelo, deu aulas de mídias sociais e lançou dois livros como co-autora: E-Causos (2008) e Manual dos Pecados Digitais, de 2018.

PARA EMPREENDER COM PROPÓSITO, PESQUISOU SOBRE CAPITALISMO CONSCIENTE

Ainda assim, sentia que faltava algo. Entre a crise no trabalho e o lançamento do Envolve, menos de um ano se passou. Ela cogitou abrir um café na Vila Madalena. Arranjou um espaço, criou logomarca, fez curso de barista, mas se deu conta de que o rendimento seria pequeno. Desistiu.

No dia em que tomou a decisão, recebeu de uma amiga o link de divulgação do documentário brasileiro Um Novo Capitalismo, de Henry Grazinoli. Lançado em junho de 2018 e disponível no Netflix, o filme aborda a reformulação do capitalismo por meio de empresas de impacto social.

Lavável, reutilizável e compostável, o Envolve substitui o plástico-filme e pode durar pelo menos seis meses. (foto: Luciana Caran)

Até pelo timing, ela pensou ser “coisa do destino”. Começou a pesquisar o capitalismo consciente, assistiu a palestras sobre compensação ambiental e gestão de resíduos, conversou com gente que atua na área, embarcou em cursos online de resíduos sólidos urbanos e passou a fazer compostagem em casa, além de plantar uma horta. Tentou transformar a compostagem urbana em um negócio, mas deparou com obstáculos. Foi aí que as embalagens sustentáveis voltaram ao seu radar.

“Gosto de trabalhos manuais, então comecei a pesquisar como fazer as embalagens na internet. Misturei umas 30 receitas que vi e criei a minha. E decidi investir no negócio, junto com uma conhecida”

A ideia, no princípio, era “fazer um dinheirinho em bazares de fim de ano”. O investimento inicial foi de 10 mil reais, destinados à compra de tecido por metro, cerca de 30 quilos de cera e 3,2 litros de óleo de coco. O óleo é a matéria-prima mais cara; a cera, pela quantidade, é a que pesa mais no custo final.

PELO CUSTO, A ESTRATÉGIA DE APROVEITAR RESÍDUOS TÊXTEIS NÃO DEU CERTO

No começo, Luciana tentou usar, na produção, resíduos têxteis obtidos em bancos de tecido (em que as pessoas depositam restos de pano e recebem créditos para retirar novas peças). Como ela não tinha pano para depositar, precisava pagar pelo que retirava, o que saía caro. Passou a comprar tecidos no bairro do Brás, tradicional polo de confecção de roupas da capital paulista.

“Não tem desperdício, pois aproveito todo o tecido que compro. A rebarbinha que sobra eu repasso para um berçário e para ações motivacionais na Abraps, da qual sou membro.”

APÓS DESENTENDIMENTOS COM A SÓCIA, ELA DECIDIU TOCAR O PROJETO SOZINHA

O Envolve foi lançado oficialmente num evento da Abraps (Associação Brasileira de Profissionais de Sustentabilidade), realizado na Unibes Cultural. Dois meses depois, em novembro, o projeto foi reconhecido pelo Ministério do Meio Ambiente como uma boa prática no combate à perda e ao desperdício de alimentos.

A essa altura, a parceria com a sócia já tinha entrando em colapso devido a desentendimentos, inclusive na maneira de lidar com os revendedores.

“Disse a ela que nos casamos sem nos conhecer. Pensei em abrir mão do negócio, mas ao ganhar o reconhecimento no ministério, me empolguei. Acreditei que era o projeto da minha vida e que queria tocá-lo sozinha”

Luciana seguiu em frente. Transformou a página no Instagram (@envolve.eco.br) em uma ferramenta importante na divulgação do produto. Foi por meio da rede social que fechou parcerias com outros estados.

AO VENDER PARA FORA DO ESTADO, UM PERRENGUE NA HORA DE EMITIR A NOTA

“Comecei muito pequena, mas em janeiro, dei um salto com duas revendas para o Rio de Janeiro e o Espírito Santo. E aí resolvi investir mais.”

A “conexão capixaba” foi feita com a Fast Nutri, que vende alimentos saudáveis e suplementação esportiva em Vitória. Por inexperiência, ela não imaginava a dificuldade que enfrentaria para emitir a nota fiscal para outro estado. Precisou recorrer a uma amiga para que emitisse a nota por ela.

“Por ser um negócio interestadual, eu precisava de uma assinatura digital, o que não tinha, e também de baixar um aplicativo, o que não foi tão simples assim. Fiquei morrendo de vergonha, tive de pedir autorização para emitir a nota em nome de outra empresa”

O cliente carioca foi a Muda, uma loja de comércio sustentável no Humaitá, Zona Sul do Rio. A marca pertence ao ator Mateus Solano. “Ele me mandou uma mensagem privada pela rede social – deduzo que nos encontrou por meio de uma amiga de amiga… Já fizemos duas vendas para eles.”

Um desafio é tornar o produto mais conhecido do público. “Em Vitória, as vendas não foram tão boas. Já no Rio, por ser um comércio com foco sustentável, vendeu muito bem.”

IMPORTANTE: GARANTIR MATÉRIA-PRIMA PARA VENDAS EM GRANDE QUANTIDADE

O valor da unidade da embalagem varia de 18 reais, o tamanho P (18x20cm), a 39 reais o GG (38x47cm); um kit com três peças no tamanho menor custa 51 reais. Segundo Luciana, seu faturamento bruto foi de 38 mil reais de janeiro a junho deste ano.

Até hoje, o maior negócio, fechado no início da ano, foi uma coleção vendida para a Westwing, ecommerce de casa e decoração. Foram 251 kits, a maioria de três peças, alguns com quatro. O contrato foi de venda por consignação e a entrega ficava a cargo da empresa, evitando assim que ela tivesse de emitir notas fiscais individuais ou cuidar da parte de correio.

Durante a negociação com a Westwing, a empreendedora passou um aperto. Ela foi no Brás, comprou amostras de tecido, produziu um kit piloto de cada modelo, fotografou e enviou as imagens para aprovação. Com o ok da empresa, voltou para comprar mais metros de pano — mas cadê? Descobriu que muitos haviam saído de série.

“Foi um susto, tive que falar com o pessoal da Westwing, para saber se eles me dariam mais prazo e se poderia mudar as estampas. Felizmente, eles não criaram problema por isso.” Desde então, ela mudou o esquema e agora, quando negocia grandes quantidades, compra o tecido antecipadamente.

Ela trata de vender também em eventos, que costumam render bons negócios. “Sempre exponho o produto nas feiras da Abraps, é uma grande vitrine, pois o público conhece e valoriza produtos sustentáveis.” Luciana conta que, numa feira recente, o Encontro Lixo Zero, promovido pela Casa Causa, comercializou mais de 100 kits e quase ficou sem estoque.

EM CONTATO COM ECOMMERCES, LUCIANA TAMBÉM BUSCA INVESTIMENTOS

Hoje, ela tem parceria com o ecommerce Universo Eco (o site cobra uma porcentagem da venda e cabe à empreendedora cuidar da entrega do produto ao comprador) e diz estar nos “finalmentes” para fechar um contrato com a Zôdio, marca francesa de artigos domésticos que faz parte da rede de lojas de materiais de construção Leroy Merlin.

Em busca de investimentos, Luciana já vinha em contato com Emprapii e Pipe-Fapesp. Em junho, recebeu a notícia de que sua empresa foi uma das 26 selecionadas para o InovAtiva de Impacto 2019, que dá capacitação, mentoria e networking.

Após seis meses de uso, o consumidor pode devolver a embalagem e ganhar 30% de desconto na compra de uma nova. (foto: Luciana Caran)

Orgulhosa, a empreendedora exalta o Envolve, “colorido, bonito” e, melhor ainda, sustentável. “Mas tem gente que não gosta, acha melado e tem aflição de pegar no pano, porque com o tempo alguns deles ficam mais grudadinhos.”

Após seis meses de uso, quando a embalagem estiver se aproximando do fim da vida útil, o consumidor pode devolvê-la e ganhar 30% de desconto na compra de uma nova. O pano é tratado e, se as condições do tecido não permitirem sua reutilização, enviado para a composteira.

“Fiz muita coisa na vida, mas sempre com prestação de serviços, nunca havia vendido um produto sequer”, diz. “Me sinto como uma adolescente ou trainee, e muito, muito feliz, me adaptando às diferenças. Descobri que o pessoal da sustentabilidade é muito colaborativo e respeita os cabelos brancos. Conseguir se reinventar aos 54 é bom demais.”

 

DRAFT CARD

Draft Card Logo
  • Projeto: Envolve
  • O que faz: Produz embalagens de pano reutilizáveis para cobrir frutas, verduras e recipientes com comida.
  • Sócio(s): Luciana Caran
  • Funcionários: Nenhum fixo
  • Sede: São Paulo
  • Início das atividades: 2018
  • Investimento inicial: R$ 10.000
  • Faturamento: R$ 38.000 (janeiro a junho de 2019)
  • Contato: [email protected]
COMPARTILHAR

Confira Também: