TODAS AS CATEGORIAS
Por muito tempo, acreditamos que o futuro do Brasil estaria concentrado nas grandes metrópoles. Infraestrutura, investimento, inovação, produção cultural, talentos, universidades. Tudo parecia inevitavelmente enraizado em torno de poucos centros urbanos que concentravam o poder e o sucesso.
Mas algo começou a mudar.
Não como tendência de PowerPoint, nem como discurso futurista, mas como prática viva, acontecendo agora, em territórios reais. Longe do barulho, dos holofotes e da lógica da escala a qualquer custo.
Vivi quase toda a minha vida em São Paulo, trabalhando com inovação, impacto e empreendedorismo. Há cinco anos, fiz um movimento que muitos ainda interpretam como fuga, quando, na verdade, foi uma escolha estratégica: decidi viver em um pequeno município, um arquipélago com pouco mais de 35 mil habitantes, e assumir o território como campo de atuação integrando o que é prosperidade pra mim: Qualidade de vida, Relações profundas e Recurso que fomenta regeneração.
O que vi de perto mudou radicalmente minha leitura sobre onde o futuro pode nascer.
Hoje, para mim, isso é evidente: o futuro será territorial. E quanto mais demorarmos para compreender essa virada, maior será o atraso cultural, econômico e social que vamos acumular. Aqui entre nós, para quem investiu em casa própria financiada e laje corporativa com contrato de 3 anos fica difícil pivotar e aceitar que a conta da vida nunca vai fechar
Reforço que esse artigo não é sobre abrir mão das cidades grandes, mas buscar outras referências e parceiros estratégicos na hora de desenhar suas soluções.
Territórios pequenos operam com uma lógica radicalmente diferente das grandes cidades. Tudo é visível.
O impacto é imediato.
O excesso não passa despercebido.
O silêncio também comunica.
É justamente por isso que soluções importadas das grandes cidades costumam falhar aqui.
Em pequenos municípios, os desafios são sistêmicos. Se a água acaba, a cidade acaba. Se a estrada trava, ninguém se desloca. Se o saneamento não acompanha a alta temporada, praias inteiras são contaminadas.
Se o poder econômico ocupa a costeira, a população de menor renda é empurrada para dentro do território, muitas vezes invadindo áreas de parque estadual.

Adensamento de residências de alto padrão na faixa costeira de Ilhabela (crédito da foto: João @zerodozedrone).
Ilhabela é um parque estadual com uma cidade dentro, não o contrário. São mais de 85% de parque estadual, talvez a maior reserva de Mata Atlântica preservada.
Esse simples dado muda tudo. Aqui, preservar não é discurso ambiental, é condição de sobrevivência. Por isso, envolvimento precisa vir antes de desenvolvimento. O curto prazo pode até alavancar a economia, mas, sem leitura sistêmica, implode o próprio território que sustenta essa economia. Ou seja, aqui solucionar só o seu problema recria o mesmo problema só que uma escala maior.
É essa complexidade que grandes centros tentam simular em laboratórios sintéticos de inovação. Nos pequenos municípios, ela é o cotidiano, por isso a aderência é muito maior.
Viver em Ilhabela me convidou a reaprender palavras que usei a vida inteira.
Aqui, não faz sentido falar em explorar.
Aqui, desenvolver sem envolver não se sustenta.
Aqui, crescer sem cuidar cobra a conta rápido.
Ilhabela é um arquipélago onde floresta e Atlântico se encontram. O tempo não é o do relógio, é o da maré, da chuva, da mudança repentina de vento. Essa relação constante com o presente altera profundamente a forma como se cria, se decide e se constrói
Mas não há romantização possível.
Ilhabela tem infraestrutura que funciona o ano inteiro, escolas públicas de qualidade, rede de saúde estruturada e uma economia ativa. Ao mesmo tempo, enfrenta um dos maiores índices de favelização do litoral paulista, desigualdade crescente, tensões urbanas e desafios sociais que não cabem no cartão-postal.
É um território marcado por uma identidade afro caiçara profunda. Foi um dos grandes pontos de concentração de pessoas escravizadas no Brasil, inclusive por rotas ilegais. Soma-se a isso a presença indígena, a lógica da passagem, da troca, do uso consciente do território
Essa história não é pano de fundo. Ela estrutura o presente e se você não sentir na pele que precisamos de cooperação com lideranças conscientes do continente, talvez daqui 10 anos esse refúgio passe a deixar de existir.
Outro ponto importante para você que sonha em morar aqui: Ilhabela não pode crescer em número de habitantes. Logo, só pode crescer qualificando o fluxo de pessoas, ideias e recursos.
Isso muda completamente a lógica do turismo que pra mim é olhar a economia por fluxos.
O novo luxo não está na ostentação, mas na experiência. Vale mais viver algo que amplia repertório do que consumir algo caro e esquecível. Essa virada transforma o turismo em um campo potente de inovação cultural, econômica e simbólica
Ilhabela não é um território sem dinheiro. Pelo contrário.
Além de seus cerca de 35 mil habitantes, aproximadamente um quinto da população é formada por veranistas recorrentes, pessoas que mantêm vínculo afetivo e presença constante ao longo do ano, mas que por algum motivo ainda não se sentem pertencentes. Somam-se a isso eventos esportivos, culturais e de natureza que movimentam cifras relevantes e colocam a ilha no radar de marcas nacionais e internacionais.
O paradoxo é outro.
Grande parte das marcas que atuam aqui enxerga Ilhabela apenas como plataforma de extração econômica e simbólica, não como território vivo. Vêm para um evento, uma ativação pontual, uma campanha de visibilidade, e vão embora sem deixar lastro, aprendizado ou fortalecimento real das iniciativas locais
Isso se repete menos com setores alinhados ao discurso de impacto, sustentabilidade e esporte de natureza. Regata, provas de trekking, canoa havaiana e outros eventos crescem ano após ano estimulando a ambição de seus organizadores que passam a fazer cada vez mais negócios com lideranças locais. A Semana de Vela é o exemplo mais conhecido, mas não é o único.
O potencial existe. O que falta é vínculo e relação de médio e longo prazo. Precisamos de marcas que compreendam o tempo do lugar, que se envolvam com sua complexidade e que entendam que impacto não se mede apenas por alcance, mas por capacidade de fortalecer ecossistemas locais.
Quando essa relação não acontece, o resultado é conhecido: o dinheiro gira, mas não estrutura. A visibilidade passa, mas não gera pertencimento. A economia cresce em volume, mas não em qualidade
Foi exatamente a partir dessa lacuna que o Oxigênio Ilhabela nasceu entregando seu primeiro projeto para o arquipélago: o TEDx Ilhabela.
O TEDx Ilhabela foi nosso cavalo de tróia que pulsou um novo ciclo de consciência e ambição para quem ama a Ilhabela. O que era para ser 10 palestras potentes, se tornou tecnologia social e fortalecimento comunitário.
Ilhabela não tem universidade. Não teve, por décadas, acesso estruturado à educação adulta em empreendedorismo, liderança ou gestão. Aqui aprender é fazer curso técnico para alimentar a indústria existente que foca em uma coisa: mão de obra. Isso gerou um déficit na qualidade média de produtos e serviços oferecidos.
Ao mesmo tempo, quem vem de fora muitas vezes chega exaurido da lógica corporativa e não quer empreender no sentido clássico. Quer investir, gerar renda recorrente e qualidade de vida.
Essa tensão revela uma oportunidade enorme.
Empreender aqui não é sobre escala. É sobre proposta de valor, identidade cultural e pertencimento.
É sobre fortalecer negócios locais como parte da infraestrutura social do território, é daí que a aderência junto a minha articulação territorial e de outras lideranças locais envolvidas faz a confluência acontecer.
O Oxigênio Ilhabela nasce dessa leitura. Não como uma incubadora tradicional, mas como um hub de inovação aberta territorial.
A lógica dialoga com modelos validados pelas corporações, como o Cubo Itaú, mas aplicada a cidades pequenas com vocação turística, onde a chave não é apenas lançar produtos, e sim estruturar ecossistemas locais capazes de operar soluções com autonomia, protagonismo e pertencimento.
Sua metodologia amadurece a partir da experiência do desNegocio, que construiu um dos principais repertórios de negócios de impacto do país e implementou, junto ao Instituto NUA, uma escola de aprendizagem empreendedora em territórios periféricos — a iniciativa foi pauta aqui no Draft —, reconhecida pela Aliança Aipê como uma das tecnologias sociais mais transformadoras em mobilidade social e inclusão produtiva.
Mesmo com poucos meses de vida, o Oxigênio já articula projetos próprios, ativações culturais, experiências de turismo de base comunitária e conexões com organizações nacionais e internacionais, como Diáspora Black e Sitawi.
Ilhabela está a cerca de três a quatro horas do Aeroporto Internacional de Guarulhos, o maior hub aéreo da América Latina. Está mais próxima do mundo do que muitos deslocamentos diários dentro das grandes cidades.
É por isso que qualificar as relações com lideranças e outras organizações globais é prioridade aqui também. Hoje fazemos parte da rede global RITA Earth, conectando inovação territorial, regeneração e novos modelos econômicos.

Canal que separa Ilhabela do continente (crédito da foto: André Augusto).
O que acontece aqui não é isolado. Dialoga com desafios de qualquer município turístico do Brasil, só que alguém precisa começar essa revolução para ser replicada junto a outras e outros agentes locais que queiram replicar a tecnologia social validada. Esse diálogo já começou por exemplo com Ubatuba através do Impact Hub.
Minha transição para Ilhabela não foi um plano de aposentadoria.
Foi uma escolha presentista.
A vida ficou líquida.
O trabalho ficou híbrido.
O tempo ganhou outro valor.
Não escrevo isso para incentivar mudanças definitivas, mas para convidar à fluidez. Passar alguns dias aqui para além do fim de semana, faz você perceber o território te observando e sentir o melhor caminho para investir, ativar marcas e/ou fortalecer iniciativas
Mas sem deixar de lado o principal cliente no centro: a Ilhabela.
Algumas transformações não começam com um e-mail ou uma conexão no LinkedIn.
Te espero aqui com corpo presente e espaço para o novo.
Aziz Camali Constantino atua na interseção entre territórios, organizações e comunidades, articulando inovação, impacto social e pertencimento como estratégia de futuro. Vive em Ilhabela há cinco anos, dedicando-se ao fortalecimento de ecossistemas locais, inovação aberta territorial e educação empreendedora orientada à regeneração social, econômica e cultural. É cofundador do desNegocio e idealizador do TEDx Ilhabela, criado para honrar o território e ativar novas ambições coletivas.
Vinicius Benatti começou a fazer musculação após uma lesão na perna. O primeiro treino abriu seus olhos para a atividade e o levou a trilhar uma carreira ajudando pessoas por meio da nutrição e do incentivo a um estilo de vida mais saudável.
Criada em um ambiente muito precário, Cíntia Santana aprendeu a capacidade de sonhar ao se tornar atriz. Ela conta como fundou o instituto Entre o Céu e a Favela para ensinar teatro e despertar a autoestima a crianças do Morro da Providência, no Rio.
“Ser hipersensível”, Josiane Aparecida da Silva convivia com dores físicas e emocionais. Ela conta como uma bebida sagrada a levou a encontrar propósito na natureza, no cuidado com as abelhas e na cura de si mesma.
