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O futuro é territorial: por que pequenos municípios serão o novo centro de inovação aberta do Brasil

Aziz Camali Constantino - 23 jan 2026 Aziz Camali Constantino, cofundador do desNegocio e idealizador do TEDx Ilhabela (foto: André Augusto).
Aziz Camali Constantino, cofundador do desNegocio e idealizador do TEDx Ilhabela (foto: André Augusto).
Aziz Camali Constantino - 23 jan 2026
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Por muito tempo, acreditamos que o futuro do Brasil estaria concentrado nas grandes metrópoles. Infraestrutura, investimento, inovação, produção cultural, talentos, universidades. Tudo parecia inevitavelmente enraizado em torno de poucos centros urbanos que concentravam o poder e o sucesso.

Mas algo começou a mudar.

Não como tendência de PowerPoint, nem como discurso futurista, mas como prática viva, acontecendo agora, em territórios reais. Longe do barulho, dos holofotes e da lógica da escala a qualquer custo.

Vivi quase toda a minha vida em São Paulo, trabalhando com inovação, impacto e empreendedorismo. Há cinco anos, fiz um movimento que muitos ainda interpretam como fuga, quando, na verdade, foi uma escolha estratégica: decidi viver em um pequeno município, um arquipélago com pouco mais de 35 mil habitantes, e assumir o território como campo de atuação integrando o que é prosperidade pra mim: Qualidade de vida, Relações profundas e Recurso que fomenta regeneração.

O que vi de perto mudou radicalmente minha leitura sobre onde o futuro pode nascer.

Hoje, para mim, isso é evidente: o futuro será territorial. E quanto mais demorarmos para compreender essa virada, maior será o atraso cultural, econômico e social que vamos acumular. Aqui entre nós, para quem investiu em casa própria financiada e laje corporativa com contrato de 3 anos fica difícil pivotar e aceitar que a conta da vida nunca vai fechar

Reforço que esse artigo não é sobre abrir mão das cidades grandes, mas buscar outras referências e parceiros estratégicos na hora de desenhar suas soluções.

PEQUENOS MUNICÍPIOS EXIGEM MAIS SENSIBILIDADE DO QUE INTELIGÊNCIA

Territórios pequenos operam com uma lógica radicalmente diferente das grandes cidades. Tudo é visível.

O impacto é imediato.
O excesso não passa despercebido.
O silêncio também comunica.

É justamente por isso que soluções importadas das grandes cidades costumam falhar aqui.

Em pequenos municípios, os desafios são sistêmicos. Se a água acaba, a cidade acaba. Se a estrada trava, ninguém se desloca. Se o saneamento não acompanha a alta temporada, praias inteiras são contaminadas.

Se o poder econômico ocupa a costeira, a população de menor renda é empurrada para dentro do território, muitas vezes invadindo áreas de parque estadual.

Adensamento de residências de alto padrão na faixa costeira de Ilhabela (crédito da foto: João @zerodozedrone).

Ilhabela é um parque estadual com uma cidade dentro, não o contrário. São mais de 85% de parque estadual, talvez a maior reserva de Mata Atlântica preservada.

Esse simples dado muda tudo. Aqui, preservar não é discurso ambiental, é condição de sobrevivência. Por isso, envolvimento precisa vir antes de desenvolvimento. O curto prazo pode até alavancar a economia, mas, sem leitura sistêmica, implode o próprio território que sustenta essa economia. Ou seja, aqui solucionar só o seu problema recria o mesmo problema só que uma escala maior.

É essa complexidade que grandes centros tentam simular em laboratórios sintéticos de inovação. Nos pequenos municípios, ela é o cotidiano, por isso a aderência é muito maior.

ILHABELA NÃO É “CENÁRIO”, É UM SISTEMA VIVO

Viver em Ilhabela me convidou a reaprender palavras que usei a vida inteira.

Aqui, não faz sentido falar em explorar.
Aqui, desenvolver sem envolver não se sustenta.
Aqui, crescer sem cuidar cobra a conta rápido.

Ilhabela é um arquipélago onde floresta e Atlântico se encontram. O tempo não é o do relógio, é o da maré, da chuva, da mudança repentina de vento. Essa relação constante com o presente altera profundamente a forma como se cria, se decide e se constrói

Mas não há romantização possível.

Ilhabela tem infraestrutura que funciona o ano inteiro, escolas públicas de qualidade, rede de saúde estruturada e uma economia ativa. Ao mesmo tempo, enfrenta um dos maiores índices de favelização do litoral paulista, desigualdade crescente, tensões urbanas e desafios sociais que não cabem no cartão-postal.

É um território marcado por uma identidade afro caiçara profunda. Foi um dos grandes pontos de concentração de pessoas escravizadas no Brasil, inclusive por rotas ilegais. Soma-se a isso a presença indígena, a lógica da passagem, da troca, do uso consciente do território

Essa história não é pano de fundo. Ela estrutura o presente e se você não sentir na pele que precisamos de cooperação com lideranças conscientes do continente, talvez daqui 10 anos esse refúgio passe a deixar de existir.

TURISMO NÃO COMO VOLUME, MAS COMO VALOR

Outro ponto importante para você que sonha em morar aqui: Ilhabela não pode crescer em número de habitantes. Logo, só pode crescer qualificando o fluxo de pessoas, ideias e recursos.

Isso muda completamente a lógica do turismo que pra mim é olhar a economia por fluxos.

O novo luxo não está na ostentação, mas na experiência. Vale mais viver algo que amplia repertório do que consumir algo caro e esquecível. Essa virada transforma o turismo em um campo potente de inovação cultural, econômica e simbólica

Ilhabela não é um território sem dinheiro. Pelo contrário.

Além de seus cerca de 35 mil habitantes, aproximadamente um quinto da população é formada por veranistas recorrentes, pessoas que mantêm vínculo afetivo e presença constante ao longo do ano, mas que por algum motivo ainda não se sentem pertencentes. Somam-se a isso eventos esportivos, culturais e de natureza que movimentam cifras relevantes e colocam a ilha no radar de marcas nacionais e internacionais.

O paradoxo é outro.

Grande parte das marcas que atuam aqui enxerga Ilhabela apenas como plataforma de extração econômica e simbólica, não como território vivo. Vêm para um evento, uma ativação pontual, uma campanha de visibilidade, e vão embora sem deixar lastro, aprendizado ou fortalecimento real das iniciativas locais

Isso se repete menos com setores alinhados ao discurso de impacto, sustentabilidade e esporte de natureza. Regata, provas de trekking, canoa havaiana e outros eventos crescem ano após ano estimulando a ambição de seus organizadores que passam a fazer cada vez mais negócios com lideranças locais. A Semana de Vela é o exemplo mais conhecido, mas não é o único.

O potencial existe. O que falta é vínculo e relação de médio e longo prazo. Precisamos de marcas que compreendam o tempo do lugar, que se envolvam com sua complexidade e que entendam que impacto não se mede apenas por alcance, mas por capacidade de fortalecer ecossistemas locais.

Quando essa relação não acontece, o resultado é conhecido: o dinheiro gira, mas não estrutura. A visibilidade passa, mas não gera pertencimento. A economia cresce em volume, mas não em qualidade

Foi exatamente a partir dessa lacuna que o Oxigênio Ilhabela nasceu entregando seu primeiro projeto para o arquipélago: o TEDx Ilhabela.

O TEDx Ilhabela foi nosso cavalo de tróia que pulsou um novo ciclo de consciência e ambição para quem ama a Ilhabela. O que era para ser 10 palestras potentes, se tornou tecnologia social e fortalecimento comunitário.

EMPREENDER COMO FORMA DE OXIGENAR O TERRITÓRIO

Ilhabela não tem universidade. Não teve, por décadas, acesso estruturado à educação adulta em empreendedorismo, liderança ou gestão. Aqui aprender é fazer curso técnico para alimentar a indústria existente que foca em uma coisa: mão de obra. Isso gerou um déficit na qualidade média de produtos e serviços oferecidos.

Ao mesmo tempo, quem vem de fora muitas vezes chega exaurido da lógica corporativa e não quer empreender no sentido clássico. Quer investir, gerar renda recorrente e qualidade de vida.

Essa tensão revela uma oportunidade enorme.

Empreender aqui não é sobre escala. É sobre proposta de valor, identidade cultural e pertencimento.

É sobre fortalecer negócios locais como parte da infraestrutura social do território, é daí que a aderência junto a minha articulação territorial e de outras lideranças locais envolvidas faz a confluência acontecer.

OXIGÊNIO ILHABELA: INOVAÇÃO ABERTA DE DENTRO PARA FORA

O Oxigênio Ilhabela nasce dessa leitura. Não como uma incubadora tradicional, mas como um hub de inovação aberta territorial.

A lógica dialoga com modelos validados pelas corporações, como o Cubo Itaú, mas aplicada a cidades pequenas com vocação turística, onde a chave não é apenas lançar produtos, e sim estruturar ecossistemas locais capazes de operar soluções com autonomia, protagonismo e pertencimento.

Sua metodologia amadurece a partir da experiência do desNegocio, que construiu um dos principais repertórios de negócios de impacto do país e implementou, junto ao Instituto NUA, uma escola de aprendizagem empreendedora em territórios periféricos — a iniciativa foi pauta aqui no Draft —, reconhecida pela Aliança Aipê como uma das tecnologias sociais mais transformadoras em mobilidade social e inclusão produtiva.

Mesmo com poucos meses de vida, o Oxigênio já articula projetos próprios, ativações culturais, experiências de turismo de base comunitária e conexões com organizações nacionais e internacionais, como Diáspora Black e Sitawi.

UM TERRITÓRIO PEQUENO, CONECTADO AO MUNDO

Ilhabela está a cerca de três a quatro horas do Aeroporto Internacional de Guarulhos, o maior hub aéreo da América Latina. Está mais próxima do mundo do que muitos deslocamentos diários dentro das grandes cidades.

É por isso que qualificar as relações com lideranças e outras organizações globais é prioridade aqui também. Hoje fazemos parte da rede global RITA Earth, conectando inovação territorial, regeneração e novos modelos econômicos.

Canal que separa Ilhabela do continente (crédito da foto: André Augusto).

O que acontece aqui não é isolado. Dialoga com desafios de qualquer município turístico do Brasil, só que alguém precisa começar essa revolução para ser replicada junto a outras e outros agentes locais que queiram replicar a tecnologia social validada. Esse diálogo já começou por exemplo com Ubatuba através do Impact Hub.

O FUTURO ACONTECE ONDE A VIDA FLORESCE

Minha transição para Ilhabela não foi um plano de aposentadoria.
Foi uma escolha presentista.

A vida ficou líquida.
O trabalho ficou híbrido.
O tempo ganhou outro valor.

Não escrevo isso para incentivar mudanças definitivas, mas para convidar à fluidez. Passar alguns dias aqui para além do fim de semana, faz você perceber o território te observando e sentir o melhor caminho para investir, ativar marcas e/ou fortalecer iniciativas

Mas sem deixar de lado o principal cliente no centro: a Ilhabela.

Algumas transformações não começam com um e-mail ou uma conexão no LinkedIn.

Te espero aqui com corpo presente e espaço para o novo.

 

Aziz Camali Constantino atua na interseção entre territórios, organizações e comunidades, articulando inovação, impacto social e pertencimento como estratégia de futuro. Vive em Ilhabela há cinco anos, dedicando-se ao fortalecimento de ecossistemas locais, inovação aberta territorial e educação empreendedora orientada à regeneração social, econômica e cultural. É cofundador do desNegocio e idealizador do TEDx Ilhabela, criado para honrar o território e ativar novas ambições coletivas.

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