O Grupo Tellus descontinuou um braço de atuação e cresceu 150% focado em design de serviços públicos

Marina Audi - 23 maio 2019
Parte do time do Tellus: em apenas dois anos, a equipe dobrou de tamanho e conta hoje com 84 pessoas.
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Antes que você se questione sobre a possibilidade de uma ONG ou OSCIP sofrer “dores” de crescimento semelhantes às de uma startup, saiba que a resposta é: sim, acontece.

Pelo menos foi o que aconteceu com o Tellus, uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que aplica design de serviços no setor público e tem como diferencial a implementação de ações cocriadas. Agora, decorridos dois anos desde a primeira reportagem do Draft, pode-se dizer que seus resultados equivalem aos de uma startup longeva de alto rendimento.

Em julho, o Tellus completará nove anos de atuação. Na visita mais recente do Draft, Germano Guimarães, cofundador e diretor geral do Grupo, e Alix Birche, diretora do Instituto Tellus, contaram que a organização cresceu 150% em 2018 — mesmo tendo descontinuado a Escola Tellus, um dos três pilares de atuação inicial.

Hoje, estão ativos os braços da Agência Tellus (que faz Design de Serviços Públicos, Design Estratégico e Serviços Públicos Digitais, ou como Alix gosta de descrever, “nosso do tank”) e do Instituto Tellus, que publica artigos, faz pesquisas e atua no mercado de palestras (é o “think tank” do grupo, ainda segundo Alix).

“No primeiro momento, fazíamos tudo: consultoria, cursos, palestras, pesquisas”, relembra Germano. “Em 2018, demos uma afunilada e pivotamos para ter mais foco.”

A reportagem original sobre o Tellus foi publicada no Draft em março de 2017. Clique e leia.

Mesmo com a mudança, ou talvez por isso mesmo, o grupo chegou a alguns números consistentes: 157 projetos realizados (contabilizando-se todos os cursos e iniciativas) e 2,3 milhões de cidadãos impactados.

Além disso, o Tellus firmou parcerias com 111 organizações (de todos os setores), que patrocinam ações diversas nas áreas de cultura, desenvolvimento social, educação, empreendedorismo, gestão, juventude, mobilidade urbana, saúde e turismo.

Germano conta que, ainda na faculdade, idealizou seu objetivo de aumentar a qualidade de vida dos cidadãos por meio da melhoria dos serviços públicos e prevenir o desperdício de recursos. Um propósito que, ele acredita, ganhou adeptos tanto internos quanto externos:

“Aumentamos o nosso sonho grande. No médio prazo, queremos impactar 10 milhões de pessoas, porque acreditamos na capacidade do Estado de gerar impacto social em escala!”

Isso será possível, segundo o diretor do grupo, por três motivos. Primeiro, porque cada vez mais corporações entendem que com o mesmo valor de investimento social destinado a uma iniciativa privada restrita é possível conduzir projetos em conjunto com o Poder Público brasileiro — cuja capilaridade e extensão são continentais — e escalar o número de beneficiados. Só para dar uma dimensão: em 2017, eram 18 corporações parceiras do Tellus; de lá para cá, houve um crescimento de 600%.

O segundo motivo apontado por Germano é que os gestores públicos já conseguem vislumbrar a importância de se acompanhar a velocidade de mudanças na sociedade, o que exige um salto de qualidade com inovação. “A ficha caiu… ou melhor dizendo, o download do novo mindset aconteceu!”, diz Germano, com bom humor. “Agora, essas pessoas levantam a bandeira e cobram prefeitos, secretários e ministros.”

Por fim, o terceiro argumento listado pelo cofundador do Tellus é que existe cada vez mais gente, no âmbito da sociedade civil, olhando para os desafios e querendo ajudar — afinal, melhorar a política pública impacta milhares de vidas.

Não à toa, a equipe do Tellus cresceu. Hoje, há 84 pessoas (o dobro de 2017) tocando 19 projetos simultâneos em 16 estados do país. A retenção de talentos, explica Alix, se dá tanto pela afinidade de propósitos quanto devido à possibilidade de se atuar em áreas diferentes, com projetos diferentes, ao longo da permanência no grupo. Essa amplitude de conhecimentos e conteúdos com que os profissionais têm contato impulsiona o autodesenvolvimento, motiva as pessoas e fortalece o engajamento.

Um exemplo é o Área 21, laboratório de criatividade por onde já passaram 1 000 jovens em situação de alta vulnerabilidade social (confira aqui o vídeo institucional). O projeto, implementado no Instituto Ana Rosa e no Centro Educacional Assistencial Profissionalizante (CEAP), tem Samsung, Fundação Telefónica/Vivo, Cielo, Comgás, Mattos Filho, BrasilPrev e Condeca como parceiros, e acaba de receber menção honrosa do World Changing Ideas 2019 na categoria Educação.

 

Laboratório do Projeto Área 21, que recebeu menção honrosa no World Changing Ideas 2019.

FECHAR UM CICLO PARA ATINGIR UM CRESCIMENTO AINDA MAIOR

Em fins de 2017, tudo ia bem no Tellus, dentro da vivência espartana de orçamento de uma organização sem fins lucrativos, como destaca Germano. A partir de outubro daquele ano, iniciava-se um novo ciclo de planejamento estratégico. Por conta disso, as várias equipes sentaram com seus gestores para um processo de escuta, partilha de aprendizados e desafios, visando o futuro. Recolhidos os feedbacks, a diretoria reuniu-se e entendeu que, embora a Escola Tellus tivesse expandido 100% de um ano para outro, a Agência Tellus e os projetos de desenvolvimento e implementação de serviços públicos inovadores havia crescido ainda mais: 300%.

Segundo Germano, ficou claro para os membros da diretoria do grupo que aquele era o momento de ajustar o rumo e focar na execução e operação do braço que apresentava maior tração no mercado.

“Decidimos concentrar nossos esforços e manter a excelência no que fazemos. Com esse alto crescimento, havia necessidade de fomentar a cultura interna e fortalecer vínculos, consolidar processos, estruturar as bases sólidas, recrutar e reter talentos”, diz Germano, afirmando que o processo todo de fechar um ciclo funcionou como um “grande aprendizado”.

A decisão foi tomada em conjunto com o Conselho, em maio de 2018. Havia então a preocupação de como o time reagiria. “Internamente, a recepção e o processo de transição foram muito fluidos. Foi muito legal porque fez sentido para todo mundo!”, diz Alix, completando: “Em julho, trinta dias após o encerramento das atividades da Escola Tellus, 100% das pessoas haviam sido realocadas nas demais equipes da Agência.”

Dentro do novo desenho com dois eixos de atuação, ficou estabelecido que o Instituto Tellus seria impulsionado para que o conhecimento gerado na Agência Tellus fosse disseminado fora dos grandes centros urbanos brasileiros de forma gratuita, efetiva e organizada.

Alix assumiu o think tank do Tellus com a missão de torná-lo mais proativo. Continuam em vigor a participação em congressos e palestras e a realização de pesquisas encomendadas por parceiros interessados em entender mais sobre inovação em políticas públicas voltadas para nichos específicos (como educação, mulheres ou terceira idade). Foi traçada também a meta de se publicar dois artigos semanais no site, a fim de compartilhar as experiências. Alix diz:

“Decidimos fortalecer o Instituto para trabalhar com a sistematização e a curadoria de todo conhecimento gerado a partir da experiência prática nos projetos, para que mais pessoas possam se inspirar”

Outra mudança veio com a identificação, durante o planejamento estratégico, de um novo segmento de atuação: auxiliar o Poder Público em sua transição digital. Em termos de trabalho, isso significa digitalizar serviços totalmente presenciais e melhorar a experiência do usuário com serviços públicos que já contam com ferramentas digitais.

APLICANDO O CONCEITO DO SEMPARAR A UM POSTO DE SAÚDE

Assim, no início de 2019, foi entregue o protótipo do Engajamento Digital na Saúde na UBS de Portão, em Cotia, município da Grande São Paulo. Roche e Instituto Betty & Jacob Lafer são parceiros nesse projeto, que tem o objetivo de melhorar a mecânica de agendamento de consultas na saúde básica, feita presencialmente, e de quebra diminuir a taxa de absenteísmo (como o intervalo entre o agendamento e a consulta é grande, acredita-se que muita gente acaba faltando por esquecimento).

A dupla solução encontrada foi instalar um totem de autoatendimento na UBS e criar um aplicativo com UX bem simples, para agendamento e envio de SMS com a confirmação e lembretes a respeito da consulta. O totem funciona como uma “recepção adiantada”, emitindo a senha de atendimento, informando (por meio do painel eletrônico) o número da sala a que o paciente deve se dirigir e oferecendo a possibilidade de reagendar consultas, se necessário.

Mock up do aplicativo e totem do projeto Engajamento Digital na Saúde, implementado em Cotia, na Grande São Paulo.

“Pensamos em aplicar o conceito do SemParar na saúde”, diz Germano, referindo-se ao sistema de pagamento eletrônico que agiliza a passagem por postos de pedágio. Três meses após a inauguração do Engajamento Digital na Saúde, o absenteísmo na UBS de Portão caiu de 38% para 22%. A meta é chegar a 10% e escalar a iniciativa para mais 25 unidades.

De acordo com os diretores, esse tipo de projeto já representa 20% do que a Agência Tellus faz — e tende a aumentar sua participação. Sobre as “dores” do crescimento que afetam cada empreendedor (mesmo aqueles à frente não de uma empresa, mas de uma OSCIP), Germano conta que precisou aprender a delegar:

“Tive de me autoconhecer, disciplinar e organizar para não deixar de fazer o que me apaixona. Entendi que minhas funções de gestor de pessoas e de projetos aumentou. Portanto, agora, me programo para estar na ponta em todos os projetos [apenas] no momento em que eu faça diferença. Tenho de pensar o que agrego e o que não agrego mais ao projeto. E isso me fez enxergar as qualidades do outro.”

Crescer exige desprendimento, confiança e a disposição de empoderar o outro. No Tellus, os diretores têm vivido e praticado essa reflexão no dia a dia.

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