O negócio de ser palhaça continua, mas hoje é uma nova empresa, com outra abordagem e um novo nome

Marina Audi - 11 Maio 2017 As sócias na nova empresa, Costuras do Invisível: Cris Chiofalo no meio das palhaças Consuelo (Nina Campos, à esquerda) e Solenta (Mônica Malheiros).
As sócias na nova empresa, Costuras do Invisível: Cris Chiofalo no meio das palhaças Consuelo (Nina Campos, à esquerda) e Solenta (Mônica Malheiros).
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À primeira vista, a história de Marina Campos, a Nina, continua a gerar espanto. Depois de trabalhar, durante 15 anos, com planejamento estratégico em publicidade e chegar ao cargo máximo de uma agência multinacional, ela virou palhaça. “Muita gente me fala que larguei tudo para virar palhaça. Mas não foi bem assim: o processo inteiro durou sete anos. Fui diretora e estava feliz, mas com o tempo não estava mais”, conta Nina (você pode vê-la falar a respeito na primeira vez que apareceu no Draft, e também nesta palestra do TEDx Vila Madá).

Marina apareceu no Draft pela primeira vez em 2015 (clique na foto para ler a reportagem).

Nina apareceu no Draft pela primeira vez em 2015 (clique na foto para ler a reportagem).

Junto com a arte-educadora e psicóloga Mônica Malheiros, em 2007, Nina abriu uma consultoria chamada POP – Palhaços a Serviço das Pessoas, que tinha a proposta inovadora de ir às corporações e usar a linguagem do palhaço como ferramenta para entendimento entre as pessoas.

Desde lá, Consuelo & Solenta (os nomes de palhaça de Nina e Mônica) já se apresentaram em inúmeras empresas, dos mais variados segmentos, para plateias pequenas e grandes e sempre foram bem-recebidas! O objetivo final delas é que as empresas e seus funcionários aprendam a lidar melhor com ambientes e relações de trabalho. “Não tenho palavras para descrever o tamanho da minha alegria por fazer o que eu faço”, diz Nina, e reflete:

“No processo de caminhar, há os anos de dúvida, quando sua família acha que você é louca. Hoje, estou agradecida por estar neste lugar!”

Em 10 anos de vivências, as empreendedoras perceberam que, no fundo, ajudam os profissionais das empresas-clientes a passarem por um processo de transformação e a se reconectarem com seu Homo Ludens (a dimensão mais criativa e espontânea, onde tudo é possível), que é responsável pelo tão valorizado protagonismo. Nina conta que os clientes são fiéis e voltam a procurá-las para dar continuidade às iniciativas, pois processos de mudança são contínuos.

O balanço financeiro corrobora esta avaliação: há três anos, os números da POP mantêm-se iguais. Ou, nas palavras de Nina: “Sobrevivemos apesar da crise. Temos o mesmo faturamento e o mesmo número de propostas realizadas”. A cada ano, elas fazem de 40 a 50 projetos.

Hoje, os serviços prestados — como as Salas de Escuta (trabalho de diálogo nas organizações) e os Cursos de Autonticidade — continuam, mas não se restringem ao mundo corporativo-comercial. Elas participaram do desenvolvimento de um programa de sensibilização de médicos e, lançado em janeiro do ano passado no Hospital Universitário da USP, em São Paulo, O Paciente Simplificado.

O objetivo é que os profissionais de saúde aprendam a lidar melhor com o sofrimento dos pacientes, o que facilita o trato com eles. O projeto acaba de ser aprovado e será replicado na Beneficência Portuguesa, também em São Paulo, e os criadores pretendem escalar a iniciativa em outros estados, com o apoio de mais palhaços e facilitadores.

EU SOU PORQUE NÓS SOMOS

Por transitar muito bem por esferas bem distintas do mercado (de grandes bancos a empresas de cosméticos e alimentos), a POP desenvolveu o hábito de trabalhar em parceria com outras empresas como, por exemplo, a Live Work e a Rede Ubuntu. Foi ali que Nina reencontrou a ex-colega do curso de pós-graduação em Jogos Cooperativos e Pedagogia de Cooperação: a atriz Cris Chiofalo. “A reaproximação foi muito orgânica, aconteceu naturalmente. A colaboração em um projeto levou a outro… e a outro”, conta Cris. Ela é especialista em Comunicação Não-Violenta (CNV) e procurava criar tempos e espaços de encontros entre pessoas, por meio da arte e de jogos.

Mônica Malheiros, como Solenta, e Nina Campos, como Consuelo: novos negócios à vista.

Mônica Malheiros, como Solenta, e Nina Campos, como Consuelo: novos negócios à vista.

A CNV é uma técnica que visa a mudança do hábito de se expressar o que quer de forma impositiva e desatenta e estabelece relações em que predominam a compaixão e a empatia. Cris explica que a palavra-chave entre CNV e a linguagem do palhaço é: escuta. Ambas podem ser usadas para integrar, flexibilizar e apoiar equipes, então a união de esforços se mostrava perfeita! A afinação conceitual também se refletiu no âmbito do empreendimento e, em outubro de 2016, concretizou-se a entrada da terceira sócia na (ainda) POP.

Por desenharem (com toques de planejamento estratégico) workshops, cursos, treinamentos e eventos que misturam a experiência do palhaço com a vivência de jogos que trabalham criatividade, confiança, liderança, resiliência, entre tantas outas habilidades fundamentais para os profissionais de hoje, a designação de POP –Palhaços a Serviço das Pessoas começou a soar restritiva. Nina fala dessa inadequação: “Queríamos que os clientes percebessem que temos essa visão completa de uma relação melhor entre as pessoas”.

O logotipo da nova empresa foi inspirado em um cartão de aniversário que Cris deu a Nina (ilustração: Anna Cunha).

O logotipo da Costuras do Invisível é inspirado em um cartão de aniversário que Cris deu a Nina (ilustração: Anna Cunha).

Por outro lado, existia um apego com o nome original, afinal as empreendedoras já tinham uma reputação construída como POP. As três sócias decidiram, então, promover uma transição suave para a nova forma de se apresentarem ao mercado, agora, como Costuras do Invisível. Metáfora da vida real, o novo site está em construção.

Na Costuras do Invisível elas pretendem continuar a oferecer os serviços de workshops, oficinas, projetos e eventos como palhaças. Porém, buscarão aprofundar o trabalho com as equipes, incluindo novidades como a linguagem da CNV, a Pedagogia da Cooperação e outras ferramentas que a dupla colecionou nos últimos dez anos.

Nina e as sócias já se posicionam com o novo nome. E ela conta que isso tem chamado atenção e “atiçado” as pessoas, já que agora ela tem uma coisa invisível para vender. “Escolhemos enfrentar a dificuldade de ter de explicar, porque é uma proposta nova mesmo. Falar a respeito é também a possibilidade de costurarmos isso junto com o cliente”, diz.

Enquanto palhaças, ao longo dos anos, as sócias nunca tiveram medo de responder ao questionamento: Mas o que, exatamente, vocês fazem? Agora elas já têm na ponta da língua uma definição para o novo nome: “É o conceito de design para as relações humanas, que leva em consideração as sutilezas e o invisível inerente às inter-relações, que está sempre presente, mas é pouco lembrado”.

São 10 anos de histórias e aprendizados. Se a transição da publicitária para a palhaça levou tempo, a consciência de que estava também se tornando empreendedora demorou a chegar. Nina fala:

“No começo eu não me via como empreendedora, só queria colocar meu sonho em pé. Foram quatro anos até eu entender que empreendia o meu negócio”

Atualmente, diz, seu foco claro está mais claro: ela não é dona de uma empresa que vende projetos, “porque isso não é sustentável”. A Costuras do Invisível, portanto, faz parcerias com clientes para resolver os desafios deles. Isso implica em um trabalho mais aprofundado e possibilita relações de longo prazo. Com esta proposta de trabalho, Cris, Nina e Mônica apostam que subirão um degrau e saltarão para uma nova fase. Nina fala: “Tudo foi muito pensado, muito cuidado e agora… é”. Bem costuradinho.

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