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O pet como usuário: a revolução do consumo, do mercado e da habitação multiespécie

Letícia Schinestsck - 16 set 2026 Letícia Schinestsck, doutora em Linguística Aplicada, netnografia e social listening do Atelier do Futuro.
Letícia Schinestsck, doutora em Linguística Aplicada, netnografia e social listening do Atelier do Futuro.
Letícia Schinestsck - 16 set 2026
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Não é de George Orwell, mas é revolução. E é dos bichos. 

Se antes eles dormiam na rua, hoje os espaços já são projetados pensando no bem estar e acessibilidade deles, dando uma participação ativa nas decisões da casa onde se vai viver. Se comiam sobras de comida, hoje contam com uma indústria de pet food em plena ascensão, um mercado saudável e natural que coloca a alimentação de muito humano no chinelo. Os trapos velhos que serviam de coberta, deram espaço a uma infinidade de caminhas e casinhas.

Hoje, existe um mercado pet que é território estratégico e fala muito mais do que de consumo, mas de lifestyle, identidade e comportamento, deixando de ocupar um espaço específico na economia para assumir um papel de protagonismo e transformação em diferentes setores 

O futuro multiespécie não é um segmento, ele é um movimento cultural com um mercado que cresce junto com o comportamento do consumidor.

A REVOLUÇÃO DO MERCADO

Dados da Mordor Intelligence indicam que o mercado global de cuidados com animais de estimação alcançou 380 bilhões de dólares em 2025 e deverá atingir 650 bilhões de dólares até 2030. 

Há um crescimento impulsionado pelos hábitos de consumo e comportamento de Millennials e da Geração Z, que têm demonstrado especial interesse e disposição em gastar cada vez mais com animais de estimação. 

Aqui não é diferente. Segundo o IBGE e a Pesquisa de Orçamentos Familiares, o Brasil possui a terceira maior população pet do mundo. Assim, enquanto a quantidade de filhos por residência tem diminuído, o número de pets continua crescendo dentro das famílias

Cofundadora do Studio Fallas (Fallas Branding), a designer gráfica, diretora de arte e estrategista de marcas Mary Loschi tem direcionado sua atuação para o universo pet, assinando projetos de identidade visual como o rebranding da Thunder Paws. Ela conta que a empresa que tentar entender o pet através do padrão, do que funcionou até hoje, vai acabar ficando cada vez mais para trás. É preciso entender a individualidade deles.

“As marcas pet precisam olhar para o indivíduo humano e para o indivíduo animal. Afinal, elas estão tratando de dois consumidores: um que paga e outro que consome. Eles nunca vão ser a mesma pessoa. A busca pelo indivíduo único e pela exclusividade está em alta e a relação humano e pet é um movimento vivo que está gerando mudanças muito rápidas e se adaptando”.
Mary Loschi, cofundadora do Studio Fallas (Fallas Branding)

Precisamos ser realistas, há muitos pets com um armário mais fashion que o seu. Tem roupas para todas as ocasiões, estações do ano e estilos. Do cool ao mais conservador, do metaleiro ao clássico, do nerd ao militante. É impossível não encontrar alguma peça que não se reconheça. As identidades também estão sendo construídas assim.

Dolce & Gabbana criou o perfume Fefé para pets, O Boticário lançou a linha Au.Migos. Adidas divulgou uma coleção exclusiva de roupas e acessórios para animais. A Stanley desenvolveu o Pet Bowl, feito com a mesma tecnologia de seus produtos que retém temperaturas para manter a água fresca e incentivar a diminuição do uso de plásticos no dia a dia. Até mesmo a Rimowa, agora possui a linha Pet Carrier Bag, uma bolsa para transportar animais de até 8kg que é feita para ser acoplada às malas da marca.

“Hoje as pessoas buscam produtos que atendam às necessidades específicas de cada um e isso permite que se cresça em nichos. Uma das grandes mudanças de comportamento que está acontecendo é que as pessoas estão se reunindo em torno dos pets. E isso, com certeza, impacta a casa”
Guilherme Kodja, cofundador da Móveis Movêu

Designer e empresário à frente da Móveis Movêu, Guilherme Kodja foca em soluções de mobiliário modular que unem funcionalidade, sustentabilidade e novas formas de habitar. 

Dentre os diversos produtos oferecidos, ele explica que a arquitetura e os espaços domésticos contemporâneos também estão sendo adaptados e redesenhados para acolher as rotinas e necessidades de famílias que integram membros não-humanos

Móvel da Movêu Pet.

Móvel da Movêu.

 O próprio setor automobilístico está visando tal revolução. Um conceito interessante é o proposto pela Peugeot. Sabendo que 64% dos donos de cães pretendem viajar com o animal nas férias e mais da metade dos proprietários de SUVs grandes têm um cão em casa, a marca lançou o E-5008 Dog Edition Concept, um SUV elétrico inteiramente pensado para o bem-estar pet. O carro foi projetado a partir da perspectiva do animal, reinterpretando cores, materiais e funcionalidades conforme a visão e sensibilidade canina. 

Peugeot E-5008 Dog Edition.

Peugeot E-5008 Dog Edition.

O carro traz uma visão inovadora, com colchão modular, apoio para cabeça, coleira conectada, comedouros integrados e até um secador para pets, além de incluir o software Dog Guardian Mode para monitoramento de temperatura e presença do animal e do Dog Retriever que emite som para localizar cachorros perdidos.

O HABITAR COLETIVO

As revoluções não param. Depois de impulsionar mercados como alimentação, saúde, moda, turismo e serviços, os pets agora influenciam uma das decisões mais importantes da vida de muitas famílias: a compra ou o aluguel de um imóvel.

Já não se trata de escolher um lugar para morar e levar o pet junto. É muito mais que isso. Hoje, eles não são vistos mais como posse, mas como parceiros de vida. 

Arquiteta, escritora e apresentadora do programa Decora (GNT), destacada na lista Forbes Under 30 em Design, Arquitetura e Urbanismo, Stephanie Ribeiro defende exatamente essa visão. 

Ao cruzar a crítica do urbanismo contemporâneo com a experiência cotidiana e afetiva de caminhar a pé pelo tecido urbano ao lado de seu cão, Basquiat, Stephanie revela como a infraestrutura das cidades e as dinâmicas de classe e território moldam as rotinas e o direito à cidade na convivência multiespécie

Stephanie conta como foi determinante encontrar um bairro “passeável” para viver ao lado do seu Chow-Chow, esbarrando em questões urbanísticas que vão desde os desníveis dos pisos até locais com calçamentos mais planos e largos, planejamentos de distância etc. 

“Quando eu estou escolhendo uma casa, também estou escolhendo para o Basquiat. Os cachorros têm suas nuances, são subjetivos também. As pessoas não enxergam um animal como um ser, mas como um estereótipo, uma coisa”
(Stephanie Ribeiro, arquiteta e urbanista) 

Stephanie Ribeiro com seu Chow-Chow Basquiat.

Stephanie Ribeiro com seu Chow-Chow Basquiat.

Pesquisa divulgada pela Brain Inteligência Estratégica revela que 26% dos compradores priorizam empreendimentos que oferecem infraestrutura voltada para pets na hora de decidir onde morar. Espaços de convivência, áreas de circulação, pet places, playgardens e ambientes destinados a banho e tosa passaram a integrar a lista de atributos considerados relevantes na decisão de compra. O dado reforça uma mudança de comportamento que vem sendo observada nos últimos anos. 

Os animais de estimação deixaram de ser apenas companheiros da família para ocupar um papel central no planejamento da rotina doméstica 

Hoje, o bem-estar dos pets influencia escolhas relacionadas ao consumo, lazer, mobilidade e, cada vez mais, à moradia.

PET FRIENDLY, PET FIRST E PET NATIVE

Elis dos Anjos é designer, estrategista e pesquisadora da conexão entre marcas e o futuro multiespécie, com 17 anos de carreira dedicados a traduzir desafios socioambientais complexos em soluções inovadoras. CEO e fundadora da Criamia e do Morar Bem Pra Cachorro, é hoje referência brasileira em branding multiespécie. 

Ela explica a diferença entre os termos Pet Friendly, Pet First e Pet Native, conceito criado através do Morar Bem Pra Cachorro. No Pet Friendly, o cão é tolerado. Existe uma placa, existe uma regra, mas não existe projeto. Já no Pet First, o animal é considerado. É quando alguém pensa nele depois que o projeto está pronto. Por outro lado, no conceito de Pet Native, o animal está presente desde o briefing.

“O Pet Native surge para trazer projetos nativos. Tá na hora da gente pensar desde o projeto a inclusão da família multiespécie. Quando fala em pet native, a gente tá implicando em transformações no eixo imobiliário de empreiteiras e tudo mais, mas também em matéria de urbanização, construção de bairros, reconstrução de bairros e cidades. Estamos falando literalmente de place branding”
(Elis dos Anjos, CEO da Criamia e do Morar Bem Pra Cachorro)

O conceito Pet Native articula habitação e cidades brasileiras a partir do reconhecimento de famílias multiespécie em escalas que compreendem o habitar

A marca coordena projeto piloto inter-residencial de mapeamento com IA do comportamento canino — e futuramente felino — para fundamentar empiricamente o que é morar bem entre espécies. 

“O primeiro passo importante ao projetar produto, serviço, comunicação e marca, é você entender que o animal sente, que são seres sencientes. Então a gente deixa de desenvolver um produto, um serviço, uma marca a partir do olhar humano para desenvolver um produto, um serviço e uma marca a partir do ponto de vista animal. Do ponto que experimenta o animal, das necessidades do animal.”
(Elis dos Anjos, CEO da Criamia e do Morar Bem Pra Cachorro)

Diante desse cenário em plena expansão e transformação, uma coisa fica clara: a visão do pet como usuário veio para ficar

A tendência é que essa revolução se transforme em algo permanente, consolidando comportamentos e solidificando uma nova cultura entre seres humanos e não humanos. 

 

Letícia Schinestsck é doutora em Linguística Aplicada, netnografia e social listening do Atelier do Futuro e do estudo Futuro Multiespécie.

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