O Trampos mudou o modelo de negócios, criou um braço de educação e ampliou a base de empresas e profissionais

Camilla Ginesi - 6 jun 2019
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“Despanelizar” o recrutamento. Ou seja: acabar com a “panelinha”, dando oportunidades, na busca por um emprego, a candidatos que não têm alguém que os indique para aquela vaga dos sonhos. É assim que o CEO Tiago Yonamine, 34, define a proposta do Trampos, que nasceu no Twitter em 2008 e virou negócio em 2012.

Na época da primeira reportagem do Draft, em 2015, o Trampos havia acabado de receber um aporte da gestora de fundos de investimento Evolution Partners, mas o mercado de recursos humanos ainda era dominado por players tradicionais, como Catho e Robert Half.

A primeira reportagem do Trampos no Draft foi publicada em janeiro de 2015. Clique e leia.

“Nossa missão ainda era convencer as empresas de que vale a pena investir para conseguir novos talentos e de que a nossa abordagem descolada funciona”, lembra Tiago.

O modelo de geração de receitas do Trampos funcionava então de forma bem parecida com o dos classificados de jornais: a empresa contratante simplesmente comprava um espaço — no caso, um espaço online, que ficava no ar durante 30 dias e depois sumia. Assim, não havia previsibilidade de receita ou garantia de que os clientes retornariam.  

“Havíamos chegado num platô. Mesmo que conquistássemos novos clientes, não conseguíamos aumentar o nosso impacto no mercado”

De lá para cá, as novidades foram muitas. O Trampos mudou seu modelo de negócio, criou um braço de educação com aulas presenciais, firmou parcerias e aumentou os números de empresas e de profissionais em sua base, que cresceram respectivamente 90% e 120%. Atualmente, há mais de 5 300 companhias utilizando a plataforma e 398 mil candidatos cadastrados.

“Hoje, já estamos estabelecidos. Inclusive, não temos mais apenas agências de publicidade e comunicação como clientes, mas também grandes companhias tradicionais, como Bradesco, Ambev e Danone.”

O SISTEMA DE ASSINATURAS AJUDOU A ALAVANCAR O FATURAMENTO

A ascensão dos millennials — aquela turma nascida entre o início da década de 1980 e o fim dos anos 1990 — e sua chegada ao mercado de trabalho são, na visão de Tiago, a principal força por trás da mudança de mentalidade das empresas em relação às contratações. “Como o perfil dos candidatos mudou, o modo de buscá-los também teve que mudar.”

Para aproveitar essa onda e potencializar seu impacto, o Trampos transformou seu modelo de negócio, implementando um sistema de assinatura mensal que dá às empresas clientes o direito a funcionalidades como publicação de vagas, busca ativa de talentos e páginas de carreiras customizadas e integradas com o site institucional da companhia.

O preço muda de acordo com o número estimado de contratações no período e começa em 350 reais mensais (para pequenos negócios). “O investimento varia de acordo com o perfil de cada empresa. Nossos especialistas fazem um diagnóstico do processo de recrutamento dos clientes e sugerem o plano que melhor se adequa a cada um deles”, diz Tiago. Os pagamentos recorrentes ajudaram a alavancar o faturamento, que hoje cresce em média 20% ao mês.

A equipe do Trampos

O cadastro de profissionais na plataforma é gratuito; há a opção de assinar o serviço Prime (R$ 14,99 mensais) em troca de maior relevância nos resultados da busca ativa e do Caesar, o sistema de gerenciamento de candidaturas do Trampos.

Assinantes do Prime têm ainda 5% de desconto no Trampos Academy, braço criado em 2016 para oferecer aulas presenciais de comunicação e tecnologia para os profissionais cadastrados no serviço. A plataforma responde hoje por 30% das receitas do Trampos.

“A ideia é ajudar os candidatos a se adequarem às vagas que gostariam de ocupar”, diz Tiago. Mais de 1 500 alunos já assistiram às aulas. O portfólio inclui 19 cursos, como “Jornalismo de dados” e “Business Intelligence para Marketing e Publicidade”. Os valores variam. O curso de “Storytelling para marcas”, por exemplo, com três aulas no inovabra habitat a partir de 25 de junho, custa 780 reais.

Uma estratégia que ajudou a impulsionar os números de empresas e profissionais cadastrados foi estabelecer parcerias com órgãos públicos e coletivos independentes (caso do Afroguerrilha, composto por jovens negros que usam a comunicação como instrumento de resistência).

Uma dessas parcerias foi firmada no fim do governo Michel Temer com o Ministério da Cidadania. “É uma iniciativa para inserir no mercado de trabalho alunos brilhantes da rede pública que recebem Bolsa Família”, diz Tiago.

ENCARANDO O RECRUTAMENTO COMO UM PROCESSO CONSTANTE

Um desafio hoje é convencer as empresas de que o recrutamento deveria ser encarado como um processo permanente (em vez de pontual). Essa abordagem permitiria inclusive um conhecimento maior sobre a média salarial e o perfil dos profissionais contratados pela concorrência.

“Geralmente, as empresas só pensam em recrutamento quando entra um novo projeto ou algum funcionário é desligado. E aí os recrutadores precisam correr contra o relógio para encontrar o profissional desejado”

Nesse contexto de urgência, diz Tiago, não é incomum realizar contratações equivocadas, que podem gerar um alto custo mais tarde. O empreendedor sugere que a melhor tática é manter o monitoramento constante do mercado e realizar seleções periódicas para formar um pool de talentos. “Assim, quando for necessária uma contratação, o recrutador já tem profissionais que podem ser acionados para uma conversa.”

Para o futuro, Tiago vislumbra aproveitar a experiência com profissionais da áreas de Comunicação e Tecnologia para ajudar empresas de outras áreas nas suas transformações digitais. “Atualmente, até um profissional de contabilidade precisa saber de banco de dados, de comunicação. Com os negócios, é a mesma coisa”.

As mudanças na vida de Tiago também foram grandes no plano pessoal. Nos últimos anos, ele se casou e mudou para mais perto do trabalho. “Costumava perder mais de duas horas por dia no trânsito. Agora, moro no Centro de São Paulo e tenho mais tempo para tudo.”

Quatro anos atrás, na época da primeira reportagem do Draft, ele ainda “estava aprendendo a ser empreendedor”. Acredita, hoje, ter amadurecido um bocado no período. Perguntado sobre o que faria diferente se pudesse voltar atrás, Tiago hesita um pouco antes de responder:

“Às vezes, penso que deveria ter feito um milhão de coisas de outra forma. Mas, ao mesmo tempo, foram as decisões que tomei que me trouxeram até aqui. Então, não mudaria nada.”

 

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