“Perdi as contas de quantas noites virei em claro pintando os cabelos e fazendo escova para me encaixar nos padrões estéticos”

Daniela De Bonis Coutinho - 20 maio 2022
Daniela De Bonis Coutinho, Community Manager do grupo Grisalhas Assumidas e em Transição (foto: Studio 605).
Daniela De Bonis Coutinho - 20 maio 2022
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Em busca da liberdade de ser exatamente quem eu sou, da liberdade de estar fora de padrões que nunca fizeram sentido para mim, encarei muitas transições no decorrer da minha história.

Uma delas acabou mudando todo o curso da minha vida: a transição para os cabelos grisalhos.

Em 2016, criei um grupo no Facebook para reunir mulheres com esse propósito. Hoje somos mais de 125 mil mulheres nessa maravilhosa rede de apoio chamada Grisalhas Assumidas e em Transição.

AINDA MUITO NOVA, COMECEI UMA BUSCA PELO “CABELO PERFEITO” E SOFRI CONSEQUÊNCIAS, INCLUSIVE UM CORTE QUÍMICO

Sempre gostei de mudar meu cabelo. Desde muito nova, eu já coloria.

Fiz permanente, alisamento, sofri um corte químico quando decidi mudar do preto para o loiro numa tacada só (com alisamento, os fios ficaram elásticos e quebraram perto da raiz).

Tive que cortar curtinho. Foi frustrante!

Eu fazia tudo isso em busca de me encaixar num perfil de comercial que dizia que as loiras lisas eram mais bonitas e mais legais. Tinha 16 anos nessa época.

Cabelos castanhos, ondulados e muito volumosos como os meus não chamavam atenção. Muito pelo contrário: fui muitas vezes alvo de piadas na escola

Então, comecei uma jornada dolorosa em busca do cabelo perfeito, que me faria ser aceita e querida por todos. Pelo menos era isso que eu acreditava…

AOS 18, JÁ DESPONTAVAM EM MINHA CABEÇA OS PRIMEIROS FIOS BRANCOS. ENTÃO, PASSEI A PINTAR O CABELO A CADA DEZ DIAS

Minha mãe sempre dizia que era para eu parar de fazer essas mudanças no cabelo, porque quando eles começassem a ficar brancos, aí sim eu teria essa “obrigação”.

Logo ela que com 45 anos ostentava um cabelo grisalho no auge dos anos 1990. E eu morria de vergonha dos seus cabelos, porque as mães das minhas amigas tinham uma cabeleira impecavelmente colorida.

O drama aumentou lá pelos meus 18 anos, quando começaram os primeiros grisalhos

Quem diz que cabelo branco é sinal de velhice não conhece o poder da genética. Meus pais desde muito cedo já tinham cabelos grisalhos e eu segui pelo mesmo caminho.

Cheguei ao momento de ter que pintar os cabelos a cada dez dias — ou menos. Eu tenho muitos fios grisalhos na frente, então com poucos dias de retoque eles já apareciam novamente.

VIREI NOITES TINGINDO O CABELO PARA “ESTAR APRESENTÁVEL” NA EMPRESA ONDE TRABALHAVA

Aos 32 anos, vivi o auge do desespero das colorações.

Trabalhava em uma multinacional onde a aparência era muito importante e eu precisava estar “apresentável” para meus colegas clientes.

Me lembro de muitas vezes receber um e-mail no final do dia indicando uma reunião surpresa na matriz logo cedo no dia seguinte.

Eu saía do escritório, passava na farmácia e esperava meu marido chegar em casa para me ajudar a pintar meus cabelos.

Perdi as contas de quantas noites eu virei em claro pintando os cabelos e fazendo escova para no dia seguinte estar encaixada no protocolo de aparências que a sociedade nos impõe

Essa rotina era detestável! Eu já não sabia mais como era a textura do meu cabelo e nem o quanto de cabelos brancos eu tinha.

Num determinado momento, já não me reconhecia mais no espelho, com aquela progressiva e aquela cor da qual eu já estava super enjoada.

DEPOIS DE USAR A GRAVIDEZ COMO DESCULPA PARA NÃO TINGIR MAIS, COM TRÊS MESES DE RAIZ GRISALHA, ME BATEU O DESESPERO

Foi aí que comecei a pensar na possibilidade de parar com tudo aquilo. Afinal, há muito tempo aquela rotina não era por mim, era só em função dos que os outros iam pensar a meu respeito.

Nessa época, meu marido e eu estávamos pensando em aumentar a família e eu achei a desculpa perfeita para parar de colocar tanta química nos meus cabelos.

Quando alguém perguntasse, eu teria a “muleta” de estar grávida para justificar minha escolha

Fiz luzes para tentar disfarçar a transição (em vão) e engravidei. E aí, com três meses de raiz grisalha, me bateu o desespero.

AO CRIAR UM GRUPO NO FACEBOOK SOBRE TRANSIÇÃO PARA CABELOS GRISALHOS, VI QUE NÃO ESTAVA SOZINHA

Em 2016, quase ninguém usava os cabelos grisalhos. Não havia referências.

Então, em dezembro daquele ano, eu criei um grupo no Facebook chamado Grisalhas Assumidas e em Transição para me conectar com mulheres que também estavam vivendo esse momento.

Grupos de apoio são extremamente importantes, pois é lá que encontramos forças para prosseguir.

Antes, eu achava que era a única mulher com 36 anos disposta a assumir os grisalhos. Eu estava enganada.

Mulheres de todo o mundo começaram a fazer parte desse grupo. Com uma dando força para a outra, fomos vencendo o medo de parecer velhas, de ter vergonha dos cabelos brancos, da chegada da maturidade — e das marcas que ela traz nos nossos corpos

Enquanto isso, minha Maria Luíza nasceu. Foram longos cinco meses de UTI Neonatal e em seguida uma internação domiciliar.

O grupo foi tão importante nessa época da minha vida! Era lá que eu me desligava das dores dessa maternidade atípica.

Eu estava tão focada nos cuidados com a minha filha que nem vi minha transição acontecer. Quando me dei conta, já tinham se passado sete meses — e eu precisava voltar para o meu emprego na multinacional.

NA VOLTA DA LICENÇA-MATERNIDADE, CHAMARAM MINHA ATENÇÃO NO TRABALHO POR ESTAR COM AS RAÍZES DO CABELO “EXPOSTAS”…

No meu retorno, meu gestor me chamou para conversar e me disse que ele confiava no meu trabalho, mas que “cabelo branco não ficava bem para a minha imagem”.

Eu disse que não iria voltar a pintar. Meu cabelo estava com uns 20 centímetros grisalhos e uns 15  ainda coloridos. Estava feio mesmo, eu sabia.

Naquele dia, parei num salão perto de casa e pedi para cortar a parte do cabelo que ainda tinha coloração — e, para minha surpresa, um grisalho maravilhoso surgiu ali

No dia seguinte, o mesmo gestor veio me elogiar, dizendo que meu cabelo estava lindo.

O que choca as pessoas é a transição e não os fios grisalhos! A fase de “transformação” é difícil mesmo. A gente é julgada, criticada.

A TRANSIÇÃO FOI A FASE MAIS DIFÍCIL, MAS DEPOIS QUE PASSOU, ME SENTI ÓTIMA COM OS FIOS COMPLETAMENTE BRANCOS

Minha transição demorou um ano e dois meses para ser concluída.

É muito complicado manter a autoestima em dia quando todo mundo diz que estamos parecendo velhas, desleixadas…

Muitas mulheres desistem nesse momento — e é aí que o grupo entra em ação, para dar apoio e acolhimento a elas.

Hoje, olho as minhas fotos de antes da transição e não reconheço aquela Daniela, parece que não sou eu. Aceitar minha imagem, minhas marcas, meus cabelos grisalhos me trouxe uma sensação de liberdade indescritível

Eu me sinto ótima com 43 anos, mesmo grisalha, acima do peso, com estrias, celulites e tudo mais que todas nós mulheres temos e somos obrigadas a esconder porque o comercial da TV diz que é inadequado.

ESTAMOS ABRINDO OS OLHOS DA INDÚSTRIA DA BELEZA PARA AS NECESSIDADES ESPECÍFICAS DAS MULHERES GRISALHAS 

No meio de todo esse processo, também descobri que a indústria ainda não enxerga esse nicho.

Pesquisando no grupo o que as mulheres esperavam de produtos para cuidar dos seus cabelos, descobri que elas sentiam falta de um matizador apropriado para os fios brancos.

A partir da devolutiva delas e muita pesquisa, fiz uma parceria com a DKA Cosméticos, que criou uma linha específica para atender essa demanda dos cabelos grisalhos. Desenvolvemos a identidade visual e autorizei o uso da marca Grisalhas Assumidas e em Transição, que está em processo de registro em meu nome.

O kit é vendido através do site da DKA e todo o processo de emissão de nota fiscal e logística fica por conta deles (eu recebo uma participação nas vendas). No site do Grisalhas, também há um link que direciona para a compra dos produtos.

INICIEI ESTE MOVIMENTO PELA MINHA FILHA E VOU CONTINUAR LEVANDO A IDEIA ADIANTE PARA AJUDAR OUTRAS MULHERES

Meu sonho sempre foi que minha Maria Luíza não precisasse se escravizar em procedimentos estéticos para ser aceita. Que ela possa tomar as decisões sobre seu corpo unicamente por vontade própria.

Infelizmente, com a minha Malu, eu não vou conseguir ver isso acontecer: ela partiu às vésperas de completar 5 anos…

Foi pela Malu que eu iniciei essa jornada. E pela memória dela, vou seguir apoiando e acolhendo essas mulheres.

Nestes cinco anos, acompanhei a transição de muitas mulheres. Vi verdadeiras transformações em suas vidas. Elas se libertaram de padrões, se tornaram muito mais empoderadas e autoconfiantes

A beleza não está na cor dos cabelos ou na circunferência da cintura. A beleza vem de dentro.

Surge quando a gente se olha no espelho com amor e gratidão. Quando a gente aceita que o mais importante não é caber dentro de medidas pré-estabelecidas, e sim o brilho nos olhos que aparece quando a gente é feliz!

 

Daniela De Bonis Coutinho, 43, é casada, mãe da Maria Luíza e do Rodrigo. É criadora de Conteúdo Digital e Community Manager do Grisalhas Assumidas e em Transição, grupo que reúne mulheres de todo o mundo para apoiá-las na transição para os fios grisalhos, combatendo preconceitos e acolhendo as dores e delícias da maturidade. Precisa de ajuda com a sua transição? Fale comigo

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