Como o Personare, de Carolina Senna, inovou o mercado do autoconhecimento na internet

Phydia de Athayde - 11 set 2014
O alto astral de Daniel Durão, Carolina Senna, Bruno Rodrigues, sócios do Personare, e Fernanda Rodrigues, do Holis
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Carolina Senna, sócia-fundadora do Personare, está acostumada a dar palestras em universidades. Estudantes querem saber os segredos de uma empresa que nasceu sem nenhum capital e que, em 10 anos, se tornou uma referência na internet brasileira. O Personare é o hoje maior portal de conteúdo e serviços de “autoconhecimento e bem-viver”, se sustenta com uma oferta de conteúdos pagos e gratuitos e recebe 1,5 milhão de acessos por mês. No início deste ano, inaugurou uma plataforma de e-commerce com mais de 1.600 itens, e 23 lojistas. “A gente nunca se definiu apenas como um site de astrologia. Nosso objetivo era o autoconhecimento. Queríamos usar a tecnologia para oferecer um serviço útil e inovador”, diz Carol.

Ela e os sócios, Bruno Rodrigues e Daniel Durão, se conheceram ao trabalhar juntos no site Via Global, da incubadora de projetos digitais Invent. Carol e Daniel, formados em Comunicação pela PUC-RJ, e Bruno, formado em TI na UERJ, exerciam cargos de gerência em áreas complementares: design, marketing e tecnologia. Nesta época, Carol e Bruno começaram a namorar. Quando a Blah estava para ser vendida, os três amigos perceberam o cenário incerto e começaram a pensar juntos em alternativas para suas carreiras.

Bruno teve a ideia de desenvolver um site de encontros diferente, em que os “matchs” entre os usuários fossem definidos não pelo que eles dizem de si, mas por uma ferramenta que analisaria automaticamente as afinidades entre os candidatos. A empreitada não iria  adiante, mas serviu para o grupo investigar uma possibilidade de empreendimento.  “Fomos estudar o mercado, no Brasil e fora, e percebemos o potencial do autoconhecimento. Eu já curtia astrologia, mas ela ainda era tratada como algo místico, de previsão de futuro”, conta Carol.

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Viver a essência do que se diz. No Personare, inspiração e motivação não estão apenas nas paredes.

A descrença com a astrologia era algo presente também na percepção dos futuros sócios de Carol. A mudança começou dentro de casa. “Quando o Bruno teve a ideia do site, e eu falei para ele da afinidade entre as pessoas verificável pela astrologia, era muito cético. Ele tinha ido a uma astróloga com aquela postura de ‘vou desmascarar isso’, e ficou super impressionado com o que ouviu, e decidiu entender melhor do assunto. Quanto chegamos com a ideia para o Daniel, já tínhamos um plano mais estruturado, focado no autoconhecimento, e ele achou interessante”, lembra ela.

O Personare nasceu com a proposta de ter um viés de autoconhecimento. A ideia era mais ciência e menos misticismo. O nome vem de persona, as máscaras do teatro grego. “Autoconhecimento é você tirar essas máscaras e olhar para si mesmo sem elas”, diz Carol. E o nome também vem do latim, per sonare, para soar alto, reverberar.

INOVAÇÃO COMO PROPÓSITO

Jovens, com experiência em empreendimentos digitais, eles queriam criar algo diferente, especial. “Inovação real é quando você olha para o público, e usa a tecnologia para pra criar uma experiência, ver o que está faltando na vida dele e como você poderia proporcionar isso”, conta Carol. Um serviço que se propunha a usar a astrologia como ferramente para o autoconhecimento tinha que ser diferente.

Na época, as empresas que estavam no mercado ofereciam algo muito similar ao que existia num veículo impresso. No entender de Carol, o horóscopo de jornal era a análise astrológica mais superficial que pode ser feita. Não é errada, mas acaba ficando muito vaga. O Personare tinha que ser diferente, tinha que ser melhor. “A gente queria, através da tecnologia, oferecer o serviço mais próximo do que seria um encontro real com um astrólogo. Até hoje este é o mote de tudo que desenvolvemos: Como seria aquela experiência? Qual é o melhor que eu posso trazer daquela experiência?”, diz ela.

Essa vontade de levar ao público o contato mais próximo do que seria o contato com o astrólogo resultou em um detalhe sutil e poderoso na forma de apresentar as análises. Elas são chamadas de Trânsitos Astrológicos, e para acessá-las o usuário do Personare precisa criar um perfil, senha, e indicar data e horário de nascimento. O site calcula não apenas o signo solar (aquele mais conhecido) mas também o ascendente. Ao cruzar esses dados com os movimentos astrais, ele gera uma espécie de bilhete, em tom de carta, na qual se dirige pessoalmente ao usuário, chamando-o pelo nome algumas vezes.

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No site há textos de especialistas sobre meditação, runas, sonhos, tarot…

“Fomos os pioneiros nisso, seguindo o conceito de pensar na experiência ao vivo e em como ela pode ser recriada no online. No presencial, um astrólogo fala com você, te chama pelo nome. No online, queríamos criar essa conversa íntima do Personare com a pessoa. Afinal, falamos de questões muito pessoais. Então, nada melhor do que te chamar pelo nome”, conta Carol. “Muitas vezes, o primeiro nome não é como a pessoa gosta de ouvir o próprio nome e alguns usuários nos escreviam pedindo que os chamássemos de outra forma. Aí criamos esta função no site, que permite que a própria pessoa edite isso.”

TER A IDEIA E FALTAR A GRANA: O QUE FAZER?

Até chegar nessa fase, eles enfrentaram os desafios comuns a todo empreendedor. A ideia existia, sobrava vontade, mas faltava dinheiro. Os três estavam sem emprego e os contatos com os clientes que atendiam na Blah seriam cruciais. Como não tinham capital, decidiram criar uma produtora web — a agência de publicidade com o sugestivo nome de A Resistência — para gerar a receita necessária para montar o Personare. “O investimento inicial foi o nosso tempo e a receita dessa agência. Nos dividíamos entre os dois negócios, e investíamos tudo no Personare”, conta Carol.

“No afã de termos um dinheiro, acabamos atrasando o crescimento do site. Só quando paramos de trabalhar na agência e focamos 100% no Personare que ele deu um salto, triplicou de audiência, aumentou o faturamento”

A Resistência duraria quase 5 anos. Eles chegaram a ter a conta da comunicação interna da TIM, e essa receita permitiu a montagem do primeiro escritório do Personare. A ideia de uma empresa gerar renda para outra deu certo mas, hoje, Carol faria diferente. “Por mais que a agência tenha sido necessária, eu teria focado nossos esforços no Personare desde o início. No afã de termos um dinheiro, acabamos atrasando o crescimento do site. Só quando paramos de trabalhar na agência e focamos 100% no Personare que ele deu um salto, triplicou de audiência, aumentou o faturamento”, diz.

A implantação do site foi lenta, também, porque eles tinham que encontrar um profissional, um astrólogo que embarcasse na ideia, e precisaram desenvolver todo o sistema. “É super complexo. O Bruno levou praticamente um ano trabalhando praticamente só nisso”, conta Carol. Daí até o site gerar resultado financeiro, tendo sócios com a atenção dividida entre Personare e Resitência, eles levariam mais dois anos.

O Personare entrou no ar, em 2004, com serviços gratuitos (à época, o Trânsito Astrológico) e pagos (à época, um mapa astral). Esse mix de ofertas se mantém até hoje: quase tudo tem a versão completa, paga, e uma degustação gratuita. Até 2009, o site não tinha anunciantes. “Queríamos provar pra nós mesmos que o conteúdo pago poderia ser a fonte de receita principal de um negócio. Sempre tivemos conteúdos pagos, e com isso conseguimos investir em mais serviços”, conta Carol.

CRESCER E DESCOBRIR NOVOS MERCADOS

Nesses 10 anos, o core business do Personare foi se ampliando. Do autoconhecimento (astrologia, numerologia, tarot, runas) os sócios perceberam um leque mais amplo, o do bem-estar e da qualidade de vida. Carol ri do rótulo. “Esse nome é péssimo, mas estamos falando de coisas reais, de problemas reais da vidas das pessoas. Qualidade de vida não é luxo, é uma necessidade da nossa população”, diz ela. Nessa fase, entraram conteúdos sobre saúde, nutrição, vida profissional, relações familiares.

O Personare tem hoje 24 funcionários, alocados em atendimento ao cliente, marketing, financeiro, TI. Em conteúdo propriamente dito, há duas editoras e duas estagiárias. “Todo o nosso conteúdo é produzido direto pelos especialistas, professores de yoga, de meditação. Nosso trabalho é editar o trabalho e passar isso para o público no melhor formato. Somos  essa ponte entre o especialista e o público”, fala Carol. Atualmente, o Personare tem 15 blogs de especialistas e consultores.

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Equipe Personare: meditação e suco verde, para quem quiser, todas as manhãs

O passo mais recente na ampliação do core business aconteceu agora, aos 10 anos de vida. Em janeiro, o Personare lançou outra empresa: a plataforma Holis. Trata-se de um shopping online, com mais de 1.600 itens de bem estar (tapete para yoga, essências perfumadas, cosméticos ecológicos etc), fornecidos por 23 lojistas. O Holis nasceu de um pedido do público, pois a cada reportagem sobre alguma terapia, as pessoas pediam informações sobre onde encontrar os produtos. “Vimos que essa oferta era muito pulverizada, e não havia um critério. A gente agregou esses lojistas em um guarda-chuva, todos foram avaliados tecnicamente pelos nossos especialistas-curadores, e nós oferecemos uma plataforma com credibilidade e confiança para a pessoa fazer a compra online”, diz Carol. Eles não abrem os números, mas a resposta do público tem sido muito positiva.

“A gente efetivamente acredita no que está no site. Em um mercado de qualidade de vida, que fala tanto com a essência das pessoas, viver aquilo efetivamente faz toda a diferença”

Carol está à frente de uma empresa de sucesso, ela inventou o emprego que tem, e escolheu ganhar a vida fazendo algo inovador para o mercado, e verdadeiro para ela e as pessoas envolvidas. “A gente efetivamente acredita no que está no site. Em um mercado de qualidade de vida, que fala tanto com a essência das pessoas, viver aquilo efetivamente faz toda a diferença. Quando propusemos no Facebook o desafio de ficar uma semana sem glúten, a gente estava fazendo isso aqui”, conta.

Todas as manhãs, Carol conduz pessoalmente uma meditação guiada para os funcionários. Muitos participam. Depois, tomam um suco verde. “Temos casos de pessoas da equipe que mudaram a vida drasticamente depois da meditação, passaram a dormir melhor, a praticar esporte, mudaram a vida.” Os eventos de aniversário e de fim de ano da empresa também seguem a mesma linha. São espécies de retiros: eles fazem yoga, meditação, vão para o mato ficar em contato com a natureza.

Em termos de mercado, o Personare não tem concorrentes diretos porque, segundo Carol, eles estão na intersecção das áreas do auto conhecimento, da saúde e alimentação, e do comportamento e estilo de vida. “A gente fala de alimentação não só para emagrecer, mas para TPM, stress, sono. Enxergamos o ser humano de forma holística, 360 graus.”

Um serviço inovador desde a origem, um cotidiano voltado para a verdade do que se faz, e um negócio que não para de crescer. É possível ganhar dinheiro fazendo o que se acredita? “O futuro da economia vai ser cada vez mais isso. Até então, tínhamos uma economia baseada nas pessoas trabalharem naquilo que dá dinheiro, mas não necessariamente no que é a motivação delas. Quando você faz o que você acredita, tudo é muito natural. Conheço várias empresas que fazem bem pra sociedade, e são lucrativas. Somos assim. Na nossa realidade, posso falar desse senso de missão e propósito. Quando alguém nos conta que atravessou um doença com a ajuda dos nossos serviços, é pra isso que a gente trabalha. Ganhar dinheiro com isso, para mim é um privilégio.”

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